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Glória Perez, que assina, sozinha, “A Força do Querer”, a novela de maior audiência da emissora mais assistida do Brasil, a TV Globo, divulgou que já havia pensado em tratar de transexualidade desde os 1980, após ler o histórico livro em que João W. Nery conta, em detalhes, sua transição de gênero: “Erro de Pessoa - Joana Ou João?” (Ed. Record).

Àqueles idos pouco se falava sobre o assunto, embora, como verá a seguir, não seja exatamente uma novidade como fenômeno, seja no meio científico ou em alguns lares, mundo afora. Talvez porque o assunto não fosse palatável para a massa à época, executivos daquele canal decidiram abortar a temática.

A autora está colhendo frutos da retranca que levou mais de trinta anos depois. O folhetim chegou ao seu capítulo cem na última semana com o melhor desempenho em números desde “Amor à Vida” (2013) e tem tudo para atingir índices de “Avenida Brasil” (2012).  “A Força do Querer” tem 33 pontos, em média, e uma performance superior aos últimos seis enredos do horário.

Há cinco mulheres protagonistas, e um dos núcleos mais perturbadores do momento é o centralizado em Joyce (vivida por Maria Fernanda Cândido). Ela tem uma filha distônica entre o que é e o que parece ser, e começou a fazer transição de gênero, do feminino para o masculino. A audiência ficou perturbada, assim como a personagem.

Dos 31 gêneros existentes hoje, há 18 transgêneros e, por enquanto, Ivana (papel de Carol Duarte) poderia ser identificada (se ela quisesse) como non-op, ou seja, indivíduos trans que não realizaram nenhum procedimento cirúrgico.  Ainda, ao menos. Se realizar, ela mudaria de gênero, para, por exemplo, FTM (female to male). Repito: se ela, assim, permitisse.

Vamos por partes. É preciso informação, cautela e paciência para entender esse momento histórico da sexualidade, em que o indivíduo se posiciona diante do grupo, ou seja, a opinião individual sobressaindo-se sobre o alheio. Isso é recorrente em momentos de falências utópicas, quando, inconscientemente, percebe-se que a comunidade não garante a sobrevivência do uno. Vivemos essa eterna tensão entre o eu e o eles.

O processo de entendimento, aceitação e, posterior, integração social é lento, doloroso e complexo. Lembro de um amigo que me disse uma vez: “Não estou entendendo nada, e talvez não queira mesmo entender. Sou da época em que a gente só tinha dois modelos de discussão sobre sexualidade: se o indivíduo era homem ou viado, mulher ou sapatão”.

Podemos até decidir o que quisermos entender, mas não é porque não queiramos saber sobre as recentes conquistas de gênero que elas não existam. Mais que isso. Que homens e mulheres não possam ajustar seus corpos, condutas e políticas de acordo com suas necessidades precípuas. Intrigante é que mesmo em algumas religiões firmadas no livre arbítrio há discursos contrários a modificações corpóreas porque Deus assim quis.

Saiba que há registros de homens vivendo como mulheres ou mulheres vivendo como homens antes do Império Romano. Nero (37 d.C. 68 d.C.) chutou sua mulher grávida, Poppaea, até a morte, arrependeu-se e, tomado de remorsos, buscou alguém parecido com ela. Encontrou em um escravo, Sporus, essa semelhança, e ordenou a seus cirurgiões que o transformassem em mulher. Ou ele aceitava ou adivinha?

Um dos principais nomes da Teoria Queer é a filósofa estadunidense Judith Butler, professora da Universidade de Berkeley. Foto: Divulgação.Um dos principais nomes da Teoria Queer é a filósofa estadunidense Judith Butler, professora da Universidade de Berkeley. Foto: Divulgação.Há, porém, controvérsias que apimentam conceitos a respeito do assunto, que divide opiniões entre médicos, sociólogos e até mesmo nos grupos que sofrem na pele o problema. A principal delas, no momento, é a chamada “Teoria Queer”, surgida nos anos 1980.

Ela defende a controvertida ideia de que a orientação sexual e a identidade sexual ou de gênero são resultado de uma construção social. Por esse prisma, não existem papéis sexuais essencial ou biologicamente inscritos na natureza humana, como defendem biomédicos. O que existe, segundo a teoria, são formas socialmente variáveis de desempenhar um ou vários papéis sexuais.

O assunto é controvertido até mesmo entre transexuais, que têm o chamado “lugar de fala”, termo contemporâneo que defende que cada um deve saber qual lugar ocupa na teia social e deduzir, a partir disso, quando ficar calado, quando consentir e quando reivindicar, ou seja, quanto mais vítima for mais garantia de discurso legítimo. 

Há vasta literatura, cinematografia e outros trabalhos, escritos, veja você, por cis (sintônicos) e trans. O termo “transexual” surgiu em 1910, no livro “Die Transvestiten”, de Magnus Hirschfeld em 1910. Em breve chega o meu, “Construindo Daniel” (Ed. Harper Collins) e, até lá, se valer como dica: ouça, leia, observe e mergulhe para dentro antes de opinar sobre o outro. Estamos todos em transição ética.

Muito interessante esta discussão que a oposição coentro/salsinha suscita. As pessoas reagem como se estivessem num jogo de futebol entre Brasil e Argentina. É preciso ter “um lado” e só há um lado… Mas não se trata de nacionalismo e, sim, de regionalismo. O adversário esta entre nós, e precisa ficar claro, e quem não gosta de samba bom sujeito não é.

Fazia tempo que eu não comparecia a uma apresentação da Comunidade Samba da Vela na Casa de Cultura de Santo Amaro. Há anos o samba começa quando a vela é acesa e só termina quando ela se apaga. Mas o ritual, quase religioso, é apenas um ritual, pois na essência, o samba de raiz, sempre terá seu espaço, se depender dos fundadores da comunidade.

Ela se comunicava em qualquer idioma, até nos sonhos. É isto mesmo, uma ventríloqua dessa babel que é São Paulo. Quando menos pensava, tranchant – estava imitando o japonês da quitanda. Viajava para o Rio de Janeiro e voltava cheia de essix, errix e xiix na língua trançada; e quando foi para o sul, no Paraná, ficou a própria “leiteequeentee”.