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São Paulo São Ensaios

Assim como a reputação de Nápoles ganhou recentemente um fino restauro a partir do quarteto de livros escritos por um autor ou autora que assina Elena Ferrante, outras cidades são identificadas de imediato com obras de ficção aptas a multiplicar o fascínio enigmático do lugar e mesmo – como é o caso de Nápoles – escamotear os seus déficits de realidade.

Elena Ferrante (direita) em Nápoles na década de 60. Foto: Daily Trust.Elena Ferrante (direita) em Nápoles na década de 60. Foto: Daily Trust.

A ironia é que a lenda literária construída em torno de várias dessas cidades nem sempre vem de escritores nativos, e sim de estrangeiros, o que faz supor que o olhar de fora muitas vezes consegue captar nuances e atmosferas imperceptíveis a quem vive o cotidiano local. 

O fato de focar a escolha especificamente em cidades pode levar a certas injustiças. Difícil imaginar, por exemplo, alguém que tenha captado com maior sensibilidade o spirito meridionale do que o alemão Goethe, na sua Viagem à Itália, relato sobre suas peregrinações ao longo de um ano e meio (1786-1788).

Correndo o risco de outras omissões, aqui estão as cidades selecionadas e seus aficionados:

1. Alexandria, Egito

Imagem: Fandom.Imagem: Fandom.Cidade de encruzilhadas, a antiga capital do império helenístico de Alexandre Magno foi erigida, a partir de um vilarejo de pescadores, com vocação de grandeza e propensão à diversidade cultural, ética e religiosa. No seio de sua comunidade judaica nasceu, por exemplo, o futuro historiador Eric Hobsbawm (1917-2012).

Alexandria teve no seu Farol um dos sete monumentos da antiguidade e abrigou a maior biblioteca da época, consumida por um incêndio. O inglês Lawrence Durrell, em O Quarteto de Alexandria (1957-1960), mergulhou no melting pot frenético, desregrado e ensolarado de uma metrópole que mesmo hoje, a segunda cidade mais populosa de um Egito mais hermético (4,1 milhões de habitantes), não consegue perder sua identidade dupla de vínculo com o Ocidente e o Oriente.

2. Berlim, Alemanha

© 1972 Allied Artists-ABC Pictures.© 1972 Allied Artists-ABC Pictures.

A Berlim que virou capital da Alemanha unificada, após a queda do Muro, ainda é ironizada como “pouco alemã” pelos próprios alemães. Ao que os berlinenses respondem: Berlim “é pobre, mas sexy”.

O fato é que a cidade guarda na alma as cicatrizes de tempos sombrios, a arrogância prussiana do Império, os sacolejos da República do Weimar, a sanha nazista e a divisão do pós-guerra. Hoje em dia, Berlim recupera a mística boêmia de Adeus a Berlim (Goodbye to Berlin, de 1945), seis contos autobiográficos do inglês naturalizado americano Christopher Isherwood, já impregnados da decadência anunciada da Berlim às vésperas do nazismo.

Livro que inspirou, no musical e, depois, no filme Cabaré, a atmosfera trepidante e devassa do bas-fond berlinense em torno da figura de Sally Bowles (Liza Minelli).

3. Cairo, Egito

Foto: Getty Images.Foto: Getty Images.

Não é para qualquer um a decifração de uma cidade escaldante e empoeirada, cujos enigmas serpenteiam pelos becos e as palavras se recolhem às pausas do narguilé nos cafés exclusivamente masculinos. 

Naguib Mahfouz nasceu no Cairo, em 1911, e lá faleceu, em 2006, com mais de 50 livros no currículo e um Nobel de Literatura inédito para quem escreve em árabe (em 1988). Mahfouz conhece todos os passos do caminho que fazem da capital do Egito uma colmeia humana emaranhada e superpovoada (8,5 milhões de habitantes).

A tradição oral derivada de As Mil e Uma Noites encontra eco em O Beco do Pilão, de 1947, cujo cenário é uma rua sem saída, menção alegórica a personagens em busca de um destino, ainda que meramente movidos a fantasia. 

4. Florença, Itália

Foto: Getty Images.Foto: Getty Images.A cidade parece padecer de uma maldição de Maquiavel – seu mais ilustre cidadão e pensador –, pois o inequívoco potencial de sua inspiração artística não corresponde necessariamente à produção de alta literatura.

Antes de esplendor, houve Dante, é verdade. Ressalve-se também o vigor do local Vasco Pratolini e de seus resistentes proletários e um ou outro momento de beleza como em Uma Janela para o Amor (A Room With a View, do inglês E.M. Forster, de 1908).

Um blend de ensaio erudito (o título cita o historiador John Ruskin) e mergulho emocional, sujeito a surpresas trepidantes, faz de As Pedras de Florença, da americana Mary McCarthy, um estimulante companheiro de viagem. McCarthy tem no humor que corta sem machucar sua maior expertise. 

5. Istambul, Turquia

Foto: Luciano Mortula.Foto: Luciano Mortula.

Nobel de Literatura de 2006, Orhan Pamuk refaz as peregrinações de Gustave Flaubert, de Maxime du Camp, de Gérard de Nerval, de Théophile Gauthier, para disfarçar, na sua Istambul natal e afetiva, os caminhos oblíquos de sua própria melancolia.

