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Assisti recentemente na programação do Cabaré da III Mostra Internacional de Teatro de São Paulo a uma apresentação inesquecível do Coral de Haitianos, do espetáculo Cidade Vodu.

Sensíveis, verdadeiros e talentosos os jovens, quatro homens e uma mulher, nos presentearam com interpretações belas de canções do seu país, as quais me tocaram profundamente.

No palco do galpão do Centro Compartilhado de Criação, incrustado no bairro da Barra Funda, os cantores tiveram a possibilidade de expressar músicas da sua terra que, por razões sociais e econômicas, tiveram que deixar em busca de oportunidades no Brasil.

Em determinado momento do show um dos intérpretes tentou nos dizer qual era o contexto do seu país relatado na canção. Contudo, a emoção e talvez a saudade, não permitiram que ele seguisse adiante.

A performance durou quase uma hora mas a sua intensidade foi tanta que ela reverbera em mim até agora. E, no final, com total merecimento, o coral foi ovacionado pela platéia.

Naquele instante desejei que muitas das pessoas que hostilizam os refugiados do Haiti tivessem ali para presenciar o grupo, conhecer os talentos daqueles seres humanos, nossos irmãos, que estão no Brasil em função das circunstâncias, e que vieram para aprender, ensinar, dialogar, trabalhar e compartilhar suas histórias de vida com a nossa gente, ofertando o que eles têm de melhor como, por exemplo, as lindas canções que tive o privilégio de ouvir sentado na mesa do gargarejo. Por aqui, fico. Até a próxima

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Leno F.Silva é diretor da LENOorb – Negócios para um mundo em transformação e conselheiro do Museu Afro Brasil. Editou 60 Impressões da Terça, 2003, Editora Porto Calendário e 93 Impressões da Terça, 2005, Editora Peirópolis, livros de crônicas.

 


Onde a mata atlântica está em você? No Brasil os quase 8% que restaram dela encontram-se distribuídos por 17 Estados. Ela é considerada um dos mais importantes biomas deste país, fonte de recursos naturais, e vital para o equilíbrio ambiental e a sobrevivência de milhões de pessoas. A Mata Atlântica é um símbolo, uma luta, e deve ser uma prática cotidiana.

Embora protegida por um a lei específica, evitar o seu desmatamento e promover a sua restauração, são responsabilidades de todos nós. A maioria da população brasileira desconhece esse bioma, principalmente aqueles que residem nas regiões urbanas. Muitos relacionam esse santuário natural apenas com o mico-leão-dourado, que há alguns anos atrás estava ameaçado de extinção e que, por causa disso, virou protagonista de uma campanha de mobilização, a qual serviu de estímulo para uma nova consciência socioambiental.

Mais do que preservar os bichos, as aves, as frutas, as flores, as árvores e apoiar a população que vive e depende da Mata Atlântica, temos o desafio de (re)significá-la, de fazer com que ela pulse em cada um de nós. Quais relações são possíveis estabelecer com as suas escolhas e as suas práticas, a fim de valorizar e contribuir para a restauração desse bioma imprescindível para a sobrevivência da nossa gente e das futuras gerações?

Você sabia que jabuticaba, goiaba, araçá, pitanga e caju, são frutas oriundas da Mata Atlântica? Com também a cambuci, fruta pouco conhecida, que deu origem ao nome do bairro de São Paulo, que fica próximo ao Ipiranga. Quando saborear quaisquer dessas frutas, ou passar pela Av. Lins de Vasconcelos, pense e agradeça a Mata Atlântica. Por aqui, fico. Até a próxima.

Para saber mais, acesse:

www.sosma.org.br
www.clickarvore.com.br
www.conexaososma.org.br

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Leno F.Silva é diretor da LENOorb – Negócios para um mundo em transformação e conselheiro do Museu Afro Brasil. Editou 60 Impressões da Terça, 2003, Editora Porto Calendário e 93 Impressões da Terça, 2005, Editora Peirópolis, livros de crônicas.


Salão de beleza é como farmácia. Existem aos milhares neste país. Um simples corte de cabelo pode custar de R$ 10,00 a R$ 500,00 ou mais, dependendo do profissional que opera a tesoura. Alguns salões são verdadeiros templos. Pé direito altíssimo, espelhos importados, dezenas de assistentes, decoração “assinada” e um conjunto de acessórios que pode transformar um simples cuidado com a aparência em um desembolso de cifras estratosféricas.

