“Todo mundo nu, oba!“ - São Paulo São

A noite prometia. Havia ido ao cabelereiro e pela primeira vez pintei as unhas das mãos e dos pés de vermelho. Soltei o cabelão, vesti aquele jeans justo uma blusa decotada nas costas e zarpei no seu Fusca branco para a baixa Augusta. O rumo: Pirandello para encontrar com amigos. Isso era nos anos 80.

Ao chegar lá vi que deveria ter alguma coisa especial, tal era a muvuca com tanta gente. Ao entrar percebi que era a vernissage da fotógrafa Vânia Toledo, inaugurando sua exposição de nus masculinos nas paredes. Não eram fotos pequenas, mas grandes o suficiente para cobrirem as paredes. Procurando por amigos encostei no balcão e pedi uma caipirinha. Ao meu lado um balzaco de barba grisalha ao ver-me pegar o copo com as longas unhas vermelhas me perguntou, me diga só para eu te entender melhor, vermelho também estão suas unhas do pé? Eu disse que sim, dei um sorriso e pensei, mais um com fetiche de pé. Sai de lado para ver outros por lá.

Encontrei Luis Carlos Daher e outros amigos e sentamos para apreciar os peladões. Eram só famosos: Caetano Veloso, Nuno Leal Maia, Ney Matogrosso, Walter Franco, Roberto Carvalho, entre outros tantos, mas havia um mais bem dotado do que todos, era Gerald Thomas, para mim mais um ilustre que se destacava dos demais.

Nas mesas o papo era engraçado, os caras mediam os seus falos pelas fotos...estou entre o Caetano e o Ney Matogrosso, só para fazer bonito, outros diziam, o meu prefiro encobrir, como fez o Walter Franco só mostro para quem me interessa.

As garotas curtiam muito serem assediadas por tantos biláus confessos de tamanhos sempre maiores do que os das fotos, ou mais grossos ou mais finos.

Naquela noite teve muito pezinho rolando em baixo das mesas, que depois terminaram a noite num daqueles motéis da Raposo Tavares, que na época era conhecida como a Rodovia do Amor. Afinal sexo pulsava nas paredes do bar e sexo rolava na cabeça, corpo e membros dos que lá estavam.

Soubesse a fotógrafa Vania Toledo, o quanto colaborou com os tais nus masculinos para liberar a noite de todos que passaram pelo bar naquela exposição poderiam cobrar mais caro a permanência dos casais no local. UAU “na madrugada rolava um som tocando Big Brother sem parar”...e Tim Maia fazia fundo musical..”A noite vai ser boa, de tudo vai rolar...” E foi bom, meu bem... 

***
Marina Bueno Cardoso, jornalista, trabalhou na imprensa em São Paulo e na área de Comunicação Corporativa de empresas. É autora do livro “Petit-Fours na Cracolândia”, Editora Patuá. Publica crônicas quinzenalmente no São Paulo São que são replicadas no site literário www.musarara.com.br