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“Às vezes ouço passar o vento; e só de ouvir o vento passar, vale a pena ter nascido”. Os versos de Fernando Pessoa até parecem ter sido escritos para quem pedala e sente o soprar no rosto. Portugal é o país onde escolhi viver com a minha família há pouco mais de dois meses. E a bike, claro, não podia estar de fora desta nova etapa da vida. Procurar apartamento, resolver papeladas, colocar o filho na escola e, óbvio, comprar para todos a nova parceira de descobertas por ruas, vielas e passadiços nunca dantes pedalados por nós...

Nos últimos anos, uma série de operações policiais tem jogado luz sobre uma considerável parcela das classes política e empresarial brasileiras. As centenas  de representantes da elite econômica do país que vem estampando manchetes e monopolizando os telejornais não apenas têm tido exposta sua condição criminosa como também escancarada a mediocridade de suas respectivas existências.

Cresci, acreditando que havia uma só lei!

Uma lei única e verdadeira, que me garantia a felicidade se eu a cumprisse.

Levei umas dezenas de anos para perceber que não era assim.

Pelo menos, a lei a que me tinha sujeitado, não funcionava assim.

Algo tinha falhado.

Primeiro achei que tinha sido eu. Percebi que não e atrevi-me a pôr em causa essa lei e a tentar descobrir, pela primeira vez,os seus fundamentos.

Muitas das regras dessa lei, afinal não tinham mais que umas centenas de anos, eram fruto de uma cultura e mentalidade. Eu tinha uma visão pueril, acreditem. Estava tão convicta que estava do lado da verdade e sentia-me tão confortada com isso, que não colocava nada em causa. Apenas obedecia cegamente e sentia-me muito especial por fazer isso.

Seguiu-se um doloroso período de exploração e confirmação. Toda a estrutura que me tinha sustentado durante cerca de 40 anos, desmoronava-se e eu fiquei sem chão.

Era urgente construir novos alicerces. A procura de novas referências, que me devolvessem a mim própria e me devolvessem o equilíbrio para conduzir-me pela vida, tranquila e feliz, tornou-se uma vontade e uma necessidade. No entanto, a crença na existência de uma única lei continuava cravada bem fundo, agarrada às minhas raízes mais profundas e todas as alternativas que iam surgindo, me pareciam insuficientes, pequenas.

Pensava para comigo: onde está essa lei grande? Tão grande que não precise de mais nada para fazer andar a engrenagem do Universo e tão simples que qualquer humano a entenda e a cumpra?

O acumular de anos a olhar de lado tudo quanto se afastasse da “minha” lei, impediu-me de ver e compreender quanta sabedoria chegava até mim das mais diversas formas.

Alimentei a coragem, a curiosidade e a força de vontade com a energia da frustração e da desolação ao aceitar que “só sei que nada sei”.

A partir desse momento deixei de olhar de lado e passei a olhar de frente.

Passei a olhar de frente para tudo quanto me ajudasse a olhar para dentro.

Nem sempre foi fácil porque o juiz que tinha orientado os meus pensamentos durante anos, ainda lá estava, pronto a ridicularizar tudo quanto para mim era desconhecido, fazendo-me sentir boba, insegura e com vontade de voltar a correr para o meu cantinho onde tudo fazia sentido, mesmo que fosse doloroso, onde me sentia acolhida desde que cumprisse a lei. No entanto, cada vez que me atrevia a olhar de frente  e a ouvir com o coração eu encontrava sempre uma forma de dar mais um passo em direcção a mim. O que ia descobrindo, empoderava-me e deslumbrava-me. Eu era muito mais do que o que eu pensava ser.

Os outros eram muito mais do que eu imaginava.

Ao fim de alguns anos percebi que a lei é só uma: AMOR.

A regra é só uma: ama o outro como a si mesmo.

A primeira coisa a fazer é amar a si mesmo. Ninguém ama o próximo se não souber amar a si.