Istambul, Memórias de Uma Cidade, de 2003, está impregnada de hüzün, aquele sentimento oriental de quase fatalidade, em contraste ambíguo com a tradição familiar pró-ocidental, burguesa e laica de Orhan Pamuk e sua prosa de sonoridade, digamos assim, francofônica.

Repassar as memórias em imagens que só parecem trazer fantasmas é experimentar a sensação de que, querendo ou não, nosso passado nos escraviza. Pamuk já se mudou tantas vezes, mora hoje em Nova York e, no entanto, capitula: “Nunca deixei Istambul, nunca deixei as casas, as ruas e os bairros de minha infância”.    

6. Lisboa, Portugal

Foto: Casa Fernanda Pessoa.Foto: Casa Fernanda Pessoa.

“Lisboa com suas casas/ De várias cores…/ À força de diferente, isto é monótono. Como à força de sentir, fico só a pensar.”

“Pelo Tejo vai-se para o Mundo./ Para além do Tejo há a América/ E a fortuna daqueles que a encontram.” 

“Uma névoa de Outono o ar raro vela,/ Cores de meia-cor pairam no céu. / O que indistintamente se revela,/ Árvores, casas, montes, nada é meu.”

“O céu azul – o mesmo da minha infância –/ Eterna verdade vazia e perfeita!/ O macio Tejo ancestral e mudo./ Pequena verdade onde o céu se reflete!/ Ó mágoa revisitada, Lisboa de outrora de hoje!/ Nada me dais, mas me tirais, nada sois que eu me sinta”.

Versos de Fernando Pessoa (Lisboa, 1888 – Lisboa, 1935).

7. Los Angeles, Estados Unidos

Foto: Vice.Foto: Vice.

Parece contraditório que um reduto solar como Los Angeles tenha encontrado sua melhor tradução literária na ficção noir. Nas pegadas de Raymond Chandler (1888-1959), de O Sono Eterno (The Big Sleep, de 1939), James Ellroy fez da cidade que abriga a fantasia policromática chamada Hollywood o cenário para traições, trapaças, desilusões, corrupção policial e crimes de singular violência, como aquele que o autor viveu no pesadelo da crua realidade: o assassinato de sua mãe.

O fantasma da vítima tão próxima assombra o quarteto de romances que tem LA dos anos 40 e 50 ao fundo (Dália Negra, The Big Nowhere, LA-Cidade Proibida e White Jazz). Em My Dark Places, de 1996, a ficção cede lugar ao jornalismo investigativo, e Ellroy sai, quase 40 anos depois, para desvendar a morte de sua mãe, mas a Los Angeles sombria, sórdida, alcoolizada, continua sendo protagonista da narrativa.

8. Mumbai, Índia

Foto: Alex Robinson.Foto: Alex Robinson.

A ex-Bombaim, na costa ocidental da Índia, é uma metrópole de crescimento exponencial demais (tem hoje 19 milhões de habitantes) para que alguém alimente a ilusão de identificar nela o cenário que serviu de referência a Os Filhos da Meia-Noite, que Salman Rushdie, um nativo da terra desgarrado em frias paragens britânicas, situa a partir da meia-noite de 13 de agosto de 1947 – o dia da independência da Índia.

Mas estão nessa Mumbai de Rushdie os elementos imateriais que revelam a sua alma: os atritos religiosos, o intolerante sistema de castas, o aventureirismo inescrupuloso, o fantasma do antigo colonizador, a algaravia das ruas, os verões abrasantes, a miséria persistente e a descrença no futuro. O livro de Rushdie, guiado pela memória, é de 1980.

9. Paris, França

Foto: Le Dome Café.Foto: Le Dome Café.

Toda vez que você ouvir o clichê de que Paris é uma festa, não tenha dúvida: culpe Ernest Hemingway.

A Moveable Feast, na versão original, é uma obra póstuma, publicada em 1964, portanto três anos após o escritor ter se matado em seu rancho, em Idaho (EUA). Retrata a faiscante Paris dos anos 20, na qual a “geração perdida” dos émigrés, tais como Picasso, Scott Fitzgerald, John Dos Passos, Ezra Pound e o próprio Hemingway, vivia um idílio intelectual embebido em pastis e vin ordinaire.

É tristemente irônico que a menção a Paris traga à tona de imediato o nome de Hemingway, e não, por exemplo, o do extraordinário Gustave Flaubert, de Educação Sentimental, assim como no cinema ficou a ilusão de que quem melhor conhece Paris é Woody Allen, e não René Clair. 

10. Salvador, Brasil

Foto: Eduardo Moody.Foto: Eduardo Moody.

O Pelourinho, o Mercado Modelo, a Água de Meninos, a Ladeira do Pilar, o Ilê Axé Opó Afonjá, o Terreiro de Jesus, a Baixa dos Sapateiros, a Rua da Agonia, a Ladeira da Água Brusca, a Rua do Chega Negro, a Rua da Forca, a Rua dos Marchantes e o Beco do Sossego.

Salvador da Bahia é, na nomenclatura de seus sítios históricos, um clamoroso convite à ficção e ninguém soube reproduzir melhor do que Jorge Amado – procedente do ciclo original do cacau em torno de Ilhéus – a redundância mítica da geografia urbana. Se alguém disser que Salvador é criação de Jorge Amado não estará muito longe da verdade.

