Croniqueta da Rua Amélia (a antiga), onde morei - São Paulo São

Rua Amélia 156... Era um nome simplório, hoje substituído, por um tão solene  quanto desconhecido Ministro Jesuíno Cardoso. E o telefone 8-7058? Apenas 5 algarismos.

As ruas paralelas tinham nomes igualmente singelos: Antonieta de um lado, Heloisa do outro. Sim, isso era possível na cidade de São Paulo há, digamos 50 ou 60 anos. Eu morei nesse endereço.  

Ao longo do tempo, habitaria ruas e cidades diferentes, telefones idem, tendo chegado ao assustador mundo dos Smart e iPhones. Sou péssimo em guardar números. Não consigo, assim de chofre, lembrar meu número de celular (uma justificativa: não costumo ligar para mim). No entanto, não esqueço aquele 8-7058 e o endereço. Com certeza lembrarei deles até o último momento.

Afinal foi ali, naquela rua então suburbana, sem asfalto, sem rede de esgoto, abastecida por motor elétrico que fazia um ronco surdo enquanto se esforçava para puxar a água do poço – foi ali, que eu passei a minha pré-adolescência.

Caberiam aqui considerações sobre essa fase da nossa vida, quando não somos mais crianças e ainda não chegamos à idade adulta.

Eu diria, sem medo de errar, que é o momento mais dramático da história de cada um, meninos, meninas, e que, apesar de todas as modernidades contemporâneas ainda me parece o trecho da existência mais angustiante.

É ali, entre os 10, 11 anos, que o futuro começa a ser traçado. Toma formas que, pelo resto da sua vida, seguirão sempre ao seu lado, prendendo você a antigas e esquecidas reminiscências como se fosse possível lembrar sem recordar, ou vice-versa. É nessa idade que se aguça o viço do sexo. Pelo cheiro, pelos ouvidos, pelo toque, por todo o corpo.

Foi lá, na rua Amélia, que eu, pela primeira vez, fui capaz de provocar, não diria amor, que nenhum de nós sabia o significado dessa palavra, mas algo parecido, por parte de uma mulher. Melhor dizendo, de uma menina. Ruth morava em frente, numa casa bem mais modesta do que a minha, de fundos, e era cruelmente chamada de Maria Palito pela turma da rua. Um exagero.

Era magrinha, mas nem tanto. Não fosse assim, minha mãe não a chamaria para posar como modelo em dois dos seus quadros da fase figurativa, que reputo notáveis. Num deles, como que espraiada sobre um jardim. No outro, ela com o olhar perdido num vazio onde caberiam todos os seus sonhos de menina. No colo, uma boneca de pano abandonada.        

Sua presença em casa me preocupava Alguém da turma, poderia insinuar que eu estaria interessado nela. E bastava um olhar malicioso de um dos meninos para eu virar o “namorado da Maria Palito”. Seria o suficiente para eu tentar desaparecer dessa terra. Não pela Ruth. Mas pelo apelido. Pela conjuntura.     

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A rua Amélia permitia-se ser uma síntese das mutações que a cidade  estava sofrendo. Ali, em plena Vila Nova Conceição, onde hoje predominam edifícios com nomes de nobres dinastias européias – isso para não falarmos nas “varandas gourmets” – convivíamos, então em paz, sem litígios aparentes, classes sócio-econômicas bastante diferenciadas.

Pelo lado esquerdo, uma sucessão  de casas baixas, moravam, o encanador Ildefonso e sua prole (o mais velho, o Alemão, seguia a vocação paterna, especializando-se em canos e conexões), o carroceiro Vadoca, sempre animado fazendo ele e seu cavalo pequenos “bicos” (o cavalo descansava pastando num terreno ao lado de casa). O Vadoca era casado com a Teresinha, durante anos, nossa empregada doméstica.

Noutra casa, logo adiante, vivia a família Tomazelli, do motorista de táxi com ponto na esquina da Amélia com a Avenida Santo Amaro.  Enfim, gente simples num tempo onde tudo era mais simples.    

Ah sim, é preciso não esquecer o sobrado amarelo que interrompia a sucessão de casas baixas. Ali vivia um senhor já avançado em anos,  “Seu” Vicente, de certo aposentado. Era negro. Ou, como se deve dizer modernamente, afro-descendente. Sua genealogia, porém, daria um nó em sociólogos e/ou lingüistas contemporâneos. Era filipino. Seria então um afro filipíno nascido em alguma ilha do outro lado do mundo? 

Já pelo outro lado, à direita de quem descia a rua, iniciava-se um embrião de especulação imobiliária. Os Mendes Caldeira, nome de tradição, compraram um quarteirão e começaram a plantar construções. Nada de correr de sobradinhos com 5 de frente por 25 de fundo, como se faria hoje em dia. Parecia que os especuladores de então não tinham tanta pressa em lucrar, ou eram menos ambiciosos. Não sei.

