Mezzo portenha, mezzo paulistana - São Paulo São

Para muita gente, a última vez em que brasileiros e argentinos estiveram de acordo foi na Guerra do Paraguai.

Na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, na riqueza e na pobreza, seja pela proximidade geográfica, seja por uma disfarçada admiração recíproca, essas duas grandes nações sul-americanas sempre estiveram destinadas a caminhar juntas.

Como em “Um Estranho Casal”, deliciosa comédia com os brilhantes Walter Matthau e Jack Lemmon, brasileiros e argentinos mantêm uma longa e histórica relação de amor e “ódio”, tal qual Oscar Madison e Felix Ungar, os dois personagens principais do filme. Ou como Charlie e Alan Harper. 

Nós, brasileiros e argentinos, costumamos nos observamos com um misto de desconfiança e deslumbramento, inveja e respeito, desdém e surpresa.

Quantos de nós, a contragosto, fomos obrigados a rever a opinião inconteste sobre a cidade maravilhosa depois de conhecer Buenos Aires?

Deus é brasileiro, o Rio é a cidade mais bonita do mundo, Pelé foi o maior jogador de todos os tempos etc etc etc.

Mas então, surgiu Maradona e agora Messi.

Gostamos de churrasco tanto quanto eles e, por isso, mesmo, fomos obrigados a, literalmente, engolir a picanha do pampa argentino como mais saborosa do que a nossa, em compensação, eles adoram o nosso filé mignon.

O troca-troca comercial e cultural sempre foi muito intenso.

Contudo, a melhor parte desta incessante permuta de quem possui fronteiras comuns, é a troca de cidadãos.

Se enviamos para lá Nelo Pimentel, Adelina Chaves e Silvana Boccalato, eles nos mandaram Patricio Bisso, Hector Babenco e Paola Carosella.

Vieram para cá em tempos diferentes e, cada um a seu modo, prosperou e se destacou em sua atividade.

Assim como o baiano Nizan Guanaes, o carioca Telmo Martino, o mogicruzense Cid Torquato e o gaúcho Milton Felix, a argentina Paola Carosella, carismática jurada do Masterchef é mais um exemplo de pessoas que vêm de longe para “fazer a América” em São Paulo.

Paola se preparou para vencer aqui.

Antes de se transformar na superstar culinária da TV que todos conhecemos, esteve em Paris, onde trabalhou em alguns importantes restaurantes, ao lado de grandes “chefs” de cozinha, naquele que é o país referência da gastronomia mundial.

Mas se é na capital francesa que se encontram os sobrenomes mais respeitados da cozinha internacional, é em Nova York que eles se celebrizam e se projetam para o mundo.

Na grande cidade norte-americana, berço da civilização ocidental dos dias de hoje, Paola começou a se preparar para voos maiores, onde viria a ser a autora e não só apenas a coadjuvante.

Em um desses voos, veio parar nessa outra metrópole de grande tradição culinária, a maior cidade italiana fora da Itália, São Paulo. 

De seu período pioneiro no Figueira Rubayat, quando em 2001 foi convidada para dirigir a cozinha desse restaurante, junto com Belarmino Iglesias, a abertura do Arturito, até o reality show de sucesso, compartilhado com Erick Jacquin e Henrique Fogaca, foram 15 anos de aprendizado, experiências, erros, acertos e um sucesso que chegou às custas de muita coragem e de muito trabalho.

Paola Carosella é um sucesso de público e de crítica por que conhece profundamente seu ofício.

Das lágrimas que escorrem ao fatiar a cebola, ao sorriso diante das câmeras, Paola é uma profissional completa.

Argentina de nascimento, e para nossa sorte, paulistana por adoção.

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Zoca Moraes, é redator de propaganda, roteirista e contador de histórias. Assina a coluna “Chegados“ do São Paulo São toda semana.