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- Alô, oi, que barulho é esse tudo bem? Onde você está?

- Na procissão.

- Ah, qual é o santo da vez?

- Hoje é Corpus Christi, você esqueceu? Os tapetes de serragem estão lindos, todas as ruas...

Ao fundo um coro de Avemariacheiadegraçasenhoréconvosco...

- Você está me saindo uma boa beata. Está solita ou com alguém interessante?

- Com o padre, kkkkk

Esta vem sendo a rotina de minha amiga querida, desde sua mudança para Cunha, no interior de SP. Quando se mudou para lá pensava que iria ter uma vidinha pacata, mas qual o quê, para uma curiosa como ela, conhecer as pessoas interessantes da cidade significa visitar ateliers, as plantações de lavanda, os trutários, restaurantes, pousadas, até que descobriu a fé da população local.

- A coisa aqui com a fé é algo além do normal. Para mim, tudo começou em Dezembro com a festa da padroeira, Nossa Senhora da Conceição, que, só esta, durou dez dias com missas rezadas cada vez por um padre diferente, daqui, de Guará, de Lorena...  Este ano, inaugurei minha temporada religiosa em Março com a Festa de São José e sua procissão. Achei que seria curioso dar um pulo por lá. Foi o início de um verdadeiro périplo santificado: veio Domingos de Ramos, Semana Santa, São Benedito, é dá-lhe procissão, - até cavalada! - e eu já dentro do rosário e dá-lhe muita Ave Maria. E a coisa não tem fim, pois além dos festejos religiosos da cidade em si, muitos bairros na zona rural têm seus próprios padroeiros, sem falar nos municípios vizinhos, a começar com, logo quem, São Expedito aqui ao lado em Guaratinguetá!  Agora estou me preparando para as festas juninas, haja fôlego!

- Você está brincando. Você vai com amigos ou sempre sozinha? Ninguém da turma do Alzheimer (os amigos acima de 50 anos) vai? 

- Não, kkkk, eu acho que vou acabar conhecendo algum diácono com o filho coroinha, porque são vários e estão em todas como eu. Estão sempre em destaque com aquelas vestes vermelhas e brancas, são lindos de se ver no conjunto, acho que preciso ir olhar essa turma mais de perto para ver se há algum bonitão. 

- Acho que você já está cavando um lugar no céu, afinal no alto da serra você já está. Você faz a intermediação de pedidos e promessas para os santos de cada dia? Você podia cobrar a comissão por graça alcançada, afinal você já é uma candidata a beata mor de Cunha.

- Acho que daqui a pouco vão me convidar para ser filha de Maria ou algo parecido. Já tenho Maria no nome, acho que tenho chance. Só me resta achar um bom e belo José. E Avemariacheiadegraça...lá vou eu.  Veja se encara e suba a serra e alcance os céus, kkkk!!!

- Olha que eu vou, mas não sou santa de um padre só, kkkk!

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Marina Bueno Cardoso – Jornalista, foi colaboradora da Folha de S.Paulo, Nova, Playboy, 4 Rodas e cronista do Jornal da Tarde. Atualmente ministra a Oficina Ler é Viver, de criação literária na Escola Lourenço Castanho. Publicou em 2015 “Petit-Fours na Cracolândia” pela Editora Patuá


Na semana passada, remexendo papéis, encontrei o texto a seguir, escrito por mim em novembro de 1984, ao qual dei o título de “Apocalipse now”.

Passageiros, atenção!  Este é o voo 985, “O destino”. Recebemos uma mensagem secreta informando a possibilidade de um naufrágio. Apertem-se. Os casados que tirem férias, afinal poderão viver o “The day after”.

Cochichos no paraíso anunciam que Eva e Adão assinaram o divórcio e a cobra ficou com o Tarzã. Mergulhada numa profunda tristeza, a Jane matriculou-se num curso Magic-Corte. E a Chita? Bem, tratou de alugar uma cobertura na Vieira Souto (que clichê?!).

Liguem a TV. Qualquer canal é apoteótico com parafernálias idem. Na passarela do Rio, o samba enredo (único), será tocado por todas as baterias. De Brasília recebemos o comunicado de que o estado de sítio permanecerá por tempo indeterminado, e o CEASA de São Paulo decretará falência.

Quando as luzes se acenderem, será o sinal. Quem quiser fazer uma boquinha, garanta o seu prato. Para a felicidade geral, haverá a Coca-Cola grátis, e a Pepsi assegurará.

As fantasias ficarão a cargo da originalidade e a nossa companhia aérea sorteará uma penca de bananas e uma árvore de Natal. Fiquem atentos aos números estampados nos cartões de embarque e sintonizem agora os monitores de televisão porque o bingo vai começar, e quem renascer, verá. Por aqui, fico. Até a próxima.

Importante: este texto foi escrito há quase 32 anos e, naquela época, era de ficção.

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Leno F. Silva é diretor da LENOorb - Negócios para um mundo em transformação e conselheiro do Museu Afro Brasil. Editou 60 Impressões da Terça, 2003, Editora Porto Calendário e 93 Impressões da Terça, 2005, Editora Peirópolis, livros de crônicas.

