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São Paulo São Ensaios

Durante mais de quinhentos anos, a legislação urbanística no Brasil baseou-se nos Códigos de Posturas de origem colonial. Somente a partir de 1920, surgiram códigos de obras leis de zoneamento urbano, explica o arquiteto e urbanista Luiz de Pinedo Quinto Júnior. A lógica da reforma urbanística e sua relação com a legislação do início do século XX foram decorrentes da criação, pelo Estado, de leis específicas para cada projeto de reforma e saneamento das cidades portuárias. O mesmo valeu para a concessão para os serviços públicos de transporte, energia e saneamento. No século XIX, autorizações específicas para obras foram dadas à empresas privadas: Guinle e Gaffré, por exemplo obtiveram, por 90 anos, a concessão da Companhia Docas de Santos para administrar operações nos portos e cuidar de melhorias urbanísticas no seu entorno. Porém, as iniciativas reformadoras esbarraram na colcha de retalhos que até então, era a cidade: um emaranhado de ruas onde se misturavam casas de comércio e habitações luxuosas, cortiços ou casas de cômodos.

Porto de Santos, cerca de 1880. Foto: Marc Ferrez / Acervo IMS.Porto de Santos, cerca de 1880. Foto: Marc Ferrez / Acervo IMS.

Alguns meses atrás, manchetes dos noticiários de Londres anunciavam que o popular aplicativo Uber havia perdido sua licença para operar na cidade. A extensa cobertura midiática dada ao fato indicou mais um sinal, se ainda precisamos de mais deles, de que estamos à beira de uma revolução da mobilidade urbana.

Sistemas de navegação, carros e bicicletas compartilhados, aplicativos de planejamento de viagens e outros serviços inovadores que aproveitam os avanços da comunicação móvel, pagamentos sem dinheiro físico e monitoramento remoto estão vendo sua popularidade aumentar no mundo todo. Os usuários prezam – e em muitos lugares passaram a depender – da conveniência e flexibilidade que esses serviços oferecem a uma grande variedade de preços. Ter o mais básico smartphone hoje significa que ir ao trabalho, buscar entretenimento ou ir para o aeroporto às 5h da manhã é tão fácil quando tocar na tela do aparelho.

Diante dessa nova onda de opções de transporte possibilitada pelas tecnologias móveis e de rede, no entanto, muitos governos locais enfrentam dificuldades para se adaptar. Os críticos apontam corretamente que as questões com regulamentações, segurança e congestionamentos estão longe de serem resolvidas. As avaliações multibilionárias ou o potencial massivo de vagas de trabalho possibilitam manchetes empolgantes, mas obscurecem as possibilidades reais da revolução da mobilidade urbana.

Simplificando: a nova mobilidade pode ser empolgante por si mesma, mas é nos pontos em que pode ser combinada às opções de transporte já existentes que seu potencial se torna realmente transformador.

Ilustração: Getty Images.Ilustração: Getty Images.
De fato, existem claras oportunidades para integrar os novos serviços de mobilidade aos já existentes sistemas de transporte urbano tendo em vista serviços mais acessíveis, convenientes e ecologicamente corretos para todos. Mais de 70 cidades já estão formando parcerias com novos serviços privados de mobilidade, em parte para reforçar as ofertas de transporte público, mas também para amenizar as pressões do crescente custo e envelhecimento dos sistemas e o rápido crescimento do número de passageiros.

As cidades e seus habitantes podem se beneficiar dos novos serviços de mobilidade – desde que sejam capazes de entender e evitar os possíveis problemas. Na primeira pesquisa global sobre os novos serviços, liderada pela Coalition for Urban Transitions, as análises mostram como as cidades podem avaliar novas opções de mobilidade e integrá-las em seus sistemas de transporte urbano. São três aplicações específicas que poderiam se beneficiar de tais colaborações.

Aplicativo GoLA.Aplicativo GoLA.Primeiro, a parceria entre os desenvolvedores de aplicativos dinâmicos de planejamento de viagens e de emissão de bilhetes poderiam oferecer aos passageiros uma plataforma totalmente integrada para planejar e pagar pelas viagens. Isso tornaria muito simples para os passageiros acessar o que fosse mais conveniente, atraente ou econômico – tudo através de um dispositivo. O aplicativo chamado GoLA, por exemplo, ajuda os moradores de Los Angeles a compararem o custo, tempo, calorias queimadas e emissões mitigadas para várias opções de transporte que variam de bicicleta a ônibus e carros particulares. Um total de 24 prestadores de serviços de transporte fazem parte do sistema, com alguns já permitindo pagamentos também através do aplicativo.

