Sobre filhos, decisões e ser dono - São Paulo São

 

Uma das decisões mais radicais e irreversível na vida é a paternidade. Com efeito, todas as conversas a partir de então acabam se aproximando das peripécias e feitos dos filhos.

E, numa dessas conversas, uma amiga jornalista me disse que seu filho de cinco anos na volta da escola, chegou até ela e declarou:

- Mãe, eu já sei o que eu quero ser quando crescer.

- É mesmo? O que você quer ser?

- Eu quero ser dono.

- Quase desmoronei, mas, resolvi investigar:

- Você quer ser dono do que?

- Eu quero ser dono, não importa.

- Quero ser dono.

- Putz!, fiquei pensando sobre que motivos levaram meu filho de cinco anos a tomar essa decisão. Decisão que poderá mudar muitas vezes ao longo de sua vida, é claro. Porém, ainda que em sua inocência, uma decisão. Para mim é um desafio incrível tomar qualquer decisão. Há sempre tantas questões que sinceramente me dá uma preguiça enorme até mesmo de tentar. E, o que é pior, não raro, depois de algum tempo acabo enfrentando algum tipo de arrependimento ou frustração pelo fato de não ter feito algo que gostaria.

Não me contive:

- E aí? Você? Já decidiu o que quer ser?

Apesar de contrariada com a pergunta, ela respondeu:

- Eu!!!!?????

- Acho que quero ser dona! Hahahahahahahahahahahahaha!

- A é? Mas, dona do que?

- Dona da minha vida!

- Você está pronta para ser dona?

- Não sei.

- E se você soubesse? (continuei).

Muito mais contrariada ainda, indagou:

- Putz, ter uma maior capacidade de decisão sobre o que quero de fato, e seguir em frente sem ficar criando desculpas para não fazer?

- Não sei. O que você acha? (respondi).

E assim lancei nosso diálogo em um silêncio profundo.

Mas, por que decidir é tão desafiador?

Você sabia que em sua raiz etimológica a palavra decidir também significa cortar?

“lat. decīdo,is, cīdi,cīsum,ĕre 'cortar, separar cortando, despedaçar a golpes'...”(grande dicionário Houaiss).

Pois é, decidir é tão desafiador porque ao decidirmos por algo automaticamente cortamos todo o resto. E assim nos lançamos ao que é novo. E o novo sempre assusta.

De que forma então poderíamos estabelecer uma relação menos conflituosa com nossas decisões?

Podemos começar buscando respostas para algumas perguntas:

Essa decisão é importante para mim?

O que eu ganho se eu tomar essa decisão?

Quais os benefícios que esta decisão pode me trazer no futuro?

O que eu perco se eu não tomar essa decisão?

O que eu perco se eu tomar essa decisão?

De que maneira posso me movimentar para amenizar essas possíveis perdas?

E, finalmente, quem sabe, se, ao buscarmos as respostas para estas questões não estamos, também, nos preparando para ser donos.

Donos de nossas vidas.

Adi Leite é Life & Career Coaching certificado pela sociedade brasileira do coaching, fotógrafo e jornalista. Passa a escrever quinzenalmente no São Paulo São como colunista.