Romance chapliniano - São Paulo São

Festa animada, de fim de ano, à fantasia. Com que roupa eu vou? Ela foi de freira de um padre só: um espartilho preto, meias pescador e véu completo na cabeça, com direito até a toquinha. Uma boca de strass delineada na testa e muita maquiagem no rosto.

Para não ficar muito putana, jogou por cima do corpo aquele pano que cobre o hábito e se enrolou num cinto também de strass. Olhando-a de frente não se via nada além do desenho fluorescente na testa, os olhos bem pintados e o vermelho cheguei do batom. Olhando de lado, pernas insinuantes e o espartilho negro.

Entusiasmo, agitação geral, fantasias das mais produzidas, algumas improvisadas, outras convencionais, mas todas com uma certa bossa. Era o caso dele. Quando olhou para a pista de dança e viu aquele “portento sarado” com pinta de marinheiro da Cote d’Azur não resistiu. É lá que eu vou, decidiu.

Tudo ótimo, música alegre, muito balanço e ela começou a dançar na frente dele, sempre sorrindo. Ele sorriu também. Com o som rolando alto, era impossível ouvir uma só palavra. Ele fez um gesto de “dá um tempo, vou pegar uma bebida”. Voltou com dois uísques, coisa para pegar pesado, e ela já tinha bebido em casa, antes de ir para a festa. 

Começaram a dançar juntos. A coreografia parecia sincronizada, até que o marinheiro começou a se chegar e resolveu abraçá-la. Balanço bom, dançando abraçada, pode? Pode. Beijos na nuca e ele ainda deu uma mordiscada na orelha dela, que era o seu ponto. Foi a conta. 

Os amigos que a acompanharam na festa já estavam indo embora. A freirinha safada perguntou para o marinheiro tentação, aos berros, para poder se fazer ouvir:

- Você me dá uma carona? Ele sinalizou sim com o polegar. Fim de festa, eram os últimos. Tinham mamado quase uma garrafa de scotch. Saíram da pista e foram para a sala. Foi quando ela perguntou o nome dele. Ele até tentou responder, mas não deu. Bebassa e imaginando que ele estivesse rouco, ela perguntou de novo. E, então, o marinheiro fez cena de amor de cinema mudo com final melodramático: levou o dedo indicador à boca, fazendo sinal de negativo. Sim, ele era surdo-mudo. Lia bem os lábios.

Completamente sem jeito, ela perguntou:

- Vamos? 

Foi o Ó indicar onde ela morava, mas chegou em casa. Por força do hábito, se despediu com o típico “a gente se fala, fique com meu telefone”. Só depois é que se deu conta: Telefone pra quê? Como ele vai falar? Naquela época não existia zapzap.

A noite foi demais... funcionou o toque, o tato, o olfato, o olhar. Nada como ter quase todos os cinco sentidos.

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Marina Bueno Cardoso – Jornalista com passagens pelos principais veículos da impresa, publicou em 2015 “Petit-Fours na Cracolândia” pela Editora Patuá. Escreve quinzenalmente no São Paulo São.