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Li no vidro traseiro de um automóvel a seguinte frase: “99% da beleza da mulher sai com água e sabão”. Em vez de filosofar sobre o pensamento estampado, faço uma interpretação livre das possíveis razões que levaram o autor a escrevê-la no seu carro.

No dia 25 de março de 1911, cerca de 600 operários e operárias de uma fábrica de roupas de Nova York, nos Estados Unidos, estavam trabalhando, em pleno sábado à tarde, quando começou um incêndio no prédio.

Os donos da Triangle Shirtwaist Factory já possuíam um histórico de incêndios suspeitos, possivelmente para ganhar o dinheiro do seguro. Dois anos antes, a fábrica havia sido um dos principais alvos da greve dos trabalhadores da indústria do vestuário, liderada por mulheres do Sindicato de Trabalhadoras dos EUA, com a ativista de origem ucraniana Clara Lemlich à frente. O movimento pedia melhores salários, jornada de 10 horas por dia (em vez de 12) e igualdade entre homens e mulheres.

Descobri a pintura de Deborah Paiva quando vi, pela primeira vez, a imagem que abre este texto. Eram meados de 2015 e a imagem me saltou aos olhos em uma rede social, na página de uma amiga em comum. No mesmo instante vieram à minha mente, todos misturados, os azuis de Kieslowski, o cotidiano de Hopper, as cenas capturadas por Sophie Calle para sua série ‘Voir la mer’ e os bordados de Louise Bourgeois que compõem a ‘Ode a la Bièvre’. Uma bela imagem que me tocava (e ainda toca) por entrelaçar, com elegância e delicadeza, silêncio e solidão, melancolia e contemplação, intimidade e imensidão.

Ela se comunicava em qualquer idioma, até nos sonhos. É isto mesmo, uma ventríloqua dessa babel que é São Paulo. Quando menos pensava, tranchant – estava imitando o japonês da quitanda. Viajava para o Rio de Janeiro e voltava cheia de essix, errix e xiix na língua trançada; e quando foi para o sul, no Paraná, ficou a própria “leiteequeentee”.

Um estilista renomado, Reynolds Woodcock, vivido por Daniel Day-Lewis, leva uma vida confortável, milimetricamente calculada como o rigor por ele aplicado na confecção de cada uma de suas criações sob medida para as mulheres da elite britânica nos anos de 1950.