Caleidoscópio urbano - São Paulo São

Chamei meu irmão, ambulância e minha mãe foi para UTI com quadro grave de infecção. Não se alimentava bem há 15 dias, só com suplementos alimentares. O médico nos aconselhou a preparar tudo para o final. Isto foi há três anos e três meses. Ela ficou no hospital durante um ano e meio, com quadro de demência senil se acentuando cada vez mais. Minha mãe estava partindo. Ela deixava de ser aquela mulher forte, inteligente, alegre, vaidosa e querida.

Após um ano e meio teve alta. Alta? Como iria para casa com cuidados de home care garantidos somente temporariamente pelo convênio? No corpo, escaras na sacra e laterais do quadril que se via o osso. Alimentação só via gastro. Socorro!!! Minha mãe estava partindo. Meu celular me acompanhava até na hora do banho e de dormir, e eu pilhada.

Os convênios têm parceria com clínicas de retaguarda, mas não divulgam. Na hora que é preciso, só entrando com liminar para conquistar o direito de ser tratada com dignidade. E você pagou a vida toda por isto! Minha mãe estava partindo. Foi para uma clínica de retaguarda e o que queríamos era lhe dar conforto – sem dores, sem falta de ar, sem mal-estar. A cada visita, na ida para clínica fazia uma oração. Ela teve uma isquemia ou um derrame. Ficou um ano sem falar, sem se movimentar, só abrindo e fechando os olhos. Vivia à base de morfina, entre outros remédios, para aliviar a dor. Para a médica, ela não entendia mais nada, para meus Espíritas, estava se desligando deste plano que vivemos. Eu conversava com ela como se me ouvisse. Contava o roteiro dos filmes que via, ballets que assistia, exposições que certamente ela gostaria, livros que lia, minha crônica da quinzena, tudo que ela participava como companheira, antes de tudo isto. Falava dos amigos que encontrava, das minhas amigas se tornando avós, da sua melhor amiga agora bisa, das primas, sobrinhos e de todos que buscavam notícias.

Minha mãe estava partindo. Who knows! No one. Just God. Quando ficava sentada no sofá observando-a, me lembrava de uma criação de Flávio de Carvalho, um desenho que retratava sua mãe agonizando. Minha mãe estava partindo. Cumprir missão, diz minha religião. Valha-me Deus! Justo ela, que quando fez 80 anos me disse que já tinha vivido tudo e muito bem, e que havia encontrado no missal de minha bisavó uma oração em francês para Nossa Senhora vir lhe buscar.

A oração começava assim: “Prends mon coeur le voilà, Vierge ma bonne Mère/C’est pour se reposer qu’il a recours à tois...” Afinal, ela não queria – como nenhum nós –, ficar estirada numa cama. Minha mãe estava partindo. Numa noite me chamaram, lá pelas 23h. Ela não passaria daquela noite, seu estado era grave. Levo a roupa dela? Não levo? Ela reagiu. Durante três anos e três meses se alimentou por sonda gástrica, até um final de semana, quando teve convulsões e rejeição à alimentação. Entraram com soro. Questão de dias, horas. Sábado, domingo, segunda, terça, fiquei meio fora do ar ao visitá-la.

Minha mãe estava partindo. Quarta-feira, aula de quinta-feira preparada para ministrar a oficina no SESC de Campinas, mas como? Minha mãe estava partindo. Fui à clínica no horário de seu banho, às 18hs. O percurso do Jardim Paulista para o Morumbi, na hora do rush, demora uma hora e quarenta.

Minha mãe estava partindo. No trajeto, as filas do busão eram imensas. Nos ônibus articulados via pessoas cansadas, várias já dormindo, zzzzz... Nos luminosos, anúncio de Chivas Regal / temperatura 19º C/ Ar Bom. O que me interessa?

Minha mãe está partindo. Na Av. 9 de Julho, vendedores de Sulflair, biscoito de polvilho, pipoca, água, chips. Faço negativo para o ambulante. Minha mãe está partindo. E o mundo, insistente, não pára. No carro ao lado vibra um som de pancadão. Está escurecendo. Na Praça Coração de Maria, em frente ao Colégio Sacre-Coeur, uma estátua da Nossa Senhora com vasos de flores coloridas ao redor. Também na praça, um casal sentado no banco – ela, uma negra com cabelo loiro amarrado no cocuruto, linda, está sentada no colo do namorado, olhando o celular, e ele, rindo, brinca com ela, lhe dá um beijo, e eu vou. A vida prossegue feliz.

E minha mãe está partindo. Ligo o rádio, Trump pediu fim da apuração sobre a Rússia, diz FBI. Temer admite ter usado jato do Joesley Batista, informa o locutor. Mas e daí? Ela está partindo! Atravesso a ponte, acendo o terceiro cigarro do percurso. Chego na clínica e vejo minha mãe. Sua respiração é muito curta, seus pés estão gelados. Minha mãe está partindo. Rezo. Em casa, não consigo dormir.

Ligo para uma amiga-irmã-de-fé e digo: –Minha mãe está partindo. Na sala, olho para o porta-retrato e vejo a última foto que tenho com ela, numa festa de aniversário de sua amiga. Choro.

Minha mãe está partindo. Toca o telefone. Minha mãe partiu tal como no poema de Celso de Alencar:

“Há uma mulher falecida

na primeira metade

da noite fria.

Nos céus estão voando

milhões de vagalumes

se acendendo como se fossem

luzes expostas da aurora boreal.”

A espera de três anos e três meses do que iria acontecer a qualquer hora. Rezei chorando, liguei para meu irmão, sem sinal. Avisei minha amiga-irmã-de-fé, falei com meu primo-irmão e com meu ex-enteado. A médica liga, levo a roupa separada há três anos e três meses. No percurso não há ninguém na rua, e desde casa tento falar com meu irmão. Só dá caixa postal, ele está a seis horas de SP. São quase 23hs, parece que o mundo parou, tudo vazio.

Dirijo em câmera lenta. Finalmente, falo com meu irmão. Mamãe mãe partiu. No caleidoscópio urbano ainda falta muito para o rito de passagem cristão: velório, enterro, missa de 7º Dia. Agora ela é um corpo sutil que está sendo recebida por seus queridos. O dia faz sol, está lindo, mas é de inverno. Um belo dia para me despedir, deixando rastros de amor e gratidão. Foram 90 anos. Como diz a letra daquela antiga canção italiana que ela gostava: “Gira il mondo gira / Nello spazio senza fine / Con gli amori appena nati / Con gli amori già finiti / Con la gioia e col dolore / Della gente come me...”

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Marina Bueno Cardoso, jornalista, trabalhou na imprensa em São Paulo e na área de Comunicação Corporativa de empresas. É autora do livro “Petit-Fours na Cracolândia”, Editora Patuá. Publica crônicas quinzenalmente no São Paulo São que são replicadas no site literário www.musarara.com.br