Por que a periferia vai transformar São Paulo - São Paulo São

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“Das feridas
Que a pobreza cria
Sou o pus
Sou o que de resto
Restaria aos urubus
Pus por isso mesmo
Este blusão carniça
Fiz no rosto
Este make-up pó caliça
Quis trazer assim
Nossa desgraça à luz...“

Punk da Periferia, Gilberto Gil.


As pessoas que moram fora do centro são, por definição, excêntricas. Isso se olhamos pelo raio, pois se olhamos a circunferência toda são periféricas. A periferia tomar o centro é, de fato, uma subversão da geometria plana. E o que a Virada Cultural fazia era essa subversão. Perfeitamente admissível ou tolerável, por ser uma vez por ano. Agora, nem isso, a julgar pelo que comunica o comunicador-chefe do novo prefeito que, nem assumiu, já vai traçando novas superfícies administráveis baseadas no princípio de cada um no seu quadrado.

Mas não é isso exatamente o que os “periféricos” querem. Um montão de associações das periferias lançou um manifesto onde diz: “As periferias de São Paulo, articuladas por meio de movimentos e coletivos, reivindicam há anos a descentralização de recursos públicos, já que a maior parte deles está concentrada, historicamente, em poucos bairros da cidade. Esses investimentos são fruto do trabalho de todos, especialmente dos mais pobres que, proporcionalmente, pagam mais impostos do que ricaços daqui e de todo o país”.

Tira-se a Virada Cultural do centro, que pode parecer um lugar “neutro”, visto das periferias.

Aparentemente para valorizar outro espaço, periférico, sabe-se lá com que plano de negócios imobiliários. Sim, o autódromo também é periferia, mas sem galera. Com muros. O que desvaloriza o centro é a invasão da galera das periferias, aliada aos craqueiros lá instalados no seu abandono crônico. Esse o raciocínio político da nova gestão. 

É verdade que muitos investimentos foram feitos no centro nas últimas décadas - da Sala São Paulo à Pinacoteca, passando pelo Museu da Língua Portuguesa e Estação da Luz, pela recuperação do velho prédio dos Correios, etc - mas esses esforços não lograram ainda o efeito esperado: a valorização imobiliária que atrairia a turma do Sr. Romeu Chap Chap, o nosso Bob-construtor. 

Dizem alguns urbanistas que o erro do projeto foi não integrar os dois lados do Vale do Anhangabaú, deixando de criar a “sinergia” necessária. E haveria também um segundo passo a ser dado, com a “boulevarização” das marginais dos rios. Sei lá…

Para evitar a integração social indesejada pelos ricos, cria-se a desintegração viária. Como chegar da periferia-da-galera ao autódromo? Ou, se preferirmos outro exemplo, ao shopping Cidade Jardim - uma integração comercial dos jardins América, Europa e Paulista, desintegrada da cidade? Em outras palavras, a mobilidade dos pobres é uma ameaça à cidade dos ricos, e o que parece nos dizer a prefeitura é que prefere abdicar ao centro, entregando ao povaréu os investimentos passados, inclusive o abjeto minhocão, mudando o eixo de valorização da cidade. Em outras palavras, promove uma desigualdade programada.

Um urbanismo de costas para o traçado de Prestes Maia para a cidade, que, além de circundar o centro com as marginais, previa as radiais que espraiariam o tecido urbano para todos os lados. O gigantismo veio mesmo, mas de forma desigual. Para os bairros burgueses, parece prevalecer o conceito de “cidadela” defendida.

Cidadela. Imagem / Reprodução.Cidadela. Imagem / Reprodução.
As manifestações de rua, os “rolês”, os “fluxos” nas periferias  (para quem não sabe o que é fluxoessa matéria ainda está valendo), as ocupações, a luta por novas praças públicas - assim como movimentos urbanos de vanguarda artística, como o antigo ArteCidade - dão provas evidentes de que as ruas foram, pouco a pouco, sendo tomadas pelo povaréu, desintegradas dos bairros onde estão e apropriadas simbolicamente por gente de toda parte, ligada através de vínculos novos. A exclusão urbanística é múltipla, plural, e por isso mesmo prenhe de futuro na luta política.
 
A tomada progressiva das ruas significa que a segregação espacial já não está funcionando mais. Bairros que resistem a qualquer alteração viária projetada - como a estação de metro na avenida Angélica, em pleno coração de Higienópolis - dão prova do temor dessa nova onda. Caminhamos para uma espécie de urbanismo carioca, onde faz tempo suas classes médias tiveram que aprender, na marra, como conviver com as favelas, com os negros, com os “diferentes”.  

O projeto dos ditos Jardins é, ao contrário, a privatização das ruas. Basta ver o padrão das calçadas que pouco a pouco foi se tornando dominante neles, onde sequer se pode andar com uma cadeira de rodas numa época que é de inclusão social. Cada calçada, na testada dos terrenos largos,  e uma diferente da outra, expressa o desejo e as fantasias dos moradores, mostrando que para eles a rua não é de todos, mas uma projeção da sua propriedade. 

Quando se construiu o bairro de Higienópolis, o primeiro a ter saneamento básico, a iniciativa serviu também como um espaço teoricamente livre dos perigos da gripe espanhola, e parte do centro (os judeus abastados do Bom Retiro) mudou-se para o “melhor retiro” incrustado no tecido urbano. Assim evoluíram também os bairros da Cia. City. E cristalizaram-se dois modelos para o crescimento de São Paulo: um, planejado e suportado por investimentos públicos de monta - inclusive com expressiva transferencia de renda via infra-estrutura pública - e outro, desordenado, que cresce à base da favelização e dos puxadinhos feitos pelos próprios moradores em finais de semana. 

Essa duplicidade expressa o abandono da cidade, enquanto totalidade social, pelo poder público. O que este não podia pretender é que a integração logística promovida por linhas de ônibus, corredores, metrô, tão necessária para o deslocamento diário dos trabalhadores confinados nas periferias, deixasse intacta a percepção da cidade.  

A consciência de que as ruas, os ônibus, as praças, são “da cidade” e, portanto, “nossos”, acabou se sobrepondo à segregação espacial do centro, das periferias, dos bairros ajardinados. Ao ideal de “higienopolização” contrapõe-se a noção de “ocupação”. Não a ocupação de algo que seja “dos outros”, mas o uso do que é “nosso” numa extensão que só cresce. Esse embate só tenderá a se agudizar nos dias que virão. 

Está em curso uma nova percepção de habitantes da cidade. Não somos mais apenas as famílias recolhidas em casa, vendo TV, mas os usuários das ruas e praças em nossos desejos singulares de convivência. Unem a música, as atividades de gênero, os mutirões (como plantar onde não há verde), as reivindicações  políticas diante de um Estado corrupto e ineficiente, as feirinhas de todo tipo e assim por diante. Desapareceu aquela São Paulo onde não havia onde ir nos finais de semana, salvo ao cinema, ao Ibiraquera e ao restaurante.
 
Hoje, o desejo leva mais e mais para fora de casa e se não há quem olhe por ele, observe e formule políticas públicas, será feito o que for necessário com as próprias mãos e prescindindo do Estado.

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Carlos Alberto Dória, sociólogo e conselheiro do São Paulo São, tem vários livros publicados sobre sociologia da alimentação. Mantém e edita o blog e-BocaLivre.