Ritual de passagem - São Paulo São

Finalmente, chego lá. Carregada de mala e mochila, mais bolsa. Uma fila para o elevador. Troco olhares. Mal sei que será início de uma série de vaivéns de olhos anônimos que se cruzam, tentando buscar uma expressão que defina o plano comum: para onde vão todos?

A espera é grande. O saguão tem poucos ligares e muitos fumantes. Oposto do aeroporto, aqui era smoking area almost all over. Fila para um último telefonema de adeus, até breve ou estou chegando? Ou aght, até nunca mais.

Leitura obrigatória: manchetes dos jornais. Alguns arriscam comprar palavras cruzadas, para ver se ajudam no passatempo deste templo de gás carbônico suspenso no ar que respiramos. Respiramos?

Com calma, sento-me numa daquelas cadeiras enfileiradas para o mundão babel. O desfile sem produção começa: moço manco; garotão com mochila e colchonete, que parece querer chegar ao fim do mundo com liberdade; executivo que retorna ao lar depois de uma semana curta. Um garotinho carrega o skate com capinha e passa por baixo da roleta do xixi, a preço de mijo limpo. Paga-se no café, na água, e o gordo sorridente, candidato a modelo para os Vigilantes do Peso, não encontra assento em que caiba e fica rodando, olhando e rodando, até que come um Donuts lambuzado.

A ansiedade é grande. O clima é tenso, com falsa alegria. Ninguém aguenta véspera de feriado. Para alguns, serão poucas horas, um pulinho, um tiro e estarão em seus destinos. Outros cruzarão estados geográficos e de alma para um desembarque que poderá mudar suas vidas, ou deixá-los mais duros, frios, imunes a qualquer promessa não cumprida, expectativas não realizadas e sonhos roubados.

O grande relógio avança no ritmo inverso ao do local que o abriga: minuto a minuto, mais parecem horas. Faltam dez minutos. Duas vezes cinco. Trezentos segundos em dobro. Uau... Seiscentos segundos. Nada de voz sussurrando gate number... Aqui, a palavra da locutora afirma, solene e dura, como a autêntica Voz do Brasil: Florianópolis, plataforma trinta.

Sigo por uma escada. A multidão rola empacotada e é jogada na boca dos escapamentos dos ônibus. Vrum, vrum, vrum, infectos, poluidores. Leito comum ou executivo? Não importa, hoje eles possuem uma aerodinâmica que sugere a doce ilusão de que tudo será cômodo, a viagem, confortável, e toda espera valerá a pena.

Busco minha passagem, RG e vou. Serei vizinha de uma mãe com criança pequena, ou de um gordo que ronca, baba e pula a toda hora ir ao banheiro? Não sei. Sento-me e encerro meu expediente local. O motorista se apresenta simpático, conferindo um clima de espaçonave. Dá seu nome, locais onde irá parar e arranca. Nem bem parti para ver os amigos e já espero o retorno: com a alma reciclada pelas paisagens e rostos queridos, gargalhadas e histórias que terei para contar. O mesmo que todos esperam. Quando penso em tal recompensa, apagar este ritual de passagem às margens do Tietê fica muito mais fácil.

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Marina Bueno Cardoso, jornalista, trabalhou na imprensa em São Paulo e na área de Comunicação Corporativa de empresas. É autora do livro “Petit-Fours na Cracolândia”, Editora Patuá. Publica crônicas quinzenalmente no São Paulo São que são replicadas no site literário www.musarara.com.br