Fobias no trânsito - São Paulo São

Sim, estou na Avenida Cidade Jardim e no meu percurso tenho que descer para o túnel Max Feffer, de modo a sair lá na ponte. O túnel em questão é curtinho, o que atravessa o Ibirapuera é bem pior. Odeio túneis. Com as janelas do carro fechadas faz aquele barulho que parece corrida de Fórmula 1, o vrumvrum dos automóveis, e ainda há um sujeito com bicicleta e duas motos ziguezagueando.

A velocidade indicada é de 50km/h, mas todos piscam faróis como se tivessem que passar lá voando. Vem um louco e cola em mim, e eu – que tenho fobia a túnel, mas também muitos pontos na carteira de motorista – mantenho os meus 50 km/h. Quando surge a luz no fim do túnel nem acredito, ufa! Sai inteira!

Meu primo, com toda sua experiência no alto de nossos 13 anos, me ensinou a dirigir no Guarujá, num tempo que as ruas do Jardim Virgínia eram de areia. As aulas aconteciam numa Kombi de meu tio. No início, íamos dirigir na praia do Perequê, que era deserta e só havia pescadores na hora em que voltavam do mar. Depois fomos ganhando confiança e, enquanto meus tios dormiam após o almoço, roubávamos a chave da Kombi, meu primo lotava o carro com a criançada do bairro e rodávamos a mais não poder. Um perigo! Loucos por adrenalina, o bacana era quando a perua encalhava no areião ou quando pegávamos uma reta, e meu primo, acompanhando o velocímetro subir, ia gritando: – 50, 60, 80...!!! Olha o risco que aquela gurizada corria! De certo, algum santo estava conosco, pois nunca aconteceu nenhum acidente.

Depois destas férias não guiei muito mais, mas passeava em carros que achava estranhos: o Ford Gálaxi branco de minha avó, com o motorista simpático, o Seu Nascimento (e eu tinha muita vergonha daquele carrão enorme me buscar na escola). Depois, quando tinha meus 16 anos, meu irmão e um amigo compraram em conjunto um Ford bigode verde, sem capota, e que tinha um sabugo de milho para tapar o radiador. Era ótimo passear com toda a turma do Jardim Paulistano pela redondeza que, à época, não tinha trânsito. Lembro-me também da Romiseta dos amigos Petit e Zelito.  Era uma belezinha, e nos revezávamos para passear com o piloto da vez.

Lembranças à parte, o fato é que dirijo mal na cidade. Na estrada vou bem, só não gosto de atravessar túneis, já disse. Na Imigrantes, a engenharia optou por vários e longos túneis, uma tragédia para mim nas idas para o litoral. Imagino sempre que vão parar todos os carros e ficarei lá, me sufocando de gás carbônico ou, então, que aquele troço vai desabar e vou ficar lá, soterrada.  De duas uma, quem me garante que não? Dentro desses buracos recondicionados me passa tudo pela cabeça. Imaginem se eu fosse para Noruega, que tem o túnel Laerdal, com 24,5 km ligando Oslo à Bergen. Teria uma síncope no meio da travessia, só de imaginar que mil metros de montanha estão acima da minha cabeça. Ai, que sufoco! 

Além do longo túnel da Noruega, soube que foi inaugurado um túnel ferroviário, o maior do mundo, na Suíça. O túnel de base de São Gotardo. Nada menos que 57 km. Socorro! Mesmo que estivesse dentro de um trem sentiria aflição no peito nessa travessia. Só de imaginar já sinto. Não, realmente não combino com esses buracos longos e profundos. Não nasci para ser tatu, definitivamente.

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Marina Bueno Cardoso – Jornalista, foi colaboradora da Folha de S.Paulo, Nova, Playboy e 4 Rodas; cronista do Jornal da Tarde entre 1993 e 1995; trabalhou com Comunicação Corporativa. Publicou em 2015 “Petit-Fours na Cracolândia”, com Prefácio de Ignácio de Loyola Brandão pela Editora Patuá