Loucura e sanidade. Onde? - São Paulo São

Por Marina Bueno Cardoso

Sendo eu filha de psiquiatra, aprendi com meu pai, desde pequena, que a loucura faz parte de todos nós. Ainda garota, fui ensinada a atender o telefone e, quando fosse paciente, perguntar nome, anotar o número que era para ligar de volta e perguntar se era urgente. Menina, ainda, convivia com ligações sinistras com voz embargada, gente chorando, perguntando se ele demoraria muito para chegar. Pessoas que não estavam bem e precisavam ouvi-lo. Alguns deles já me chamavam pelo nome, tal a intimidade que mantínhamos, e eu, às vezes, chegava a falar “não chore, ele vai te ligar”.

Dr. Cardoso era como o chamavam; os mais íntimos, Cardozão, pela altura de 1m93 peso-pesado. Há muitos anos, quando tive o prazer de conhecer Dulce Maia, irmã de Carlito, meu querido mestre na vida, ela falou no ato de nossa apresentação: - Marina Bueno Cardoso? O que você era do Dr. Cardoso?

Foi um prazer enorme ouvir de Dulce que meu pai a livrou da sonoterapia. Motivo: em plenos anos 60, militante política, com vida agitada, ela chegava em casa às 3 da manhã e às 6 já estava de saída novamente.  A família achava que ela não estava batendo bem, pois quase não dormia e sua mãe pensou numa sonoterapia. Mandaram-na para uma consulta. Meu pai, contou Dulce, ao se inteirar da situação, só falou uma coisa: - Tranquilize seus familiares. Elegante como é, parece que você veio da Rua Augusta (era auge para as moças da época), e não de uma manifestação. Entenda que sua mãe está preocupada com você, com sua segurança. Só isto! Então, diga a ela que você está bem e faça o que quer.  Se não quer ir para a Europa, se quer ficar militando, seja feita sua vontade, mocinha. Se for nisto no que acredita, siga adiante! Você não tem nada de errado, pelo contrário, está ótima. 

Dr. Cardoso era um homem de sua época. Vivia o dia dividindo aulas na USP e consultório, e amava música, filosofia e política. Fazia parte da Sociedade dos Amigos de Bach e, como contraponto, fazia coro na noite de SP, entre o João Sebastian Bar, o Clubinho e o Rosa Amarela. Era o início da Bossa Nova e ele, boêmio como o quê, ia para a noite. Quando ficava em casa, à noite, era com um uisquinho na mão e com o som rolando solto na vitrola que havia comprado para ouvir LPs de Vinícius com Odete Lara, Elizete Cardoso e outras feras.

Nos finais de semana, ele já tinha seu destino traçado pela manhã: visitar os pacientes que estavam internados. E eu ia junto: Sanatório Santa Catarina e Sanatório Morumbi. Sabia que iria ver algumas pessoas tristes, outras nem tanto. Era fato o quanto adoravam receber a visita de meu pai, sempre me segurando com aquela mãozona. Eu tinha meus 6 para 7 anos e todos faziam muita festa para mim. Quer coisa melhor do que ganhar balas das enfermeiras ou subir em pé de Jabuticaba carregada? Aquelas pessoas estavam ali para descansar do mundo, dizia meu pai.

Éramos todos iguais, loucura e sanidade se confundiam. Havia pessoas sãs, mas que nem por isto eram boas ou tinham atitudes decentes, e havia muito maluco beleza, com ideias confusas, mas que tinham bom coração, ele me ensinava. O limite de cada um estava em ser digno de sua liberdade, agir de acordo com princípios de ética que não ferissem os outros. 

Foi assim, aprendendo que às vezes é preciso pedir, por favor, para o mundo parar de girar para a gente descer, que entendi que a loucura não é uma ameaça, pois, como diz o poeta, “de perto ninguém é normal.”

Mas como seria bom se existissem fórmulas como uma das que decorei garota, “isopropil tiofenil piridilamina”, (acho que era uma pomada) ou algum nome mais fácil para batizar uma fórmula em que liberdade e uma dose de loucura caminhassem juntas – afinal, é o que move o mundo.

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Marina Bueno Cardoso – Jornalista, foi colaboradora da Folha de S.Paulo, Nova, Playboy, 4 Rodas e cronista do Jornal da Tarde. Atualmente ministra a Oficina Ler é Viver, de criação literária na Escola Lourenço Castanho. Publicou em 2015 “Petit-Fours na Cracolândia” pela Editora Patuá.