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No final do último domingo fiz uma faxina rápida no meu apartamento. Embora à distância tudo parecesse limpo, foi só deslocar um objeto da mesa de apoio para ver a poeira acumulada.

Depois, ao varrer os cômodos, os minúsculos resíduos formaram um volume semelhante a um pequeno chumaço de algodão, sem a sua brancura e com a tonalidade cinza-escura, materializando os milhares de fragmentos que adentram meu habitat por terra e pelo ar.

O correto é que essa limpeza ocorresse todos os dias, ou a cada instante, porque o pó não para de entrar. Mas dá preguiça, dá trabalho; exige disciplina, dedicação e disponibilidade para colocar as mãos na massa e eliminar as sujeiras que pareciam não existir.

O bom é que depois da limpeza a sensação de alívio e de missão cumprida é imediata. Prometi aos meus botões diminuir o intervalo da faxina porque dá menos trabalho e exige um esforço menor. E, de quebra, essas movimentações contribuirão para a minha cota semanal de atividade física, também colaborando para que eu me mantenha em forma sem a necessidade de freqüentar uma academia.

Por outro lado, no que diz respeito aos “resíduos”, aos problemas, as inquietações, as angustias e tudo o mais que invade a minha vida e a minha mente, trato de encarar e limpar de imediato, para não ocupar espaço e sugar a energia que é vital para a minha saúde física, mental, e para que eu consiga promover as transformações, por meio das quais construo, compartilho e renovo a cada segundo a minha alegria e a felicidade de viver. Por aqui, fico. Até a próxima.

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Leno F.Silva é diretor da LENOorb – Negócios para um mundo em transformação e conselheiro do Museu Afro Brasil. Editou 60 Impressões da Terça, 2003, Editora Porto Calendário e 93 Impressões da Terça, 2005, Editora Peirópolis, livros de crônicas.


O rapaz na rua, jeitão hipster, me aborda e pergunta: “O senhor sabe me dizer onde fica o Mercado de Pinheiros?” Estavamos a 100 metros do dito cujo, e não pude deixar de me lembrar de experiência semelhante há anos, quando o Mercado Central foi “refuncionalizado” por Dona Marta Suplicy, e alguém de camisa polo me perguntou pelo “setor de peixes”, provocando risos nos funcionários de lá que nunca souberam que o Mercado Municipal tinha “setor”…

Todo o mercado de Pinheiros está agora pintado num único tom de cinza. Mas a coisa começa mesmo com aquela sensação de que o conhecimento de colégio finalmente serve para algo: os biomas estão todos lá representados, tendo pulado dos livros de geografia para a vida. Cada um tem seu box, menos a caatinga, que Rodrigo Oliveira preferiu não levar nos ombros, abrindo no lugar um Mocotozinho (meio chinfrim, onde se compra cachaça, vinho, e aqueles magníficos torresmos do Mocotó agora meio muxibentos, coitados; também pudera, ficam lá no expositor como de bar de beira de estrada do sertão) - bom para lembrar que torresmo mesmo só na Vila Guilherme… 

Mas imagino que o rapaz perdidão que me abordou na rua deve ter se encontrado entre produtos do cerrado, do pampa, da amazônia, mata atlântica. Tudo o que é artesanato alimentar em conserva está lá (deu saudades do Empório Poitara...). Você pode comprar um óleo de macaúba, de pequi, uma pimenta baniwa, um pacotinho de baru, uns biscoitos de farinha de jatobá e até mesmo umas belas cerâmicas indígenas,  umas camisetas, umas facas gaúchas...  Lojas bacanas como nunca lá se viu: tudo de arquitetos e decoradores de interior. Muitas frases conscientizadoras grafadas nas paredes. Moderno.
 
Os novos permissionários, apoiados e coordenados pelo Instituto ATA e Instituto Socioambiental, vão dar cara nova ao mercado. É o que espera o prefeito, conforme disse em seu discurso. Sim, teve discurso de prefeito, de secretário, de índio, de representante dos permissionários, Chef Atala, etc. Um festão, para os moldes do mercado mirradinho que Pinheiros vinha se tornando.Tem gente entre esses novos permissionários que, visionário  - já apurei - comprou 3 box de outros comerciantes para, no futuro, abrir sabe-se lá que negócio. É uma velha pratica que deveria, na verdade, acabar. O açougue Royal Meat é sócio de todos os açougues do Mercado de Pinheiros. Por que? Porque o “preço público” de locação é muito barato e, para um atacadista, é melhor ter seu estoque lá do que em qualquer outra parte da cidade. 

