Seu Gabin - São Paulo São

José de Arimatéia Silva, paraibano, 60 anos, é um cidadão paulistano por direito adquirido.

Muito conhecido no bairro da Pompeia, naquela parte que seus moradores chamam de Sumaré e a Prefeitura faz questão de identificá-la como Subdistrito de Perdizes, José de Arimatéia é o popular Gabin.

Sabe-se lá por que, já que, como esclarecido acima, ele não se chama Gabriel, Gabin adotou esse nome para todos os efeitos e assim é reconhecido pela comunidade local, que aprendeu a respeitar esse nordestino que nunca recusou um desafio. Aliás, esse parece ser um traço bastante característico desses brasileiros que fizeram de São Paulo sua morada, tornando nossa cidade mais divertida, menos europeia, menos introvertida e não menos laboriosa. 

Se fosse possível definir Gabin em uma frase, seria: Meu Nome É Trabalho!

Alto, forte, carismático em sua simplicidade e calma, Gabin é, antes de tudo, um homem de família, como recomenda o nono mandamento. E por isso mesmo, nunca ninguém jamais o viu sentado esperando o tempo passar, o clima amainar ou a economia melhorar. Gabin é visto sempre de pé, consertando um chuveiro, fazendo uma instalação elétrica, derrubando paredes, erguendo casas e, ultimamente, atrás do balcão do restaurante que abriu doze anos atrás, o Casa Do Norte.

Por sua imensa capacidade como realizador, Gabin reafirma diariamente a vocação empreendedora de baianos, pernambucanos, alagoanos, sergipanos, potiguares, maranhenses, piauienses, cearenses e paraibanos que, como ele, encontram em São Paulo o lugar onde podem desenvolver suas iniciativas privadas, seus talentos individuais, seus esforços pessoais, tão naturais na formação desse povo que, literalmente, construiu nossa cidade.

Vieram, viram, aprenderam e venceram. De pedreiros a empreiteiros, de garçons a donos de bares e restaurantes. Grandes áreas em largas regiões de São Paulo têm negócios que prosperam por que se encontram nas mãos habilidosas de paulistanos honrados como Gabin. Se hoje ouvimos o castelhano trazido pelos bolivianos que, com sua presença estão acrescentando beleza, cor e sabor à cultura dessa cidade que se acreditava “mezzo” italiana, “mezzo” japonesa, “mezzo” libanesa, escutamos também, cada vez mais o francês falado pelos haitianos, os tão incompreensíveis quanto musicais dialetos africanos, e graças ao “Padim Ciço”, o belo sotaque de modalidades diversas que as brisas nordestinas estão sempre soprando em nossa direção, para o bem da identidade paulistana.

Quatro milhões de paulistanos descendem dos primeiros nordestinos que aqui chegaram na longínqua década de 30. O que torna São Paulo a maior cidade nordestina do país.

E são paulistanos como Gabin que nos fazem mais do que uma cidade grande, mas uma grande cidade.

***
Zoca Moraes, é redator de propaganda, roteirista e contador de histórias. Conselheiro do São Paulo São, assina a coluna “Chegados“ toda semana.