Não faz sentido essa regra de pensar nos outros antes de pensar em si, anulando-se, magoando-se, desrespeitando-se.

Isso é um insulto à sua criação.

Só na posse de todo o seu esplendor pode ajudar o próximo a encontrar  o seu esplendor, fora isso é uma manobra de charme que pode causar grande sofrimento a você e eventualmente aos outros.

Para amar a si mesmo, precisa se conhecer. E para isso também não há um único caminho, uma única lei. Podemos permitir-nos usar todas as ferramentas que estiverem ao nosso alcance para desbravarmos este caminho. Todas são válidas se fizerem sentido para você, não prejudicarem o próximo e iluminarem um pedacinho desse trilho, nem que seja para dar apenas o próximo passo.

Eu percebi que existe tanta sabedoria, alguma com milhares de anos outra bem recente. É um manancial de mapas que nos guiam todos, à sua maneira, para o mesmo ponto: quem sou eu!

Só descobrindo e aceitando amorosamente quem eu sou, consigo amar o outro como ele é.

Antes disso, não passamos de personagens mascarados, mesmo que cheios de boa vontade e boas intenções, a representarmos acções de amor ao próximo.

Deixei de procurar uma receita, e passei a aprender a ler mapas.

Uns ensinam-me a preparar para a viagem, outros ensinam-se a corrigir atalhos errados no passado, outros a descobrir de onde venho e para onde quero ir, outros a cuidar do meu corpo, outros ainda a perceber como e porque reajo dessa forma quando estou tranquilo e daquela quando estou em stress, e há inclusivamente quem me ensine a usar energia que eu nem sabia que existia, ou saber como funciona o meu cérebro ou a minha mente.

Sabemos tão pouco sobre a grandeza do ser humano, de todas as suas dimensões e sobre a forma como nos relacionamos nesta imensa rede multidimensional constituída por todos os humanos. Só de ter esta consciência me faz sentir grande, me faz sentir o milagre que é, eu estar a fazer esta experiência que é a VIDA.

Quanto mais me permito explorar todas as minhas dimensões e me abrir à visão de um mundo de paz, abundância, e felicidade, mais próxima me sinto desse lugar e mais estimulada me sinto a trabalhar para que cada vez mais pessoas expandam a sua consciência nesse sentido.

Hoje eu sei que a lei que me guiou durante tantos anos, guarda muitas virtudes e emana muita luz sobre o ser que eu sou. O desafio estava  em aprender a sentir o que dessa lei reverberava em mim. O problema foi eu não ter distinguido a sabedoria milenar que chegava através dela daquilo que não passava de regras concebidas por homens no exercício do seu poder, ao longo dos séculos. É mesmo assim, aprender a ler mapas é isto mesmo, é ler com o coração. Quanto mais próximos da nossa essência melhor e mais rápida é a leitura. Valho-me de tudo para chegar até mim, pois acredito que é o único caminho para chegar aos outros e me relacionar com eles.

Eu acredito que a Felicidade assenta no autoconhecimento e que a PAZ assenta na felicidade de todos os seres humanos.

Quem é feliz não faz guerra.

Quem é feliz sabe gerir discordâncias.

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Eduarda Oliveira é criadora do International Happiness Forum e das Viagens com Propósito, mestranda em Turismo de Interior e uma eterna apaixonada pelo desenvolvimento pessoal e autoconhecimento. Escreve quinzenalmente para o São Paulo São. 

O coração do argelino-brasileiro Karim Aïnouz balança entre sua formação em arquitetura e sua função como cineasta. Dedicado aos filmes, de vez em quando dá um jeito de unir as duas coisas como fez num dos episódios do documentário coletivo “Catedrais da Cultura”. No capítulo que ele dirigiu sobre o Beaubourg – o Centro Georges Pompidou, em Paris, prédio que virou emblema cultural – o diretor rastreia a alma dos ícones da arquitetura que o construíram.