 

Ao voltar a pé do bairro Liberdade para Higienópolis, a sintonia me fez encontrar com três amigos queridos, numa constatação de que mesmo nesta metrópole é possível viver situações típicas de pequenas cidades.

Ao escolher descer a Tamandaré, na esquina da Antonio Prudente me surpreendi ao ver o Saliba Filho, colega dos tempos em que residia no Ipiranga, naqueles efervescentes anos 1980, período de reconstrução da democracia e da busca de novos caminhos para as expressões culturais em nosso País.

Em 15 minutos de conversa relembramos mais de 30 anos de histórias, nos atualizamos sobre como cada um está hoje, trocamos telefones, e ficamos de marcar um café para dar continuidade ao bate papo. Depois de conectados pelo Facebook descobri as amizades em comum.

Não muito distante, na Santa Madalena, rua que morei por quase 10 anos, revi a Nina Leirner, que descia do carro com o seu violoncelo. Também amiga de mais de três décadas, além de saber que ela continua no mesmo trabalho, que a sua filha mais velha já completou 27 anos, e que ela é avessa a redes sociais, decidimos agendar um encontro em breve com outros dois amigos em comum.

Deixei a Bela Vista e segui em direção à Praça Roosevelt, passando pelo Bixiga. Ao chegar nas proximidades do Copan, segui pela General Jardim. Ao passar em frente ao Jazz B, vejo o casal O Zi e Cristina Manzano, que estava perambulando por ali em direção às atrações da Virada Cultural.

Esses encontros só foram possíveis porque decidi caminhar naquela noite fresca de Sampa. Para ver e ser visto é preciso sair em direção às surpresas que a vida nos reserva. Confio que essas situações não aconteceram por acaso, e que a partir desses acontecimentos “inesperados“ tivemos a oportunidade de renovar os nossos laços de carinho, respeito, cumplicidade e afeto. Por aqui, fico. Até os próximos encontros.

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Leno F. Silva é diretor da LENOorb - Negócios para um mundo em transformação e conselheiro do Museu Afro Brasil. Editou 60 Impressões da Terça, 2003, Editora Porto Calendário e 93 Impressões da Terça, 2005, Editora Peirópolis, livros de crônicas.


Foi realizada no último final de semana mais uma edição da Virada Cultural em São Paulo. Em apenas 24 horas, dezenas de shows e atrações gratuitas, daqui e de outros países, para diferentes gostos, ocuparam espaços distintos da cidade.

Como o sábado amanheceu chuvoso, imaginei que o tempo poderia espantar o público. Contudo, na sua abertura o dia estava seco e fresco. Já o domingo amanheceu ensolarado, o que permitiu a circulação das pessoas com tranquilidade pelas ruas e avenidas do centro velho cantadas por dezenas de intérpretes da nossa Música Popular Brasileira.

Vi o Genival Lacerda no Largo do Arouche. No palco, forró, xaxado e o jeito peculiar dele dançar, e cantar aquelas músicas de duplo sentido que não desgrudam do ouvido da gente. Com vigor e mais de 80 anos, esse nordestino autêntico não deixou de lembrar clássicos de Luiz Gonzaga e Jackson do Pandeiro. E na plateia o povo chacoalhava as cadeiras e alguns arriscavam “forrozar” coladinhos.

Não distante dali, no palco São João, foi maravilhoso ouvir Cartola na voz e com o charme de Teresa Cristina, acompanhada do sensacional Carlinhos Sete Cordas no violão.

Voz e violão foram suficientes para emocionar o público, que cantarolou junto quase todo o repertório. Por uma hora os nossos ouvidos foram abençoados por lindas poesias musicais de autoria de mestres da nossa MPB.

Antes das audições percorri as ruas Aurora, Dos Timbiras e adjacências, e comi um pastel de pizza na feira livre, onde é possível comprar de tudo um pouco fresquinho, e aproveitar a costumeira liquidação quando as barracas estão prestes a desmontar.

Com duração de 24 horas, a Virada Cultural é um presente para os cidadãos desta metrópole que pulsa a semana inteira sem parar. Que ocupemos os espaços públicos o tempo todo. Porque é nas ruas, avenidas, praças, calçadas e em tantos outros lugares que os encontros acontecem. E quando nos encontramos, nos conectamos e fazemos, a cada instante, uma cidade melhor, mais alegre, mais plural, mais generosa, mais segura, mais inclusiva e mais vibrante para todos. Por aqui, fico. Até a próxima.

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Leno F.Silva é diretor da LENOorb – Negócios para um mundo em transformação e conselheiro do Museu Afro Brasil. Editou 60 Impressões da Terça, 2003, Editora Porto Calendário e 93 Impressões da Terça, 2005, Editora Peirópolis, livros de crônicas.

 

 
É a vez do curso de Doçaria Caipira. Este curso, apesar de independente, pode ser tomado como o terceiro módulo do curso Total Immersion na Culinária Caipira, anteriormente oferecido. Ele versa sobre aquele domínio onde mais se fez presente a influência portuguesa, por conta da introdução do açúcar. 

