O poeta do samba da paulicéia - São Paulo São

Foi numa noite musical – de voz e violão de Reinaldo –, na casa de minha amiga Paola, que após ouvir clássicos de Vanzolini como Praça Clovis, Samba Erudito, Cravo Branco e o eterno Mulambo, fui surpreendida com uma declamação animada de “Pobrema de Habitação”:

“Eu vivi satisfeito no meu quarto de porão. Um dia encontrei Jesuino: – Como vai nego canaia?

– Nego não, hein. Eu sô santista, tô queimado do sór de praia... Tô morando no Espranada.

– Num diga, pela panca num parece.

– Tô sim, tô debaixo da escada, lado esqueldo de quem desce.. o colega fica cum dó chama pra dividi uma cama de sorteiro. E vai e vorta e coisa e loisa e maripoisa... um dia chego em casa e dô cuma mulé descunhecida.

 – Contraí matrimônio, apresento minha senhora, amanhã nois vai simbora assim que dé solução no pobrema da abitação.

 E ela diz que seu coração não é mais dele e sim do amigo. 

– Pra semana num foi não. E fumo vivendo em frente, os 3 mesmo cumpanhero numa cama de sortero...

E ela diz: – Se enganei com teu amô, num era amô verdadeiro. Amanhã vô simbora cum bombero.

E o final inesperado: – O gorpe foi duro pra catano, mas a vida é essa, seu mano, e hoje naquele qualto de porão na cama de sorteiro, mora Jesuino e eu, mas a cabrocha e o bombero, Oh pobrema de habitação!!!

Foi a partir da apresentação de “Pobrema de Habitação”, poema hilário declamado com o entusiasmo que merece, que conheci Eduardo Berger, um médico de 72 anos que conheceu a poesia de Vanzolini aos 21, na Faculdade de Medicina da USP. A partir de então, com poemas levados por Drauzio Varella, que fazia a ponte entre o estudante e o Biólogo, que se apaixonou pelo sambista maior de SP, que além de músicas famosas se revelou poeta de primeira.

Berger, tal qual Paulo Vanzolini, foi apresentador do Show da Medicina, que desde 1944 era a festa dos estudantes, e em 1965 ele se revezava com os colegas, apresentando esquetes na noite. Invariavelmente, rolavam os sambas do então já Biólogo Paulo Vanzolini. O tal show acabou nos anos 70, “como sinal dos tempos que vivíamos”, ele lamenta.

A paixão por MPB e samba levou Berger a ser um estudioso em Vanzolini, sem mesmo ter ficado amigo dele na época. “Ele é único no gênero da malandragem paulistana e não tem seguidores a altura. Nem todos sabem, mas apenas a primeira estrofe de Cuitelinho é de origem popular, pois as duas estrofes seguintes são de Vanzolini e a última, desconheço o compositor”, comenta, emendando uma pergunta e uma afirmação: - Quer ouvir samba melhor que Volta por Cima? Ficou eternizado! Mais importante que dar a volta por cima é reconhecer a queda.

Já ficaram famosas as declamações de Berger das composições de seu sambista predileto. São poemas longos, com uma trama de humor ímpar e a linguagem coloquial que se tinha nos anos 40, 50 na população dos elegantes da pilantragem de SP. Berger sabe décor e dá um colorido especial aos poemas do livro de Vanzolini Tempos de Cabo, raridade só encontrada nos sebos, que ele me presenteou.

O livro Tempos de Cabo com a interpretação desse médico amante de Vanzolini merece ser resgatado por um audiobook. São “causos” em poesia com o melhor ritmo e palavreado do compositor que provou que SP nunca foi túmulo do samba. Para me despedir no embalo do sambista paulista, reproduzo o que ele diz em Baile do Bexiga: “Puxei um ferro do borso, era um punhar assassino. Quem falava grosso, já ficou falano fino, quem tinha peito de homem, virô peito de menino, até o rabecão da orquestra, de susto virô violino, pois quando o ferro alumiô o povo todo fastô... Era 3 e 35 quando deu a arteração. Meu Deus! Me leva pra casa, num vi que era talde assim. Quem vê nois dois nessa hora, o que vai pensá de mim! 

Viva Paulo Vanzolini!

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Marina Bueno Cardoso, jornalista, trabalhou na imprensa em São Paulo e na área de Comunicação Corporativa de empresas. É autora do livro “Petit-Fours na Cracolândia”, Editora Patuá. Publica crônicas quinzenalmente no São Paulo São que são replicadas no site literário www.musarara.com.br