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A discussão sobre a “ração dos pobres” tem méritos indeléveis: colocou a nu a distinção conceitual entre comida e nutrição, a par da confusão que alguns setores da sociedade ainda fazem entre essas coisas, evidenciada pelo apoio acrítico da igreja católica ao programa da prefeitura e do cardeal arcebispo de São Paulo. Mostrou ainda como são frágeis os mecanismos de defesa do bem público, representado por uma dieta de qualidade que vem sendo perseguida há anos por setores da administração (saúde, educação) e setores organizados da sociedade (produtores "orgânicos", Ongs, etc). 

“Você acha que alguém pobre, humilde, miserável pode ter hábito alimentar? Se ele se alimentar tem que dizer graças a Deus”,disse, anos atrás, diante das câmeras de TV, o futuro prefeito da cidade. Talvez a igreja católica, ligada à origem do programa de distribuição da ração, tenha buscado justamente o “graças a Deus” que, sem alternativas, o pobre-humilde-miserável seria obrigado a dizer. Talvez na fantasia do cardeal Odilo Scherer, o produto seja uma versão paroquial do maná bíblico. Certamente o cardeal e seu alcaide contam, como aliado, com o caráter impositivo da fome que deixa sem escolha o pobre.

E por que essas confusões - nutricional/alimentar, teológica, etc - ocorreram? Seguramente por não se entender o processo de produção da vida e sua ligação com a alimentação e, nela, o papel que jogam as formas culturais que revestem os nutrientes. Vai longe o tempo em que a nutrição era um detalhe do discurso sobre a  alimentação, como a banana que tem vitamina. 

A produção da própria vida humana é o primeiro ato cultural ligado à alimentação. O simbolismo do domínio do fogo nos diz exatamente isso. Comer é produzir a si próprio, à família, e os meios de vida fundamentais para a sociedade, coisas que só podem ser concebidos nos marcos da cultura do grupo. Só muito mais tarde, sob a vigência do capitalismo, produz-se alimentos como mercadorias, portanto para terceiros, sendo a alienação, primariamente, a separação entre o produtor e seu produto. 

As mercadorias (que se desenvolvem como atendimento de necessidades humanas as mais variadas) logo assumem formas inéditas, descolando-se daquelas idéias primitivas de alimento ou comida. 

Foi no século XIX, por exemplo, que se inventaram as balas (candies) como pílulas de energia compostas exclusivamente de açúcar e administradas aos trabalhadores, que acreditava-se necessita-las. Mais tarde, no século XX, surgem os “complementos” ou “suplementos” alimentares, até se chegar em concepções mais elaboradas e utópicas - como a “comida dos astronautas”, dos esportistas, etc. A rigor, diante dessas últimas a nutrição liberta-se da forma “comida”, da cozinha, dos modos de cozinhar. O “nutritivo” separa-se do “alimentativo” numa alienação sem precedentes.

Farmácia de venda de ‘candies‘ em Nova York no século XIX. Foto: vintage / NYC.Farmácia de venda de ‘candies‘ em Nova York no século XIX. Foto: vintage / NYC.
Para uma sociedade onde as classes médias menos e menos sabem (ou precisam) cozinhar; onde vivem um processo crescente de dietificação da alimentação, compreende-se que as propostas como “ração para pobre” possam prosperar, pois, tal como outros produtos, trata-se da comida despida de gestos tidos como supérfluos do ponto de vista nutricional, ou da ótica que a sociedade administrada pela propaganda valoriza. E, nesse terreno, todo tipo de “comida sem cara de comida” se equivale.

O problema não é que existam coisas assim, mas que o poder público sinta-se suficientemente respaldado para tentar impor isso a uma parcela da sociedade (que, ainda, deverá dizer “graças a Deus”). Se advogamos a convivência entre vários regimes alimentares é preciso reconhecer que programas como esse da prefeitura nos mostram a fragilidade política das alternativas a ele. 