Capitães da Areia, de 1937, o primeiro dos vários romances que recrutam o submundo de Salvador como painel, conserva a vitalidade de uma literatura de combate.

11. Tânger, Marrocos

Foto: Bruno Morandi.Foto: Bruno Morandi.

Chegam até esta que é a mais setentrional das cidades da África, promontório afiado apontando para Gibraltar, tanto as ventanias do Mediterrâneo quanto as aragens do deserto, se bem que amainadas pela distância – o que pode ser entendido como o encontro simbólico da civilização com a tradição. Porto também – para operosos navios de carga e para atormentadas naves humanas.

Menos turística que Marrakesh, menos institucional do que Rabat, a capital do Marrocos, a cidade de Tânger abrigou no pós-guerra a alma irrequieta do escritor e compositor nova-iorquino Paul Bowles (1910-1999) e a mulher dele, Jane, também escritora e dramaturga. The Sheltering Sky, de 1949, que Bernardo Bertolucci filmou (O Céu Que Nos Protege, na versão brasileira), confirmou Tânger no mapa da literatura internacional, assim como vários de seus contos posteriores.

12. Tóquio, Japão

Foto: A City Made By People.Foto: A City Made By People.


A metrópole dos becos plácidos, das tradicionais casas de gueixas e de paixões labirínticas retratada nas obras clássicas de Akutagawa, de Tanizaki, de Soseki, contrasta com a balbúrdia noir do contemporâneo   – em especial no thriller claustrofóbico, mas altamente estilizado de In The Miso Soup (de 1997, edição brasileira de 2005).

O cenário é diferente daquela Tóquio febril de Shibuya e Shinjuku que emerge de outros livros de Murakami. Aqui, a vida é pedestre, uma via estreita perto do lendário Mercado de Peixes, a ponte Kachidoki, a colina que descortina o Templo Hongan-ji. Nesta Tóquio de Murakami ainda há muitos mistérios a se decifrar.

13. Verona, Itália

Foto: City Scape.Foto: City Scape.Com tinturas de lenda, mas aflições de realidade, a história da mortífera briga política pelo controle de Verona já estava na Divina Comédia, de Dante (Purgatório VI). William Shakespeare transformou-a no mais dramático enredo de uma paixão impossível.

A casa dos Capuleti (que viraram Capuleto em Shakespeare) é um palazzo medieval, erigido no início do século XIV na Via Cappello, e em cuja fachada se destaca o mítico balcão que Romeu, do clã rival dos Montecchi, escalava para visitar a sua adorada Julieta. Está lá, para a visitação de todos os enamorados de hoje.

Verona é tombada pela Unesco como Patrimônio da Humanidade. 

14. Veneza, Itália

Foto: Getty Images.Foto: Getty Images.

Eis aí uma cidade capaz de fazer pulsar, até nos mais medíocres, a veia do escritor. Não por acaso pôde inspirar obras-primas na pena do erudito inglês John Ruskin (o tratado sentimental-arquitetônico As Pedras de Veneza é de 1851) e do americano expatriado na Inglaterra Henry James (o thriller epistolar Os Papéis de Aspern, publicado em 1881). Entre muitos outros.

Mas, com a mãozinha sofisticada de Luchino Visconti e seu cinema, é Morte em Veneza, do alemão Thomas Mann, a obra que ganhou primazia ao descrever a grandiosidade desafiadora da cidade dos doges, à qual os miasmas da laguna conferem um cheiro de elegante decadência.

O livro é de 1912 e o filme, de 1971. Da pátina dos palazzi da aristocracia e da cilada das ruas labirínticas, a literatura extrai as tramas do feitiço eterno.

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Por Nirlando Beirão em Carta Capital. Edição: São Paulo São.

Todo o marketing em torno das smart cities, as tais cidades inteligentes (e há muito marketing, porque por trás delas estão grandes corporações vendendo tecnologia para os governos municipais) fala em cidades humanas e democráticas, a partir da possibilidade de interação do cidadão com o governo e de como essa interação pode promover melhoria da qualidade de resposta das políticas públicas às pessoas.

Descubro, espantada, no dicionário etimológico, que ruga e rua têm a mesma origem: dobra, vinco, entrada, sulco, fenda. Como nunca tinha pensado nisso, se presto tanta atenção à origem das palavras e também muita às minhas rugas, cada vez mais pronunciadas? Talvez seja porque as etimologias também gostem de se ocultar e trabalhar como metáforas cuja entrelinha, às vezes, opera como uma revelação.

Foto: Bob Wolfenson.Foto: Bob Wolfenson.

 Edifício Wilton Paes de Almeida antes do desabamento. Foto: Larissa França Perez / Arquigrafia. Edifício Wilton Paes de Almeida antes do desabamento. Foto: Larissa França Perez / Arquigrafia.

O desabamento do Edifício Wilton Paes de Almeida, no dia primeiro de maio de 2018, escancarou uma emergência habitacional. Como se não bastasse o corte nos investimentos públicos destinados ao setor, em São Paulo, apenas no ano de 2017, pelo menos 14 mil famílias foram removidas de suas casas, e há pelo menos outras 30 mil ameaçadas por morar no perímetro de obras públicas, segundo aponta o Observatório de Remoções da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU/USP).