RideCell, plataforma de gestão de frotas sob demanda.RideCell, plataforma de gestão de frotas sob demanda.Em segundo lugar, a integração de miniônibus elétricos sob demanda operados de forma privada com outras formas de transporte público pode ajudar as cidades a manter ou ampliar a cobertura em áreas desatendidas, reduzindo o custo do serviço. Os miniônibus desempenham um papel importante em muitas cidades de rápido crescimento, e companhias como a RideCell e a TransLoc oferecem plataformas de roteamento que as agências de trânsito podem usar para administrar suas próprias frotas sob demanda. Isso daria às cidades a capacidade de mudar as rotas de acordo com as variações da demanda de passageiros.

Espaço reservado para automóvel compartilhado em Hoboken, Nova Jersey. Foto: NJ.com.Espaço reservado para automóvel compartilhado em Hoboken, Nova Jersey. Foto: NJ.com.Terceiro, subsidiar viagens compartilhadas de e para pontos centrais de transporte em bairros onde os residentes podem ter um bom acesso a opções de transporte, incluindo residentes de baixa renda ou pessoas com deficiência. Vários programas desse tipo já estão funcionando. Uma cidade em Nova Jersey, por exemplo, espera economizar 5 milhões de dólares em 20 anos ao subsidiar viagens compartilhadas em vez de construir mais estacionamentos perto de estações de trem.

Os novos serviços de mobilidade têm o potencial de complementar o transporte público, mas também podem levar a um agravamento dos congestionamentos, mais acidentes de trânsito, mais poluição atmosférica e outros efeitos indesejáveis se não forem gerenciados com cuidado. Mais atenção precisa ser dada para assegurar que os novos serviços de mobilidade atendam às reais necessidades da população. No geral, porém, integrá-los adequadamente aos sistemas de transporte existentes é uma oportunidade que as cidades devem aproveitar. Pode ser que ainda estejamos nos primeiros dias da revolução da nova mobilidade, mas em vez de proibir o futuro devemos ser criativos na forma como o abraçamos.

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Ani Dasgupta é o diretor global do WRI Ross Center, programa do WRI que trabalha para ajudar as cidades a crescerem de forma mais sustentável e a melhorar a qualidade de vida das pessoas em países em desenvolvimento. *Artigo publicado originalmente em inglês no TechCrunch.

Nos vitrais, a pintura complementa o colorido dos vidros, serve para a criação de sombras e tonalidades, para o aprimoramento das formas, para a modulação da luz. A arte do vitral desenvolveu-se enormemente durante o período medieval, momento em que, com a afirmação do gótico como expressão da arquitetura, as composições de vidros coloridos passaram a vedar grandes superfícies das igrejas e, além das funções decorativas, ganharam funções pedagógicas, ensinando aos fiéis, por meio de imagens, a vida de Cristo, dos Santos e passagens da Bíblia.
 
Entre os séculos XIV e XVI, os vitrais passaram a ser utilizados como formas de iluminação dos ambientes e a pintura dos vidros adotou a perspectiva, o que tornava os vitrais semelhantes aos quadros. Sua utilização ampliou-se dos espaços públicos, em especial das igrejas, para os ambientes privados, como palácios e sedes de corporações. As representações neles contidas se estenderam, então, para a heráldica, para as epopeias, para as caçadas e para a mitologia. No Estado de São Paulo, a utilização de vidros coloridos e pintados, montados em perfis de chumbo para decoração e iluminação de ambientes, correspondeu à fase moderna do desenvolvimento da arte de produzir vitrais.
 
Na capital, ampliou-se a partir da virada do século passado, com a expansão de novos bairros, a monumentalização dos edifícios públicos e o requinte arquitetônico das residências. Até hoje vitrais de edifícios públicos paulistanos, como os do Palácio da Justiça e do Mercado Municipal, causam admiração pela proporção, beleza e integração com o projeto arquitetônico. Representando temas históricos ou referentes às funções públicas dos edifícios, as imagens formam um conjunto das representações que, a partir do fim do século anterior, criaram e reafirmaram um perfil de São Paulo diante do Brasil. 
 

Sob esse ponto de vista, os vitrais, além de peças de arte, constituem importantes documentos históricos. Eles nos falam do forjar de ideias que se tornaram referência e moldam nossa relação com o passado e com o presente, justificando papeis e responsabilidades sociais. Produtos materiais de cultura, parte de nosso patrimônio histórico e objetos de fruição de beleza, os vitrais expressam por meio do poder das imagens a tradição, a excelência econômica e cultural de São Paulo, o trabalho, a determinação e o progresso. 

