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Praia da Falésia na região do Algarve em Portugal. Foto: Shutterstock.Praia da Falésia na região do Algarve em Portugal. Foto: Shutterstock.

Portugal tem mais de 2500 km de linha costeira, incluindo os arquipélagos da Madeira e dos Açores. São praias lindas, com areia branca e fina, algumas ainda bem selvagens, outras movimentadas como as do Algarve. Mas apesar de tantos atrativos, as praias portuguesas não estão livres de algo que aflige tantos outros litorais pelo mundo: a sujeira deixada pelos banhistas diretamente na areia ou trazida pelo vento e pelo mar.

Todos temos uma lembrança preferida.
Suspeito que a maioria se recorda da refeição na casa da mãe.
Minha memória não vai tão longe.
É mais fácil lembrar dos pratos que mais gostávamos.
É frase feita, mas não há comida melhor do que comida de mãe.
Exceto a de minha avó paterna, como já escrevi aqui, uma vez ou outra.
Vovó Elisa, mãe de meu pai, ensinou minha mãe a cozinhar.
Se cozinho algo é por que observava mamãe preparando o que iriamos comer.
Me encantava, especialmente, vê-la fatiando a cebola, espremendo o alho, vertendo o óleo na panela para refogar os ingredientes mencionados que, por fim, receberiam a companhia bem-vinda do tomate cortado em cubos.
Depois da adição do sal, o perfume que impregnava a casa despertava o apetite precoce em cada um de nós, pois esperar pela hora do almoço de domingo exigia a paciência que só os crentes e os esperançosos num final feliz possuem.
Embora discreto, meus olhos se fixavam em suas mãos, como se essas gesticulassem em movimentos hipnotizadores, mas que, na verdade, apenas conduziam os instrumentos adequados às diversas operações que uma cozinheira realiza, ora com o martelo que agride os bifes de coxão duro até que eles pareçam filé, ora com a colher de pau revirando a polenta antes que ela grude no fundo, ora acendendo o forno onde arderá a travessa de metal com as costelinhas de porco, acompanhadas das rodelas de batata que ficariam mais coradas do que menino pré-adolescente quando recebe elogio de uma moça pouco maior.
Lembro das mãos de minha mãe dedilhando as teclas do piano, depois do almoço de domingo, emocionando a todos que a ouviam cantando “Stella by Starlight”.
Lembro daquelas mãos acariciando meu rosto imberbe, as mesmas mãos que tomavam minha temperatura, mãos que indicavam que já era hora de aparar a barba, mãos que não tiveram tempo de tatear as rugas que começam a marcar a face deste filho agora sexagenário.
Sinto falta daquelas mãos.
Sinto falta do almoço de domingo.

Philocalie, Éditions de l’Embellissement, Paris, 2013 • Imagem: acervo pessoal.Philocalie, Éditions de l’Embellissement, Paris, 2013 • Imagem: acervo pessoal.Em grego antigo, ‘philocalie‘ é um termo que significa “amor pela beleza”. Não por acaso, foi o nome escolhido por Valérie Solvit para o belíssimo livro que lançou em 2013 com apoio da L’Óreal de Paris.

"Já dizia o ditado popular que 'Em terra de cegos, quem tem um olho é rei', em linguagem denotativa, aqueles que possuem um pouco de conhecimento dominam a massa ignorante. Nesse momento, você deve estar se perguntando se esse artigo diz respeito à atual situação política do Brasil, já que é consenso nacional a falta de competência e visão daqueles que chegam ao topo da pirâmide e administram importantes organizações de interesse público." Stephen Kanitz.