Para cada família que é forçada a sair de seu lar, a prefeitura concede uma bolsa-aluguel de R$ 400. Atualmente, diz a Secretaria Municipal de Habitação, 30 mil delas recebem o benefício. Mas o valor costuma ser insuficiente para custear o aluguel de um imóvel na região central, onde a maioria das pessoas já está estabelecida. Assim, quando escolhem permanecer no mesmo bairro ou região, por conta do seu trabalho e da escola em que suas crianças estão matriculadas, as famílias acabam indo parar numa ocupação ou numa favela.

De acordo com o Censo 2010, São Paulo tem mais de 30 mil imóveis nos distritos centrais que poderiam ser destinados à habitação social. Dentre os imóveis que pertencem ao poder público, como era o caso do edifício Wilton Paes de Ameida, muitas vezes eles se originaram de dívidas que organizações privadas não conseguiram honrar, e isso chega via INSS, ou massa falida de empresas como a Rede Ferroviária Federal. O problema é que a venda ou doação desses imóveis muitas vezes implica para o gestor estar sujeito a questionamentos por parte do Tribunal de Contas ou do Ministério Público: como é possível vender barato uma coisa que vale muito mais? Como é possível doar um bem que na verdade se destinava ao pagamento de uma dívida? É um emaranhado grande que faz com que estes imóveis, quando colocados à venda, jamais atinjam o preço no qual foram estabelecidos. Além disso, há uma enorme dificuldade de doá-los para programas sociais.

O Conjunto Habitacional Conselheiro Crispiniano/Iracema Eusébio, no centro de São Paulo, abriga 72 novas unidade de moradia popular. Foto: Fabio Arantes / Secom.O Conjunto Habitacional Conselheiro Crispiniano/Iracema Eusébio, no centro de São Paulo, abriga 72 novas unidade de moradia popular. Foto: Fabio Arantes / Secom.

No caso de São Paulo, para imóveis privados, desde 2010 há uma lei que prevê penalidades, dentre as quais a desapropriação, mediante indenização em títulos da dívida pública, para os proprietários que os mantiverem vazios ou subutilizados. Em fevereiro de 2018, de acordo com artigo de Fábio Custódio, à época mestrando da FAU, em co-autoria com sua orientadora Paula Santoro, 1.384 imóveis foram notificados. Destes, 645 estão localizados na região central. Entretanto, apesar de o próprio Plano Nacional de Habitação prever que apenas com o uso de imóveis notificados seria possível produzir 110 mil moradias, este instrumento em si não é capaz de produzir moradia. É o que aponta uma outra pesquisa da FAU, esta coordenada pela professora Luciana Royer: uma parte destes imóveis notificados jamais poderiam ser reformados e virar moradia.

Há um centro feio que é bonito e milhões de pessoas que vivem entre o luxo e o lixo. Há uma avenida, um Minhocão, um Impostômetro, literatura de cordel, jazz, sebos e brechós, “gozações” e outros quebra-cabeças.

É preciso garimpar em São Paulo para descobrir São Paulo, uma cidade excessiva onde a história se escreve no concreto — e sem pedir licença.

Artigo publicado no jornal português Público - que reproduzimos a seguir, mantendo as característica originais das diferenças linguísticas - traduz as principais características de nossa cidade. Aproveitem e descubram São Paulo ainda mais, a partir da visão do jornalista Luís Octávio Costa.

Bueno montou uma pequena banca, uma mesinha e um caixote, onde nesse sábado decidiu exibir e vender as suas obras. Ao seu lado, colado num muro do Beco do Batman, Vila Madalena (criatividade fácil, embraiagem difícil), está um “lambe-lambe” gigante com a sua assinatura: de frente fita-nos o Batman de Adam West; abraçado a ele, e de costas para nós, está Pelé.

A foto original antes da montagem e da colagem foi tirada a 1 de Outubro de 1977, no dia em que o Rei se despediu do futebol (jogava pelo New York Cosmos) e em que foi homenageado por Muhammad Ali.

Pelé agradeceu com um beijo, que Luis Bueno todos os dias imortaliza, colando “lambe-lambe” nas ruas de São Paulo, onde vive há 15 anos, substituindo o pugilista por personagens como Mona Lisa, David Bowie, C-3PO, Marilyn Monroe, Chewbacca, Bob Marley, Salvador Dalí ou qualquer um dos The Beatles. “Nunca me encontrei com ele pessoalmente, mas dizem que é uma pessoa muito afável”, comenta Bueno, natural de Guararema e fã de Pelé por este ser “um ícone daquilo que é o Brasil, com os seus problemas e as suas potencialidades”. “Significa a cultura brasileira”, resume.

Bruno ao lado de uma de suas obras no Beco do Batman. Foto: Luis Octávio Costa.Bruno ao lado de uma de suas obras no Beco do Batman. Foto: Luis Octávio Costa.

Quando chegou a São Paulo, Bueno sentiu o “impacto muito grande” que provavelmente todos nós sentimos quando chegamos a uma cidade onde vivem mais pessoas do que em todo o território português (são 12 milhões na cidade brasileira, menos dois milhões em Portugal). Se o Brasil, como escreveu Antonio Carlos Jobim, “não é para principiantes”, São Paulo, com ruas caóticas e agrestes (onde as lixeiras de grade são tantas como os indigentes caídos pelas soleira das portas), com uma — pelo menos uma — “cracolândia” e marcas de tinta e de desigualdades sócio-económicas a trepar pelos edifícios abandonados de paredes de betão áspero, não é para qualquer um.

