Plataforma financia projetos de professores em escolas públicas - São Paulo São

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De um lado, professores com muitas ideias, mas sem recursos para colocá-las em prática. Do outro, pessoas interessadas em contribuir com iniciativas educacionais que podem impactar na vida dos alunos. Observando esse cenário, os pernambucanos Luiz Paulo Ferraz e Pedro Dantas criaram a plataforma de financiamento coletivo SomosProfessores.org, voltada exclusivamente para viabilizar projetos da rede pública de ensino.

A ideia surgiu em 2010, quando eles ainda cursavam licenciatura em história. “Começamos a perceber que tinham muitos projetos interessantes na escola pública, mas faltava apoio para eles”, lembra o professor Luiz Paulo Ferraz, vice-presidente da SomosProfessores.org.

Mobilizando outros colegas de diferentes áreas de atuação, entre professores, jornalistas, psicólogos, pedagogos, contabilistas e advogados, em 2014 eles fundaram uma associação sem fins lucrativos homônima à plataforma que entrou no ar no começo deste ano.

“O professor não é só aquele que está na sala de aula. Quem ajuda e contribui para o projeto também deve se sentir parte do processo educativo”, afirma Luiz Paulo, ao mencionar que o nome da plataforma pretende criar um sentimento de pertencimento entre os apoiadores. “É preciso que nós todos nos reconheçamos enquanto professores.”

 

SomosProfessores.org aposta na vaquinha virtual 

A aposta no modelo de financiamento coletivo para viabilizar projetos recorre à essência de uma prática muito recorrente nas escolas: a famosa vaquinha. “Todo professor sabe que gasta dinheiro do próprio bolso para dar aula. A ideia da vaquinha, que é feita na escola para fazer uma festa de final de ano, por exemplo, já era algo super comum. A novidade agora é que ela se tornou virtual”, explica.

Para conseguir o financiamento, o professor precisa se cadastrar no site e propor um projeto, explicando a iniciativa, seu impacto e quais recursos serão necessários. Uma equipe da SomosProfessores.org avalia o projeto e faz um orçamento para encontrar os melhores preços e, após fechar um valor total, o projeto é publicado no site. “Nós trabalhamos com um crowdfunding diferente. Normalmente o financiamento dá o dinheiro arrecadado, mas nós entregamos o produto que o professor precisa”, diz.

Após um projeto conseguir financiamento, a plataforma apresenta para os doadores um relatório detalhado sobre como o dinheiro foi gasto. Além disso, os professores se comprometem em enviar registros sobre o impacto do projeto no dia a dia dos estudantes.

A professora de português Cintya Jíminni precisava de alguns cabos, microfones e caixas amplificadoras para melhorar o funcionamento da Rádio EREM Mania, produzida pelos alunos do ensino médio da Escola Estadual de Ensino Médio Álvaro Lins, em Recife.

Com um custo total de mais de R$ 1.600, a alternativa encontrada pela professora foi submeter o seu projeto na plataforma SomosProfessores.org. “O financiamento possibilitou a extensão da rádio. Até então, o som só saia em uma parte da escola e a qualidade era ruim. Hoje os alunos podem ser ouvidos melhor e ficam mais acreditados no projeto”, conta.

Para arrecadar os recursos necessário, a professora envolveu os alunos na divulgação da campanha pelas redes sociais. “Eu expliquei para eles o que era e como funcionava o financiamento coletivo. Eles ficaram bem empolgados”, recorda. A animação foi tanta, que a turma até compôs músicas para conquistar mais apoiadores.

“Por mais que a gente passe por problemas com a falta de investimento na educação, as pessoas ainda acreditam. Isso faz com que a gente, professor, fique motivado”, diz Cintya, que conheceu a plataforma por indicação do seu marido Vlademir Ferreira, professor de geografia da Escola Matias de Albuquerque, em Recife.

Para desconstruir estereótipos dos estudantes em relação ao lugar em que moravam, o professor Vlademir propôs o projeto “Se essa rua falasse”, onde os adolescentes iriam investigar a história da região do Morro da Conceição, Alto José do Pinho e Casa Amarela, na periferia de Recife. Tudo isso seria feito a partir de entrevistas com os moradores, o que demandaria a compra de gravadores de áudio. Com o projeto inscrito na plataforma, ele conseguiu arrecadar R$ 797,96 para viabilizar o projeto da sua turma.

Desde que a plataforma entrou no ar, já foram viabilizados nove projetos e outros dois estão em fase de captação. Atualmente são aceitas apenas propostas de escolas públicas em Pernambuco. No entanto, a intenção é que essa rede seja ampliada para todo o país.

Marina Lopes na Porvir - Inovação em Educação.