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No último sábado assisti a uma apresentação musical na EAD – Escola de Arte Dramática da USP. Saí de casa com antecedência, mas não sabia que no final de semana o ônibus de Linha não percorria as avenidas da Cidade Universitária. Quase desisti quando o coletivo Circular que faz o percurso interno passou.

Tenho um postal guardado, pronto para uma moldura, com foto de um tempo que eu ainda não era gente, da mostra de Hildegard Rosental. A foto intitulada “O padeiro” foi clicada em 1940, na Avenida Angélica. Vê-se paralelepípedos molhados, a carroça do entregador de pães puxada por cavalo, o condutor com guarda-chuva, apenas dois carros negros nas ruas e o verde imperando por árvores, afinal era o que caracterizava as avenidas.

Jurema Paes. Guarde esse nome e libere os seus ouvidos para escutar as interpretações únicas dessa baiana, que reside em São Paulo e canta de tudo, com a mesma voz afinada e sensibilidade.

“(...) - Você que explora em profundidade e é capaz de interpretar os símbolos, saberia me dizer em que direção e qual desses futuros nos levam a ventos propícios?

- Não saberia traçar exatamente a rota, nem fixar a data da atracação ... a viagem é descontínua, você não deve crer que pode parar de procurá-la. 

Pode ser que enquanto falamos, ela esteja aflorando dentro dos confins do seu império. “ (Diálogo entre o Grande Khan e Marco Polo, em Cidades Invisíveis de Italo Calvino).

A estratégia é habilidade tão antiga quanto humana. Radicalmente relacionada à sobrevivência e ao exercício do poder, só passa a ser considerada central na gestão dos negócios, a partir dos anos 50. Nesse pós-guerra coube a empreendedores e executivos, inclusive com experiência militar, reconstruir boa parte do mundo. Uma cultura que valoriza o planejamento, a hierarquia e a busca de objetivos comuns. Os conceitos de missão e visão são legados dessa tradição. 

Hoje o campo de batalha transformou-se. Conectados globalmente por um fluxo de informações, temos uma percepção aguda de conflitos e interesses diversos em cenários que se desestabilizam rapidamente. Novas tecnologias obrigam organizações e profissionais a se reinventarem, sem um roteiro de como aproveitar competências já estabelecidas. 

A maior transformação está no comportamento de consumidores. Busca-se identidade e experiências que gerem significado na escolha e na fruição de bens e serviços. Este contexto representa um deslocamento de valores e hábitos. Exige ajustes, mas também proximidade e experimentação em toda a cadeia de produção e consumo.

Por sorte, nas organizações também se esgota o valor de uma jornada de trabalho repetitiva. Procura-se um sentido que conecte tarefas, desde como fazê-las ao impacto nos resultados, convocando a autoria de quem as realiza ou coordena. Essa aspiração por protagonismo está na raiz de uma inteligência ancorada no saber fazer, que cria organização, identificando oportunidades e diminuindo riscos. Essa abordagem, próxima de quem faz e das fronteiras com o ambiente, entende a estratégia como uma prática, que vai dos planos, às ações e seus resultados.

Na experiência de quem faz, pensar e agir estrategicamente são momentos entrelaçados no presente, determinando responsabilidades e ações. Assim, projetar o futuro deve ser um exercício que forma gestores e empreendedores, criando mecanismos de como chegar lá. Ao entender que todos são estrategistas em diferentes intensidades ou medidas, os atos de planejar e suas escolhas fazem parte de um processo que prepara a implantação do que está sendo projetado. 

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Bia Blandy estuda estratégia e se interessa por suas aplicações no dia a dia de pessoas e organizações. Já foi professora e diretora de escola. Hoje, dirige a Prática, Gestão e Estratégia. 

 

Um estudo feito por pesquisadores da Universidade de Nova York publicado este mês na revista Psychological Science demonstrou que pessoas que se definem como de classe alta têm menor capacidade de prestar atenção em quem passa por elas na rua do que as mais pobres. Quer dizer: aquela impressão de que os mais ricos desviam o olhar quando cruzam com outras pessoas não é só impressão.

Num dia de arrumação (ou desarrumação)da casa, preparando uma nova mudança, agora de volta a São Paulo, na já rotineira separaçãode papéis antigos, abro uma gaveta quase nunca utilizada.