Vai somando: lavagem, shampoo, condicionador, corte, reflexo, escova, cutícula; pintura das unhas das mãos e dos pés; depilação com cera quente, cílios e sobrancelhas, drenagem linfática e o que mais mesmo? Bem, a lista pode crescer muito porque a maioria deles aproveita o espaço e o tempo que as freguesas ficam por lá para oferecer acessórios e produtos complementares, como brincos, bolsas, colares, vestidos, lingerie; batons, perfumes, desodorantes e outras necessidades que contribuem para a ampliação do faturamento e a satisfação da clientela. É aquela velha história de unir o útil ao agradável.

Independente do perfil do salão alguns ingredientes são imprescindíveis: som ambiente, água, café e chá para degustação. E todas; disse, todas, as revistas de fofoca para distrair enquanto a cliente espera a sua vez, aguarda a tintura “pegar” ou naquele momento crucial em que o cabeleireiro ou a cabeleireira apara os seus fios e só deixa você ver o resultado depois que tudo acabou.

Tem situações em que uma visita ao “hair design” pode valer uma terapia. Lá você ouve relatos tragicômicos, palpita na vida dos outros, sugere encaminhamentos para casos sentimentais e até pode fazer negócios, porque o salão de beleza é freqüentado por todo mundo. É lá, diante do espelho que muitas mulheres – e homens cada vez mais – se olham de verdade e entram em contato com o “eu” mais profundo. Há caso de clientes que depois de um corte, um conselho da amiga seguida de uma drenagem linfática, revolucionou as suas vidas. E estão muito felizes até agora.

Para quem gosta dessa temática recomendo dois filmes bacanas: “O Marido da Cabeleireira” (Patrice Leconte, 1990, França)e “Caramelo” (Nadine Labaki, 2007, França-Líbano). Pessoalmente só freqüento um salão por indicação. Desde há muito tempo troquei a barbearia pelo talento de Sidney Dalla. Meus cabelos a ele pertencem.

Concordo com o Zeca Baleiro quando ele diz: “Baby você não precisa de um salão de beleza; Há menos beleza num salão de beleza; A sua beleza é bem maior do que qualquer beleza; De qualquer salão...”. Por isso, o essencial é: descubra a sua beleza e, depois, escolha muito bem o salão. Por aqui, fico. Até a Próxima.

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Leno F.Silva é diretor da LENOorb – Negócios para um mundo em transformação e conselheiro do Museu Afro Brasil. Editou 60 Impressões da Terça, 2003, Editora Porto Calendário e 93 Impressões da Terça, 2005, Editora Peirópolis, livros de crônicas.

 

 
Santi Santamaria, numa entrevista que me concedeu (está lá no Estrelas no Céu da Boca) disse com toda clareza: nós, cozinheiros, somos os filósofos modernos, porque refletimos sobre as relações dos homens com a natureza. Mas muita gente acha absurdo falar em “filosofia” relacionada à gastronomia. E basta atentar para a crítica gastronômica ao longo da história recente para ver que a palavra está lá. Se você abrir o livro do Escoffier (Le Guide Culinaire), verá que o prefácio é uma espécie de “discurso filosófico” no sentido que Santamaria se refere. A mesma coisa acontece com Bocuse, quando expõe a “filosofia” da nouvelle cuisine. E Rafael Garcia Santos, o enfant terrible da crítica gastronõmica espanhola, não estava nem ai para qualquer outro aspecto da cozinha de um chef que não fosse a sua “filosofia”. Sim, finalmente alguém assumia explicitamente esta pretensão filosófica no calor da banalidade da cozinha.
 
 
Lobozó. Foto: E-BocaLivre / Reprodução.
 
Então, o leitor me perdoe ao falar da “filosofia” culinária, por mais que isso arrepie os filósofos canônicos… Aliás, nossa literatura é farta em usos e abusos do termo, discorrendo sobre filosofias “menores” (claro, comparadas com Hegel ou Engels, que tornaram-se populares da noite para o dia…),  como no ensaio de Tobias Barreto sobre a “filosofia do peruismo”. No comportamento do perú ele via uma metáfora filosófica para o comportamento dos intelectuais da época. Mas a nossa questão é outra: qual a “filosofia” da nossa gastronomia hoje?

