Está passando da hora de o homem cisgênero fazer sua própria revolução - São Paulo São

O homem precisa ser estudado, especialmente os rapazes das gerações Baby Boomer e da X, nascidos entre 1945 e 1984. O primeiro grupo é assim denominado porque está diretamente ligado ao retorno dos soldados que estiveram nas trincheiras aos seus respectivos países e promoveram um ciclo histórico de nascimentos. Há diversas teses a respeito desse fenômeno pós-embate campal, mas não vamos nos ater a isso aqui.

O momento imediatamente posterior à 2ª Guerra Mundial (1939-1945) também foi uma época histórica onde ressurgiu, por exemplo, modalidades revisitadas de swing, ou troca de casais, quando os amigos que chegavam antes a seus lugares de origem consolavam as mulheres dos que ainda estavam sob fogo inimigo, algumas delas viúvas interditas.

Há outros estudos a respeito desse acordo tácito de cavalheiros, tendo as mulheres papel inquestionável de protagonismo, já que precisaram reagir às agruras daquele tempo de escassez e às investidas incisivas de amigos do outrora casal, mutilados de afeto.

Tradicionalistas e voltada às relações duradouras, essa geração vivenciou no Brasil a Jovem Guarda, o Tropicalismo, o Rock’n Roll, além do surgimento da televisão ao vivo e o videoteipe. Fora daqui, a Guerra Fria e o movimento hippie, que pregava o amor como antídoto.

‘Bra-Burning‘, protesto de ativistas do WLM (Women’s Liberation Movement) na realização do concurso de Miss America em 7 de setembro de 1968, em Atlantic City, EUA. Foto: Time Magazine.‘Bra-Burning‘, protesto de ativistas do WLM (Women’s Liberation Movement) na realização do concurso de Miss America em 7 de setembro de 1968, em Atlantic City, EUA. Foto: Time Magazine.

A turma posterior, batizada por especialistas em consumo como Geração X, nasceu entre 1965 e 1984, alguns dos indivíduos que chegaram ou estão chegando ao cinquentenário agora. Esta geração surgiu numa época de transição cultural, profundamente influenciada pela informatização, mas ainda imune à virtualidade do amor.

Muitos artefatos eletrônicos já existiam, mas não havia conectividade, e redes sociais eram formadas em botequins ou em danceteria, boates ou clubes. Esse grupo confrontou os conceitos mais tradicionalistas da geração anterior, viveu o início e o fim da ditadura militar, o movimento Diretas Já, a redemocratização nacional, deparou-se com a legalidade do divórcio e a devastação provocada pelo vírus HIV.

O revival dos anos 1980 na moda, na música e até no comportamento da geração Z não inclui tantas visitas aos cemitérios quanto as dos que foram jovens nos anos 1980, e precisaram se despedir de tantos amigos corroídos pela síndrome da imunodeficiência adquirida (aids). Comumente abreviada para Gen Z, também conhecida como iGeneration, Plurais ou Centennials, esse grupo, supostamente mais libertário sexualmente, é a definição sociológica para definir os que nasceram da metade da década de 1990 até o ano de 2010.

Há 40 anos, os movimentos punk e dark traziam um relativo pessimismo em relação à funcionalidade de nossa espécie. É fato: nossa espécie vive momentos de retração subsequentes aos de expansão. Cabe à sorte interferir onde estaremos em cada fase.

Entre os BB e os X, mulheres heterossexuais, homossexuais, bissexuais e travestis queimaram sutiãs e limites e, ao mesmo tempo, foram incinerados simbólica e objetivamente como incapazes de vivenciar uma cidadania digna. Do outro lado desse embate, homens heterossexuais assistiram à demarcação de território, a muito custo físico, das minorias subjugadas como se assistissem a um acontecimento aquém de suas intimidades.

Enquanto as mulheres descobriram que poderiam viver sem os homens, que poderiam ter prazer sem correr riscos de engravidarem a cada relação sexual em período fértil, os homens, em sua maioria, só ficavam sabendo do avanço do gênero oposto e praticamente não se mexeram.

Uma certa adequação ao status quo reforçada pela complacência dos iguais, como se não se devesse mexer em time que está ganhando. Enquanto as mulheres descobriram as vantagens do sexo oral, os homens, até hoje, ainda têm problemas em assumir o óbvio prazer relativo ao sexo anal, inclusive numa relação heterossexual.

A peça Nu

Atores em ensaio para a leitura dramática da peça Nu. Foto: Divulgação.Atores em ensaio para a leitura dramática da peça Nu. Foto: Divulgação.

A peça Nu, uma das 11 que escrevi até agora, revela o titubear de um desses representantes da raça humana, um homem que ousou deixar de ser coadjuvante e provocou uma peculiar revolução “masculinista”, com direito a exercer sua sexualidade com liberdade e sem fronteiras morais.

Hoje, 16 de maio, haverá uma leitura dramática desse texto com Acauã Sol interpretando esse personagem otimista, mas que cai em uma armadilha, é julgado e condenado porque atravessou uma suposta fronteira entre o possível e o permitido para homens cisgêneros. A análise do seu comportamento desviante é realizada em um programa de TV sensacionalista e decadente onde ninguém é exatamente um exemplo de virtude.

No elenco, Paulo de Pontes, Veca Ned, Taiguara Nazareth e Melissa Paixão, como os funcionários do programa, e Nyrce Levin, André Grecco e Letícia Trebbi como as testemunhas de acusação, os pêndulos éticos desse personagem combalido e em profunda crise existencial. Completa o elenco Decio Hernandez di Giorgi, como o narrador. Na produção, Suyan Mariotti e Tate Costa.

A proposta é refletir a respeito desse cara que sofre, mas ninguém presta atenção por estar, supostamente, no topo da cadeia alimentar. O assunto do momento é a transexualidade, mas será que não deveríamos também prestar atenção nesses homens que raramente pedem ajuda, mas podem estar, sim, atavicamente doentes como se reféns do próprio conforto? Se é que há conforto no viver.

Serviço

O que: Nu – Leitura Dramática.
Onde: Applauzo Produções (Rua Arujá, 118, Paraíso).
Quando: 16 de maio de 2017, às 20h.
Quanto: De graça.

Equipe

Texto e direção: João Luiz Vieira.
Elenco: Acauã Sol, André Grecco, Letícia Trebbi, Melissa Paixão, Nyrce Levin, Paulo de Pontes, Taiguara Nazareth e Veca Ned.
Participação especial: Décio Hernandez di Giorgi.
Produção: Suyan Mariotti e Tate Costa.

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Lançado há 3 semanas, Sexo Sem Medo é um canal de comunicação apresentado e roteirizado por João Luiz Vieira, dirigido por Kahue Rozzi, produzido pela Videalize. A proposta é apresentar questões ligadas à sexualidade com informação, bom humor e convidados especiais. Toda terça-feira uma novidade no ar.

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João Luiz Vieira é jornalista profissional há 30 anos, roteirista de TV, autor de teatro, coordenou os livros Sexo com Todas as Letras (e-galaxia, esgotado) e Kama Sutra Brasileira (Planeta), é sócio-proprietário do site Pau Pra Qualquer Obra, e pós-graduado em Políticas Culturais e Educação Sexual. Escreve quinzenalmente no São Paulo São. Para falar com ele: [email protected]