Embora a alimentação de qualidade para as crianças em idade escolar tenha avançado muito nos últimos anos, com articulação com produtores da agricultura orgânica, etc, o cuidado com as crianças não resistiu aos primeiros embates provocados pelo prefeito nutricionista-higienista, que sentiu-se confortável para cortar as dotações para esse propósito. Assim como o pobre sem alternativa, talvez ele imaginasse deixar as crianças sem alternativa, obrigando-as a darem “graças a Deus” ao seu maná.

Um aprendizado político deve nascer disso tudo: é preciso defender a comida de qualidade ali mesmo onde ela é “comida”, e não a nutrição concebida e desenvolvida em laboratórios e fábricas distantes. O próprio poder público está impregnado da palavra “nutrição” como designativo de organismos normativos, título de políticas públicas, etc. Compreende-se que esse fenômeno corresponde a uma reserva de mercado para os “profissionais da nutrição”, mas não a uma necessidade do público.

Para que a comida ocupe o centro da cena alimentar, é preciso que as comunidades escolares se envolvam na sua definição, na escolha de ingredientes sazonais, etc. A feira deve ser o maior aliado da escola -  assim como a agricultura orgânica com logística desenvolvida de modo a poder fazer entregas nas escolas e creches. 

Isso, por sua vez, só será possível com a completa substituição das compras centralizadas da merenda por compras descentralizadas para as unidades de consumo e supervisionadas pelos pais de alunos. Além disso, a centralização enseja corrupção; a descentralização, controle. 

Modos técnicos de fazer essa descentralização, atendendo a legislação vigente, existem e já foram experimentados, embora não tenham resistido aos lobbies que se alimentam  (ou se “nutrem”?) das compras centralizadas.

Um modelo democrático de sociedade exige sua especificação para o conjunto de práticas alimentares reguladas pelo Estado. Estamos longe, ainda, de tê-lo formulado com clareza, obtendo a adesão ampla, necessária para cerca-lo da segurança indispensável para que não seja tragado pelos interesses políticos passageiros.

Carmem Miranda na comédia musical ‘Entre a Loira e a Morena“ (1943) dirigida por Busby Berkeley. Imagem: Reprodução / Youtube.Carmem Miranda na comédia musical ‘Entre a Loira e a Morena“ (1943) dirigida por Busby Berkeley. Imagem: Reprodução / Youtube.
Yes, nós temos bananas - Braguinha e Alberto Ribeiro (1938).

Bananas pra dar e vender 
Banana menina tem vitamina 
Banana engorda e faz crescer

Vai para a França o café, pois é 
Para o Japão o algodão, pois não 
Pro mundo inteiro, homem ou mulher 
Bananas para quem quiser.

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Carlos Alberto Dória, sociólogo e conselheiro do São Paulo São, tem vários livros publicados sobre sociologia da alimentação. Mantém e edita o blog e-BocaLivre.

O musical enfoca as histórias e os grandes clássicos da bossa nova com elenco que inclui Fabi Bang, Myra Ruiz e Claudio Lins. Foto: Caio Gallucci / Divulgação.O musical enfoca as histórias e os grandes clássicos da bossa nova com elenco que inclui Fabi Bang, Myra Ruiz e Claudio Lins. Foto: Caio Gallucci / Divulgação.O gênero musical imortalizado pela voz e pelo rigor técnico de João Gilberto, com o seu famoso banquinho e violão, e que conquistou o mundo inteiro transformando “Garota de Ipanema” em uma das canções mais tocadas, está visitando a cidade de São Paulo.

Quem quiser conhecer um pouco das histórias e algumas de suas curiosidades, programe-se para assistir “Garota de Ipanema - O Musical da Bossa Nova”, em cartaz no Teatro Opus, do Shopping Villa Lobos. A peça tem narrações e imagens que representam toda a história da Bossa Nova e a sua importância para a nossa música. 

Entremeando as canções são contadas histórias desta turma de jovens da zona sul do Rio de Janeiro, que no final dos anos 50, juntou-se em apartamentos para poder cantar e tocar samba de um novo jeito; e com isso, acabaram criando um gênero musical que influenciou, e influencia, a música brasileira e dos outros países.

Entre atores-cantores e a banda, são 14 profissionais no palco. A cenografia e a iluminação são simples, funcionais, porque o que realmente importa são os sucessos e os fatos que sustentam a construção do espetáculo.

