Valda - São Paulo São

O sanduíche mais representativo de São Paulo leva o nome de outra cidade: Baurú.

É de lá que vieram a família Garroux, a atriz Camila Caparroz, o futebolista Edson Arantes do Nascimento e Valdir Bianchi, o objeto dessa história.

E aí começam as dificuldades para a redação desse pretenso texto biográfico, pois existem várias maneiras de se iniciar quaisquer das muitas histórias protagonizadas pelo talentoso interiorano.

Lá pelo meio da década de 80, ainda solteiro, Valdir decidiu dividir o apartamento em que vivia, com um amigo ilustrador, que trabalhara com ele, anos antes, quando Valdir era o chefe do estúdio de arte da CBBA, importante agência de publicidade da época. 

Recém saído da casa da mãe, apesar de muito bem intencionado, o amigo ilustrador era um “pouca prática” no que diz repeito ao trato das coisas do lar, sobretudo as utilidades domésticas.

Certo dia, voltando do trabalho, Valdir chega em casa e nota que tudo estava no lugar mais do que de costume, isto é, o apartamento limpo e arrumado, como se uma equipe de faxineiros com TOC, tivesse por ali passado.

Como se diz por aí, o apartamento ficou “um brinco”.

Faminto, depois de dez horas de dura labuta, Valdir foi direto para a cozinha, pensando em fritar alguns ovos, antes mesmo de cumprimentar o amigo ilustrador pela iniciativa tão zelosa.

Procurou pela frigideira “Tefal” e não a encontrou.

Pelo contrário, a única disponível, formalmente, parecida com a que buscava, faltava-lhe a película negra que cobre a superfície e caracteriza as famosas panelas.

Valdir pensou: “Vai ver que ele trouxe essa da casa da mãe dele.... mas onde colocou a minha?!”

Hora de perguntar ao amigo, que riscava alguns desenhos em sua prancheta, espremida no quarto apertado.

Com a frigideira na mão, com a outra ele bate na porta, entra no dormitório do amigo e o cumprimenta:

“Legal, a limpeza que você fez..... não precisava!”

Antes que o amigo se manifestasse, brandindo a estranha panela, Valdir engata em uma pergunta: “Não achei a minha frigideira, você viu?”

Exibindo um sorriso orgulhoso de missão cumprida, o amigo responde: “Olha ela aí na sua mão!”

Intrigado, Valdir indaga: “Como assim, essa não é a minha frigideira?!!”

Firme, o amigo esclarece: “Está mesmo irreconhecível..... demorou, mas eu consegui tirar toda aquela gordura preta que tinha encardido..... acabei com o ODD e com a palha de aço!”

Generoso, companheiro e solidário, apesar de pasmo, a “barbaridade” cometida pelo amigo não fez com que Valdir o despejasse.

Mas para conhecer um pouco melhor esse que é, sem dúvida, um dos grandes criativos da propaganda brasileira de todos os tempos, voltemos ainda mais no passado.

Portador das qualidades de um artista plástico, Valdir chegou a São Paulo, em 1981, para se tornar um diretor de arte.

Vindo diretamente de sua cidade natal para a grande metrópole, Valdir desembarcou em alguma manhã, do referido ano, diante da Editora Abril, na Marginal Tietê.

Como não conhecia ninguém no mercado de propaganda, Valdir fez o que lhe parecia lógico, foi a um lugar que reunia especialistas em diagramar espaços gráficos e profissionais que preenchiam esses mesmos espaços com escritos, o que, não muito mais tarde iria encontrar, aos montes, nas agências em que viria a trabalhar. 

Um ano depois já estava empregado e, pouco depois, contratado pela CBBA, como mencionado anteriormente.

Em 1984, Valdir estreava sua, extremamente, bem sucedida trajetória, como diretor de arte, em algumas das mais desejadas e criativas agências do país.

Contudo, essa parte de sua carreira está mais do que bem documentada nos anuários do Clube de Criação e no registro de “leões” do Festival de Cannes.

Interessa conhecer o “homem por trás do mito”.

Apesar de ser responsável individual por tantas peças premiadas, Valdir nunca se incomodou em dividir os louros da vitória com outros profissionais que precisavam de uma mãozinha para deslanchar na profissão.

Compartilhar uma mesma ficha técnica com ele equivalia a ser arrancado do anonimato, destacando-se na multidão de candidatos à fama.

O sucesso não mudou a simplicidade como Valdir se comporta em relação a quem quer que seja.

Continua sendo o mesmo cara que chegava à agência, antes de seus iguais no departamento de criação, encantado com a musiquinha inventada pelo vendedor de banana, na feira que frequentava, quando ainda morava na Alameda Glete.

Deslumbrado com a disposição do micro-empresário, Valdir repetia o mantra do comerciante de bananas: “Ôôhhh! Ôôhhh!.... leva banana pro seu avô!!”

Em sua aparente inocência, Valdir percebia, claramente, o esforço do vendedor em se diferenciar da concorrência. 

Ou seja, uma mensagem original e pertinente sempre traz resultados.

Assim, Valdir, transformou-se, precocemente, em um profissional muito eficaz, por que sempre foi muito persistente na busca pelo diferente e pelo popular.

Seu trabalho traz esses dois componentes que jamais se dissociaram: tudo tem que fazer sentido de uma forma que jamais foi vista.

Sua inteligência jamais ofuscou sua capacidade inesgotável de perseverar.

O que para René Descartes é “Penso, logo existo”, para Valdir Bianchi é “Penso, logo insisto”.

Valdir é um incansável observador das coisas da natureza e da natureza das coisas.

Sempre se aprende algo com ele.

Sua mente invejável está, irremediavelmente, comprometida em simplificar o que é complexo, transformando o difícil em fácil.

Otimista irrecuperável, para Valdir não há tempo ruim, e é exatamente, sob as piores “tormentas tropicais”, que ele extrai das intempéries o que de melhor elas trazem.

Uma certeza, quase messiânica, de que por trás das nuvens plúmbeas, além do horizonte, há um cliente que vai ficar muito feliz quando a campanha for apresentada.

Soou meio Roberto Carlos?

Mas assim é Valdir: está na boca, nos olhos e ouvidos do povo que, nos últimos 25 anos viu, se divertiu e se convenceu com seus comerciais e anúncios.

Se popular entre tantos espectadores, popular também entre as pessoas que com ele trabalharam e continuam trabalhando.

Pai de Giulia e Isabela, marido de Claudia, Valdir é, merecidamente, “El Gran Muchacho de la Nuestra Sociedad”, piada que apenas ele entenderá.

Definitivamente, um grande cara.

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Zoca Moraes, é redator de propaganda, roteirista e contador de histórias. Conselheiro do São Paulo São, assina a coluna “Chegados“ toda semana.