Domingo, cidade desnuda - São Paulo São

Domingo. Oito e meia da manhã. A cidade grande parece preguiçosa. Primeiros atletas de fim de semana começam a correr pela Av. Paulista deserta. Esquinas: os sem teto dormem após os medos e frio da noite passada. Parece outro lugar.

Desconheço meu casco de paulistana. Meninos que acordam cedo levam pets para o xixi matinal e, assim, algumas mães livram-se da primeira jornada xixi coco dos cãezinhos que os meninos estimam e elas cuidam.

Hospitais espreguiçam-se. Doentes já tomaram café da manhã às 7hs. Não quebrei braço ou perna, mas vou ao pronto-socorro cuidar de uma dor que, fico sabendo lá, resulta de uma tendinite. Males do exercício sem constância e que levam a gente a se esbarrar na farmácia. Pais aflitos compram remédios de bronquite para os filhos. São dois, a mudança de tempo ajudou a piorar o quadro da garotinha.

Estou feliz. Navego com minhas quatro rodas por avenidas que se mostram largas. É SP, domingão matinal de dia frio. Bom se pudéssemos  aproveitar também durante a semana as áreas que a cidade oferece. SP parece um despejo de carros, ônibus e gente, muita gente, transitando e ocupando todos os espaços.

Meu espaço é tranquilo. Thank’s God. Dentro de casa o máximo do barulho é o casal de cima que bate pregos aos sábados ou resolve trepar. Creio que consertam cama para fazer um segundo turno.

Passear pela cidade que dorme me dá muito prazer. Prazer igual ao que tem um fotógrafo conhecido, que há anos não viaja no final do ano só para ter prazer em clicar a cidade desnuda de seu recheio.  

Desligo o rádio do carro para ouvir os ruídos da cidade. Ainda não tem aquele reverberar do trânsito, do vozerio, das buzinas. No farol apenas a florista prepara sua mistura sui generis de bico de papagaio com rosas. Vai passar o dia pescando freguês com este buquê.  

Dona do meu caminho, me sentido mais dona da cidade que faz eco, não percebo o passar das horas foram se passando e resolvo dar um pulo no Ibirapuera. Esqueço que é domingo. Esqueço que SP mesmo com frio gosta do verde ausente e que o parque – verdadeira ilha na cidade – naquele horário, já estaria lotado.

Caminho inverso, mergulho nos afazeres de fim de semana, procurando algo para o almoço, desejando fartar a curiosidade por novos sabores. Prefiro não entrar na fila dos fatídicos frangos assado semi-prontos e quando vejo estou com o carrinho cheio de tudo e de nada. O tudo para a semana e o nada para uma boquinha. Desisto. O trânsito por lá é grande. Vou para casa e chamo amigos para uma salada especial com peixe assado.

Após o almoço e as despedidas, mergulho no silêncio que me dá apetite para ouvir e ouvir sons que só o silêncio e a preguiça de um domingo de frio permitem. Toca o celular: chamada a cobrar... – Pode vir no feriado? Floripa te espera! Sossego e carinho situado a onze horas de distância só para rever paulistano du cuore que foi em busca de semanas semelhantes aos domingos de paz. Na cabeça já estou longe de SP. É domingo e isto me basta.

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Marina Bueno Cardoso – Jornalista, foi colaboradora da Folha de S.Paulo, Nova, Playboy e 4 Rodas; cronista do Jornal da Tarde entre 1993 e 1995; trabalhou com Comunicação Corporativa. Publicou em 2015 “Petit-Fours na Cracolândia”, com Prefácio de Ignácio de Loyola Brandão pela Editora Patuá



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