É uma coisa difícil de determinar, muito difícil. Repare. A tendência geral é todo mundo fazer uma dieta, seja qual for sua duração. Umas pra vida toda; outras, até colocarem uma torta de chocolate diante de nós. Os que fazem dietas “saudáveis” não raro incluem o salmão nessa dieta com lugar de destaque. Mas não existem evidências de que o salmão de criadouro é o demo em forma de peixe - cheio de antibióticos, hormônios de crescimento e até transgenia? Pois é. Isso sem falar na manteiga, na gordura de porco, criminalizadas até recentemente e, agora, liberadas-geral a tal ponto que parece que o porco só tem barriga? E o gluten, então? O pão milenar de trigo de repente se tornou inimigo do homem. Parece, portanto, que não existe filosofia dietética alguma. Come-se o que convêm, ainda que a justificativa tenha que vir do milenar Oriente. Tudo certo, mas tudo incerto.

Pense então nos estilos culinários - nas “filosofias” que importamos de contrabando desde os tempos coloniais. Depois dos ibéricos, assimilamos o francesismo, a nouvellecuisine, os espanhóis e, mais recentemente, o raciocínio-root. Não temos tradição a defender, a não ser nos deixarmos levar gostosamente. O nosso autêntico escondidinho? Nos cansamos dele e pronto: colocamos o recheio por cima, como um “mostradinho”. Importamos o pudim de leite? Logo encontramos como enfiar-lhe o leite condensado e chamarmos isso de “tradição”. Descobrimos a baixa temperatura que já estava descoberta pelos churrasqueiros. Fazemos espumas de tudo, conforme aprendemos com os espanhóis - especialmente quando o mundo todo já as abandonou. Macarrão com molho de pupunha ou com arroz-feijão; petit gateau de cupuaçu; chiclete com banana. Hamburguer gourmet, bobagem transnacional aqui cuidada com carinho. Aqueles que disseram que caminhamos para uma “culinária bossa nova” erraram redondamente. Estamos sempre fora de tom, atravessamos o samba dos outros, fazemos nosso “samba japonês” e vamos para a rua…

Tu me mando cata japão
Cata aí tu que tu que taco no chão

O que nos falta é uma ideia clara do que nos expressa filosoficamente, e acharmos a nossa expressão culinária é o mesmo que nos acharmos; nosso problema é de “achamento” (parodiando Jorge de Lima, em “Todos cantam a sua terra”, 1926). Até hoje os nossos filósofos culinários interpretaram nossa cozinha; é chegado o momento de transforma-la. Ela está de cabeça para baixo. O que nos expressa não é qualquer pureza, mas a mistura. Somos misturados; a nossa filosofia é a misturação. Somos informes, mas não disformes.
 
Por isso gostamos da ideia de miscigenação. Somos raças misturadas, e embora saibamos que raças são entidades sem qualquer poder explicativo vamos para as ruas contra as confusões em torno do seu valor. Gostamos de todas as cores. Achamos que o estrangeiro é igual a nós: tomamos a jaca, a manga, a carambola, como coisas nossas. E quando se trata de coisas autóctones (ah, o pequi, o jatobá!), dizemos, violentando qualquer dicionário, que são “exóticas”. Somos os exóticos de nós mesmos. Autoctone só a mistura.

Misturamos estilos, misturamos ingredientes, misturamos nossas ideias. Nos misturamos nos outros e com os outros. Temos horror à pureza, à clareza, e não reconhecemos nelas qualquer superioridade. Achamos que somos miscigenados - misturados desde o início dos tempos de forma indelével. E se procuramos nossos caracteres, achamos nenhum. Macunaimicamente. 

Misturação é palavra feia. Por isso, em culinária, a nossa é a “filosofia lobozó”. Veja bem: o lobozó, prato apreciadíssimo nos rincões desse Brasil caipira, não tem receita. Sai do nada sem ter sido planejado. É misturar o que se tem à mão, seja jiló, abobrinha, maxixe, quiabo, tomate, grelos (cambuquira), queijo, qualquer coisa, colocar uns ovos e a icônica farinha de milho. Pronto! Tem-se uma coisa qualquer que é um…lobozó! É o contrário do cartesiano arrumadinho, do dissimulado escondidinho, da canônica feijoada que até dia certo tem como uma missa...

Lobozó é a confusão que alimenta, como um Toddy só nosso. Lobozó é gostoso porque é único, se improvisou na hora, até por falta de alternativa. É memorável sem se fixar na tradição.  Lobozó é imediato, é o ser-aí da comida. Nem tem adjetivo. Está na fronteira do refogado, da omelete, e não se resume a nenhum deles. Não se pode zoar, convidando alguém para uma “lobozoada”. Isso não existe. Faz-se, e pronto. Ninguém poderá dizer “o lobozó da minha mãe é melhor do que o da sua” porque não há uma metafísica do lobozó, como há do gefilte fish. Somos amplamente o lobozó. E se alguém ousa imprimir-lhe uma ordem, logo desmonta sobre si mesmo, confundindo o inconfundível.

