Univitelinos e siameses - São Paulo São

Os dois rapazes de 20 e poucos anos seguiam a Rua Teodoro Sampaio. Eram gêmeos idênticos, daqueles univitelinos. Além dos traços do rosto e do corpo vestiam roupas muito simples também iguais – calça jeans e camiseta cor de rosa bem surrada.

O que caminhava à frente tinha um andar capenga, um jogo de braços que se alternavam para o alto e para baixo e o olhar para o chão, parecendo meio desorientado. Quatro passos atrás vinha o outro,o irmão firme como uma rocha, como se tivesse amparando à distância o irmão desajeitado. Coisas que só gêmeos entendem entre si, quando um precisa de ajuda, o outro já sabe.

Achei estranho quando os vi, pois eram dois adultos idênticos com a mesma roupa, coisa que só havia visto em gêmeos quando bebês, que as mães vestem, geralmente, com cores diferentes, mas o mesmo modelo. O que acho uma aberração, mas isto é outra história.

Namorei um gêmeo idêntico ao irmão quando era adolescente. No início achava-os iguais, na fisionomia e no porte atlético, pois eram campeões latino-americanos de pólo aquático. Conheci Gilson e Gilberto por intermédio de uma prima mais velha e, no início, quando não conseguia dizer quem era quem, faziam mil brincadeiras comigo trocando de nomes. O irmão do namorado vinha me xavecar e na hora do vamos ver chegava o outro e daí não entendia mais nada quem era quem. Pareciam siameses descolados tais eram as semelhanças desde o tom de humor até a voz. Com a convivência passei a distingui-los: Gilson era mais tímido que Gilberto, o nariz de Gilberto era maior, e sua risada era inconfundível.

Além de gêmeos eram grudados, irmãos de fé. Onde um ia, seguia o outro como se fosse sombra. Não, nunca os vi com roupas iguais, porém na piscina nadando com touquinha, não dava para distingui-los. Eu que pouco conhecia de pólo aquático, quando ia assistir aos jogos, não sabia para quem torcer. No final, como ambos eram feras, elogiava os dois, era o jeito. Nos divertíamos muito com eles. Dois queridos do passado.

Como será que se sentem gêmeos siameses, de fato, após a cirurgia de separação? Para irmãos assim, que compartilham órgãos por meses, às vezes até por anos, a forte conexão entre os dois deve se manter mesmo com o desgrudar dos corpos. Será?

Sei de casos de gêmeas não idênticas que são de arrepiar. Um deles é o de Adriana e Renata, que foram minhas colegas de ginásio e são minhas amigas até hoje. No colégio, as irmãs Caruso eram impecáveis: blusas engomadas e saias super bem passadas. Sempre andavam juntas quando garotas. Passou o tempo, uma se tornou médica e a outra, empresária. Renata, a médica, é mais contida nos gestos e nas palavras; Adriana fala alto e tem uma gargalhada de entusiasmar.

Há alguns anos, Renata teve um acidente grave esquiando na neve, no Colorado. Ela correu risco de morte e de ter que amputar uma perna. Não é que Adriana passou mal no mesmo momento em que Renata teve o acidente? Começou a chorar sem saber o porquê. No dia seguinte estava triste e cancelou uma viagem. Continuou indisposta por 10 dias, até que soube do lamentável drama que passava sua irmã, nos EUA. Pressentimento? Energia imanada sem plena consciência? Sabe-se lá, coisas que só a extrema afinidade explica.

Não me lembro delas vestidas iguais, só no colégio, pois era uniforme. O fato de serem irmãs iguala algumas emoções vividas pelas duas, mas, segundo uma delas, a convivência entre gêmeas é uma relação distinta da que elas têm com os outros irmãos. Coisa que vem do período de nove meses que passaram juntas como se fossem únicas.

A diferença entre uma e outra é grande na fisionomia e jeitão – uma é mais protetora e enérgica, a outra mais despachada e leve nas emoções – mas, tal como os gêmeos univitelinos da Teodoro Sampaio, uma ampara a outra, sempre. União é o mote delas.

A grande ligação entre Adriana e Renata repete a união entre sua mãe, Mafalda e a tia Yolanda, gêmeas univitelinas. Sua mãe estava de férias em Poços de Caldas quando do nada falou: Vamos voltar já para São Paulo, alguma coisa séria aconteceu com minha irmã. De fato, Yolanda tinha sofrido um gravíssimo acidente de carro, não encontraram seus documentos, foi dada como morta e ficou numa ala de indigentes aguardando a família. Foi quando Mafalda a encontrou no Hospital das Clínicas e junto com médicos viram sim que ela estava viva, e foi graças a ela que tomaram todas as providências e Yolanda se salvou.

Mas há casos de gêmeas univitelinas, como as duas australianas que a união chega às raias do absurdo. Quando uma fala, a outra fala ao mesmo tempo, vivem juntas, são adultas e até os pais não as chamam pelos nomes, mas por Twinny. Quando uma operou do apêndice, a outra na semana seguinte teve que fazer a mesma cirurgia. São idênticas, trabalham com uma associação protetora de animais e nem a Medicina explica as emoções que ambas convivem. Gêmeas como estas são prato cheio para psicólogos estudarem...E como!

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Marina Bueno Cardoso – Jornalista, foi colaboradora da Folha de S.Paulo, Nova, Playboy e 4 Rodas; cronista do Jornal da Tarde entre 1993 e 1995; trabalhou com Comunicação Corporativa. Publicou em 2015 “Petit-Fours na Cracolândia”, com Prefácio de Ignácio de Loyola Brandão pela Editora Patuá