Claro que para nós, consumidores, seria melhor que houvesse concorrência. Do Porco Feliz, do Carnes do Cerrado e assim por diante. Mas o sistema de permissão a “título precário” tem essas distorções embutidas, além do que não existe mesmo licitação para escolha dos pretendentes. O “fundo de comércio” de um desses boxes foi vendido, para o novo permissionário, a R$ 100 mil.  Checho, aquele boliviano porreta que foi pioneiro lá, aguça o apetite de todo mundo. Torço para o mercado não virar a praça de alimentação para os funcionários de escritórios que começam a pipocar na região, aproveitando o "exótico" do mercado para fazer seus selfies. Torço para que algum dia, um prefeito passeando por Barcelona, visite o Boqueria. Devo ser um cara muito antigo, que ainda acredita que um mercado é um centro de abastecimento cotidiano, não um expositor de amenities. Acho tudo bacana, mas sinto falta de mais opções de carnes, de frangos, de peixes, de legumes e verduras. O sacolão de Pinheiros é um lixo. Há tantos outros melhores na cidade que a Prefeitura bem podia levar um para dentro do mercado. Mas prevalece lá uma lógica perversa de monopólio.

O ponto vendido a R$ 100 mil, há pouco mais de um ano “valia” R$ 60 mil. Bom negócio. Se a precariedade da permissão fosse exercida pela prefeitura não haveria essas especulação imobiliária que se agrava. O grande público não entende os meandros das leis e regulamentos, e acha que a mão cega do mercado regula tudo. Balela.O que me chateia mesmo, como consumidor e frequentador do Mercado de Pinheiros, é ver que a prefeitura, mais uma vez, não fez sua lição de casa. Todo mundo que abre um mercado - e revitalizar, refuncionalizar, etc é equivalente a abrir um mercado novo - deve estudar o público, fazer um mix de lojas, buscar quem melhor possa oferecer aqueles serviços, e assim por diante. Sendo um órgão público o “incorporador”, devia também fazer audiências públicas, expor seu projeto por inteiro, ouvir críticas, reformular e seguir. 

Nada disso acontece sob a égide da administração atual. É tudo no voluntarismo, caminhando por uma legislação falha que permite a formação de monopólios e cartéis dentro do espaço público justamente porque a prefeitura não acredita que possa manipular as permissões a título precário em prol do bem público. Como em tudo na administração pública, tende a levar quem pressiona mais,  e se você critica algo, só vê diante de si cara de paisagem... O espírito público é proporcional ao espírito crítico. E não se renuncia a um poder impunemente. Outros “poderes” se assenhoram do vazio e fazem o que bem entendem. Tá bom: uma loja prá cada bioma, mas eu não como bioma. Como mesmo bons legumes, boas frutas, boas carnes, peixes, etc. Sinto falta de uma boa loja de queijos, que abrigue a variedade de queijos da Canastra (aliás, essa serra deve pertencer a algum bioma, não é?) e assim por diante. Vamos combinar que assim seria melhor para mais gente?
 
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Carlos Alberto Dória é bacharel em Ciências Sociais pela USP, com doutorado e pós-doutorado na Unicamp, tendo estudado o darwinismo no Brasil. Possui também vários livros publicados sobre sociologia da alimentação: Estrelas no céu da boca; A culinária materialista; Formação da culinária brasileira; e-BocaLivre.
 
 


Neste primeiro de março registro a edição de número 300 das minhas “Outras Impressões da Terça”, segunda fase do exercício literário que retomei em 9/3/2010.

Sinto-me cada vez mais entusiasmado com esse compromisso semanal de refletir e expressar as questões que me afligem, desafiam e me instigam a olhar para além do meu umbigo; e me ensinam a compreender que somos parte de um processo de vida por meio do qual nos conectamos o tempo todo.

Essa prática espontânea tem me possibilitado grandes descobertas e transformações. Como tenho a liberdade de tecer sobre o que eu quiser, procuro sempre dar propósito aos meus textos e apresentá-los como uma sincera contribuição para construirmos de maneira solidária jeitos mais fraternos e respeitosos de viver.

