A estetização do mundo - São Paulo São

“Não estamos mais no tempo em que produção industrial e cultura remetiam a universos separados, radicalmente inconciliáveis; estamos no momento em que sistemas de produção, de distribuição e de consumo são impregnados, penetrados, remodelados por operações de natureza fundamentalmente estética. O estilo, a beleza, a mobilização dos gostos e das sensibilidades se impõem cada dia mais como imperativos estratégicos das marcas: é um modo de produção estético que define o capitalismo de hiperconsumo.”

Em seu livro ‘A estetização do mundo’ (escrito em parceria com o crítico de arte Jean Serroy), o filósofo Gilles Lipovetsky propõe um olhar inovador sobre a relação entre a economia liberal e a vida estética contemporânea. Em pouco mais de 400 páginas, Lipovetsky fala com brilhantismo sobre um dos grandes paradoxos do capitalismo de consumo: se por um lado produz efeitos inegavelmente desastrosos nos planos moral, social e econômico, por outro, ao explorar racionalmente e de maneira generalizada as propriedades estético-imaginárias (objetivando o lucro e a conquista de mercados), ele potencializa as dimensões criativas, intuitivas e emocionais, estilizando o universo cotidiano.

Segundo Lipovetsky, esse capitalismo contemporâneo busca construir uma imagem artista para seus autores: “os jardineiros se tornaram paisagistas; os cabeleireiros, hair designers; os cozinheiros, criadores culinários…”. Diferentemente da época fordista, em que o foco era a produção material, nesse novo modelo o foco é o imaterial – o intangível, o imaginário, o sonho. Assim, apelando para a sensibilidade dos consumidores, arte e estética estariam postas a serviço do mercado, criando-se o que o autor chama de “capitalismo artista”.

De maneira didática e acessível, nesse livro Lipovetsky traça um breve fio histórico (da Antiguidade clássica até os dias de hoje) para então expor sua ótima análise sobre as relações contemporâneas entre indústria, consumo, marca, arte e design. Elegante e provocativo, aponta o hiperindividualismo, potencializado pelo compartilhamento em rede de vidas estetizadas, como elo fundamental nessa cadeia de interações complementares e interdependentes.

Considerado um dos mais importantes pensadores de nosso tempo, com olhar especialmente voltado às questões de sociologia e filosofia do consumo, da moda e do luxo, Lipovetsky amplia nossa compreensão acerca deste mundo em que “tudo segue a lógica da moda: é efêmero e sedutor”, e nos põe em cheque em relação a um de nossos mais primitivos instintos: a eterna busca pela beleza e pelo prazer que ela proporciona à nossa alma.

Lipovetsky e Giannetti no debate sobre o impacto do consumo na sociedade. Foto: Luiz Munhoz.Lipovetsky e Giannetti no debate sobre o impacto do consumo na sociedade. Foto: Luiz Munhoz.O ciclo de conferências 'Fronteiras do Pensamento' recebeu Lipovetsky para um debate com o economista brasileiro Eduardo Gianetti, em junho deste ano, em Porto Alegre e em São Paulo. Sob o título 'Somos a civilização da leveza?', o debate teve como eixo central de discussão a relação dos indivíduos com o consumo no mundo contemporâneo. Um trecho desse interessante debate, que trouxe visões distintas sobre o tema, por ser visto no site oficial do evento: http://www.fronteiras.com/videos/momento-fronteiras-gilles-lipovetsky-e-eduardo-giannetti

Ainda do filósofo francês, são também excelentes leituras 'Da leveza – Rumo a uma civilização sem peso', ‘A era do vazio’ (ambos da Editora Manole), ‘O império do efêmero’ (Companhia de Bolso) e ‘O capitalismo estético na era da globalização’ (Edições 70).

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Valéria Midena, arquiteta por formação, designer por opção e esteta por devoção, escreve quinzenalmente no São Paulo São. Ela é autora e editora do site SobreTodasAsCoisas e sócia do MaturityNow.