“Aqui, se há uma casa abandonada, há ‘pixação’”. “Pixação” é o mesmo que pichagem, que significa “aplicar piche”. E parecem escritas a petróleo, rabiscadas janela a janela, varanda a varanda, “escalada” a “escalada” as mensagens, o “pixo” que se distingue do graffiti pela falta de cor, pela falta de formas redondas e polidas e pela ausência de mensagens harmoniosas. Os “pixadores” (ou pichadores) raramente usam imagens, apenas letras, gatafunhos monocromáticos, uma caligrafia omnipresente de linhas rectas e cantos aguçados. “A ‘pixação’ é a manifestação mais marginal do universo de arte de rua por parte de uma ‘galera’ que quer expressar-se e não tem como”, sublinha Bueno, adepto da “forma de guerrilha” de ocupação sem autorização de espaços que estão ociosos. “Ficou claro para mim que a arte de rua tem um poder de tocar directamente as pessoas que a arte de galeria e de museu não têm.”

Escadaria na Vila Madalena. Foto: Luis Octávio Costa.Escadaria na Vila Madalena. Foto: Luis Octávio Costa.

Quem “pixa” — consta que são mais de cinco mil “pixadores” activos só em São Paulo — não usa o verbo pintar. Quem “pixa”, detona ou escancara. E essa raiva em relação à cidade é muito mais do que bravura adolescente. Está enraizada e reflecte um sentimento de injustiça intrinsecamente ligado ao padrão de urbanização desigual que marcou os anos 1940 e que continua até hoje com tentativas de transformar São Paulo numa cidade moderna baseadas em ambiciosos projectos de renovação urbana. Além de melhorias nas infra-estruturas, um programa de ampliação das ruas, a construção de um enorme parque urbano (Parque Ibirapuera) e outros projectos de embelezamento, a principal característica da renovação urbana de São Paulo foram os seus arranha-céus modernistas.

 Uma das “naves espaciais“ de Niemeyer. Foto: Luis Octávio Costa. Uma das “naves espaciais“ de Niemeyer. Foto: Luis Octávio Costa.

Alimentada por crédito fácil e aspirações de uma linha de horizonte ao estilo de Nova York — muito diferente e tão semelhante —, São Paulo experimentou um boom sem precedentes de construções no imediato período do pós-guerra. Esses projectos de renovação urbana tiveram, porém, um efeito adverso na vida dos moradores da classe trabalhadora da cidade. Para transformar São Paulo na cidade moderna imaginada, grandes porções foram demolidas, especialmente os edifícios “fora de moda” localizados no centro da cidade, habitados pelos trabalhadores pobres. Incapazes de encontrar moradias a preços acessíveis dentro e nos arredores do centro, os paulistanos da classe trabalhadora ficaram com duas opções: juntar-se aos pobres urbanos numa das favelas da cidade ou mudar-se para a periferia. A maioria escolheu a periferia e São Paulo ganhou a reputação de ser uma das cidades mais desiguais do mundo.

“Bem-vindo a São Paulo. Viva tudo isso.” E “isso”, como nos avisa a faixa numa das vias rápidas (por aqui, as “vias” nunca são muito “rápidas”), é muita coisa, muita informação para digerir, para se viver. “Isso” são todas as dicas de todas as pessoas de todas as redes sociais em que vivemos mais a vida real de São Paulo escancarada nas ruas. Estamos preparados para uma parte, não para o todo.

“Bem-vindo a São Paulo. Viva tudo isso.“ Foto: Luis Octávio Costa.“Bem-vindo a São Paulo. Viva tudo isso.“ Foto: Luis Octávio Costa.

Fatidicamente, a nossa visita a São Paulo até começou no extremo ostentador da vida da cidade, onde chegámos a convite da ILTM, feira internacional de turismo de luxo que durante quatro dias aterrou no Parque Ibirapuera, o parque mais visitado da América Latina e um dos mais fotografados do mundo — culpa do paisagista Otávio Augusto Teixeira Mendes e do arquitecto Oscar Niemeyer, autor de algumas das “naves espaciais” brancas deste parque urbano. Durante quatro dias circulámos num evento apenas para convidados que reúne os melhores agentes de viagens de luxo do Brasil e da América Latina para reuniões pré-agendadas com fornecedores das melhores experiências de viagem de todo o mundo. Desta vez, a cerimónia inaugural do ILTM aconteceu no cinco estrelas Palácio Tangará (bólides lá fora, dress code lá dentro), um oásis urbano no universo cosmopolita de São Paulo inaugurado em 2017 e que é o primeiro empreendimento brasileiro da marca hoteleira europeia Oetker Collection, umas das mais selectas colecções de hotéis masterpiece do mundo. Debruçado em torno do verde do Parque Burle Marx, no bairro do Panamby, este palacete em estilo neoclássico de 27 mil metros quadrados (onde já esteve uma casa encomendada a Niemeyer pelo empresário e playboy Francisco “Baby” Pignatari) foi construído em 1990 para ser um spa de luxo, mas, por motivos de desavenças entre os então sócios, foi abandonado durante 15 anos, até a obra ser retomada e o edifício e jardins restaurados. “Queremos ganhar ainda mais visibilidade para nos consolidarmos como uma alternativa na cidade para quem procura equilibrar a agenda de negócios com uma experiência revigorante no meio da movimentada São Paulo”, sublinha Celso do Valle, gerente do Palácio, que adoptou o nome de um pássaro de peito azul e crista vermelha.