Em 90 minutos divididos em dois blocos distintos com intervalo de 15 minutos, semelhante ao que ocorre numa partida de futebol, a trupe de quatro marmanjos e de seis garotas alterna-se em papéis distintos para dar vida aos personagens conhecidos de quase todos os que estão na plateia, e cada um empresta a sua voz para as canções que mais se adéquam aos seus timbres e fôlegos.

No primeiro tempo, tudo é mais “pastel”, como demonstra o figurino predominantemente bege e branco. Na segunda etapa, com o samba apimentando o movimento que nasceu na Zona Sul carioca, tons quentes inundam as vestes, as vozes, e a atmosfera do espetáculo.

Se houvesse uma pista de dança, muito provavelmente seria possível resgatar os conhecidos bailinhos que fizeram sucesso nas décadas de 1970 a 1980, pelo menos para quem já passou dos 50 anos. Para a temporada em São Paulo, decidimos colocar a música à frente da ficção, como um musical show. Temos uma nova equipe criativa, mantendo a essência da bossa nova no espetáculo.”, conta a produtora Aniela Jordan.

Como entretenimento o musical funciona bem e atrai um público variado, desde a turma das antigas, que tem muitas vivências tendo o gênero como trilha sonora, até a juventude que não sabe, por exemplo, quem foi Tom Jobim, Vinicius de Morais, Nara Leão, apenas para citar alguns dos ícones Bossa-novistas.

Mergulhe nesse gênero musical genuinamente brasileiro que encantou os mais rigorosos intérpretes de diferentes países. Bossa Nova é Made in Brazil, e agora habita a nossa Sampa. Emocione-se enquanto é tempo. Por aqui, fico. Até a próxima!

Musical 'Garota de Ipanema' revê história e facetas da bossa nova. Foto: Caio Gallucci / Divulgação.Musical 'Garota de Ipanema' revê história e facetas da bossa nova. Foto: Caio Gallucci / Divulgação.

Serviço

Garota de Ipanema - O Musical da Bossa Nova
Texto: Rodrigo Faour e Sergio Módena.
Direção: Sergio Módena.
Direção musical: Delia Fischer.
Coreografia: Roberta Serrado.
Cenário: André Cortez.
Figurino: Kika Lopes.

Teatro Opus - Shopping Villa Lobos, Avenida das Nações Unidas, 4777, Alto de Pinheiros.
Duração: 90 minutos.
Classificação etária: Livre.
Em cartaz até 10 de dezembro de 2017.
Assista o medley do espetáculo Garota de Ipanema, o Musical da Bossa Nova.

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Leno F. Silva é diretor da LENOorb - Negócios para um mundo em transformação e conselheiro do Museu Afro Brasil. Escreve às terças-feiras no São Paulo São.

 Clarice Niskier em "A alma imoral" Foto: divulgação. Clarice Niskier em "A alma imoral" Foto: divulgação.“Há um olhar que sabe discernir o certo do errado e o errado do certo. Há um olhar que enxerga quando a obediência significa desrespeito e a desobediência representa respeito. Há um olhar que reconhece os curtos caminhos longos e os longos caminhos curtos. Há um olhar que desnuda, que não hesita em afirmar que existem fidelidades perversas e traições de grande lealdade. Esse olhar é o da alma.”

Assisti pela primeira vez à peça ‘A alma imoral’ em 2008, e desde então já a revi outras duas vezes. Nas três ocasiões, no entanto, pareceu-me  estar vendo o belíssimo e impactante monólogo pela primeira vez. A adaptação teatral elaborada e interpretada (de forma elegante e sensível) por Clarice Niskier a partir do livro homônimo do rabino Nilton Bonder traz inúmeras camadas de reflexões e de sentimentos, nos quais podemos prazerosamente nos aprofundar e nos perder inúmeras vezes, sempre alcançando novas descobertas.

