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Futebol é música nas arquibancadas de um bando de loucos. Fotos: Janice D‘Avila - “Versus“ / 2015.

Eu sou apaixonado por futebol. Torço pelo São Paulo desde que meu pai me fez trocá-lo pelo Santos de Pelé aos 8 anos de idade. Meu pai era gaúcho e torcia também pelo Internacional (“um time que aceitava negros”). Não sei o que ele viu no pó de arroz tricolor..., mas, valeu pai! Lembro muito de você quando vejo os jogos e hoje a minha agenda pessoal está feita com a tabela do Brasileirão by SPFC! Ah! Me lembrei o porquê do meu pai torcer pelo time da “elite”! O primeiro jogo de futebol que ele viu ao chegar na cidade foi no Pacaembu, e ali o tricolor foi derrotado pelo Corinthians. Ele resolveu torcer pelo perdedor, que havia feito uma grande partida! Grande Rubi (sim, Rubi era o nome dele!), sempre do lado dos perdedores. Assim como poeta Roberto Piva, que dizia que o dia em que ele vencesse alguma coisa, ele perguntaria: “onde foi que errei? ”.  Uma lição pra mim, garoto, que vai na contramão da obstinação americana que divide o mundo em winners e loosers, em pretos e brancos. Sou pelos cinzas! Pelas nuances. Pelo diálogo.

Fumar faz mal. E além de fazer mal, quem fuma alimenta uma indústria das mais perversas do capitalismo, que lucra 35,1 bilhões de dólares por ano vendendo uma substância que vicia e mata. Quem vende cocaína faz o mesmo, mas é chamado de “traficante” e está sujeito à prisão, enquanto os fabricantes de tabaco são chamados de “empresários” e são respeitados pela sociedade.

Com as facilidades tecnológicas, o slogan “Uma câmera na mão e uma ideia na cabeça”, defendido por Glauber Rocha, nos idos do cinema novo, é fácil de colocar em prática hoje.

Acordo atrasada, corro. Sem café, não saio. Fast coffee. Fast city... Goooooo faster. Marginal é o rumo. Para me manter no prumo matinal, salto das notícias para as banalidades. É mais saudável ouvir uma música instrumental ou clássica? Zapeando no dial, eu vou e vou: entre berinjela composta, zap, PUC Cogeae, zap, surge Lobão na cena, perfeito: “A cidade enlouquece sonhos tortos (...). Mas não tente se matar / Pelo menos essa noite não...”

‘Ancient visions always freeze‘. Imagem: AVAF Henzel Studio / Reprodução.

Há objetos que, mesmo produzidos com alta tecnologia, segundo um projeto específico e em escala industrial, apresentam-se aos nossos olhos com a força das obras de arte, únicas e manufaturadas. Colocam-se na relação com o observador mais como ‘sujeitos’ do que como ‘objetos’, surpreendendo por sua originalidade, emocionando por uma beleza única e instigando por subverterem padrões existentes. Esses objetos nos tiram de uma certa zona de conforto e exigem de nós um novo olhar e uma nova reflexão sobre aquilo que pensávamos conhecer.

Os tapetes criados pelo Henzel Studio são assim – questionam, testam e transcendem fronteiras que, muitas vezes, ainda persistem entre design (nesse caso, de interiores) e arte. O ponto de partida é um novo olhar sobre esse objeto, tão conhecido (?) de todos nós… E o resultado é invariavelmente arrebatador.

A empresa desenvolve projetos com designers do mundo inteiro.

Em 2013, o coletivo AVAF (Assume Vivid Astro Focus), formado por Eli Sudbrack (carioca radicado em São Paulo) e Christophe Hamaide-Pierson (francês que vive em Paris), criou para o Henzel o incrível 'Ancient visions always freeze', poética leitura sobre o desenvolvimento imobiliário na cidade de São Paulo. Com formas livres, cores vivas e alturas variáveis por blocos, o tapete mistura arte e design, crítica e observação, beleza e inovação. 

Imagem: AVAF Henzel Studio / Reprodução.Não há dúvida de que, sem excelência técnica e alta qualidade de materiais, seria impossível materializar em lã traços e cores que mais parecem ter surgido de pinturas, grafites e aquarelas. Mas se esses tapetes falam à nossa alma é porque, por trás dessa excelência técnica e da qualidade dos materiais, uma outra alma se lançou a eles disposta a transformá-los num novo meio de expressão. Para tanto, questionou o convencionalismo, subverteu padrões, usos e finalidades, e com isso redefiniu não apenas um novo universo de cores, imagens e tratamentos para esse objeto, mas também a relação que podemos estabelecer com ele.

Inquietude, inconformismo e paixão são ferramentas fundamentais para abrir nossa mente e nosso coração, permitindo que nos lancemos ao novo. E nossa alma precisa do novo – (re)descobrindo formas, cores, usos e relações, podemos criar e desfrutar, a cada dia, de novas fontes de beleza e prazer.

Exposição do Henzel Studio na Tanja Grunert Gallery de Nova York. Foto: Reprodução.Para conhecer mais acesse: http://byhenzel.com/


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Valéria Midena, arquiteta por formação, designer por opção e esteta por devoção, escreve quinzenalmente no São Paulo São. Ela é autora e editora do site SobreTodasAsCoisas e sócia do MaturityNow

*Texto editado e atualizado, a partir do original publicado no blog SobreTodasAsCoisas