Queima das Fitas: muita festa desde o século XIX, agora sem ‘garraiada‘ - São Paulo São

Um dos acontecimentos mais tradicionais de Portugal e que reúne, há mais de 150 anos, alguns milhares de estudantes, tem pela primeira vez uma “pegada” mais sustentável e politicamente correta. 

A Queima das Fitas, festa que pode seguir por vários dias, com atividades culturais, sociais e esportivas, é organizada pelas maiores universidades do país e segue um ritual que se repete ano a ano, praticamente sem alterações, desde o século XIX. O ato de queimar as fitas – usadas pelos estudantes para prender seus livros – nasceu quase como um “rito de passagem” para marcar o fim dos anos de universidade e o começo de uma nova vida longe dos bancos acadêmicos.

Os alunos se reuniam na porta da faculdade, saiam em cortejo pelas ruas e queimavam as fitas numa pequena cova no chão. O ato simbólico também indica, para os que entraram no ano anterior, o momento em que eles deixam de ser “caloiros” (alunos do primeiro ano) e começam a gozar de algum status na hierarquia estudantil.

De meados do século XIX até hoje, a tradição se mantem, com cortejo percorrendo as ruas de importantes cidades do país, como Coimbra, Porto, Viseu e outras, muita música, bebida, comida, competições esportivas, teatro e garraiada... Ops, garraiada, não! Pela primeira vez nas últimas décadas, a Queima das Fitas em Coimbra, a maior e mais tradicional do país, tirou da sua programação oficial a “garraiada”, em uma decisão que gerou muita discussão e polêmica. 

De meados do século XIX até hoje, a tradição se mantem, com cortejo percorrendo as ruas de importantes cidades do país, como Coimbra (foto da Universidade), Porto, Viseu e outras. Foto: Visit Coimbra.De meados do século XIX até hoje, a tradição se mantem, com cortejo percorrendo as ruas de importantes cidades do país, como Coimbra (foto da Universidade), Porto, Viseu e outras. Foto: Visit Coimbra.

E o que é a garraiada? Basicamente, aquela “brincadeira” de soltar touros, que enfurecidos e desnorteados, correm atrás dos estudantes e são agarrados por grupos de jovens, cutucados, como uma grande brincadeira de “pega-pega”. No final, muitos se divertem, alguns se machucam, mas os animais, com certeza, sofrem.

A mudança histórica começou com um referendo que reuniu a posição de mais de 5 mil estudantes de Coimbra. O levantamento mostrou que mais de 70% deles era contra a garraiada. Mas apesar da posição majoritária dos alunos, a decisão, em um primeiro momento, não foi acatada pelo Conselho de Veteranos, entidade que tem o poder de vetar ou aprovar qualquer alteração. Manteve-se a tradição e a garraiada seguiu como parte da programação oficial. Mas a discussão não morreu e, após muita polêmica e alguma pressão (a direção-geral da Associação Acadêmica de Coimbra chegou a declarar que iria levar a decisão democrática do referendo até às últimas consequências), o líder da instituição anunciou a histórica decisão, ainda que não tenha sido por unanimidade.

Peça da campanha contra a garraiada. Imagem / Reprodução.Peça da campanha contra a garraiada. Imagem / Reprodução.

A grande guinada, após décadas de confronto entre estudantes e touros, segue o caminho que havia sido adotado no Porto, que suspendeu a garraiada em 2016, por decisão da Federação Acadêmica do Porto e do Conselho de Veteranos da academia, após petição online que contou com mais de cinco mil assinaturas. Desde 1948 que a garraiada encerrava a Queima das Fitas do Porto.

Também se ampliou a preocupação com o consumo e o desperdício de bebidas alcoólicas, principalmente a cerveja. Foto: Ricardo de Almeida. Também se ampliou a preocupação com o consumo e o desperdício de bebidas alcoólicas, principalmente a cerveja. Foto: Ricardo de Almeida.

Em Coimbra, outra novidade está tornando a festança mais amiga do ambiente este ano: para combater o desperdício, serão disponibilizados copos reutilizáveis em uma das principais áreas de show, acabando com cerca de 350 mil copos plásticos jogados no chão. Também se ampliou a preocupação com o consumo e o desperdício de bebidas alcoólicas, principalmente a cerveja. Além das mensagens sobre o consumo responsável de álcool, a organização quer combater a tradição recente dos banhos de cerveja. Eu, que passei pela festa em Viseu, vi a quantidade de cerveja que os estudantes “carinhosamente” jogam uns nos outros, em copos ou latinhas.

O ato de queimar as fitas nasceu quase como um “rito de passagem” para marcar o fim dos anos de universidade. Foto: Visit Portugal.O ato de queimar as fitas nasceu quase como um “rito de passagem” para marcar o fim dos anos de universidade. Foto: Visit Portugal.

A edição deste ano da festa da Queima das Fitas de Coimbra está orçada em quase 1 milhão de euros, menos 250 mil do que no ano anterior. A abertura aconteceu na semana passada, com uma linda serenata nas escadarias da Sé Velha de Coimbra. A programação, que tem entre as atrações Seu Jorge e Daniela Mercury, segue até o dia 11 deste mês. Quem quiser participar de uma festa muito animada, ouvir bandas e grupos de estudantes, saraus, fado, bailes e seguir cortejos pelas ruas, ainda dá tempo. Vale até tomar banho de cerveja. Só não vale mais é agarrar os touros, felizmente.

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Marcos Freire mora com a família em Ovar, Portugal, pequena cidade perto do Porto, conhecida pelo Pão de Ló e pelo Carnaval. Marcos é jornalista, com passagens pelas principais empresas e veículos de comunicação do nosso país. Escreve quinzenalmente no São Paulo São.