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Numa noite recente, enquanto o sono demorava a chegar, visitei o jardim de Claude Monet. Em segundos me transportei para Paris e lá conversei com o artista daquelas pinturas maravilhosas que enchem os nossos olhos de encanto, beleza e ternura.

Sem escapar da realidade, a imaginação nos permite percorrer distintos universos. Basta escolher a janela ou a porta de entrada. Nesse meu diálogo com um dos expoentes do impressionismo pude caminhar minuciosamente pelo seu famoso jardim e observar a variedade de plantas e flores.

E mais: a minha visita o estimulou a me fazer uma tela exclusiva, a qual está pendurada numa parede imaginária que acesso a qualquer instante, e que me faz mergulhar em outras texturas.

Essa atmosfera de possibilidades me permitiu desvendar o mundo em busca de outras inspirações. Contudo, sem precisar ir a Paris é possível ter experiência semelhante, e desvendar as belezas dos jardins dos Parques de São Paulo como, por exemplo, o Ibirapuera, o da Aclimação, o do Carmo e do Horto Florestal, sem se esquecer do acolhedor Jardim Botânico.

Nessa conversa com Monet agucei a minha sensibilidade e dormi tranquilo. As cores do seu jardim agora residem em mim, bem como o sorriso com o qual ele me presenteou ao desejar boa noite. Acordei muito bem e, para os apressados, sigo vivendo em harmonia e sem qualquer diagnóstico que indique a necessidade de tomar Lexotan. Por aqui, fico. Até a próxima.

Leno F.Silva é diretor da LENOorb – Negócios para um mundo em transformação e conselheiro do Museu Afro Brasil. Editou 60 Impressões da Terça, 2003, Editora Porto Calendário e 93 Impressões da Terça, 2005, Editora Peirópolis, livros de crônicas. 

 


Segundo Heinz von Foerster, cientista austríaco-americano que combinou a física e a filosofia, "Não percebemos que não percebemos". E nesse universo das não percepções, de uma maneira geral a nossa capacidade de escuta é pouco desenvolvida, e o excesso de racionalidade nos impede de sentir e de nos conectarmos verdadeiramente com o nosso coração e a nossa essência.

Não utilizamos os conhecimentos e os diferentes recursos para repensar e resolver problemas históricos tais como injustiça, pobreza, fome, guerras e ambientais.

Desconhecemos quem somos, confinados a circunscritos espaços "seguros": trabalho, casa, shopping, condomínio fechado, entre outros, e perdemos a oportunidade de conhecer os nossos vizinhos, de perceber que no bairro tem pipoqueiro, padeiro; a senhora da lavandeira, o feirante da barraca de frutas e os jovens que adoram skate, futebol, Hip Hop e samba.

Vivemos agora situações turbulentas aqui e no mundo. Talvez fosse a nossa chance de buscar outras saídas, as quais nos permitissem construir uma nova ordem social, econômica, cultural e ambiental. Ao contrário, vimos um salve-se quem puder, para proteger a própria pele, não levando em conta que nesse planeta somos seres humanos interdependentes.

Não percebemos que somos uma sociedade excessivamente consumista, individualista, insensível, intolerante e competitiva. E não percebendo nos repetimos, até que não havendo outra possibilidade, talvez percebamos e nos transformemos. Às vezes os preços que pagamos por mudanças civilizatórios são abusivos. Mas essa é o jeito do funcionar do capitalismo neoliberal. Você já se percebeu hoje? Por aqui, fico. Até a próxima.

Leno F.Silva é diretor da LENOorb – Negócios para um mundo em transformação e conselheiro do Museu Afro Brasil. Editou 60 Impressões da Terça, 2003, Editora Porto Calendário e 93 Impressões da Terça, 2005, Editora Peirópolis, livros de crônicas. 

 


Por onde você passa, ouve queixas, lamúrias, reclamações. Então você conclui apressadamente que o povo está infeliz. Ou, pelo menos, intranquilo. Ou será que o povo anda feliz e tranquilo e você é que anda desesperado? 

Gostaria de lembrar aqui o que me disse certa vez o falecido Galbraith, aquele amigo do Paulo Henrique Amorim (creio que foram sócios em alguns empreendimentos) a respeito das aflições humanas provocadas por razões econômicas.

