De Aix en Provence para o São Paulo São: “Os povos são generosos e os franceses também“ - São Paulo São

É com imenso prazer que anunciamos a estreia do consultor e escritor francês, Pascal Launay, como novo colunista desse portal. Conhecido por sua visão inovadora para a gestão de recursos humanos, Launay é um respeitado especialista em direito econômico e social. Militante de causas que promovem o desenvolvimento e o progresso humanos, aconselha e orienta, voluntariamente, empreendedores na criação e gestão de empresas.

Está envolvido também em um projeto para amparar pessoas com doenças neurológicas graves. Pascal tem 56 anos, é casado, tem três filhos e, à partir de hoje, passa a escrever aqui quinzenalmente.

Seja bem vindo, Pascal! Sua visão humanista a partir do velho continente certamente irá acrescentar conhecimento além de despertar a consciência de nossos leitores para exemplos e assuntos transformadores. Esperamos que nossa parceria tenha vida longa.

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Apesar do que se vê e se propaga na midia de exemplos contrários ou de reações racistas e xenófobas, os franceses são sensíveis às grandes causas. E eles sabem se mobilizar por causas justas.

Cada vez mais, numerosas associações levantam dinheiro em campanhas de grande impacto e de longa duração.

Telethon”, “Sidaction” e várias campanhas de ajuda a pesquisa médica, desastres climáticos, e ajuda às pessoas em dificuldades... A lista é longa.

Quando elas são transparentes e consistentes, os franceses não tem dúvida em apoiar. 

Esta semana, "Les Restos de Coeur” começou sua 32a campanha de inverno.

E sim, contra todas as expectativas, incluindo a dele, Michel Coluche (1944-1986) criou há mais de trinta anos o que tornou-se uma instituição agora inquestionável.

O ponto de partida?

Enquanto apresentava um programa na radio "Europe 1", uma das maiores da França na época, Coluche, humorista e colunista irreverente – é preciso confessar, muitas vezes vulgar - lançou no ar: "J’ai une petite idée comme ça (…)“ (Eu tenho uma idéia assim) e preciso saber se há um restaurante que tenha a ambição de, inicialmente, distribuir dois ou três mil refeiçoes por dia."

Coluche no 'Restos Du Coeur' em janeiro de 1986 em Paris. Foto: Patrick Aventurier / Getty Images.Coluche no 'Restos Du Coeur' em janeiro de 1986 em Paris. Foto: Patrick Aventurier / Getty Images.

Durante a primeira campanha de inverno de 1985, 70.000 pessoas ousaram se cadastrar; hoje 8,5 milhões de refeições são distribuídas por mais de 5.000 voluntários pelo país. Ao mesmo tempo, acompanhado por uma grande mobilização da classe artistica, músicos, celebridades e técnicos do setor, Coluche propôsque a campanha pudesse fazer parte as ações da comunidade europeia. Ele acabou por obter reformas significativas na legislação e no orçamento do Fundo Europeu de Ajuda aos Desfavorecidos (Fonds Européen d’Aide aux plus Démunis - FEAD). Desde então, ações reais foram realizados com sucesso contra o desperdício de alimentos.

Hoje, quase um milhão de pessoas estão inscritas para receber ajuda alimentar fornecida pela "Restos du Coeur".

São 132 milhões de refeições servidas em um ano. O “Restos“ ultrapassaram os dois mil milhões de refeições servidas desde a sua criação. 71.000 voluntários estão trabalhando em mais de 2.000 centros em toda a França.

Ao se pensar num país de 66 milhões de habitantes, ainda classificado entre os países mais ricos do mundo, estes números são de espantar e virar a cabeça dos mais incrédulos.

Além disso, as ações  voluntárias vão além da ajuda alimentar e envolvem assistência pessoal abrangente: acolhimento de emergência, empregabilidade e apoio à procura de emprego, assistência jurídica gratuita e acesso aos direitos, apoio escolar, assessoria finaceira e orientaçao para micro-crédito, garantia de férias, acesso à cultura (cinema,  acesso à leitura, etc ..) tudo que possa ajudar na luta contra a exclusão.
71.000 voluntários estão trabalhando em mais de 2.000 centros em toda a França. Foto: Der Spiegel On Line.71.000 voluntários estão trabalhando em mais de 2.000 centros em toda a França. Foto: Der Spiegel On Line.