Vista do 23.o andar do Tivoli Mofarrej. Foto: Luis Octávio Costa.Vista do 23.o andar do Tivoli Mofarrej. Foto: Luis Octávio Costa.

Durante cinco noites também ficámos alojados num cinco estrelas, no Tivoli Mofarrej, em pleno Bairro dos Jardins, a um quarteirão da Avenida Paulista e com uma vista impressionante e omnipresente de um 23.º andar (360 graus) sobre as artérias de Sampa, que Caetano Veloso cantou (“É que quando eu cheguei por aqui eu nada entendi/ Da dura poesia concreta de tuas esquinas/ Da deselegância discreta de tuas meninas”).

O velho é feio?

Para entender São Paulo, e porque facilmente pode ser mal-interpretada, começámos no MASP. Porque toda a gente nos referenciou o Museu de Arte de São Paulo, porque ele está mesmo aqui ao lado, porque foi plantado em plena Avenida Paulista — prazer em conhecê-la, ouvimos falar muito de si — e porque cá fora, sob as patas armadas do bicho, combinámos encontrar aqueles que serão os nossos guias nas pausas do ILTM. César, Marcelo, Alexandre e André. Denominadores comuns? A fotografia, o Instagram e São Paulo, que é o palco diário deles.

O MASP foi desenhado pela italo-brasileira Lina Bo Bardi, que usou vidro e betão para criar arquitectura de superfícies rudes e sem acabamentos de luxo, mas que de alguma forma transmite uma sensação de leveza e de transparência. Famoso por um vão de 70 metros que se estende sobre quatro pilares como patas vermelhas de um ser, o edifício modernista possui a mais importante e abrangente colecção de arte ocidental da América Latina e de todo o hemisfério sul, totalizando aproximadamente oito mil peças. No interior sem divisões, e no que à museografia diz respeito, Lina Bo Bardi também inovou ao utilizar lâminas de vidro temperado amparadas por um bloco de cimento como base para as pinturas — a sua intenção é imitar a posição do quadro no cavalete do artista no seu atelier, permitindo-nos espreitar as “costas” de cada quadro. Cá fora está uma pequena fila, interrompida por auto-proclamados “vendedores de literatura poética”. Lá dentro, autocolante MASP ao peito, mais cultura brasileira.

Visitante na exposição de Aleijadinho no MASP. Foto: Luis Octávio Costa.Visitante na exposição de Aleijadinho no MASP. Foto: Luis Octávio Costa.

Somos apresentados a António Francisco Lisboa, mais conhecido como Aleijadinho (1738-1814), filho de um artífice português e da sua escrava, alforriado pelo pai, e autor de uma série de obras realizadas em igrejas mineiras e que formam um dos principais conjuntos de arte religiosa executados no Brasil. No ano dedicado às histórias afro-atlânticas no Museu — as histórias dos fluxos e refluxos entre a África e as Américas através do Atlântico —, também a exposição de Maria Auxiliadora (1935-1974), de origem humilde, descendente de escravos, assume uma urgência. A sua pintura, cheia de capoeira e samba, de umbanda, candomblé e orixás (manifestações religiosas que assumiriam um papel de conforto espiritual na luta da artista contra o cancro), de festas, procissões, botecos e bailes representa também o dia-a-dia de familiares e amigos nos subúrbios de São Paulo. Longe dos preconceitos académicos ou modernistas, longe dos artistas canonizados pela história da arte, Maria Auxiliadora, como os artistas de rua, inventou um outro modo de pintura, uma técnica singular — até mechas do seu próprio cabelo serviram para engrossar a tinta que usava — que se transformou na sua assinatura.

Palhaço prepara-se no metrô para mais um dia de trabalho.  Foto: Luis Octávio Costa.Palhaço prepara-se no metrô para mais um dia de trabalho. Foto: Luis Octávio Costa.

Assim como o Aleijadinho, que frequentemente manifestou a tendência para deformar as figuras que esculpiu aumentando um pouco o seu tamanho, também São Paulo se desfigura ano após ano, demolição após demolição — e nem estamos a falar do modernista Edifício Wilton Paes de Almeida, construído em 1961 por Roger Zmekhol, abandonado em 2001 e cujos 24 andares desabaram uns dias antes de chegarmos, deixando espalhadas pelo Largo do Paissandu dezenas e dezenas de tendas de campismo onde agora moram as famílias que o ocupavam ilegalmente —, construção após construção. “São Paulo vive a cultura do velho é feio”, resume @cesinha, habituado a explorar as várias faces de uma cidade mutante e fã incondicional do centro, que vive numa encruzilhada tão grande como o “Minhocão”. Esta via elevada que rasga a cidade foi inaugurada em 1970 com o intuito de desafogar o trânsito e funciona de segunda a sexta das 7h às 20h, permanecendo fechada a veículos automóveis nos demais dias e horários, altura em que os seus 3400 metros ganham uma segunda vida, cheia de atletas mais ou menos amadores, bancas de sumos naturais e outros vendedores ambulantes e até alguns projectos culturais que se vão exibindo às janelas e varandas do “vale” que limita o Elevado Presidente João Goulart.

Conversa na Praça da Sé. Foto: Luis Octávio Costa.Conversa na Praça da Sé. Foto: Luis Octávio Costa.