Aproveito esse momento para agradecer publicamente a cada leitor e leitora que me acompanha nessa jornada, e em especial a querida Deise Fernandes, que leu e comentou todas as crônicas dessa trajetória. Gratidão enorme pela sua atenção, carinho e generosidade!

E para concluir declaro o meu desejo, vontade e energia de dar continuidade a esse alimento, por meio do qual nutro essa existência, com a certeza de que as minhas “Outras Impressões da Terça” permanecerão vivas por toda a eternidade.

Viva o presente e vamos juntos lapidar continuamente o nosso hoje e o nosso futuro, por caminhos os quais nos permitam ser felizes, conviver em harmonia, e agir com cooperação, respeitando e valorizando as diversidades culturais, da natureza e humanas para que possamos criar a cada segundo uma sociedade digna e melhor para nós todos e em todos os sentidos. Por aqui, fico. Até a próxima.

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Leno F.Silva é diretor da LENOorb – Negócios para um mundo em transformação e conselheiro do Museu Afro Brasil. Editou 60 Impressões da Terça, 2003, Editora Porto Calendário e 93 Impressões da Terça, 2005, Editora Peirópolis, livros de crônicas.

 


Visitei rapidamente a Feira do Empreendedor Sebrae-SP 2016, no Centro de Convenções do Anhembi. O grandioso evento que acabou hoje reuniu centenas de expositores e milhares de visitantes.

Em tempos bicudos, estimular o potencial criativo, a coragem, as boas idéias e, ao mesmo tempo, oferecer diversas formas de capacitação, possibilidades distintas de articulação, de acesso a recursos e, ainda, uma variedade de  negócios e de oportunidades ao alcance dos interessados, tudo junto no mesmo local, pareceu um modelo acertado.

A programação dos quatro dias foi extensa, distribuída, dentre outras, em Salas do Conhecimento e de Capacitação; Desafio da Moda, Sustentabilidade e Startup World; Espaço e Escola de Negócios e, para relaxar, uma sala de cinema com sete sessões diárias com direito a pipoca.

Um evento de fôlego para movimentar a cidade de São Paulo, e instigar na população que se dispôs a circular pelas alamedas da Feira, para conhecer um mundo de oportunidades ao vivo, a cores e com experimentações para todos os gostos.

No meu caso, não resisti e comprei um conjunto de seis deliciosas queijadinhas cremosas “Da Li Delicatessen”, numa embalagem charmosa e com os seguintes alertas: 1) Consumir em até cinco dias se você aguentar; 2) Recomenda-se consumir em silêncio para saborear lentamente todo o creme da forminha; 3) E mais: Muito bem feitinhas; Dos Deuses; Cuidado: Risco de Alta Paixão; Tradicional e Hummmmmm!!!!.

Boa de marketing essa empreendedora Lígia Warzée, me fisgou com a queijadinha Gourmet, de sabor, cremosidade e textura que me transportaram de volta para a infância. Adorei! Por aqui, fico. Até a próxima.

Ps: assista o video que conta um pouco da história da Dalí Delicatessen fundada pela Lígia.

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Leno F.Silva é diretor da LENOorb – Negócios para um mundo em transformação e conselheiro do Museu Afro Brasil. Editou 60 Impressões da Terça, 2003, Editora Porto Calendário e 93 Impressões da Terça, 2005, Editora Peirópolis, livros de crônicas.

 


Acabou o Carnaval e já estamos na segunda quinzena de Fevereiro, um mês curto por natureza, em um ano que ainda não começou.

Teremos pela frente pouco mais de 300 dias para superar as dificuldades e encontrar alternativas para transformar esse período de péssimas perspectivas numa etapa favorável, que permita a cada um de nós vencer, identificando e promovendo as mudanças necessárias para atingir as metas estabelecidas.

Sem desconsiderar os fatores externos, notadamente o político, o econômico, o social e o ambiental, os quais estão longe de serem solucionados a contento no decorrer desse exercício, é na esfera individual que as lutas devem ser alimentadas, na busca de força, de sabedoria e de equilíbrio imprescindíveis para enxergar as soluções adequadas que, individual e coletivamente, sejamos capazes de incorporar aos distintos aspectos do viver.

Para além do que 2016 nos reserva, e dos pesados prognósticos que ouvimos de variados especialistas, as revoluções que cada um produzir serão capazes de inspirar mudanças de atitudes e de comportamentos na sociedade.