Eu estava saindo de um supermercado onde acabara de comprar quatro maçãs verdes por 160 cruzados (era a moeda da época). Na porta, vislumbrei o Galbraith que tentava abrir uma Paraty 82 em precário estado de conservação. O grande economista deve ter sido do tipo de homem que lida mal com chaves e mulheres. Notei que o Gal estava mais magro e cada vez mais parecido com seus avós canadenses. Balbuciei um oi e ele foi logo perguntando quanto eu pagara pelas maçãs. Curiosidade típica de economistas. Respondi e ele então explicou: 

Galbraith: No mundo real, a restrição monetária não impede aqueles que conseguiram controlar seus preços de elevar seus preços e seus rendimentos.

Tão: Quer dizer que apenas esfriar a economia não adianta? 
Galb: Não...Eles só param quando houver muito desemprego. Enquanto isso a coisa funciona de um modo bastante punitivo para aqueles que continuam sujeitos ao mercado.
 
Tão: Mas existe aí um componente perverso...
Galb: (me interrompendo): Você tem visto o Delfim?
 
Tão: Pouco. Há dias fui ao escritório dele e encontrei o professor mergulhado na leitura de um texto de pós-graduação do Mailson. 
Galb: Isso é bom. Se o povo não se esforçar para entender economia estará evidentemente entregando o poder àqueles que entendem, ou fingem que entendem. 

Tão: Mas você vê, Gal, Delfim ali, humilde, lendo um trabalho do Mailson...
Galb: Faz parte da antiga tradição hebraica que os filhos de Israel nasceram para sofrer...e emendou em seguida. Você, mesmo não sendo filho de Israel está enquadrado numa ampla política de rendas e preços. Daí suas dores e padecimentos.

Tão: O Paulo Henrique Amorim também está enquadrado nessa política ampla? 
Galb: Claro que está. Eu também estou, mon cher. Ninguém escapa. Eu poderia sobreviver com menos. Todos nós poderíamos sobreviver com menos. Eu digo nós. nós, entendeu?  
 
Tão: Mas Gal, você acha que as pessoas aceitariam viver com menos? Não haveria uma gritaria generalizada? Protestos? 
Gal: Sim, e muito. Mas você deve se lembrar que a tranquilidade social, em todos os tempos e em todos os países, sempre é promovida pelos gritos de angustia dos que estão bem de vida. Eles tem uma percepção bem mais profunda de injustiça do que os pobres, e uma capacidade muito maior de indignação. São os que estão bem que berram. Quando os pobres ouvem os berros dos ricos imaginam que os bem afortunados estão realmente sofrendo. Então os pobres ficam contentes com o próprio destino. Simples, não? 

Tão: Simples, mas meio sacana...
Gal: A boa política sempre exigiu o consolo dos aflitos, mas sempre exige a aflição dos tranquilos.
Tão: O problema é que agora parece que está todo mundo aflito. Os tranquilos estão aflitos e os não tranquilos também estão aflitos. Como é que fica? 
Gal (mudando de assunto): Você tem visto o Delfim?
 
Tão Gomes Pinto é jornalista e escritor. Atuou nos principais veículos da imprensa. Atualmente é Ouvidor-Adjunto na Empresa Brasil de Comunicação - EBC.
 
*John Kenneth Galbraith (Ontário, 15 de outubro de 1908 - Cambridge, 29 de abril de 2006) foi um economistafilósofo e escritor, conhecido por suas posições keynesianas.
**As frases "em resposta" ao Tão foram tiradas de vários livros dele.
 

Mais dia, menos dia, vocês vão pegar um Uber. Essas tranqueiras da modernidade, tipo Whats Up, Instagram, Selfies, etc... vieram para ficar. Os taxistas vão resistir, promover carreatas, até greves. Mais dia, menos dia, será autorizado. Se não for pelo Haddad, será pelo sucessor do Haddad, que será o próprio Haddad. Duvida? Quer apostar?


Na avaliação que os alunos fazem dos cursos de que tenho participado ao longo dos últimos anos, é clara a demanda por disciplinas que permitam o aprofundamento em história, sociologia e etnografia culinária; em regionalismos; biodiversidade comestível; técnicas tradicionais na cozinha brasileira;  além de orientação de leituras sobre culinária brasileira e de degustações exemplificativas.