Cenas do cotidiano da vida no campo na década de 30.Cenas do cotidiano da vida no campo na década de 30.
 
 
Plantação de café.Plantação de café.
 
Agricultores trabalhando na lavoura. Agricultores trabalhando na lavoura.
 
 
A colheita e o transporte de bananas.A colheita e o transporte de bananas.
 
Boiadeiro conduzindo a manada de bois através do rio.Boiadeiro conduzindo a manada de bois através do rio.
 

Outras possibilidades de criação do vitral podem ser observadas no Mercado Municipal de São Paulo, 1933, que apresentam um tom quase jornalístico a temática dos vitrais. Ali aparece o homem flagrado no momento de seu trabalho: alimentando animais de criação, colhendo café, transportando bananas, tocando o gado. Cenas da agricultura, avicultura, pecuária, mostrando agricultores trabalhando de forma bem rudimentar, numa época anterior à mecanização. Tudo retratado dentro de um realismo fotográfico no que diz respeito à paisagem, à proporção e à profundidade dos elementos representados, buscando a autenticidade das informações.

Os 5 vitrais que retratam cenas da vida no campo, estes foram criados por Conrado Sorgenicht Filho que já tinha a tradição na família, cuja técnica foi trazida da Alemanha no século XIX pelo seu pai, Conrado Sorgenicht.

Conrado Sorgenicht (filho) andou pelas fazendas do interior do Estado de São Paulo, acompanhado de seu filho Conrado (neto), que já trabalhava no ateliê desde 1922, fotografando lavouras para registrar as ferramentas utilizadas, os meios de transporte, os animais de pequeno porte sendo criados soltos. Inspirados nestas fotos, o vitral foi criado. A criação dos vitrais levou 5 anos. Os vitrais foram restaurados no final dos anos 80 por Conrado Sorgenicht Neto.

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Artigo da Professora Dra. Regina Lara Silveira Mello da ANPAP - Associação Nacional de Pesquisadores em Artes Plásticas.

Fim de ano se aproxima e com ele a vontade de fazer tudo o que não foi feito nos últimos onze meses. Lista de desejos, promessas para o próximo ano, novos projetos… Por isso, resolvi listar 10 coisas que quero para o ano que vem. Não me apeguei ao que quero comprar, ter ou algo desse tipo. Mas, sim, às atitudes que quero ter ou desenvolver em 2018. O objetivo é seguir essa lista para ser uma pessoa um pouquinho melhor. Confere aí!

1- Ter mais paciência

A vida numa grande cidade me deixou mais impaciente do que eu já era. Falta paciência no trânsito, com o pedido que não chega, com a fila que não anda, com tudo. Este primeiro item é um alerta para que no próximo ano, eu pare de tratar 10 minutinhos como 10 horas e desacelerar um pouco.

2- Respeitar quem pensa diferente

A impaciência do tópico 1 interfere muito no que vou chamar de intolerância com quem apresenta um pensamento, postura ou atitude que eu jamais teria. Esse item está aqui para me lembrar de ser uma pessoa mais compreensiva e sempre tentar entender o ponto de vista das outras pessoas. Não preciso concordar, apenas respeitar. Parece ser bem simples, a gente que acaba complicando, não?

3- Me divertir mais

Aqui é procurar fazer coisas e estar perto de pessoas com as quais eu realmente me divirta. Já reparou que, muitas vezes, podemos estar dentro de uma super festa, com uma turma de pessoas legais e mesmo assim não se divertir? O objetivo desse tópico é respeitar mais meus desejos e personalidade e, sim, deixar de ir a lugares ou fazer coisas só porque outras pessoas acham divertido. Se eu não acho, eu não vou.

4- Cuidar do corpo e da alma

Cotswold Allure Magazine Soul Circus Yoga Yogi Health Fitness Wellbeing 77Cotswold Allure Magazine Soul Circus Yoga Yogi Health Fitness Wellbeing 77O item 4 vale tanto para cuidados com meu corpo, quanto com minha mente. Aqui entram bons hábitos alimentares, exercícios físicos, cuidar mais de minha saúde mesmo. Sem deixar de lado a sanidade mental e, por que não, espiritual. Afinal, de nada adianta um corpinho bonito numa cabecinha ruim, né?

5- Conhecer pessoas e lugares novos

Essa é a meta que mais se renova a cada ano. Mas a intenção para 2018 é conhecer de verdade pessoas novas, ter interesse por elas, seus desejos e rotinas. A gente anda tão preocupado com o próprio umbigo que se esquece de formar laços e se interessar pelo que não tem a ver com a gente. Quanto aos novos lugares, pode ser uma nova cidade, país ou até mesmo um bar ou restaurante que fica na esquina de casa e eu ainda não conheço. Qualquer novidade é bem-vinda.