Diferente da festa de Momo, que é efêmera, a vida é para sempre, e temos a possibilidade de construí-la e aprimorá-la a cada segundo, em um permanente exercício de aprendizados e de transformações aplicados cotidianamente a partir da consciência de quem somos, e de quais caminhos estamos dispostos a percorrer para lidar com as diferentes situações que vivenciamos. Por aqui, fico. Até a próxima.

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Leno F.Silva é diretor da LENOorb – Negócios para um mundo em transformação e conselheiro do Museu Afro Brasil. Editou 60 Impressões da Terça, 2003, Editora Porto Calendário e 93 Impressões da Terça, 2005, Editora Peirópolis, livros de crônicas.

 


Há sempre muito o que equacionar entre os sonhos e a realidade. Sobretudo no início de um novo ano. Muitas promessas e desejos assumidos, quando colocadas sobre a mesa, parecem fora do alcance.

Muitas vezes nosso primeiro pensamento é: e agora, o que  é que eu vou fazer? Não é raro perdermos o sono.

As respostas nos escapam. Mesmo assim, insistimos e continuamos nossa toada. E, ano após ano amargamos a sensação de paralisia.

Mas, o que será que nos falta?

Porque esta situação permanece?

Vamos lá, quem de vocês saberia me dizer quando foi que parou para planejar vida; quem de vocês, em algum momento sentou à mesa com  caneta e papel e registrou seus planos e depois criou uma estratégia focada com um objetivo determinado? Quem?

Não entendeu?

Você não sabe como planejar?

Planejar é tarefa difícil, porém, permite colocar as ideias em perspectiva proporcionando o entendimento de qual seria a melhor forma para desenvolver um projeto.

Vamos supor que seu nome é João. E, você decidiu que este ano vai realizar o sonho de sua vida. Você vai abrir um café. Ótimo. Inclusive já viu até o ponto. Vai abrir no shopping. Perfeito.

Não precisa nem me dizer; você investigou sobre o ambiente econômico e social, sabe exatamente quem são seus potenciais clientes e quanto eles estão dispostos a pagar por um café. Provavelmente você também investigou qual será o custo financeiro; funcionários, equipamentos, água, energia, tecnologia, impostos etc. Aposto que você sabe inclusive,  qual é a estratégia desenvolvida pelos seus concorrentes e por conta disso já decidiu a sua. Fez até um cálculo para saber quantos cafés precisará vender por dia, por semana, por mês, por ano, para pagar suas despesas e ainda conseguir recuperar o seu investimento. E mais, vou te dizer, mais do que tudo isso, você também já determinou que vai viver muito melhor daqui pra frente, não é mesmo?

Mas, será que faltou alguma coisa nesse planejamento?

Já se perguntou qual a razão que te move para abrir um café?

Pesquisas de comportamento de consumo comprovam que hoje em dia o consumidor estaria orientado para comprar o “porquê”.

Acha estranho?

Pois é, dizem que daqui pra frente a tendência de consumo está focada nas razões por trás do produto. As pessoas não pagarão apenas pelo que você faz, mas também, pela intenção embutida nele.

O significado disso é que os valores podem ser determinantes para um sucesso comercial daqui pra frente. E, além disso você precisará determinar a sua missão para esclarecer onde quer chegar. E, se você inda acredita que missão e valores são apenas estratégias de marketing ou de negócios, eu posso te dizer que é muito mais do que isso: quando você expõe sua missão e valores publicamente, cria automaticamente um compromisso, incialmente com você mesmo e na sequência com as pessoas alinhadas a sua forma de pensar. O resultado disso? Você cria o DNA do seu produto, e estabelece uma relação de engajamento com seus clientes ou público.

Estar engajado em algo maior se tornará o tempero do seu negócio que precisa ainda ter qualidade, e por último mas, não menos importante, ser sincero e transparecer.

O que? Ah, você não se chama João e nem mesmo quer abrir um café?

Desculpe, mas então quando você estiver tentando equacionar todas as dificuldades do seu dia a dia, olhando pra você e se questionando porque não sai do lugar,  tente imaginar como seria se você pudesse mudar o quadro, e ao invés de perguntar e agora, perguntasse onde eu é que eu gostaria de estar.

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Adi Leite é Life & Career Coaching certificado pela sociedade brasileira do coaching, fotógrafo e jornalista. Escreve quinzenalmente no São Paulo São.