Partindo do conceito de que, por sua própria essência, a alma humana é transgressora, o texto confunde, desconstrói e reconstrói visões milenares sobre o que sejam corpo e alma, certo e errado, obediência e desobediência, traidor e traído. Bonder coloca a tomada de consciência do ser humano sobre sua própria existência como a origem do corpo moral, que passa a ser o guardião dos costumes, da conformidade e da adaptação – o mantenedor das tradições do passado, que por meio delas colabora para a reprodução da espécie. Já a alma – que carrega em si a rebeldia e a capacidade da mutação – é aquela que possibilita pensamentos e condutas que rompem com essa moral estabelecida, colaborando assim para evolução dessa espécie. Para ele, é a tensão gerada por essas duas naturezas conflitantes e interdependentes, e o diálogo que se constrói entre essas forças – a conservadora e a transgressora – que permite ao homem transcender a si mesmo.

“Não há tradição sem traição. E não há traição sem tradição.” Basta olhar para a história da humanidade para constatarmos, nas mais diversas formas da expressão humana, a beleza e a verdade dessa afirmação: de Michelangelo a Picasso, de Beethoven a Stockhausen, de Isadora Duncan a Pina Bausch, de Brunelleschi a Frank Gehry, de Shakespeare a Guimarães Rosa… a evolução humana depende fundamentalmente de atos que, pela ótica dos costumes e da tradição, são vistos como traições. Mas verdadeira traição seria não dar voz a nossas almas transgressoras, pois são elas que nos permitem o prazer e a evolução em nossa existência.

Depois de uma brilhante carreira por todo Brasil, como um presente para nossa cidade a peça voltou a São Paulo e fica em cartaz no Teatro Eva Herz até o próximo dia 8 de dezembro. Talvez nos encontremos por lá!

Serviço

Sobre a peça: www.almaimoral.com
Texto: Adaptação de Clarice Niskier do livro “A Alma Imoral”, de Nilton Bonder
Ingressos: www.teatroevaherz.com.br/teatro/
Livro ‘A alma imoral’, Nilton Bonder, 1998, Ed. Rocco.
Quinta às 18h, Quinta e Sexta às 21h.
Local: Teatro Eva Herz - Último andar da livraria Cultura no Conjunto Nacional – Av. Paulista, 2073 – Bela Vista – São Paulo.

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Valéria Midena, arquiteta por formação, designer por opção e esteta por devoção, escreve quinzenalmente no São Paulo São. Ela é autora e editora do site SobreTodasAsCoisas e sócia do MaturityNow.  *Texto editado e atualizado, a partir do original publicado no blog SobreTodasAsCoisas.

Caminhando pela Barra Funda, cheguei a casa em que residiu Mário de Andrade.

Tombada pelo patrimônio histórico, e transformada em Oficina Cultural, a Casa Mário de Andrade, “Morada do coração perdido”, segundo definição do próprio, é um espaço público, aberto à visitação e acessível a qualquer pessoa que queira mergulhar na vida e na obra de um dos mais importantes e influentes artistas brasileiros.

Na entrada da Casa uma gigantesca silhueta/estátua de Mário, em chapa de metal, com sete metros de altura e 300 quilos de peso. Foto: Du Amorim.Na entrada da Casa uma gigantesca silhueta/estátua de Mário, em chapa de metal, com sete metros de altura e 300 quilos de peso. Foto: Du Amorim.Ao adentrar o quintal do sobrado situado da Rua Lopes Chaves, somos recepcionados pelo Mário em forma de escultura de tamanho real, como se ele com o inconfundível chapéu, estivesse a nos aguardar. A arte foi feita por artesãos a partir de um desenho de Mário da artista norte-americana Beatrix Scherman, datado de 1922/1923, e que faz parte do acervo do IEB. 
Em quatro salas, é possível visitar a exposição permanente “Morada do coração perdido”, que conta com objetos pessoais do artista. Foto: Du Amorim. Em quatro salas, é possível visitar a exposição permanente “Morada do coração perdido”, que conta com objetos pessoais do artista. Foto: Du Amorim. Visitar a casa do Mário de Andrade é um passeio pelo passado vivo. Móveis, documentos; um piano, livros, fotografias, desenhos, pinturas, tudo está organizado nos diversos cômodos do imóvel, a fim de permitir que conheçamos mais de perto as suas distintas facetas e talentos.

