Pedófilo não tem nada a ver com os pés... Sabia? - São Paulo São

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Esta semana, dedicada à recuperação do meu combalido esqueleto, fui ao podólogo (também fui ao dentista). Eu nem sabia o que era esse tal de podólogo, que aliás, era uma podóloga.

Incrível minha ignorância. Pra mim, podólogo era uma espécie da especialista em podologia, ciência ou técnica da qual que eu nunca ouvira falar até outro dia.

Quando eu uso a expressão “outro dia”, pode significar ante-ontem, cinco anos atrás ou até 50 anos. É a vantagem (a única) de se viver muito. Por exemplo, eu só fiquei sabendo o significado da palavra pedófilo outro dia.

Não me pergunte quando, exatamente. Eu só lembro de ter ficado muito contente quando o Millor fez uma charge onde um homem (desenhado naquele estilo cubista-vão gogo) comentava: “Engraçado, eu nunca tinha ouvido falar em pedofilia”.

Exultei. Eu já tinha passado dos 50, e ainda pensava que pedofilia tinha uma relação com pés. Não sabia que era uma prática comum nas casas paroquiais e também no recesso do lar. Enfim, nunca me preocupei com um assunto que, dizem, influiu muito na renúncia do ex-papa.

Mas voltando ao podólogo – ou à podóloga – no meio dos trabalhos ela me diz, assim como se fosse uma observação banal, feita ao acaso, “esse seu pé de diabético…”

Eu quase cai da cadeira. Pé de diabético? O meu? Procurei disfarçar ao máximo meu apavoramento com aquela notícia.

Planejava chegar em casa e correr ao Google (ah, quanta saudade das minhas Britânicas de 24 volumes, mais o Atlas…eu tive duas, hoje, em função de separações e novas conjunções, acabei sem nenhuma)… mas nem foi preciso.

O taxista, conversador como todo bom taxista, lamentava-se de seu índice de glicemia. Maravilha, cogitei com os meus botões como sempre faz o Mino Carta com os dele. Não podia ter caído num táxi melhor. O motorista sabia tudo sobre diabetes, dos pés à cabeça.

Ele indagou qual meu índice de glicemia. Eu, tentando parecer um expert para não perder o fio da conversa, disse, vagamente: Faz tempo que eu não tiro. Mas acho que deve estar entre 100, 110.

Senti no taxista uma ponta de vaidade ao informar o dele: 260.

Minha reação foi espontânea: E você esta vivo ainda? 

Ele não só estava vivo como me contou que, na semana anterior, tinha feito um cateterismo e ainda aguardava o resultado que sairia no dia seguinte.

Temo pela sorte desse taxista. Em 1995, quando eu tive meu AVC, o taxista que me levou ao  hospital já inconsciente era o habitual “Português” do ponto. Depois de 15 dias de Einstein, fui liberado com as sequelas de praxe.

Mas já tinha forças para ir até o ponto e agradecer ao “Português”.

Foi quando seus colegas, com ar compungido, me disseram que, no dia seguinte àquele que me levou ao hospital, ele morreu de um enfarte fulminante.

Isso aconteceu em 1995…

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Tão Gomes Pinto é jornalista e escritor. Atuou nos principais veículos da imprensa.