6- Ficar mais perto de pessoas queridas

Esse item da lista é um tanto óbvio, pois o que a gente menos quer nessa vida é ficar perto de gente que não gostamos. Mas, muitas vezes, deixamos ou adiamos isso, com desculpas como falta de tempo, dinheiro, cansaço e por aí vai. Por isso, a meta é ir ao encontro de quem se gosta mesmo sem grana, sem tempo ou morrendo de cansaço. Só vai!

7- Aprender alguma coisa nova

Tem um tempo que venho reclamando que a vida anda no automático. Casa, trabalho, trabalho, casa. Por mais que a vida em sociedade seja um constante aprendizado, o que quero na verdade é aprender algo novo. Pode ser um esporte, uma receita, consertar algo, construir ou montar um móvel, um jogo ou um novo idioma.

8- Não criar expectativas

Não criar expectativas em relação a nada e ninguém. Não criar expectativas em relação a nada e ninguém. Não criar expectativas em relação a nada e ninguém. Não criar expectativas em relação a nada e ninguém. Não criar expectativas em relação a nada e ninguém…

9- Não me preocupar tanto com o futuro

O item 8 também pode ser aplicado aqui, mas vou reforçar para deixar bem claro. Viver o momento presente está cada vez mais difícil. Estamos sempre preocupados com o amanhã, com o quanto eu vou ganhar daqui um ano ou com onde eu vou estar e, simplesmente, nos esquecemos de aproveitar as experiências que estamos tendo agora. Deixar rolar é a ordem nesse item.

10- Agradecer por tudo isso

Uma das coisas que mais nos esquecemos de fazer é agradecer pelas coisas. Ficamos felizes quando algo sai como o planejado, mas não agradecemos. E quando sai diferente de como imaginamos aí é que a gente esbraveja, fica triste e arrasado, no lugar de agradecer também por isso. Parece coisa de hippie, gente doida que abraça árvore e fala com planta, mas não é. É importante agradecer também pelo o inesperado e não planejado. Como diria minha avó: “Muitas vezes, é livramento”.

E você, qual a sua lista de desejos para o próximo ano?

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Mayra Sá é jornalista, lá de Minas Gerais. Mente adulta numa alma de criança, por isso não pensa muito antes de falar e fala exatamente o que pensa. Ama fazer piada, principalmente sobre si mesma. *Artigo publicado originalmente no Coletivo We Love

O nosso primeiro Natal de família, depois da morte de meu pai acontecida cinco meses antes, foi de conseqüências decisivas para a felicidade familiar. Nós sempre fôramos familiarmente felizes, nesse sentido muito abstrato da felicidade: gente honesta, sem crimes, lar sem brigas internas nem graves dificuldades econômicas. Mas, devido principalmente à natureza cinzenta de meu pai, ser desprovido de qualquer lirismo, de uma exemplaridade incapaz, acolchoado no medíocre, sempre nos faltara aquele aproveitamento da vida, aquele gosto pelas felicidades materiais, um vinho bom, uma estação de águas, aquisição de geladeira, coisas assim. Meu pai fora de um bom errado, quase dramático, o puro-sangue dos desmancha-prazeres.

Morreu meu pai, sentimos muito, etc. Quando chegamos nas proximidades do Natal, eu já estava que não podia mais pra afastar aquela memória obstruente do morto, que parecia ter sistematizado pra sempre a obrigação de uma lembrança dolorosa em cada almoço, em cada gesto mínimo da família. Uma vez que eu sugerira à mamãe a idéia dela ir ver uma fita no cinema, o que resultou foram lágrimas. Onde se viu ir ao cinema, de luto pesado! A dor já estava sendo cultivada pelas aparências, e eu, que sempre gostara apenas regularmente de meu pai, mais por instinto de filho que por espontaneidade de amor, me via a ponto de aborrecer o bom do morto.

Foi decerto por isto que me nasceu, esta sim, espontaneamente, a idéia de fazer uma das minhas chamadas "loucuras". Essa fora aliás, e desde muito cedo, a minha esplêndida conquista contra o ambiente familiar. Desde cedinho, desde os tempos de ginásio, em que arranjava regularmente uma reprovação todos os anos; desde o beijo às escondidas, numa prima, aos dez anos, descoberto por Tia Velha, uma detestável de tia; e principalmente desde as lições que dei ou recebi, não sei, de uma criada de parentes: eu consegui no reformatório do lar e na vasta parentagem, a fama conciliatória de "louco". "É doido, coitado!" falavam. Meus pais falavam com certa tristeza condescendente, o resto da parentagem buscando exemplo para os filhos e provavelmente com aquele prazer dos que se convencem de alguma superioridade. Não tinham doidos entre os filhos. Pois foi o que me salvou, essa fama. Fiz tudo o que a vida me apresentou e o meu ser exigia para se realizar com integridade. E me deixaram fazer tudo, porque eu era doido, coitado. Resultou disso uma existência sem complexos, de que não posso me queixar um nada.

