Todo mundo está em transição - São Paulo São

O prefixo trans, que, dentre outros significados, quer dizer “além de” ou “através” nunca foi tão usado quanto agora. Ao menos, entre estudiosos da sexualidade. De dois anos para cá, ou pouco mais que isso, a transexualidade, a transgeneridade ou os transgêneros saíram em capas de revistas relevantes, foram temas de documentários, surgiram em desfiles de moda, em programas para a família e até em novelas.

Mesmo que você discorde ou não entenda bem do que se trata, não pode fugir ao que a mídia expõe: eles existem, alimentam sonhos, pagam impostos, e merecem o respeito dos demais representantes da espécie humana. Eles também, de certa maneira, exigem uma nova ética.

Na verdade, não só eles, o mundo que conhecíamos até então pede uma revisão quase que absoluta de valores, e nem é preciso se entender muito nessa tese. Basta conferir o noticiário cotidiano, aqui e em alhures, e ler as subcamadas das utopias aniquiladas.

O maquiador Kurtis Dam-Mikkelsen é Miss Fame. Foto: Dale May. O maquiador Kurtis Dam-Mikkelsen é Miss Fame. Foto: Dale May.

Costumo reproduzir um raciocínio brilhante do neurobiólogo chileno Humberto Maturana, de 88 anos, quando escrevo sobre o assunto porque casa perfeitamente com esse novo momento histórico da sexualidade: “Não vemos as coisas como SÃO. Vemos as coisas como SOMOS”.

Para o cientista, crítico do realismo matemático e criador da teoria do conhecer, que, dentre outras, diz que os estímulos externos, que surgem a todo momento, nos influenciam, estamos sempre respondendo a essas provocações, nos renovando e sofrendo mudanças. Quase uma jornada heroica massificada.

Traduzindo o que ele diz, do ponto de vista da sexualidade, podemos dizer que ela não abrange o que EXISTE, mas unicamente o que CONSEGUIMOS VER. Como nós mudamos o entorno depende muito do quanto MUDAMOS o olhar sobre o que VEMOS, a partir dos novos (basicamente os novos) estímulos que recebemos.

É preciso mudar o ser e instrumentalizar-se melhor a respeito do que se desconhecia até então. Sabemos muito por pouco sobre os atores que dividem essa jornada conosco. A realidade/verdade é o discurso que construímos. E da construção vem a ciência. E da ciência vem a cura. E da cura a indústria química. E as drogarias. E a Igreja, a Família, o Estado.

Isso, porém, não é o fato em si. É apenas a construção de discurso/interesse de um grupo, portanto não há o que ser curado na expressão da sexualidade, apenas a revisão dos discursos. O que não sabemos é apenas uma proposta diferente de caminho.

Imagine o que é se olhar no espelho, diariamente, e não se reconhecer. Não porque você sofreu um acidente que o desfigurou, engordou ou emagreceu, aplicou toxinas para rejuvenescer a pele, comprou seios novos, cortou, alongou ou deixar de pintar os fios brancos.

A invisibilidade é provocada por não se identificar com nada que está diante de você: o rosto, a forma do corpo, os seios ou os cabelos. Como se você não existisse para si. Como se fosse anormal. Não é um cisgênero.

O caso de Caitlyn é peculiar pelo tanto de fama e dinheiro que o sustentam, mas a urgência é a mesma para celebridades ou anônimos. Foto: Annie Leibovitz / Vanity Fair.O caso de Caitlyn é peculiar pelo tanto de fama e dinheiro que o sustentam, mas a urgência é a mesma para celebridades ou anônimos. Foto: Annie Leibovitz / Vanity Fair.

Cisgênero significa aquela pessoa que se identifica com o gênero com o qual nasceu. O contrário disso é o transgênero. Caitlyn Jenner, 67 anos, talvez a mulher transexual mais conhecida e relevante do mundo hoje, recentemente passou por uma cirurgia de redesignação genital, ou seja, grosseiramente falando, extirpou o pênis e ganhou uma neovagina.

Ex-medalhista de ouro norte-americano, quando ainda se chamava Bruce, Caitlyn só conseguiu ser o que nasceu para ser em 2015, quando completou 65 anos, depois de três casamentos e seis filhos.

O caso de Caitlyn é peculiar pelo tanto de fama e dinheiro que o sustentam, mas a urgência é a mesma para celebridades ou anônimos. Se não se tem sequer um nome próprio na identidade, e nome próprio tem um peso diferente para quem não está em sintonia com o que é e o que aparenta ser, o que se tem então?

Será que precisamos de alguém com notoriedade midiática para dizer o quanto travestis e transexuais sofrem por simplesmente não poderem vivenciar o seu gênero da forma desejada? Até quando travestis e transexuais terão de morrer ou sofrer represálias por simplesmente lutarem para serem quem são?

Até quando travestis, mulheres transexuais e homens trans terão de submeter a avaliação de pessoas cis acerca de sua feminilidade ou masculinidade? Quando travestis e transexuais deixaram de ser considerados subumanos e pessoas que o agredirem ou assassinarem serão punidas realmente?

A top brasileira Valentina Sampaio é a primeira trans a estrelar a capa da Vogue Paris. Imagem: Reprodução.A top brasileira Valentina Sampaio é a primeira trans a estrelar a capa da Vogue Paris. Imagem: Reprodução.

Mesmo que não se queira saber, hoje existem 31 gêneros, 18 sexualidades e, por enquanto, dois sexos, incluindo os indivíduos com DDS (Distúrbio do Desenvolvimento Sexual Ovotesticular). O ser humano, feliz ou infelizmente, gosta de classificar, precisa usar de recursos imagéticos e memoriais para ter o mínimo de certeza sobre onde pisar, seja para catalogar invertebrados ou batizar galáxias.

O assunto é controvertido, mas já uma vasta literatura que pondera os diversos ângulos do assunto. Temos muito chão pela frente, mas é muito salutar que esse assunto seja discutido nas mesas de jantar, entre um e outro pedaço de pizza de um domingo qualquer.

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João Luiz Vieira é jornalista profissional há 30 anos, roteirista de TV, autor de teatro, coordenou os livros Sexo com Todas as Letras (e-galaxia, esgotado) e Kama Sutra Brasileira (Planeta), é sócio-proprietário do site Pau Pra Qualquer Obra, e pós-graduado em Políticas Culturais e Educação Sexual. Escreve toda segunda-feira no São Paulo São. Para falar com ele: [email protected]