Além das oficinas regulares, o espaço localizado na Barra Funda oferece aos visitantes um teor museológico. Foto: Du Amorim.Além das oficinas regulares, o espaço localizado na Barra Funda oferece aos visitantes um teor museológico. Foto: Du Amorim.

Em quatro salas, é possível visitar a exposição permanente “Morada do coração perdido”, que conta com objetos pessoais do artista, entre cartas inéditas e curiosidades como o óculos, pasta de couro, suporte de mata-borrão e espátula.

Percorrendo a casa é como se Mário estivesse lá o tempo todo. Foto: Du Amorim.Percorrendo a casa é como se Mário estivesse lá o tempo todo. Foto: Du Amorim.

O espaço abriga exposição que contempla a existência de um dos maiores escritores brasileiros do século XX. Foto: Du Amorim. O espaço abriga exposição que contempla a existência de um dos maiores escritores brasileiros do século XX. Foto: Du Amorim.

Recomendo utilizar os serviços da competente equipe de monitores, porque assim teremos acesso a dados verdadeiros da vida do grande poeta modernista, que também exerceu atividades de professor de piano, ensaísta, pesquisador da música popular brasileira, e fotógrafo. Seu romance “Macunaíma”, lançado em 1928 e de enorme repercussão, ganhou adaptações para o teatro e o cinema.

Com habilidade em design de moda, confeccionou algumas de suas roupas. Deixou um acervo de livros com mais de 17.000 títulos, e participou intensamente do movimento modernista de 1922 em São Paulo.

Detalhes da vida e produção de Mário de Andrade podem ser consultados num museu virtual que complementa a exposição física permanente.  Detalhes da vida e produção de Mário de Andrade podem ser consultados num museu virtual que complementa a exposição física permanente.

Percorrendo a casa é como se ele estivesse lá o tempo todo. E está mesmo, porque a vida dele e de nós todos é eterna. Por aqui, fico. Até a próxima.

Serviço

Oficina Cultural Casa Mário de Andrade
Rua Lopes Chaves, 546, Barra Funda, São Paulo.
Visitas educativas agendadas: [email protected]oficinasculturais.org.br
Tel. 11 – 3666-5803, ramal 23.
Conheça a Mário de Andrade: oficinasculturais.org.br/mariodeandrade

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Leno F. Silva é diretor da LENOorb - Negócios para um mundo em transformação e conselheiro do Museu Afro Brasil. Escreve às terças-feiras no São Paulo São.

"As Cidades Invisíveis" de Italo Calvino ilustradas pela arquiteta peruana Karina Puente. ‘Zirma‘. Imagem © Karina Puente Frantzen"As Cidades Invisíveis" de Italo Calvino ilustradas pela arquiteta peruana Karina Puente. ‘Zirma‘. Imagem © Karina Puente Frantzen

Da ‘Odisséia’ de Homero às ‘Cidades Invisíveis’ de Calvino, são incontáveis os belíssimos encontros ocorridos, ao longo de nossa História, entre literatura e viagem. Diferentemente dos guias, que têm por objetivo fornecer informações de ordem prática sobre uma determinada cidade ou um lugar, a literatura de viagem, por meio da narrativa de experiências, descobertas e reflexões, coloca a aventura pessoal numa dimensão universal, capaz de instigar a imaginação, despertar sensações e inspirar desejos.

São Paulo e a Igreja de Santa Efigênia no centro da cidade. Foto: Cristiano Mascaro.São Paulo e a Igreja de Santa Efigênia no centro da cidade. Foto: Cristiano Mascaro.

Assim como pessoas, lugares não têm vida senão por meio das relações que neles e por eles se contróem. Narrativas épicas, relatos de exílios, romances ficcionais, séries fotográficas e até mesmo alguns diários de viagem jogam luz sobre essas relações e têm papel fundamental na ampliação de nossa capacidade de perceber, sentir e imaginar o mundo que habitamos. Seria o mesmo nosso olhar sobre a Sícilia sem a leitura do texto de Lampedusa? E nossa percepção de Paris, sem as memórias de Hemingway? Conseguiríamos enxergar a São Paulo de Cristiano Mascaro se não fosse por meio de sua lente? Temos consciência da infinita diversidade de lugares, paisagens, pessoas e culturas que habitam nosso mundo, mas são as experiências frente a essa diversidade que falam à nossa alma, e não seu entendimento racional.

