Carnaval, muitos em um - São Paulo São

O Carnaval é, sem dúvida, um dos espetáculos mais bonitos do planeta. Do Rio de Janeiro a Veneza, de Nova Orleans a Santa Cruz de Tenerife, a explosão de cores, formas, ritmos e fantasias encanta e atrai pessoas de todas as culturas e idades, que se unem em torno da alegria e da celebração da vida.
Desfile da São Clemente durante o Carnaval do Rio de Janeiro, 2015. Foto: Antônio Lacerda/EFE/VEJA  Desfile da São Clemente durante o Carnaval do Rio de Janeiro, 2015. Foto: Antônio Lacerda/EFE/VEJA Desfile da São Clemente durante o Carnaval do Rio de Janeiro, 2015. Foto ©Antônio Lacerda  / EFE / VEJA.

Na forma como hoje conhecemos, o Carnaval é uma grande mistura de várias comemorações realizadas desde a Antiguidade por diversas civilizações. Hebreus, egípcios, gregos e romanos dançavam, bebiam e comiam para celebrar colheitas e louvar divindades. Na Roma antiga, currus navalis (algo como 'carros navais', carros em forma de navios) levavam homens e mulheres nus durante as 'Saturnálias' – festas em exaltação a Saturno que ocorriam durante o solstício de inverno e nas quais as orgias eram desmedidas. 

Já na Idade Média, ao implantar a celebração da Semana Santa, a Igreja Católica unificou essas e outras festas pagãs e limitou-as aos dias anteriores à Quaresma, passando assim a exercer um certo controle sobre o período de excessos, que agora precedia quarenta dias de severidade religiosa.

Carnaval em Veneza

Foto: Philippe Leroyer / Flickr / Creative Commons.Foto: Philippe Leroyer / Flickr / Creative Commons.Carnaval em Veneza, Itália. Foto © Philippe Leroyer / Flickr / Creative Commons.

Com o surgimento da commedia de l'arte, na Itália do Renascimento, o Carnaval incorporou elementos alegóricos às festividades: apareceram as  máscaras, os adereços e os carros decorados (os trionfi), e surgiram ainda as canções compostas especificamente para acompanhar os desfiles. 

 Carnaval (Mardi Gras) em New Orleans. Foto: ShutterStock. Carnaval (Mardi Gras) em New Orleans. Foto: ShutterStock.Carnaval (Mardi Gras) em New Orleans, EUA. Foto © Shutterstock.

No Brasil, as primeiras manifestações 'carnavalescas' de que se têm notícia remontam ao século XVII e têm origem no entrudo, uma brincadeira tradicional portuguesa (aqui praticada pelos escravos) que consistia em sair às ruas de rosto pintado, jogando farinha e água nas pessoas, sem dança ou fantasia. Com o tempo, foram surgindo cordões, ranchos, festas de salão,  corsos, escolas de samba, blocos... e daí, toda a pluralidade de formatos que hoje conhecemos.

São Paulo tem atualmente o segundo maior Carnaval do Brasil – são 4 milhões de pessoas saindo às ruas para acompanhar 491 blocos. Como em tudo nesta cidade, tem bloco para todos os gostos: para quem gosta de sereias, para quem se liga em vampiros, para quem curte o axé, para quem prefere o frevo, para fanáticos por futebol, para os saudosos das marchinhas... gosta de música latina? Tem. Véu e grinalda? Tem. Malabarismo? Rap? Rita Lee? Tem também.

Bloco Tarado Ni Você na Av. Paulista, 2017. Foto: Joel Silva / Folhapress.  Bloco Tarado Ni Você na Av. Paulista, 2017. Foto: Joel Silva / Folhapress. Bloco Tarado Ni Você na Av. Paulista, 2017. Foto © Joel Silva / Folhapress. 

E é justamente nessa pluralidade que reside a grande beleza de nosso Carnaval. Não apenas na explosão de cores, formas, ritmos e fantasias, mas também na explosão da diversidade, do multiculturalismo e do ecletismo que, de maneira sofisticada e única, moldam nossa deselegância discreta e nossa quase indecifrável identidade. 

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Valéria Midena, arquiteta por formação, designer por opção e esteta por devoção, escreve quinzenalmente no São Paulo São. Ela é autora e editora do site SobreTodasAsCoisas, produtora de conteúdo e redatora colaboradora do MaturityNow.