Lembro que as casas construídas pelos Mendes Caldeira eram padronizadas por dentro: duas salas, cozinha. Em cima, três quartos e um banheiro. Lavabo? Nem pensar. Do  lado de fora, ao lado do tanque, um WC. Dependências de empregada? Cada um que construísse as suas.

Por fora, no entanto, as casas adotavam características próprias. A do Marcelo,  mais estilo normando. A nossa, já era mais para chalé alpino, e assim por diante. Enfim, davam uma certa individualidade ao morador.  

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Não sei também se entre adultos havia convivência entre o lado esquerdo, e lado direito da rua. Entre nós, os mais jovens, ou a turma da rua, a harmonia era total.

Um dia, quando o motor da bomba começou a engasgar, veio o Alemão para tentar faze-lo funcionar. Com a habilidade herdada da família, ele desmontou aquele trambolho, remontou tudo e pediu para ligar. Não é que o motor, depois de duas engasgadas, voltou a funcionar! 

Aí o Alemão descobre uma peça da maquina esquecida sobre a lage que cobria o poço. Que fazer? Desligar? Abrir de novo aquela carcaça cheia de mistérios, inclusive para ele, um aprendiz na profissão. Nós dois, solidários e indecisos, enquanto o motor, funcionando macio como nunca antes funcionara antes, ia puxando a água borbulhante lá no fundo.    

Houve um momento de dúvida, de troca de olhares assustados, até a decisão: jogar a peça no fundo e esquecer o assunto. Foi o que fizemos, com o compromisso, óbvio, de não contarmos para ninguém o milagre e o santo. Mesmo porque nós não sabíamos quem ele era.       

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À noite, pós-jantar, nos reuníamos (além de milhares de mariposas)  naquelas conversas de portão atraídos - os jovens e as mariposas -  pelas poucas lâmpadas que alguns moradores deixavam acessas até que vinha lá de dentro a voz: crianças, é tarde, vamos entrar.

Quando não havia meninas na roda o papo noturno acabava quase sempre em relatos fantasiosos sobre proezas sexuais idem. Ou seja. No mais das vezes, pura fantasia. Além do que nem todos ali  eram tão crianças. Rosemeire, por exemplo, a que namorava firme o rapaz da farmácia, às vezes e aparecia e ai, diante de uma voz experiente, a maioria preferia ouvir. 

Essa jovem foi a responsável pelo desmoronamento de toda a minha fantasia masturbatória no dia em que, talvez ignorando o mal que  estava provocando em mim – e com certeza em mais de um menino na roda – contou, assim como quem não quer nada, que o tão ambicionado sexo, a trepada, não durava mais do que cinco minutos. Às vezes nem isso.

Então tudo o que eu fantasiava sobre sexo, aquela profusão alongada de carícias, os enrolares de coxas e pernas, aquela nádegas que eu pressionava, aquele prezar todo, na vida real aquele mundo de delícias a se extinguia assim, miseravelmente, em questão de minutos...

No tema, eu era obrigado a me consolar com o fato de que, quando sua mãe saia, Ruth organizava ocasionais “campeonato de beijos”. As meninas, nessa faixa de idade (e em outras também) costumam ser mais “avançadas” do que os garotos em matéria de sexo. Nesses torneios eu sempre era derrotado pelos mais velhos, ou mais ousados. Eles atacavam as bochechas femininas com um vigor sensual que me impressionava. Não havia ainda sido criada a instituição do “amasso”, pelo menos na nossa turma. Nem beijo na boca era permitido. Mas as bochechas delas deviam arder.

Quando chegava a minha vez, beijava a Ruth com uma ternura angelical, como para compensar o que a crueza dos demais meninos.

E ela parecia agradecida. Até o dia em que confidenciou. Ela se submetia aos beijoqueiros mais excitados enquanto aguardava, ansiosa, pelo meu beijo. Eu, com um simples roçar na sua face, a satisfazia mais do que todos.        

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Onde andará hoje a Ruth, a menina que posou para minha mãe com uma boneca abandonada no colo e os grandes olhos tristes. Como terá  sido a sua vida ao longo desses anos todos a partir do momento em que as nuvens negras começaram a se juntar no horizonte.

Com elas, viriam, numa  sucessão impressionante, primeiro o vendaval, depois a avalanche. A força de um tsunami de progresso  levaria de roldão o sobrado do filipino Vicente, a casa dos encanadores Tambascos, o Tomazelli, seu Chevrolet 48, o Vadoca, sua carroça e seu cavalo.

Ruth também desapareceu nesse turbilhão.

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Tão Gomes Pinto é jornalista e escritor. Atuou nos principais veículos da imprensa.