Zés e Marias, anônimos e famosos: diversidade, a essência de São Paulo - São Paulo São

São Paulo se faz a cidade que é pelos Zés e Marias, anônimos e famosos que a movimentam. Abrindo-se para todos os que vêm morar por aqui, cada qual com sua essência e paixão, tal como Nega, a alagoana Ângela Uchoa que no final dos anos 80 trabalhou no melhor da noite paulistana, o bar Lei Sêca, templo dos insiders de então. Sua essência, o amor pela noite e a arte de fazer amigos. Gerenciou casas de responsa como Muller & Godard e Charles Edward, reergueu o Tomtom Jazz e fez a festa no Drosophila. Boêmia, diz que vive de vender sonhos, a tal felicidade.

A alagoana Ângela Uchoa (centro) que no final dos anos 80 trabalhou no melhor da noite paulistana, o bar Lei Seca. Foto: Arquivo Pessoal.A alagoana Ângela Uchoa (centro) que no final dos anos 80 trabalhou no melhor da noite paulistana, o bar Lei Seca. Foto: Arquivo Pessoal.

Fazendo contra-ponto com as baladas, a cearense Elizabeth Chagas, outra habitante de SP, foi a primeira mulher a dirigir um terminal portuário no país, no Grupo Rodrimar. Figura de simpatia ímpar, seu nome é expressão na área do Agronegócio. Sua essência é a alegria e a feminilidade aliada à competência. Superprofissa, mãe de duas filhas e avó babona é estudiosa de Kabbalah. 

Quem saiu de SP foi Bento Masshiko Koike. Ele nasceu em Curitiba, filho de imigrantes japoneses que vieram para o Brasil para escapar da recessão do pós-guerra. Sua essência, ser empreendedor e acreditar em si. Foi ele quem fez do Brasil a segunda potência mundial em pás para turbinas de energia eólica. Esse engenheiro aeronáutico apaixonado por filosofia e arte acreditou no seu taco, e daí surgiu a Tecsis. Ao redor de Sorocaba é lindo ver caminhões transportando aquelas pás eólicas que mais parecem escultura ou a vértebra de um dinossauro. 

Fábio Zarvos. Foto: Zarvos.Fábio Zarvos. Foto: Zarvos.No outro extremo, preocupado com a urbanização da cidade, Fábio Zarvos, outro engenheiro paulistano, descendente da tradicional família do imigrante grego Nicolau Zarvos, que no século passado se tornou fazendeiro e empreendedor de sucesso. A essência de Fábio é saber relacionar o espaço urbano com a comunidade. Ele trouxe para Vila Madalena e arredores um novo conceito de morar com a sua Ideia Zarvos. Preocupação: melhoria da vida nos bairros onde atua.

Perambulando pelas ruas do Alto da Lapa, Vila Madalena e Pinheiros, o pernambucano Arnaldo é amolador de facas, tesouras, canivetes, alicates e há mais de 15 anos circula nesta região. Sobrenome? “Põe Arnaldo Amolador que é como me conhecem.” Veio menino de Recife, trabalhou como pedreiro e quando se viu desempregado, influenciado pelo seu cunhado amolador, aprendeu o novo ofício, que adora. Tem como essência a arte de se comunicar. Através do toque de sua gaitinha de plástico dá o sinal de sua presença sempre útil por onde passa. É amigo das domésticas, patroas, chefes de cozinha, açougueiros e manicures.  O que o atrai na profissão é o conversê com os clientes e ser dono de seu horário, livre das quatro paredes.

Luciana Chinaglia Quintão, economista e administradora de empresas, sabe bem como somar vocação e solidariedade. Na sua essência, o prazer e empenho em evitar o desperdício e fornecer alimentos de qualidade para população carente. Luciana criou o Banco de Alimentos. Lá, o descarte in natura em bom estado é resgatado dos supermercados e sacolões e mais de 30 toneladas de alimentos/mês são distribuídas para cerca de 22 mil crianças e idosos de 40 instituições beneficentes.

Outro tipo interessante da cidade trabalha nos Jardins e sua essência é a paciência. Trata-se de José Lima, seu Zé, que empalha cadeiras na esquina da José Lima tem 61 anos e nasceu no Sertão da Paraíba. Há 25 anos empalha cadeiras no mesmo endereço. Foto: Felipe Canale.José Lima tem 61 anos e nasceu no Sertão da Paraíba. Há 25 anos empalha cadeiras no mesmo endereço. Foto: Felipe Canale.Franca com Alameda Campinas. Esse ofício, que aprendeu com conterrâneos há 28 anos ensinou para cinco irmãos, sendo que dois deles são seus concorrentes e trabalham nas esquinas da Alameda Lorena com Ministro Rocha Azevedo e o outro na Rua Bela Cintra com Oscar Freire. Palhinha sintética ou a legítima palhinha indiana, não falta serviço para ninguém, diz ele e afirma que seu trabalho exige perfeição, não pode ter um erro, e disso tem muito orgulho.

Já faz um bom tempo que não vejo outro personagem raro da cidade: Seu Antonio, que há mais de 20 anos vende balas no farol da Rua Alemanha, em frente ao MUBE. Sua essência: a educação e respeito ao outro. Com quase 80 anos, esse baiano de Tremendau vive há 50 em SP.  Ex-mordomo de casas da elite, como as das famílias Roberto Scaff e João Bordon, Seu Antonio – sempre com um jaleco alvo de branco, seu bonezinho característico e uma cestinha forrada com pano de prato branquinho – é de uma elegância solene ao oferecer as balas no trânsito, como se estivesse servindo uma mesa à francesa. Na última vez que o vi, estava animado: “Este preto velho vai se casar com uma loura linda, de 71 anos, filha de alemães”. Figuraça, Seu Antonio.

Marina. Foto: Arquivo pessoal.Marina. Foto: Arquivo pessoal.Há os que vêm de outros países para se encontrar com a vida em São Paulo. É o caso de Marina Pipatpam, chefe tailandesa que mora na cidade e tem em sua essência o respeito às tradições e o gosto por explorar os cinco sentidos através da gastronomia. Ela, que é uma autêntica embaixatriz da Tailândia no Brasil, junto com seu marido, o brasileiro Cyro Sá, trouxeram para São Paulo o jeito Tay de se colocar no mundo. Foi sócia, com ele, do restaurante Mestiço e depois montaram o Tian Restaurante - deixaram a sociedade há pouco -, onde aromas e paladares de especiarias distintas propiciam ao cliente uma ótima experiência gastronômica.

São Paulo é assim, vive as diferenças, recebe pessoas dos quatro cantos. E elas, somadas, fazem a cidade acontecer diferente em cada bairro, em cada esquina, com experiências de vida únicas. Diversidade é a cara de nossa urbe, com vida pulsante 24hs. 

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Marina Bueno Cardoso, jornalista, trabalhou na imprensa em São Paulo e na área de Comunicação Corporativa de empresas. É autora do livro “Petit-Fours na Cracolândia”, Editora Patuá. Publica crônicas quinzenalmente no São Paulo São que são replicadas no site literário www.musarara.com.br