Enfezada melancólica - São Paulo São


Você conhece a história dos três meninos discutindo sobre qual era o animal que cada um queria ser? O primeiro falou: um jacaré, com uma boca enorme que trucida tudo; o outro disse: eu queria ser o leão, com sua juba e sua força é o rei da floresta; o terceiro quis ganhar de todos: eu seria um novo animal, único no mundo, o jacaleão, com a bocona do jacaré de um lado e a cara e meio corpo do leão do outro.

E, então, o primeiro menino retrucou: mas não dá! Se esse bicho tem duas bocas, uma de cada lado, ele come muito, mas não faz as necessidades? Vai ser o bicho mais enfezado da floresta. Bravão, não! En-fe-za-do: entupido, constipado, com fezes, entendeu?  

Lembrando da historinha, pergunto: Você já se sentiu enfezado? 

Você deve estar murmurando em tom de crítica: - Ah, que papo mais escatológico, absurdo!  Mas insisto: isso acontece muito. Entre as mulheres este problema é bem comum.  Não é difícil ficamos dias com a barriga estufando de um tanto... Me lembro da personagem da Dona Redonda, que simplesmente explodiu! E me inquieto: seria este o meu fim?

Enquanto escrevo estas linhas, me recordo de um ótimo poema de Celso de Alencar. Recorro ao livro e leio o trecho em questão: “Mamãe, eu não estou conseguindo respirar/Abra rapidamente meus pulmões... Estou vendo crianças chorando com desespero/ sob a marquise da farmácia./ E meus dedos, olhe bem... Então ele levou as mãos à boca/ e começou a morder os dedos./ Mastigava-os repetidamente./ Mastigava-os com uma brutalidade enorme... Está morto entre nós/com o estômago cheio de pedaços de dedos/que lhe servirão para acalmar as fomes/que brotam no estômago”.

Esse poema era o que me faltava. Comer os dedos para ver se algum corpo estranho saia por algum orifício e desse alívio. .Já me senti assim, acreditam? É que tenho esse problema de constipação desde criança, quando tomava óleo Nujol (arght, nojento!), o mesmo que passávamos no corpo, com iodo, nos anos 70, para nos bronzear.

Há um mês e meio, em consulta com o Gastro do meu convênio, fui informada que alimentação nada tinha a ver com esse problema. Fiquei pasma, mas como não?  E assim, o tal Doutor, o “sabe tudo/sabe nada”, me deixou ficar seis dias – isso mesmo, meia dúzia de dias – entupida, enfezada. Eu, que não sou jacaleão, fui parar no Pronto Socorro, é claro. A gripe era a tônica do local, com muita gente sem respirar, tossindo bastante. Porém, o meu sintoma era outro, e quando o enfermeiro perguntou o que eu estava sentindo, respondi: – Se não resolverem meu problema agora, explodo. E vai voar mierda, entendeu? 

Naquela noite fria, sentindo as mãos geladas, os pés idem, e o corpo nem se fala, fiquei três longas horas num quarto com temperatura siberiana, submetida a um procedimento lastimável, e nadica de nada do efeito esperado acontecer. Estava quase “comendo os dedos”... Mas, que nada. Zero! Ao invés de sair, só entrou. Help me Doctor!

O episódio foi sofrido, mas sem reprise, porque dei bye bye para o Gastro do convênio (o doutor meia boca) e fui num médico fera feríssima que, analisando bem meu quadro, foi direto ao ponto: - Faz parte da crise de abstinência da nicotina.

– Cuma?! 

E ele explicou: - Você deixou de fumar há um mês e cigarro estimula tudo no organismo, inclusive o remelexo intestinal. 

Ele me pediu coisas simples, mas eficientes: continuar a ser um chafariz, bebendo de dois a três litros de água por dia; andar no mínimo meia hora por dia; abusar das escadas do meu prédio, como se fosse treinar para as Olimpíadas; e, além de frango, peixe e legumes refogados, incluir na dieta as mágicas folhas cruas verdes, com muito azeite e do bom, alecrim ou manjericão ou, why not, trufas!

É..., acreditem amigos solidários. O Dr. Marcel, Gastro fera, me acalmou, falou que eu não comeria dedos, não explodiria tal qual Dona Redonda e que tudo ia sair bem, quer dizer, pelo lugar certo – nada de orelha, boca, umbigo. 

Fiz tudo o que ele mandou, acatei a recomendação das 40 gramas de fibra por dia e. fui feliz. Sim, amigos, fui veramente feliz e minha vida se modificou. Não enlouqueci, não voei, não explodi. Fui feliz a partir daquele dia e todos os dias. Agora fechem a porta porque é minha intimidade, e não sou mais uma enfezada melancólica. Agora sou feliz, simples assim.

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Marina Bueno Cardoso – Jornalista, foi colaboradora da Folha de S.Paulo, Nova, Playboy, 4 Rodas e cronista do Jornal da Tarde. Atualmente ministra a Oficina Ler é Viver, de criação literária na Escola Lourenço Castanho. Publicou em 2015 “Petit-Fours na Cracolândia” pela Editora Patuá.