Um outro Milton Nascimento - São Paulo São

Dos oitenta e oito episódios de “Todo Mundo Odeia o Chris”, há um em que Rochelle, a matriarca da família Rock, está decidida a fazer com que o clã formado por Julius, Tonya, Drew, Chris e ela própria, ingressem numa espécie de clube que se distingue por constituir-se, exclusivamente, de afro-americanos bem sucedidos.

Embora estivessem muito abaixo dos critérios exigidos para serem aceitos no “João e Maria”, nome da associação a que ela aspirava frequentar, a orgulhosa Rochelle acreditava que sua família era bem sucedida. Afinal, Julius, o pai, tinha dois empregos, Tonya não vendia drogas, Drew não pertencia à nenhuma gangue e Chris não estava no reformatório para delinquentes juvenis. Rochelle não se enganou, eles eram bem sucedidos. Em que pese a existência de canais como o E!Entertainment e de personagens como Nelson Rubens e Amaury Junior, a medida de um sucesso não pode ser prisioneira da celebrização pública daquele que alcançou algum êxito na carreira. 

Milton, o objeto da coluna de hoje corresponde exatamente a esse tipo de sucesso discreto, porém consistente, duradouro e reconhecido.

Milton Felix dos Santos Nascimento.

Como o grande compositor “mineiro”, Milton também é músico.

Para evitar confusões diante da onipresença do homônimo famoso, ao invés do “Nascimento”, Milton adotou o “Felix” como sobrenome oficial e assim é conhecido na noite paulistana há, pelo menos, quarenta anos.

Natural de Livramento, há controvérsias quanto à sua origem, pois apesar de afirmar ser gaúcho, Milton passou tempo demais no Uruguai para não suscitar dúvidas sobre a integridade de sua certidão de nascimento.

Vindo de Montevidéu, Milton chegou a São Paulo em junho de 1971.

De acordo com os meteorologistas da época, ano em que fez o inverno mais rigoroso que qualquer outro, se comparado às décadas anteriores.

Acompanhado da banda que integrava, Milton chegou à grande capital com a promessa, de seu empresário, de uma entrevista com Roberto Carlos, que ainda vivia por aqui.

A prometida entrevista jamais aconteceu, o grupo musical se desfez e, de uma hora para outra, Milton ficou como John Voight, depois de se desiludir com Nova York, perdido na noite. No caso de Milton, perdido durante o dia, também. Frente à tragédia não anunciada, o clássico de Dorival Caymmi, “Eu Não Tenho Onde Morar”, não deve ter-lhe servido de consolo. 

Ameaçado pela confluência dos elementos necessários para a criação da “Tempestade Perfeita”, inverno antártico e ausência de um teto sobre a cabeça, Milton tomou a decisão que, para muitos deve ter soado como insensata, senão suicida: resolveu permanecer em São Paulo.

Milton veio para vencer, estava disposto a dobrar a cidade que tentava quebrar-lhe a espinha, que mostrara suas garras horas depois de ele haver desembarcado na Rodoviária da Luz. 

O sacrifício desses primeiros tempos forjaria o homem que é hoje, meio gaúcho, meio uruguaio, com alma de bandeirante.

“Fazer o que?”

Frase que já se transformou na palavra de ordem dos derrotados, dos resignados, dos conformistas, na boca daquele jovem Milton, era apenas a expressão de um desespero que, ao invés de paralisá-lo, o impulsionava para a frente.

“Fazer o que?”, ou seja, e agora, vou trabalhar onde, dormir em que lugar, viver do que?

Recém-chegado à metrópole, anônimo com qualquer um que não tenha parentes ou conhecidos em São Paulo, sem emprego e negro, num tempo em que não portar a carteira de trabalho era motivo mais do que suficiente para se levar uns sopapos da PM, Milton aceitou a única oferta que se apresentara: lavar carros num antigo estacionamento que havia, na esquina da São João com Duque de Caxias e que agora é um parquinho municipal.

Importante ressaltar que Milton iria lavar carros sob um frio implacável, a troco de alguns tostões, que permitiam a ele comer um “churrasco grego”, com direito a um copinho de Q-suco. O “contrato” estabelecido pelo responsável do estacionamento, rezava que ele e o parceiro de infortúnios, com quem dividia o mesmo trabalho, podiam dormir nos carros, caso não houvesse abrigo melhor, já que os míseros rendimentos pagos pelo patrão não permitiam a eles serem acolhidos pelos hoteizinhos baratos da Boca do Lixo, ali pertinho.

As temperaturas baixíssimas obrigaram os dois rapazes a dormirem no mesmo carro, juntos e abraçados.

O risco de serem mal interpretados assustava menos do que a certeza de morrerem de hipotermia naquelas noites congelantes.

Milton resistiu àquela e à diversas outras intempéries que surgiriam pelo caminho até recuperar sua carreira, pouco mais adiante.

Baixista de jazz, a noite paulistana o descobriu.

Tocou durante anos na saudosa Baiuca, em plena Praça Roosevelt.

Em 1979, ele, Pedrinho Batera, e o brilhante saxofonista, Pestana, inauguraram o histórico Café Society, no Bixiga.

Mas a música não era a única paixão de Milton.

Quatro anos antes ele prestara vestibular para a Faculdade de Filosofia, na USP, onde esteve até 1977, quando participou da iniciativa mais subversiva de que se tinha notícia, desde a fundação da ALN, de Marighella: o Movimento Negro Unificado.

Uma pequena e voluntariosa agrupação de afro-descendentes com vocação kamikaze, que produziam e distribuíam, pela cidade, panfletos denunciando o racismo e a opressão policial. 

Os anos 80 guardavam uma surpresa para Milton, na forma de uma viagem para o Japão, onde por seis meses, em 1984, ele e a banda com que foi, tocaram jazz e MPB para um público rigoroso, apreciador de Hermeto Pascoal.

Em Tóquio, Milton teve a oportunidade de conhecer um dos instrumentistas que mais respeitava, Jaco Pastorius, e que se encontrava em uma situação bem pouco respeitável.

Num dos intervalos da apresentação de sua banda, Milton foi ao banheiro urinar. Enquanto fazia xixi, Milton pode notar o poderoso fungar de alguém, pretensamente sentado em algum dos muitos vasos. Inesperadamente, a porta de um mictório se abre e lá estava o genial contra-baixista, Pastorius que, gentilmente, convidou Milton para compartilhar daquela iguaria que fez a fama e a fortuna de Pablo Escobar.

Milton declinou ao convite, mas não à amizade de Jaco que, infelizmente, morreria pouquíssimo tempo depois, em triste circunstância. 

Milton regressou a São Paulo e para a noite paulistana que conhecia tão bem e que o queria de volta.

Veio a década seguinte e com ela, mais duas viagens de caráter profissional: em 1990, para a Espanha e em 1998, para a França.

Contudo, não vieram só viagens, vieram filhos e netos.

Aos 67 anos de idade e, mais do que nunca, na ativa, que venham também suas memórias.

As histórias de Milton já fazem parte da história da boemia paulistana.

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Zoca Moraes, é redator de propaganda, roteirista e contador de histórias. Colunista e Conselheiro do São Paulo São.