O coentro e o futebol - São Paulo São

Muito interessante esta discussão que a oposição coentro/salsinha suscita. As pessoas reagem como se estivessem num jogo de futebol entre Brasil e Argentina. É preciso ter “um lado” e só há um lado… Mas não se trata de nacionalismo e, sim, de regionalismo. O adversário esta entre nós, e precisa ficar claro, e quem não gosta de samba bom sujeito não é.


Açorda à Alentejana feita com coentro. Foto: Pinterest.Açorda à Alentejana feita com coentro. Foto: Pinterest.Sequer aceitam muito bem a idéia de que há um marcador de classe embutido na oposição, alem do regionalismo. Não acham que a culinária possa estar dividida entre a comida das elites e as comidas populares - coisas que admitem facilmente frente ao foie gras.

A tese que parece deixar a todos mais confortáveis é a de que existiria um atavismo, uma “genética”, que repele o coentro como se fosse um percevejo vegetal. Sob essa hipótese não é “culpa” de ninguém. Agora, no plano da escolha, como pode alguém detestar coentro? 

Em alimentação, vivemos a convicção de que o gosto é fruto de escolhas pessoais. Se não é genética, é pessoal, e então é inconcebível sob o domínio do arbítrio que alguém deteste coentro, por exemplo. É como se a harmonia entre as pessoas fosse quebrada de modo irreparável.

Mas o coentro, corrente nas comidas do Nordeste e Norte, se opõe à salsinha, do Sul e Sudeste. E também em Portugal o coentro é do Sul e a salsinha do Norte, como explicou Maria de Fátima Moura, a especialista em culinária portuguesa, no post do Facebook em que reproduzi a matéria da Vice.Vice. São marcadores que permitem "ler o território" do gosto.

Isso nos obriga a reconhecer, de um ponto de vista sociológico ou antropológico, que são ervas que ocorrem juntas e em oposição, isto é, não se explicam apenas no plano das preferencias pessoais. As preferencias pessoais se desenvolvem já imersas nessas “escolhas” coletivas que se dão por razões históricas e que não somos capazes de compreender. O que mostra, aliás, que a história não explica tudo. Afinal, coentro e salsinha chegaram ao Brasil para a construção da horta, "farmácia" obrigatória ao tempo da medicina galênica. 

Talvez seja difícil admitir, mas a socialização, especialmente da criança, dentro de um determinado espectro do gosto, se dá de uma maneira impositiva. Gostamos de enfatizar o "amor" aos filhos, não a imposição. Exposta domesticamente ao coentro, à salsinha, à pimenta, ao pequi, ao jatobá, à beterraba etc, quase com certeza a criança crescerá apreciando esses sabores em detrimento de outros aos quais não foi igualmente exposta. Uma intersecção poderosa entre “personalidade” e “cultura” atuará no organismo de modo a definir preferencias que são, indistintamente, pessoais e culturais. Ou pessoais por serem antes de tudo culturais.

Como alguém se torna torcedor do Palmeiras ou da Ponte Preta? A observação desse fenômeno nos diz mais sobre a preferencia por coentro ou salsinha do que qualquer propriedade intrínseca das ervas. 

Sem dúvida, uma gastronomia que se apóia quase que exclusivamente na idéia de “escolha” individual é mais uma das tantas formas que constroem a alienação moderna.

***
Carlos Alberto Dória, sociólogo e conselheiro do São Paulo São, tem vários livros publicados sobre sociologia da alimentação. Mantém e edita o blog e-BocaLivre.