Le Dome Café na Boulevard Montparnasse de Paris em 1920. Foto: National Geographic.Le Dome Café na Boulevard Montparnasse de Paris em 1920. Foto: National Geographic.

Cada um de nós traz dentro de si um profundo arcabouço de imagens, sensações, palavras ou aromas que relacionamos a lugares, vivenciados ou sonhados, dos mais próximos aos mais distantes. Mistura de memórias, desejos e impressões, é um acervo que, de maneira não linear, vamos montando ao longo da vida; dentro de nós, permanece em silêncio, adormecido – mas a menor referência a qualquer dos lugares que nos habitam faz esse universo despertar.

Nesse sentido, a experiência de uma viagem tem início muito antes da efetiva partida. A escolha por um destino, a decisão sobre o meio de transporte, a análise de possibilidades e montagem da agenda, a inclusão (ou não) de uma companhia… Cada passo dado desde o primeiro instante de elaboração de uma viagem é resultado não apenas de um repertório cultural, mas principalmente desse universo onírico e sensorial que nos habita. Quanto mais amplo for esse universo, então, mais bela poderemos tornar a experiência vivenciada – e maior será o prazer que poderemos conferir à nossa alma.

O 2 de Outubro é reconhecido como o Dia Internacional da Não-Violência (ONU), essa condição de convivência tão desejada, por meio da qual todas as pessoas do mundo respeitariam as diversidades e valorizariam os seres humanos em prol da construção permanente do bem comum. 

A data, criada em homenagem ao pacifista Mahatma Gandhi, tem o propósito de incentivar a educação pela Paz, respeitando sempre os direitos humanos.

Mais do que um compromisso das nações, a Paz é um estado de consciência individual com efeitos cotidianos em cada escolha, decisão e atitude que praticamos. Nesse sentido, a Paz se nutre a cada instante porque a todo o momento somos desafiados pelas circunstâncias de dentro e de fora a revalidar as nossas convicções.

Os estímulos externos são relativamente fáceis de serem identificados. Entretanto, os maiores exercícios que a vida  nos convida a enfrentar estão nas situações que criamos internamente, a partir dos nossos pensamentos, os quais podem transformar o imaginário em fatos “reais” que geram em primeira instância desequilíbrio, ansiedade, descontrole, dentre outros sintomas conhecidos.

Nesse dia tão importante para a humanidade foi sintomático o que aconteceu em Las Vegas, uma das cidades mais importantes dos Estados Unidos da América, em que um homem irado decidiu matar pessoas que estavam assistindo a um show de música. Até agora esse ato violento resultou em 58 mortos e mais de 500 feridos.

Foi um ato isolado, mas que demonstrou o quanto a sociedade está doente, visto que, por diversos motivos, massacres contra cidadãos comuns como formas de protesto, indignação, intolerância, posicionamento político ou instabilidade emocional são cada vez mais corriqueiros.

Num mundo em que vivemos conectados e acompanhamos tudo instantaneamente, a tragédia de Las Vegas, como milhares de outras, são descartadas no momento seguinte quando novas postagens  nas Redes Sociais nos convidam a “Curtir”, “Comentar” e “Compartilhar” de maneira automática.

A verdadeira Paz deve ser lapidada segundo a segundo, diante do espelho. Naquele momento solitário e crucial que nos convida a olhar com sinceridade para nós mesmos e a responder pelo menos três questões: 1) Quem sou?;  2) O que eu vim fazer aqui, e 3) Qual a minha contribuição para um mundo melhor? Por aqui, fico. Até a próxima.

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Leno F. Silva é diretor da LENOorb - Negócios para um mundo em transformação e conselheiro do Museu Afro Brasil. Escreve às terças-feiras no São Paulo São.