O jeito é lobozar sem culpa. Reconhecer que inventamos a nouvelle cuisineno quibebe; que somos ibéricos no porco; amamos os norte-americanos no hamburguer; enchemos a beirada da pizza de catupiry para lhe emprestar uma toponimia tupi no prato; queremos porque queremos que o açaí seja universal como o kiwi. Temos a fome, mas a misturamos com a vontade de comer. Isso por acaso não é lobozó na sua mais pura expressão filosófica? Que digam os doutos…

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Carlos Alberto Dória é bacharel em Ciências Sociais pela USP, com doutorado e pós-doutorado na Unicamp, tendo estudado o darwinismo no Brasil. Possui também vários livros publicados sobre sociologia da alimentação: Estrelas no céu da boca; A culinária materialista; Formação da culinária brasileira; e-BocaLivre.
 


No final do último domingo fiz uma faxina rápida no meu apartamento. Embora à distância tudo parecesse limpo, foi só deslocar um objeto da mesa de apoio para ver a poeira acumulada.

Depois, ao varrer os cômodos, os minúsculos resíduos formaram um volume semelhante a um pequeno chumaço de algodão, sem a sua brancura e com a tonalidade cinza-escura, materializando os milhares de fragmentos que adentram meu habitat por terra e pelo ar.

O correto é que essa limpeza ocorresse todos os dias, ou a cada instante, porque o pó não para de entrar. Mas dá preguiça, dá trabalho; exige disciplina, dedicação e disponibilidade para colocar as mãos na massa e eliminar as sujeiras que pareciam não existir.

O bom é que depois da limpeza a sensação de alívio e de missão cumprida é imediata. Prometi aos meus botões diminuir o intervalo da faxina porque dá menos trabalho e exige um esforço menor. E, de quebra, essas movimentações contribuirão para a minha cota semanal de atividade física, também colaborando para que eu me mantenha em forma sem a necessidade de freqüentar uma academia.

Por outro lado, no que diz respeito aos “resíduos”, aos problemas, as inquietações, as angustias e tudo o mais que invade a minha vida e a minha mente, trato de encarar e limpar de imediato, para não ocupar espaço e sugar a energia que é vital para a minha saúde física, mental, e para que eu consiga promover as transformações, por meio das quais construo, compartilho e renovo a cada segundo a minha alegria e a felicidade de viver. Por aqui, fico. Até a próxima.

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Leno F.Silva é diretor da LENOorb – Negócios para um mundo em transformação e conselheiro do Museu Afro Brasil. Editou 60 Impressões da Terça, 2003, Editora Porto Calendário e 93 Impressões da Terça, 2005, Editora Peirópolis, livros de crônicas.


O rapaz na rua, jeitão hipster, me aborda e pergunta: “O senhor sabe me dizer onde fica o Mercado de Pinheiros?” Estavamos a 100 metros do dito cujo, e não pude deixar de me lembrar de experiência semelhante há anos, quando o Mercado Central foi “refuncionalizado” por Dona Marta Suplicy, e alguém de camisa polo me perguntou pelo “setor de peixes”, provocando risos nos funcionários de lá que nunca souberam que o Mercado Municipal tinha “setor”…

Todo o mercado de Pinheiros está agora pintado num único tom de cinza. Mas a coisa começa mesmo com aquela sensação de que o conhecimento de colégio finalmente serve para algo: os biomas estão todos lá representados, tendo pulado dos livros de geografia para a vida. Cada um tem seu box, menos a caatinga, que Rodrigo Oliveira preferiu não levar nos ombros, abrindo no lugar um Mocotozinho (meio chinfrim, onde se compra cachaça, vinho, e aqueles magníficos torresmos do Mocotó agora meio muxibentos, coitados; também pudera, ficam lá no expositor como de bar de beira de estrada do sertão) - bom para lembrar que torresmo mesmo só na Vila Guilherme… 

Mas imagino que o rapaz perdidão que me abordou na rua deve ter se encontrado entre produtos do cerrado, do pampa, da amazônia, mata atlântica. Tudo o que é artesanato alimentar em conserva está lá (deu saudades do Empório Poitara...). Você pode comprar um óleo de macaúba, de pequi, uma pimenta baniwa, um pacotinho de baru, uns biscoitos de farinha de jatobá e até mesmo umas belas cerâmicas indígenas,  umas camisetas, umas facas gaúchas...  Lojas bacanas como nunca lá se viu: tudo de arquitetos e decoradores de interior. Muitas frases conscientizadoras grafadas nas paredes. Moderno.
 
