Sim, Ubiratan é um escritor - São Paulo São

Como escolher as palavras certas para descrever alguém que ganha a vida escolhendo as palavras certas?

Começando pelas duas primeiras: Ubiratan Muarrek.

Duas palavras que tornam a missão de “biografá-las” ainda mais desafiadora, pois quem em sã consciência se atreveria a escrever a respeito de um personagem cuja especialidade é inventar outros tantos personagens, criar tipos, descobrir argumentos, elaborar tramas que ganham vida na imaginação de seus leitores?

Sim, Ubiratan é um escritor.

Escritores são investigadores que registram suas certezas, suas intuições, suas suspeitas, sem jamais saber, exatamente, o que haverá na próxima página, como se essa fosse uma porta fechada onde, por detrás dela, esconde-se a criança que todos procuram, o dinheiro roubado ou o assassino foragido.

O homicida que, uma vez ou outra, terá sido penalizado por seu pai, Juiz de Direito, de quem Ubiratan, seguramente, herdou o bom senso para julgar o peso de uma sentença, o valor de uma frase, ou a conveniência de uma oração. 

Sim, Ubiratan é um escritor que já foi jornalista, que poderia ter sido advogado, que poderia ter sido promotor, mas que não poderia jamais deixar de ter sido o escritor que é e sempre será.

Nascido em berço nobre, em suas veias corre tinta azul.

Nobre por que rico em educação e cultura. 

Natural de Tupã, Bira, como iremos identificá-lo à partir de agora, pois assim é, carinhosamente, chamado por seus amigos, décadas atrás, veio estudar em São Paulo, tendo ingressado na Escola de Direito, da USP, provavelmente, influenciado pela figura paterna.

Contudo, não foi na São Francisco, a faculdade, que Bira encontrou-se, mas na Londres, a cidade.

Em suas próprias palavras: “Acho que a grande ruptura da minha vida foi na Inglaterra, onde fui estudar Mídia e Comunicação, na London School of Economics...... mudou minha cabeça e minha vida pra sempre!”

Desembarcou na capital britânica em 1998, numa época em que o mundo estava embarcando na era da internet, que veio para transformar todas as relações existentes.

Das pessoais às comerciais, tudo mudou.

O advogado que acabou nunca sendo, e o competente futuro ex-jornalista teve que se reinventar enquanto aprendia com as novas tecnologias e os jeitos inéditos de fazer as coisas.

Apesar disso, quando conduziu, na BBC, o projeto da BBC Brasil para a internet, Bira intuía que aquela seria sua última incursão propriamente jornalística, como ele mesmo afirma.

Em 2001, de volta à pátria amada idolatrada, Bira especializa-se nesse híbrido de jornalismo com propaganda, que é a Comunicação Pública, forma contemporânea de alguns serviços e anunciantes, de perfil não mercadológico, anunciarem suas realizações.

Mas era na literatura que Bira sempre quis estar e não sossegaria até escrever seu primeiro livro, numa terra que prima mais por revelar “celebridades” oriundas de “reality shows’, do que escritores.

Em 2007 lança seu primeiro romance, “A Corrida do Membro”, segundo ele: “Escrito e lançado num susto!”

O segundo livro já foi o resultado de uma “gravidez planejada”.

“Me fechei por seis anos e escrevi “Um Nazista em Copacabana”, que lancei em junho do ano passado”, esclarece Bira.

A caminho de seu terceiro livro, imaginando novos personagens, inspirando-se nos antigos, Bira tem apego especial por três deles: Artur, Miguel e Pedro, seus filhos.

Há um quarto personagem que não é criação sua, mas de Deus para ele: Janaína, sua esposa!

Grande homem e, ao mesmo tempo, homem grande, Bira deve ter um metro e noventa de altura, o tamanho de sua doçura, de sua delicadeza e de seu talento.

Sentimos a gentileza desse gigante quando somos envolvidos por seu abraço, tão generoso quanto aconchegante.

Assim como deve sentir Masha, a garotinha russa, do “Boomerang”, quando abraçada pelo urso que a protege.

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Zoca Moraes, é redator de propaganda, roteirista e contador de histórias. Conselheiro do São Paulo São, assina a coluna “Chegados“ toda semana.