Entre tintas e cimento, o amor - São Paulo São

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A vida com meus pais separados me levou a uma nova rotina. Aos domingos, ao invés de ir para a casa da avó materna, onde se reuniam todos os 13 netos, ia agora com meu irmão para a casa dos avós paternos – éramos únicos netos de um filho único. Meu avô, que fora professor da Poli, juntava tudo o que poderia fazer uma menina feliz: papel, lápis de cor num estojo gigante, tesoura para fazer toalhinhas de papel rendadas e quadradinhos de papel, de onde aprendi a fazer dobraduras, e o que meu avô mais gostava: o Tangram, um jogo cheio de formas geométricas.

A comida era sempre especial. Noêmia, a cozinheira, fazia junto com minha avó uma tal de “Torta Paulista”, sua especialidade, que mais parecia uma focaccia de queijo e presunto.  No final de tudo, junto com o café dos adultos, havia chocolates em formas de frutinhas e marzipam, em barrinhas, coisa da herança vienense da avó. Meu pai participava de longe, sempre lendo e ouvindo música. Adorava Bach e havia comprado o LP de Vinícius com Odete Lara. Como lá era onde ele morava, agora separado de minha mãe, tinha discos e mais discos que tocava numa vitrola portátil, a novidade da casa, que há pouco tempo recebera uma televisão – e essa meu avô assistia como sessão solene, exigindo silêncio e pouca conversa para não atrapalhar. 

Foi num final de tarde que meu pai anunciou: naquele dia não me levaria para a festa da colega de escola, iríamos numa grande construção onde uma surpresa me aguardava. Fiquei encasquetada. Afinal, numa obra, só se fosse para brincar na areia. Grande coisa!... Areia onde gato e cachorro fazem xixi e coco. Mal sabia eu... Antenado com tudo o que acontecia na cidade, meu pai preparou este dia em segredo: fomos à construção do que seria depois de alguns anos a FAAP, em São Paulo.

Para meu deleite, os artistas plásticos da época fizeram do canteiro de obras um verdadeiro atelier para os pequenos: cartolinas enormes, papel Kraft gigante e tintas de todas as cores que se possa imaginar, muito além do arco-íris.

Timidamente, fui largando da mãozona forte de meu pai, que me transmitia tanto carinho e segurança, e extasiada de tanta alegria acabei pintando tudo em tamanho gigante: a casinha de duas janelas virou um casarão com duas chaminés que soltavam fumaça rosa; o céu metade era dia – com um sol sorrindo –, metade era noite – polvilhada de estrelas, canteirinhos com flor, patinho, pintinho e até elefante. E, ainda, duas meninas no balanço, em pé, voando no balangar. 

- Olha! Olha, pai. Olha como está ficando lindo. Agora vem cá para jogarmos purpurina! 

Tão entusiasmadas quanto eu, as crianças ao lado ficavam, cada uma, dando pitacos nos desenhos das outras, ora colorindo o telhado da casa de roxo, ora colocando bigode na cara da vovó ou do cachorro maior que a velhinha... De repente, estávamos todos não só com as mãos melecadas e coloridas, mas o rosto, os joelhos e as roupas – que ninguém lembrou que eram novas, de festa, e não para brincar com tinta.

Meu pai, de longe, fumava seu cigarro, papeando com jovens casais que apontavam: – Aquela é a minha filha. – Aquele é meu sobrinho. – Aquele é meu enteado. Cada qual exibindo a sua cria com orgulho e carinho.

Foi uma tarde inesquecível no canteiro de obras daquele predião. Sim, eu sabia que ia ser um predião. Havia andaimes altíssimos, tratores, caminhões com muuuitos tijolos e cimento. Mas quando conto para os outros sobre tal tarde de domingo surge uma lágrima nostálgica, de saudades daqueles finais de semana na cidade que crescia. Saudades da menina que de mãos dadas com o pai descobria o mundo e seu colorido.

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Marina Bueno Cardoso – Jornalista, foi colaboradora da Folha de S.Paulo, Nova, Playboy, 4 Rodas e cronista do Jornal da Tarde. Atualmente ministra a Oficina Ler é Viver, de criação literária na Escola Lourenço Castanho. Publicou em 2015 “Petit-Fours na Cracolândia” pela Editora Patuá.