“Um caminho para dois“ - São Paulo São

Dirigido pelo consagrado Stanley Donen, “Two For The Road” (1967) é, talvez, a mais bela, sensível e inteligente comédia romântica da história da sétima arte.

Apesar de conduzido por um cineasta americano, “Um caminho para dois”, título que recebeu no Brasil, é um filme com todas as características de uma obra britânica.

Possui os ingredientes indispensáveis para cativar os corações dos amantes, dos apaixonados, dos pretendentes e daqueles que buscam o amor sem jamais notar que ele sempre esteve ali, bem à nossa frente.

O argumento gira em torno do casal formado por Audrey Hepburn e Albert Finney, em uma viagem que sugere uma segunda lua de mel, pelo sul da França. Durante esse “tour” pela Riviera e pelas lindíssimas localidades “sur mer”, os dois “discutem a relação”, mas de um jeito instigante, provocativo, muito distante dos valores politicamente corretos que a psicanálise recomenda.

Lançado em 1967, ano rigorosamente lisérgico, a trama passa ao largo das transformações que o mundo enfrentava, para tratar de um tema eterno, imune às revoluções comportamentais que costumam ser passageiras.

Entre idas e vindas, Audrey e Albert se perguntavam: Por que já não dá mais certo? Mas com trilha de Henry Mancini, como dar errado? Se Mancini ajudou Audrey Hepburn em “Bonequinha de Luxo” e em “Charada”, por que seria diferente em “Um caminho para dois”? Para aliviar a expectativa de quem nunca assistiu, na cena final, perdidos em alguma estrada vicinal entre Nice e Marselha, Albert encosta o carro, olha para Audrey e pergunta: “O que eu faria sem você?” Audrey se desmancha em um sorriso e responde: “Nada!” Albert põe o carro em movimento, sobem os créditos e a trilha de Mancini, enquanto que na plateia, homens e mulheres, disfarçam as lágrimas. 

De alguma forma, foi o que Elizabeth e Nelson fizeram.

Um outro texto, um outro argumento, mas o encontro dos dois é também um roteiro sobre o amor, a paixão e a dependência recíproca que todos criticamos em público, mas que desejamos ardentemente em privado. 

Contudo, ao contrário de Audrey e de Albert, 

Elizabeth e Nelson não se encontraram na estrada, mas em alguma das tantas agências de publicidade em que ambos trabalharam, durante a trajetória trilhada por suas carreiras de sucesso. 

Até por que a Via Anchieta não se conecta com qualquer rodovia que parta de Itápolis.

Elizabeth é de Santos e Nelson, nascido nessa cidade próxima a Araraquara.

Vieram para São Paulo para vencer na vida profissional, o que conseguiram, porém, mais do que os prêmios nacionais e internacionais, ou o reconhecimento pelo talento profissional da dupla, a intenção dessa publicação é revelar como duas pessoas que se amam podem se auxiliar tanto, se apoiar tanto, tornando a existência comum tão mais agradável, ultrapassando os obstáculos que podem ser superados desde que as mãos permaneçam dadas.

Elizabeth e Nelson possuem uma cumplicidade que vemos só nos romances levados à tela.

A aliança que há entre eles não tem que ser encontrada, necessariamente, em seus dedos anelares da mão esquerda.

Ela está lá, provavelmente, mas sobretudo, está na troca de sorrisos, na forma orgulhosa como Nelson se refere a Elizabeth, “minha esposa”, ou na solidariedade incondicional ao “curtir” as publicações recíprocas nas redes sociais. 

Menos do que eles contra esse mundo, que diariamente, tenta acabar conosco, os dois a favor do invejável casal que constituem há tanto tempo. 

John e Yoko, Paul e Linda, Samantha e James, Major Nelson e Jeannie, Lucy e Desi, Pierre e Marie Curie, Zelda e Scott, Mao e Jiang Quing, Elizabeth e Nelson, os nomes são muitos, os idiomas são distintos, as épocas são diversas, mas o amor é o mesmo.

Elizabeth e Nelson.

Os sobrenomes são representativos do que se tornaram: Leal e Porto.

Até nisso foram felizes.

Do amor fiel, verdadeiro, incorruptível que os une, ao local onde desembarcaram sãos e salvos.

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Zoca Moraes, é redator de propaganda, roteirista e contador de histórias. Conselheiro do São Paulo São, assina a coluna “Chegados“ toda semana.