Grafite, política e arte - São Paulo São

O grafite está associado à imagem de qualquer metrópole ocidental, ocupando importante lugar na cultura contemporânea. E embora sua história seja mais frequentemente contada a partir do cenário norte-americano do final dos anos 60, sua essência remonta à Antiguidade.

Pintura rupestre em caverna de Lascaux no sudoeste França. Imagem: Reprodução.Pintura rupestre em caverna de Lascaux no sudoeste França. Imagem: Reprodução.A palavra 'grafite' tem origem na palavra italiana graffiti (plural de graffito), que por sua vez vem de graffiare, que significa gravar, arranhar. O termo, que ao longo do tempo adquiriu outras dimensões, nasceu para designar desenhos e escrituras feitos com arranhões ou pigmentos sobre muros e paredes. Para alguns estudiosos, o grafite teria surgido ainda no período Paleolítico, nas paredes de cavernas como Lascaux (França) e Altamira (Espanha); outros creditam sua origem à Grécia e à Roma Antiga, em cujos edifícios os moradores rabiscavam seus nomes (e também xingamentos, declarações de amor, palavras e figuras obcenas etc.). Independentemente da precisão cronológica, é fato que, desde o Homem de Cro-Magnon, passando por gregos, romanos, vikings e 'manos', o grafite vem relatando caças, guerras e invasões, propagando aventuras sexuais, demarcando territórios, difundindo religiões e disseminando prosa, protestos e poesias por todo o mundo.

A partir do final da década de 60, com os muros de Paris convertidos em suporte para expressões poético-políticas, e os trens da Filadélfia em suporte para artistas em busca de novas linguagens, o grafite foi ampliando sua presença na paisagem urbana e consolidando seu papel protagonista na cultura pop. Menos de uma década depois, grafiteiros como Keith Haring e Jean-Michel Basquiat saíam dos trens e ruas de Nova Iorque para entrar em galerias – e o que até então era uma atitude política e, em diferentes medidas, transgressora, adquiria dimensão artística.* 

Desenho de Keith Haring (1958-1990) em Nova York nos anos 80. Foto: Reprodução.Desenho de Keith Haring (1958-1990) em Nova York nos anos 80. Foto: Reprodução.Mais ou menos na mesma época, e desafiando as restrições impostas pelo governo militar, Alex Vallauri – talentoso designer, pintor, gravador e desenhista etíope radicado em São Paulo – imprimia sua ironia e sua crítica pelos muros de nossa cidade, fazendo de telefones, botas pretas e frangos assados importantes aliados contra a ditadura. (Triste similaridade, os três artistas morreram precocemente: Haring aos 32, Basquiat aos 27 e Vallauri aos 37 anos). 

Rainha do Frango Assado, grafite de Alex Vallauri na década de 1980. Foto: Acervo Estadão.Rainha do Frango Assado, grafite de Alex Vallauri na década de 1980. Foto: Acervo Estadão.
Amanhã, 25 de janeiro, o CCBB inaugura em São Paulo uma grande exposição com cerca de 80 trabalhos de Basquiat (Jean-Michel Basquiat da Coleção Mugrabi). O conjunto, pertencente ao acervo particular de um colecionador norte-americano, foi produzido a partir de 1979, quando o artista abandonou os grafites. São pinturas, desenhos, gravuras e cerâmicas que revelam uma obra sofisticada, colorida, vibrante e repleta de referências autobiográficas, em que formas humanas, citações literárias, símbolos químicos e elementos musicais traduzem um universo interno complexo, erudito e irreverente.

E embora produzida há mais de 30 anos, em outro contexto e outra cultura, a obra de Basquiat nos chega de maneira próxima, quase afetiva e familiar, pois nela podemos identificar a mesma linguagem pop e transgressora ainda hoje presente em muitos muros de nossa cidade.

* Aqui talvez caibam algumas considerações: a discussão sobre o valor artístico do grafite persiste até hoje, assim como persistem divergências sobre o que sejam grafite, pixação e muralismo, inclusive entre estudiosos e acadêmicos. Pessoalmente, entendo que o grafite, por definição, carrega essa atitude política e transgressora, podendo ou não adquirir dimensão artística. Em outras palavras, toda obra de arte é também uma atitude política, mas nem toda atitude política é também obra de arte.

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Valéria Midena, arquiteta por formação, designer por opção e esteta por devoção, escreve quinzenalmente no São Paulo São. Ela é autora e editora do site SobreTodasAsCoisas, produtora de conteúdo e redatora colaboradora do MaturityNow.





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