“Boa Noite Cinderela“: o que fazer se estiver diante de um sociopata em sua casa? - São Paulo São

O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou na semana passada que há 14,2 milhões de desempregados no País. O número é 14,9% superior ao trimestre anterior (outubro, novembro e dezembro de 2016), e equivale a 1,8 milhão de pessoas a mais desocupadas. Somem-se a isso os 45 milhões de trabalhadores informais.

Esses números são oficiais e, evidentemente, não incluem os jovens que ainda não conseguiram oportunidades e uma multidão de indivíduos que deixaram de gastar a sola dos sapatos batendo em portas erradas. Gente que simplesmente desistiu. Mas o que isso tem a ver com uma coluna sobre sexualidade? Tudo tem a ver com sexo, menos sexo, já dizia o escritor irlandês Oscar Wilde (1954-1900).

Há um considerável contingente de solitários que não está mais saindo para se divertir porque simplesmente falta-lhes orçamento e desejo para isso. O prazer do homem, seja ele heterossexual, homossexual, bissexual ou transexual está diretamente ligado ao quanto de poder de barganha ele tem e, na maioria das vezes, isso está ligado a dinheiro.

Se eles saem de casa, levam consigo uma demanda reprimida por afeto e atenção que os deixam vulneráveis a outra categoria da espécie: aquela que inclui os que já não têm nada, que perderam o que tinham ou que simplesmente veem no outro apenas fonte de renda para suprir necessidades mais superficiais. Quando um caçador desleal encontra uma presa ideal, alguém é abatido. É quando acontece o famoso “Boa Noite, Cinderela“.

Fiquei sabendo pelo noticiário que aumentou consideravelmente o número de crimes envolvendo cetamina, uma substância dissociativa usada para fins de anestesia, com efeito hipnótico e características analgésicas. Será que tem a ver com crise econômica? É uma hipótese a se considerar, mas como não há números precisos sobre esse tipo de ocorrência, é só uma especulação. Um delegado do4º Distrito Policial de São Paulo chegou a dizer que são registrados cerca de três crimes desse tipo semanalmente na delegacia, mas não há estatísticas de grande amplitude, nem na capital paulista, muito menos no Brasil.

Conhecido medicamento para uso veterinário, o anestésico é muito usado em equinos. Em humanos, ele tem o efeito de induzir um transe, em que a pessoa fica desperta e capaz de se comunicar, ainda que sem memórias do que ocorre durante a sedação. Um adulto agindo como uma criança de sete anos, que só obedece. Não questiona, não reage. É “sim” o tempo inteiro. 

A cetamina é muito usada por criminosos para derrubar resistências de homens e mulheres que aparentemente estão com o caixa em dia e, consequentemente, subtrair de indivíduos sem reação o que de mais valioso eles tiverem. Pode ser a vida. Tenho uma dúzia de amigos (e umas poucas amigas) que passaram por duas situações envolvendo a substância fartamente encontrada em suas correntes sanguíneas.

A tática de abordagem segue ritual parecido, é conhecida por muitos informados, mas, infelizmente, há um momento em que se cai em um alçapão. Quando em bares ou boates, os criminosos aproximam-se de uma turma de amigos como se querendo ampliar sua rede social.

Gravam o nome das pessoas e, simpáticos e perspicazes, esperam o coletivo virar um, quando a presa que restou tornou-se mais fácil de ser abatida. Ao menor sinal de descuido, o indivíduo que se perdeu da turma perde-se de si. É um cavalo abatido. Há muitos casos envolvendo aplicativos de paquera, mas isso é assunto para outra coluna.

Marlon Brando e Kim Hunter no teatro em cena de ‘A Streetcar Named Desire“. Foto: Eliot Elisofon, 1947.Marlon Brando e Kim Hunter no teatro em cena de ‘A Streetcar Named Desire“. Foto: Eliot Elisofon, 1947.Se você passou por isso, saiba que cair num “Boa Noite Cinderela“ não é motivo de vergonha ou culpa. Vergonha e culpa você deixa para quem praticou o ato. Lidar com alguém que não tem empatia com o ser humano é muito difícil, é mais grave do que um embate com um animal faminto. Um sociopata é uma alma com fastio de gente. Esqueça a lenda que só homens homossexuais são vítimas. A vítima nem sempre é homem, muito menos gay, pior ainda vulnerável ou carente. Vítima é vítima. E não se trata de sexo, é um assalto seguido, ou não, de morte.

Dependendo da quantidade da substância, você fica até 48h anestesiado, às vezes preso dentro de casa – os criminosos costumam levar a chave da casa do indivíduo. Só depois, se vivo, recolhe os cacos materiais. A regra diz que você deve registrar um Boletim de Ocorrência (BO) numa delegacia.

Não vai dar em nada porque é muito raro rastrear esse tipo de criminoso.

Muita gente não se sente confortável em ir a uma delegacia de polícia porque acha que errou, pode ser rechaçado ou, no mínimo, ouvir piada dos policiais. Por isso, não há confiabilidade em números de registros desse tipo de crime. O fato é que quem passa por isso, perde mais que bens materiais, a coragem de conhecer gente nova ou certeza que é vítima. Perde ilusão.

Há uma frase icônica de Blanche du Bois, personagem central de “A Streetcar Named Desire”  ou “Um Bonde Chamado Desejo”, peça escrita pelo dramaturgo norte-americano Tennessee Williams (1911-1983) e vencedora do Prêmio Pulitzer de Teatro de 1948: “Seja você quem for, eu sempre dependi da bondade de estranhos”. Quem é o estranho e qual bondade ele nos traz? O que fazer, então, se, por algum motivo, tornou-se vítima de um sociopata em sua casa? Quase nada. Ele é quem decide o que fará com e de você.

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João Luiz Vieira é jornalista profissional há 30 anos, roteirista de TV, autor de teatro, coordenou os livros Sexo com Todas as Letras (e-galaxia, esgotado) e Kama Sutra Brasileira (Planeta), é sócio-proprietário do site Pau Pra Qualquer Obra, e pós-graduado em Políticas Culturais e Educação Sexual. Escreve quinzenalmente no São Paulo São. Para falar com ele: [email protected]