Pois com base nessas demandas, Cris Couto, Paula Pinto e Silva, Sandro Marques, Joana Pellerano, João Luiz Máximo e eu mesmo concebemos alguns cursos que, pela nossa experiência pedagógica, caem como uma luva no atendimento às necessidades percebidas. 

São cinco novas oportunidades de encontros entre interesses e conhecimentos, em sala de aula, em ambiente de diálogo cultural. 

Boca Livre

Escola do Gosto é o nome que criei para a oferta de cursos de extensão sobre  gastronomia e     cultura culinária, em convênio com a Universidade Mackenzie. Como as  inscrições já estão abertas, quero partilhar com você, leitor do blog, essa novidade a  acontecer no segundo  semestre de 2015: http://goo.gl/7PjDyo

A Universidade Mackenzie tem sido considerada a melhor universidade não-pública do  estado e o seu curso de gastronomia é novo no mercado de ensino. Essas duas  condições, a par com o entusiasmo da equipe de profissionais e com a excelente infra-  estrutura de que dispõe, nos animaram a realizar esse convênio. 

Ilustração: João Montanaro.


Os cinco cursos oferecidos são:

Construção de uma perspectiva histórica sobre a formação da culinária  brasileira.  

O propósito do curso é proceder a uma revisão da formação da culinária brasileira que incorpore os resultados de pesquisas mais recentes, permitindo “desconstruir” o entendimento baseado nas obras mais antigas, como de Câmara Cascudo e Gilberto Freyre. O aluno será situado num quadro de referências modernas no qual se toma a culinária brasileira como se fosse um “romance de formação” ou uma necessidade a completar o discurso sobre a “formação do Brasil” a exemplo do que ocorre em outros níveis da cultura ao longo dos séculos 19 e 20 (literatura, música, pintura...). Aborda, basicamente, os assuntos de que tratei em Formação da culinária brasileira (São Paulo, Três Estrelas, 2014) e oferece degustações exemplificativas.

Introdução à cartografia da culinária brasileira: história, espaços, produtos.

Trata-se de um esforço sistemático e pioneiro para apresentar a culinária do país como um mosaico que não se explica através dos critérios arbitrários da divisão da culinária em estados e regiões (Norte, Sul, Sudeste, Centro Oeste e Nordeste), como a maioria esmagadora dos cursos de cozinha brasileira fazem. Visa lançar as bases para a criação de uma nova lógica de entendimento, relacionando diversos espaços do território brasileiro com sua literatura, história, formação étnica e culinária específica. Desse modo, pretende constituir um “mapa” que auxilie os pesquisadores na formulação correta das questões ligadas à formação e transformação da cozinha brasileira, segundo metodologia inédita entre nós.

A cultura e a formação do gosto.

Ainda hoje pouco se conhece sobre os vários mecanismos - simbólicos, fisiológicos, etc - relacionados com a formação do gosto. Por isso, o objetivo do curso é dar “chaves” introdutórias para o aluno compreender a moderna “arte da degustação” e o seu sentido cultural, a que são submetidos vários produtos comestíveis. Para tanto, parte de conceitos clássicos (o bom, o belo e o agradável) e do equacionamento da percepção dos sabores no século XIX (Brillat-Savarin) e avançar através da constituição de uma moderna teoria sobre o gosto multissensorial e como, a partir dela, se constrói uma nova lógica de produção alimentar (a gastronomia moderna). Oferece degustações exemplificativas.

O que Darwin ensina para cozinheiros e pesquisadores da biodiversidade? 

Não tem nada a ver com cursos escolares de biologia. O que se buscará tem implicações práticas. O entendimento do funcionamento da natureza e suas leis, as formas de classificação dos seres vivos etc,  é fundamental para todos que lidam com esses aspectos da realidade diretamente relacionados com ela e que queiram intervir nesses processos. Estratégias de sustentabilidade produtiva, de escolha ou melhoria de raças, de adoção de novas técnicas de cultivo - tudo isso depende de uma compreensão básica de como a natureza se constitui como sistema e como reage às intervenções humanas. O curso visa fornecer uma compreensão básica sobre a evolução e transformação do pensamento biológico de modo a habilitar o aluno a reconhecer nos seres vivos as utilidades alimentares para a espécie humana.

Metodologia de pesquisa culinária: do campo à cozinha. 

