Uma história paulista: o Paulistano - São Paulo São

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Num dia de arrumação (ou desarrumação)da casa, preparando uma nova mudança, agora de volta a São Paulo, na já rotineira separaçãode papéis antigos, abro uma gaveta quase nunca utilizada.

Estavam lá as cópias  da carteira de motorista do meu pai, o RG no formato da época, papeizinhos, anotações e num cantinho da gaveta, para minha surpresa, uma carteirinha de sócio do “Club Athlético Paulistano”. 

De couro marron. Pequenininha. Preservada, como uma jóia. Fausto Gomes Pinto, meu pai, sócio número 1144.

Dentro da carteirinha,o recibo de 250 mil réis, datado de 3 de janeiro de 1927,devidamente estampilhado com um selo de 600 réis. Assinava “o thesoureiro” João B. da Cunha Bueno. Era o recibo da “Jóia”. Uma jóia cuidadosamente dobrada em quatro partes, dentro da outra jóia.

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Meu pai nunca me disse que havia sido sócio do Paulistano. Mas eu percebia, quando conversávamos sobre futebol, que seus idolos haviam ficado no passado.

‘El Tigre’: média de gols superior a Pelé, apesar da boemia.‘El Tigre’: média de gols superior a Pelé, apesar da boemia.Pelé ainda não existia. Leonidas da Silva encerrava sua carreira no nosso time, meu e de papai. Mas ele vibrava mesmo quando mencionava Clodô (Clodoaldo Caldeira) e Bartô (Bartoloneu Vicente Cugani). Dois beques que devem ter sido fora de série. E no ataque, ah… tinha o Araken Patuska, os dribles desconcertantes do Amphilóquio Guarisi Marques, o Filó.

Ah… sim, também o “thesoureiro” João da Cunha Bueno.Todos, inclusive o tesoureiro, participaram da memorável excursão à Europa, a primeira de um clube brasileiro, e que espantaram o mundo então considerado civilizado, com seu talento no jogo da bola.

Foram goleadas em cima de goleadas, que deixavam boquiabertos os jornalistas da França e adjacências. “Les petits bresiliéns son fantastiques”.

E acima dos demais jogadores, considerado por unanimidade, por toda a imprensa, brasileira e internacional, pairava a figura de Arthur Friedenreich.

Desde garotinho papai me falava das proezas desse rapaz, filho de um alemão com uma negra. Hoje, o futebol mudou muito, e seria impossivel comparar  “Fried” com um Pelé, um Messi. Mas, enquanto viveu e jogou, El Tigre (era o seu apelido, dado por uruguaios e argentinos) devia ser mesmo um fenômeno. 

Quantas e quantas vezes ouvi papai, na sua roda de amigos, contar sua experiência no Campeonato Sul Americano de 1919, salvo erro, o primeiro de uma longa história feita de rivalidades e êxitos comemorados com entusiamo até excessivo.

Papai, muito jovem, foi ao Rio de Janeiro, participou da inauguração das Laranjeiras, na época chamado de “gigante”. Um “gigante”que acomodava modestas 18 mil pessoas. Fried faria o primeiro gol nas Laranjeiras, mas não foi esse o mais importante da sua vida.

Aconteceria na final do campeonato, depois de um empate de 2 a 2 com o Uruguai. Na decisão, um empate de 0 a 0. Vem a primeira prorrogação. Nenhum gol. A segunda, nada de gols. Na terceira prorrogação, depois de mais de três horas de jogo, Arthur Friedenrich marca.

Papai estava lá. O Clube Paulistano estava lá. A Gazeta, naqueles anos, um jornal influente, estampou na primeira página, em tamanho natural, o pé de Fried.

No Rio, papai acompanhou o cortejo que levou a chuteira do craque a uma loja do centro onde ficou exibida durante três dias sob forte aparato policial.

Em São Paulo, uma carreata de 2 mil automóveis acompanhou Fried e seus companheiros da Estação da Luz à sede no Jardim Europa. Dali, a carreata voltou para a Praça da Sé, lotada.

Mas o futebol já desandava. Brigas políticas entre entidades, o dilema do profissionalismo marron (Antonio Prado “contratara”Arthur Friedenreich como funcionário da Antarctica, onde, anos depois, ele se aposentadoria), a violência inevitável num esporte de muito contato físico, tudo isso fez com que Antonio Prado, que mandava no clube como se fosse sua casa, pusesse abaixo as arquibancadas do campo de futebol e mandasse instalar quadras de tenis no local.

Creio que foi nessa época que o sócio Fausto Gomes Pinto decidiu guardar para sempre, naquela caixinha, o seu passado de torcedor. Ele era um apaixonado pelo futebol do Paulistano. 

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Tão Gomes Pinto é jornalista e escritor. Atuou nos principais veículos da imprensa.