“O centro é o meu quintal. É onde está a essência da cidade”, sublinha. “É uma ‘briga’ eterna”, acrescenta @aurch, com casa colada ao Minhocão. “Há uma maioria de pessoas que acham que São Paulo tem que ser dos carros. Mas as pessoas querem as ruas, o ar livre, não querem o shopping”, diz, lembrando que só a dinâmica do centro da cidade e o fluxo de novos moradores poderá provocar e desencadear novas oportunidades de trabalho e devolver a segurança a uma cidade onde hoje se usa o smartphone com parcimónia — com um olho no gadget e com o outro nas “aves de rapina”.

A avenida onde tudo acontece

A cidade convive lado a lado com a arte de rua. Foto: Luis Octávio Costa.A cidade convive lado a lado com a arte de rua. Foto: Luis Octávio Costa.

Veja-se o esclarecedor caso da fértil Avenida Paulista, onde ao longo dos seus 2,7 quilómetros de extensão floresce uma variedade incrível de equipamentos culturais (para além do MASP, a Japan House, o Instituto Moreira Salles, o Instituto Cervantes, o Cinema Bristol, o Conjunto Nacional, o Espaço Cultural Citi, o Itaú Cultural e um recém inaugurado SESC com vida própria e vista privilegiada para a avenida e para um imenso Niemeyer pintado por Kobra, filho da terra) e que ao domingo também é devolvida às pessoas, transformando-se numa festa imensa, num verdadeiro pólo cultural. “Ao domingo vemos aqui coisas que normalmente vemos na praia, não na rua”, conta @aurch, caçador de erros e “turista na própria cidade”.

Decretado oficialmente em Junho de 2016 pelo então presidente da Câmara Fernando Haddad, o programa Paulista Aberta afasta os carros, transformando a avenida numa grande praça pública onde todos podem descobrir e apreciar de outro ângulo e com outro ritmo projectos de grandes artistas e de outros que estão a começar e que de uma forma espontânea montam o seu palco.

A relevância da Avenida Paulista deve-se, entre outros factores, ao facto de São Paulo ser uma cidade sem grandes atractivos naturais e que por isso tende a olhar para si mesma. “A avenida é o local onde tudo acontece”, sublinha Alexandre Urch. Se no final do século XIX a Paulista brotou para ser um eixo de glamour dos barões do café e seus palacetes (a Casa das Rosas, um casarão de 1935 no estilo clássico francês, parece ter escapado às várias investidas da modernidade), a mesma foi-se reconstruindo, camada sobre camada, à medida que se foram sucedendo os ciclos históricos da cidade.

Detalhe da vida no Largo São Bento. Foto: Luis Octávio Costa.Detalhe da vida no Largo São Bento. Foto: Luis Octávio Costa.

Quem mora em São Paulo não conhece muito a cidade”, constata @cesinha. “As pessoas não sabem”, mas até o amplo terraço do Edifício Copan, símbolo da arquitectura moderna brasileira, número 200 da Avenida Ipiranga, pode ser visitado (gratuitamente, duas vezes por dia). “São Paulo é muito isso”, uma cidade que aos poucos vai olhando para si própria com orgulho, mas uma cidade que ainda consegue apontar os casos raros de quem vive, trabalha e faz a sua parte na revitalização do centro (como o casal Janaína e Jefferson Rueda, proprietários do restaurante Casa do Porco e do Bar da Dona Onça, paredes meias com o gigante “s”, onde moram). Segundo Niemeyer, que nos anos 1950 desenhou o Copan, os ângulos rectos da cidade não atraíam o público. As curvas sim. Inspirado no Rockefeller Center de Nova Iorque, o prédio é incontornável na paisagem. Tem a maior estrutura de betão armado do país. 115 metros de altura, 32 andares e 120 mil metros quadrados de área construída, dividida em seis blocos num total de 1160 apartamentos de dimensões variadas e mais de 70 estabelecimentos comerciais. Durante as décadas de 1950, 60 e 70, o Copan foi a imagem da São Paulo Moderna — uma campanha publicitária previa mesmo uma “chuva de dólares” para a cidade. Hoje, a obra que o próprio Niemeyer considerou como filho bastardo continua a acompanhar as ondas da cidade. Está enredado — a pastilha que o cobre está periclitante. Parece uma bandeira. É uma bandeira.

“Quem mora em São Paulo, não conhece a cidade“ constata @cesinha no terraço do Copan. Foto: Luis Octávio Costa.“Quem mora em São Paulo, não conhece a cidade“ constata @cesinha no terraço do Copan. Foto: Luis Octávio Costa.