Objetiva habilitar o estudante a realizar pesquisas que redundem em melhor entendimento das ações que culminam na atividade de transformação dentro de uma cozinha. Considerando o cozinhar como um processo, visa apresentar instrumentos de conhecimento/apropriação dos seus vários momentos, passando pelas relações históricas de produção, relações sociais que enlaçam produtores e consumidores e a atividade de pesquisa culinária propriamente dita dentro da cozinha. A pesquisa, portanto, entendida como pesquisahistórica, pesquisa etnográfica (de campo) e pesquisaculinária.

Assim, achamos que estudantes de graduação e pós-graduação de várias áreas (gastronomia, jornalismo, sociologia, antropologia, história), bem como profissionais militantes, encontrarão oportunidades raras de aperfeiçoamento ao longo do semestre.

Carlos Alberto Dória, conselheiro do São Paulo São, é sociólogo, escritor e consultor de empresas. Mantém e edita o blog E-BocaLivre.

 

 

“Rádio é tudo. Queremos uma Rádio Municipal em SP”. Tuitei isso no inicio de julho, a propósito de uma noticia do Meio & Mensagem, 58% da população ouve música no rádio. Todo mundo ainda gosta de ouvir música no rádio, enquanto faz outra coisa. A música no rádio vem com algum comentário, fala-se do artista, do sucesso do momento ou da lembrança que a música traz, sempre um contexto, uma moldura para a música, uma familiaridade, como alguem que conhecemos e que conversa conosco. Penso nisso em oposição aos novos modos de consumir música, através de aplicativos no computador ou no celular, que são impessoais por mais que nos conheçam. Eu sou um tecnocrata e sei do que estou falando.

Temos experiências bem recentes mostrando que o rádio pode tecer e unir uma comunidade, especialmente da cena musical, envolvendo todos os participantes, artistas, mediadores e público, de uma forma que fortalece  e projeta essa cena musical. A onda dos artistas do Pará foi criada a partir de uma radio pública, a Funtelpa FM, que  gravava e punha no ar os artistas locais. Bastava a audiência pedir e ouvia de novo, dai vinha a popularidade, os artistas ganhavam destaque e a partir deste inicio alcançaram reputação nacional.

Aqui perto de nós, em São Carlos, a UFSCAR FM, uma radio universitária conseguiu criar audiência e relevo com uma rica programação envolvendo dezenas de programadores amadores fazendo programas semanais de suas especialidades e um sábio mix de músicas, com um ciclo de uma nova, uma velha e uma internacional. Hoje fazem parte do circuito das bandas e tem um festival importante na América Latina e no Brasil.

Por isso o rádio pode ser tão importante para a música que acontece hoje aqui. São Paulo não nos parece, mas é uma Cidade da Música, uma das mais importantes do mundo, tanto pela produção quanto pelas múltiplas audiências da música ao vivo. Temos dezenas de casas de música autoral, centenas de festas de todos os matizes, os grandes festivais do mundo convergem para cá; temos os clássicos de qualidade mundial e também os novos gêneros arrastando multidões no funk. Os novos artistas do Brasil inteiro vem consolidar suas carreiras aqui, e daqui saem para fazer turnês pelo mundo todo, artistas brasileiros de São Paulo.

Ironicamente, apesar desta pujança na música ao vivo, que deve crescer muito ainda, nada disso toca nas radios daqui. Nada de variedade, nada do que queremos. O grosso da programação está comprometido com um único gênero, o sertanejo pop de mil caras, por uma questão comercial.

Talvez, como Mário de Andrade já queria, precisemos de uma Rádio Municipal, que seja educadora e cultural, paulistana, jovem como sua população, imersa neste fluxo de talentos e criatividade que não para, não para. Uma rádio que ouça os seus ouvintes e nos mostre os saraus, as batalhas, o choro, esse tanto de música instrumental e autoral, as bigbands, rock, jazz e samba, o experimental, os esquecidos dos anos 80, dos 90, o violão brasileiro, as cantoras, que explique que Teló é chamamé, uma rádio que saiba que os grandes produtores, as parcerias e colaborações com o mundo todo mostram São Paulo em alto relevo. AM, FM e Web, afinal, todo o mundo quer ouvir isso.

Pena Schmidt em seu Blog Peripécias do Pena. 

Augusto José Botelho Schmidt é produtor musical, foi executivo de gravadoras e superintendente do Auditório Ibirapuera. É diretor geral do Centro Cultural São Paulo.