Ele visa a preparação intelectual e prática do aluno de modo a poder identificar um conjunto de pratos como de existência coerente com os demais aspectos da cultura culinária caipira. Ao mesmo tempo, explora as possibilidades de se entender e classificar esse capítulo da doçaria de forma independente em relação à grande tradição ocidental (francesa). 
 
Serei responsável pelo aspecto expositivo do curso, que serão complementadas por atividades práticas, conduzidas por Ana Laura Pinheiro. 
 
O curso terá a duração de 12 horas, em quatro aulas de 3 horas cada. As datas programadas são 9, 10, 11 e 12 de junho, começando às 19 horas no dia 9 e 10; e às 9h nos dias 11 e 12. O local será o mesmo dos módulos anteriores, no Alto de Pinheiros, à Rua Aquiramum 12. 
 
Serão tópicos do curso: 
A introdução do açúcar na capitania de São Vicente; 
Considerações técnicas sobre receitas; 
Considerações técnicas sobre as conservas;
Considerações técnicas sobre os amidos; 
Execução de receitas: milho e mandioca crua; bolaria; biscoitos; compotas; bala; licores; doces de ovos; doce de massa (marmeladas); outros; 
Degustação comentada das receitas.
Sugestões de adaptações modernas.
 
Os que fizeram os demais módulos, terão prioridade nas inscrições.
Demais interessados manifestem a intenção desde logo escrevendo para [email protected], reservando vaga e obtendo maiores detalhes sobre pagamento.

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Carlos Alberto Dória é bacharel em Ciências Sociais pela USP, com doutorado e pós-doutorado na Unicamp, tendo estudado o darwinismo no Brasil. Possui também vários livros publicados sobre sociologia da alimentação: Estrelas no céu da boca; A culinária materialista; Formação da culinária brasileira; e-BocaLivre.

Ana Paula Pinheiro é proprietária da Santinho's Eventos e Treinamentos em Culinária e Gastronomia. Patissiere formada na Espanha, trabalhou no laboratório da Callebaut até recentemente em São Paulo.
 

A noite prometia. Havia ido ao cabelereiro e pela primeira vez pintei as unhas das mãos e dos pés de vermelho. Soltei o cabelão, vesti aquele jeans justo uma blusa decotada nas costas e zarpei no seu Fusca branco para a baixa Augusta. O rumo: Pirandello para encontrar com amigos. Isso era nos anos 80.

Ao chegar lá vi que deveria ter alguma coisa especial, tal era a muvuca com tanta gente. Ao entrar percebi que era a vernissage da fotógrafa Vânia Toledo, inaugurando sua exposição de nus masculinos nas paredes. Não eram fotos pequenas, mas grandes o suficiente para cobrirem as paredes. Procurando por amigos encostei no balcão e pedi uma caipirinha. Ao meu lado um balzaco de barba grisalha ao ver-me pegar o copo com as longas unhas vermelhas me perguntou, me diga só para eu te entender melhor, vermelho também estão suas unhas do pé? Eu disse que sim, dei um sorriso e pensei, mais um com fetiche de pé. Sai de lado para ver outros por lá.

Encontrei Luis Carlos Daher e outros amigos e sentamos para apreciar os peladões. Eram só famosos: Caetano Veloso, Nuno Leal Maia, Ney Matogrosso, Walter Franco, Roberto Carvalho, entre outros tantos, mas havia um mais bem dotado do que todos, era Gerald Thomas, para mim mais um ilustre que se destacava dos demais.

Nas mesas o papo era engraçado, os caras mediam os seus falos pelas fotos...estou entre o Caetano e o Ney Matogrosso, só para fazer bonito, outros diziam, o meu prefiro encobrir, como fez o Walter Franco só mostro para quem me interessa.

As garotas curtiam muito serem assediadas por tantos biláus confessos de tamanhos sempre maiores do que os das fotos, ou mais grossos ou mais finos.

Naquela noite teve muito pezinho rolando em baixo das mesas, que depois terminaram a noite num daqueles motéis da Raposo Tavares, que na época era conhecida como a Rodovia do Amor. Afinal sexo pulsava nas paredes do bar e sexo rolava na cabeça, corpo e membros dos que lá estavam.

Soubesse a fotógrafa Vania Toledo, o quanto colaborou com os tais nus masculinos para liberar a noite de todos que passaram pelo bar naquela exposição poderiam cobrar mais caro a permanência dos casais no local. UAU “na madrugada rolava um som tocando Big Brother sem parar”...e Tim Maia fazia fundo musical..”A noite vai ser boa, de tudo vai rolar...” E foi bom, meu bem... 

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Marina Bueno Cardoso, jornalista, trabalhou na imprensa em São Paulo e na área de Comunicação Corporativa de empresas. É autora do livro “Petit-Fours na Cracolândia”, Editora Patuá. Publica crônicas quinzenalmente no São Paulo São que são replicadas no site literário www.musarara.com.br