São Paulo “é grande e pequena ao mesmo tempo”, diz Paulo Del Valle, enquanto passeia a Pipoca. Há sempre quem diga “o centro é feio, mas ali é bonito”. “Aos poucos”, garante @marcelonava, “o centro está cada vez mais atraente”. Reencontramo-lo no Largo de São Bento, um dos espaços públicos mais antigos de São Paulo, para um “rolê” que incluiria galerias comerciais (é essencial conhecer e entender no mínimo a Galeria Nova Barão e a Galeria do Rock), uma paleta de orelhões (um belo e agora menos funcional objecto lançado em 1972 nas ruas pela arquitecta e designer brasileira Chu Ming Silveira), engraxantes de todas as idades e para todas as classes sociais e até um Impostômetro (no Viaduto da Boa Vista, também conhecido entre instagramers como “drone dos pobres”), um painel electrónico (como numa máquina de flippers) ligado a um mecanismo, que calcula a exorbitante quantidade de taxas que sobrecarregam a economia brasileira. Antes, relaxamos no estrado de madeira do Largo de São Bento, mesmo em frente ao Mosteiro, onde de soslaio conseguimos espreitar o pátio do colégio e descobrir algumas delícias celestiais fabricadas por quatro monges e vendidas numa pequena padaria: os pães artesanais Dominus (pão de campanha elaborado com um blend de farinhas francesas), Exultet (farinha francesa, gotas de chocolate, cacau e laranja, “fermentação natural e cozido directamente na pedra”) e São Philippi (farinha francesa e nozes torradas), o mel, os biscoitos (de azeite, de amêndoas, de água de flor de laranjeira, de cardamomo, canela, gengibre e cravinho em pó), as trufas, os licores, o vinho, a cerveja e os meios bolos (o Bolo dos Monges leva vinho canónico, damasco, ameixa e açúcar mascavado...).

As populares Kombi que ainda circulam pela cidade. Foto: Luis Octávio Costa.As populares Kombi que ainda circulam pela cidade. Foto: Luis Octávio Costa.

O Viaduto Santa Efigenia, estrutura de ferro Arte Nova fabricada na Bélgica e inaugurada em 1913, já está ao rubro. Há “jogo da bolinha”, camelôs (vendedores ambulantes), truques de magia, surpresas, baralhos mágicos, “gozações” e outros quebra-cabeças. Ao fundo, contornamos o Largo do Paiçandú (e o caos provocado pela queda descontrolada do Wilton Paes de Almeida, que deixou a descoberto muitas fragilidades), contamos salas de cinema fantasmas que já foram campeãs absolutas de entretenimento para a população (Cine Paissandú, Art Palácio, Marrocos...). “Comeu coxinha? Tem que comer coxinha!” Cada paulistano (paulistano nasceu na cidade, paulista nasceu no Estado) indicará a sua coxa creme preferida no “pós balada”. As nossas primeiras coxas? Estadão e 89º Coffee Station. Por que ponta começar? É como explorar São Paulo. “A gente roda, roda, roda e cai no mesmo lugar. São Paulo é mesmo assim”, descreve @andrehsantos.

Detalhe de petisco no restaurante Casa do Porco. Foto: Luis Octávio Costa.Detalhe de petisco no restaurante Casa do Porco. Foto: Luis Octávio Costa.

A gente está aqui — no centro financeiro, calçada portuguesa e engraxatarias finas instaladas em pagodes vermelhos — e está na Catedral da Sé. A gente está no bairro da Liberdade e está no Japão — e fica explicada uma parte importante da história do sushi e do karaoke. A gente está a dançar, a ler ou a namorar no CCSP e está na Pinacoteca (tem que se ir à Pinacoteca, junto à Rua das Noivas e à Estação da Luz, que é o Museu da Língua Portuguesa). A gente está num Uber (“caiu no Uber certo”) e está num roteiro gastronómico improvisado pelo Guilherme. “Podia dizer dez sem pensar.” E disse: Paris 6 Burlesque (teatro, circo, contorcionismo e um pedacinho de Paris), Acrópoles (“o melhor grego de São Paulo”, diz o nosso motorista, que destaca as lulas recheadas e a conversa com o cozinheiro), Rota do Acarajé (ingredientes da Bahia e cachaça “para degustar”), Consulado Mineiro (tutu com feijão e torresminho), Mori Sushi (“serviço exclusivo ao balcão”), Pizzaria Moraes (abriu em 1933, tem as pizzas“mais antiga e mais bem feitas”), Speranza (quando a Moraes estiver fechada), Padaria São Domingos (pão de linguiça), Z-Deli (hamburgueria artesanal) e, para terminar a contagem, um sítio para beber um copo. “Balada? Puta! Aqui tem em todos os lados. Lovestory, todas as tribos se encontram lá. É o final.”

Detalhe de uma exposição no Pinacoteca. Foto: Luis Octávio Costa.Detalhe de uma exposição no Pinacoteca. Foto: Luis Octávio Costa.

Baralhar e voltar a dar. É o início, a rua — que é onde São Paulo vive. Dia de feira — todos os dias são dias de feira. “Tem feira? Então tem caldo de cana e pastéis”, avisam Marcelo e André, enquanto puxam dos bancos de plástico nas lanchonetes improvisadas junto à Feira Santa Cecília e traçam no mapa um novo “rolê”. Terá histórias que ainda não chegaram aos museus (estão escondidas nos sebos, nos brechós, nas linhas de discos e de jazz que se improvisam na Teodoro Sampaio, estão nas feiras da Praça Benedito Calisto, ao sábado, e do Bixiga, ao domingo), terá street art daquela que se atropela (“não é onde há, é onde não há”; na dúvida, procure-se o espaço Choque Cultural). Terá um milhão de lambe-lambe. Terá um que diz que “coisas boas acontecem aqui”. Terá um que resume a história de José Datrino, o profeta Gentileza que Marisa Monte cantou. “Nós que passamos apressados/ Pelas ruas da cidade/ Merecemos ler as letras/ E as palavras de gentileza”.

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Por Luís Octávio Costa no Público.