Os novos permissionários, apoiados e coordenados pelo Instituto ATA e Instituto Socioambiental, vão dar cara nova ao mercado. É o que espera o prefeito, conforme disse em seu discurso. Sim, teve discurso de prefeito, de secretário, de índio, de representante dos permissionários, Chef Atala, etc. Um festão, para os moldes do mercado mirradinho que Pinheiros vinha se tornando.Tem gente entre esses novos permissionários que, visionário  - já apurei - comprou 3 box de outros comerciantes para, no futuro, abrir sabe-se lá que negócio. É uma velha pratica que deveria, na verdade, acabar. O açougue Royal Meat é sócio de todos os açougues do Mercado de Pinheiros. Por que? Porque o “preço público” de locação é muito barato e, para um atacadista, é melhor ter seu estoque lá do que em qualquer outra parte da cidade. 

Claro que para nós, consumidores, seria melhor que houvesse concorrência. Do Porco Feliz, do Carnes do Cerrado e assim por diante. Mas o sistema de permissão a “título precário” tem essas distorções embutidas, além do que não existe mesmo licitação para escolha dos pretendentes. O “fundo de comércio” de um desses boxes foi vendido, para o novo permissionário, a R$ 100 mil.  Checho, aquele boliviano porreta que foi pioneiro lá, aguça o apetite de todo mundo. Torço para o mercado não virar a praça de alimentação para os funcionários de escritórios que começam a pipocar na região, aproveitando o "exótico" do mercado para fazer seus selfies. Torço para que algum dia, um prefeito passeando por Barcelona, visite o Boqueria. Devo ser um cara muito antigo, que ainda acredita que um mercado é um centro de abastecimento cotidiano, não um expositor de amenities. Acho tudo bacana, mas sinto falta de mais opções de carnes, de frangos, de peixes, de legumes e verduras. O sacolão de Pinheiros é um lixo. Há tantos outros melhores na cidade que a Prefeitura bem podia levar um para dentro do mercado. Mas prevalece lá uma lógica perversa de monopólio.

O ponto vendido a R$ 100 mil, há pouco mais de um ano “valia” R$ 60 mil. Bom negócio. Se a precariedade da permissão fosse exercida pela prefeitura não haveria essas especulação imobiliária que se agrava. O grande público não entende os meandros das leis e regulamentos, e acha que a mão cega do mercado regula tudo. Balela.O que me chateia mesmo, como consumidor e frequentador do Mercado de Pinheiros, é ver que a prefeitura, mais uma vez, não fez sua lição de casa. Todo mundo que abre um mercado - e revitalizar, refuncionalizar, etc é equivalente a abrir um mercado novo - deve estudar o público, fazer um mix de lojas, buscar quem melhor possa oferecer aqueles serviços, e assim por diante. Sendo um órgão público o “incorporador”, devia também fazer audiências públicas, expor seu projeto por inteiro, ouvir críticas, reformular e seguir. 

Nada disso acontece sob a égide da administração atual. É tudo no voluntarismo, caminhando por uma legislação falha que permite a formação de monopólios e cartéis dentro do espaço público justamente porque a prefeitura não acredita que possa manipular as permissões a título precário em prol do bem público. Como em tudo na administração pública, tende a levar quem pressiona mais,  e se você critica algo, só vê diante de si cara de paisagem... O espírito público é proporcional ao espírito crítico. E não se renuncia a um poder impunemente. Outros “poderes” se assenhoram do vazio e fazem o que bem entendem. Tá bom: uma loja prá cada bioma, mas eu não como bioma. Como mesmo bons legumes, boas frutas, boas carnes, peixes, etc. Sinto falta de uma boa loja de queijos, que abrigue a variedade de queijos da Canastra (aliás, essa serra deve pertencer a algum bioma, não é?) e assim por diante. Vamos combinar que assim seria melhor para mais gente?
 
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Carlos Alberto Dória é bacharel em Ciências Sociais pela USP, com doutorado e pós-doutorado na Unicamp, tendo estudado o darwinismo no Brasil. Possui também vários livros publicados sobre sociologia da alimentação: Estrelas no céu da boca; A culinária materialista; Formação da culinária brasileira; e-BocaLivre.