Alguns doam o seu tempo e compartilham suas habilidades, outros fazem doações de acordo com suas possibilidade: dinheiro vivo, vale-refeição e até mesmo cessão de espaço publicitário.

O que eu gosto neste tipo de movimento, não são as grandes máquinas com estruturas por vezes opacas, ou grandes shows midiáticos organizados para a auto promoção. Não! O que eu gosto é o compromisso individual.

E sim! Todo mundo tem a oportunidade de se levantar uma manhã dizendo que a seu modo pode fazer alguma coisa. Não é uma questão de riqueza ou de classe social, é apenas a expressão de uma vontade; é a tomada de consciência sobre a necessidade de uma ação concreta e imediata de solidariedade.

Mais solidariedade que pode ser estimulada e adotada

"Le Café Suspendu." Foto: Heloise De Smet."Le Café Suspendu." Foto: Heloise De Smet.Neste sentido, há uma tradição napolitana de solidariedade, infelizmente, que caiu em desuso, mas que eu gosto bastante: trata-se do "Le Café Suspendu". Em 1993, foi criado um sistema de solidariedade simples de implementar. A idéia era pagar cafés, além do seu próprio, para outras pessoas que não pudessem pagar por ele.

Infelizmente, dificuldades pessoais, a crise econômica e o aumento dramático do desemprego, em resumo, acabaram com esta bela iniciativa. O gosto que ficou disso foi a criação pelo prefeito de Paris em 2011, da promoção do dia anual do “Café Suspendu“ (café suspenso).

Regularmente, é dito que o conceito renasce aqui ou ali, e está se expandindo novamente. De tempos em tempos a internet ecoa. Existe até um site de e-commerce que assumiu a idéia. Frequentemente também é retomada pelos comerciantes. Infelizmente, as iniciativas são isoladas e duram pouco. No entanto, estou certo de que, se uma classe de profissionais, ou associação de moradores aderissem a tal operação, sua promoção seduziria muitos consumidores e tiraria a culpa dos envergonhados em pedir ajuda alimentar. Pois cá entre nós, a menos que se tenha virado profissional, não é tão fácil pedir ajuda.

O conceito é tão formidável que pode ser expandido para muitos bens de consumo e para a venda em comércio local: um refrigerante, uma bisnaga de pão, um sanduíche, um prato... O que já foi pago é exibido em um quadro ou lousa usada para controle e os tickets correspondentes são deixados a vista para garantir a honestidade do comerciante.

Não há necessidade de construir grande estrutura, nem mesmo uma entidade, e pagar custos operacionais desnecessários. O que poderia ser mais simples do que isso para ajudar as pessoas em risco de pobreza, estudantes, aposentados, desempregados e famílias pobres? Ou vamos ter que esperar o nascimento de outro Coluche para disparar a faisca que poderia acender o rastilho?

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Dirigente e consultor de empresas e escritor, Pascal Launay é especialista em direito econômico e social, conhecido por sua visão inovadora para a gestão de recursos humanos. Hoje, voluntariamente, aconselha empreendedores na criação e gestão de empresas. Ele também está empenhado na realização de um projeto para ajudar pessoas com doenças neurológicas graves.

Publicou os livros “Tomber et Renaitre“ (ABM Editions collection Témoignages), “Bien loin d’un matin calme“ (ed Thélès) e o policial noir "Secret Meurtrier". Vai publicar em breve, o livro "Mon ABCdaire d'optimisme pour narguer la Sclérose en plaque" (Meu abecedário otimista para provocar a esclerose múltipla). Todos ainda sem tem tradução em português. Pascal passa a escrever no São Paulo São quinzenalmente.
 
*Tradução de Isabelle Dossa. 
 
 
 


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