O outro menestrel das Alagoas - São Paulo São

Se fosse possível definir Marcos Morcerf em uma palavra, seria “militante”.

Tal qual “surfista”, “roqueiro”, “consultor”, “militante” é uma palavra que, durante muito tempo sofreu com a incompreensão da sociedade, cercada de preconceito, interpretada erroneamente, de acordo com os valores da época.

E a época é 1978, quando começa essa história.

Alagoano, de Maceió, Marcão, como é carinhosamente chamado por todos, era estudante de arquitetura e, aos 21 anos esse precoce veterano das manifestações estudantis que haviam marcado o Brasil no ano anterior, desligava-se da tendência socialista pela qual militava, a Liberdade e Luta.

Não muito diferente de qualquer organização de esquerda que se reivindica marxista, os trotskistas não eram menos talentosos do que seus congêneres estalinistas, quando se tratava de gerar dissensões, rachas e expulsões entre os pares.  

Mas ao contrário de muitos jovens que abandonavam a luta para adotar o anarquismo como alternativa menos burocrática e autoritária do que o comunismo, iludidos com a ideia, inspirada no “desbunde”, de que Bakunin morreu em paz, fumando hashish na Suiça, coerente e determinado, Marcão manteve-se dentro do universo da Quarta Internacional, participando da fundação de um pequeno grupo subversivo que, muito mais tarde atenderia pelo nome de Partido da Causa Operária. 

Marcão era o revés da imagem que projetamos de um militante de esquerda. 

Apesar de promover o desaparecimento da ordem burguesa, Marcão portava-se como um aristocrata no trato, extremamente gentil e atencioso, com as pessoas, o que revelava a boa educação que recebera e que ia muito além de saber diferenciar talheres.

Marcão não diferenciava as pessoas por sua origem, aparência ou posses.

Antes de ser um devotado comunista, era um sensível humanista.

Marcão é um militante, como foi dito aqui.

Mas depois de 1984, quando a campanha das Diretas Já! fora derrotada, pelo o que mais havia que se militar, que causas restaram? 

Apesar do desânimo provocado pela não aprovação da emenda Dante de Oliveira, o país se escancarava para a democracia mais rapidamente do que o passo de tartaruga previsto pelos inventores da abertura lenta, gradual e segura.

Marcão, então, precisou se reinventar enquanto militante.

De alguma forma, fez o que os assim chamados “Novos Filósofos” e ex-militantes, Andre Glucksmann e Bernard Henri Levy, fizeram na segunda metade da década de 70, ao trocar o maoismo pela intervenção no mundo do comportamento, especialmente o da moda.

Marcão juntou-se ao estilista baiano e, infelizmente falecido, Antonio Salomão, para criar a grife alternativa “Fora de Moda”.

Localizada em uma ruela, no bairro de Higienópolis, a loja que levava o mesmo nome, era mais do que o lugar que abrigava aquela grife tão efêmera, quanto adiante de seu tempo.

Era uma espécie de embaixada, o refúgio de todos aqueles que procuravam um caminho para a vida depois que essa exige uma profissão, uma carreira, uma perspectiva.

Marcão e Antonio recebiam as pessoas que, atraídas pela vitrine, pelas roupas expostas e pela música que tocava ouvidos dispostos a novidades, entravam para ali ficar como um instante terapêutico, um shiatsu sem dores, uma sessão de yoga sem cítaras.

Se a marca física “Fora de Moda” durou menos do que seus clientes e admiradores desejassem, sua memória nunca deixou de existir.

Frequentar a loja de Marcão e Antonio era mais do que provar um traje inusual, era experimentar um momento sensorial, baseado em tecidos, cores, hospitalidade e música.

E foi esse último atributo que levou Marcão para um novo tipo de militância, como o DJ que se consagraria na disputada noite dos “clubs” paulistanos, como agitador cultural e empresário, o homem por trás do projeto techno-eletrônico, “Domingas”. 

Com um olho nas causas GLS e outro no risco de uma volta ao passado que parecia superado, esse militante da socialização, ou se preferirem, do compartilhamento da felicidade em cotas iguais, o combativo revolucionário continua sendo o que sempre foi, um doce cidadão que não se cansa de apontar as mazelas de um país onde as chagas de diferentes matizes parecem jamais curar. 

O que estará fazendo Marcão nessa hora em que a cidade troca de administração?

Provavelmente, escolhendo uma nova causa em que militar para o bem de São Paulo e do Brasil.

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Zoca Moraes, é redator de propaganda, roteirista e contador de histórias. Assina a coluna “Chegados“ do São Paulo São toda semana.