Era costume sempre, na família, a ceia de Natal. Ceia reles, já se imagina: ceia tipo meu pai, castanhas, figos, passas, depois da Missa do Galo. Empanturrados de amêndoas e nozes (quanto discutimos os três manos por causa dos quebra-nozes...), empanturrados de castanhas e monotonias, a gente se abraçava e ia pra cama. Foi lembrando isso que arrebentei com uma das minhas "loucuras":

— Bom, no Natal, quero comer peru.

Houve um desses espantos que ninguém não imagina. Logo minha tia solteirona e santa, que morava conosco, advertiu que não podíamos convidar ninguém por causa do luto.

— Mas quem falou de convidar ninguém! essa mania... Quando é que a gente já comeu peru em nossa vida! Peru aqui em casa é prato de festa, vem toda essa parentada do diabo...

— Meu filho, não fale assim...

— Pois falo, pronto!

E descarreguei minha gelada indiferença pela nossa parentagem infinita, diz-que vinda de bandeirantes, que bem me importa! Era mesmo o momento pra desenvolver minha teoria de doido, coitado, não perdi a ocasião. Me deu de sopetão uma ternura imensa por mamãe e titia, minhas duas mães, três com minha irmã, as três mães que sempre me divinizaram a vida. Era sempre aquilo: vinha aniversário de alguém e só então faziam peru naquela casa. Peru era prato de festa: uma imundície de parentes já preparados pela tradição, invadiam a casa por causa do peru, das empadinhas e dos doces. Minhas três mães, três dias antes já não sabiam da vida senão trabalhar, trabalhar no preparo de doces e frios finíssimos de bem feitos, a parentagem devorava tudo e ainda levava embrulhinhos pros que não tinham podido vir. As minhas três mães mal podiam de exaustas. Do peru, só no enterro dos ossos, no dia seguinte, é que mamãe com titia ainda provavam num naco de perna, vago, escuro, perdido no arroz alvo. E isso mesmo era mamãe quem servia, catava tudo pro velho e pros filhos. Na verdade ninguém sabia de fato o que era peru em nossa casa, peru resto de festa.

Não, não se convidava ninguém, era um peru pra nós, cinco pessoas. E havia de ser com duas farofas, a gorda com os miúdos, e a seca, douradinha, com bastante manteiga. Queria o papo recheado só com a farofa gorda, em que havíamos de ajuntar ameixa preta, nozes e um cálice de xerez, como aprendera na casa da Rose, muito minha companheira. Está claro que omiti onde aprendera a receita, mas todos desconfiaram. E ficaram logo naquele ar de incenso assoprado, se não seria tentação do Dianho aproveitar receita tão gostosa. E cerveja bem gelada, eu garantia quase gritando. É certo que com meus "gostos", já bastante afinados fora do lar, pensei primeiro num vinho bom, completamente francês. Mas a ternura por mamãe venceu o doido, mamãe adorava cerveja.

Quando acabei meus projetos, notei bem, todos estavam felicíssimos, num desejo danado de fazer aquela loucura em que eu estourara. Bem que sabiam, era loucura sim, mas todos se faziam imaginar que eu sozinho é que estava desejando muito aquilo e havia jeito fácil de empurrarem pra cima de mim a... culpa de seus desejos enormes. Sorriam se entreolhando, tímidos como pombas desgarradas, até que minha irmã resolveu o consentimento geral:

— É louco mesmo!...

Comprou-se o peru, fez-se o peru, etc. E depois de uma Missa do Galo bem mal rezada, se deu o nosso mais maravilhoso Natal. Fora engraçado:assim que me lembrara de que finalmente ia fazer mamãe comer peru, não fizera outra coisa aqueles dias que pensar nela, sentir ternura por ela, amar minha velhinha adorada. E meus manos também, estavam no mesmo ritmo violento de amor, todos dominados pela felicidade nova que o peru vinha imprimindo na família. De modo que, ainda disfarçando as coisas, deixei muito sossegado que mamãe cortasse todo o peito do peru. Um momento aliás, ela parou, feito fatias um dos lados do peito da ave, não resistindo àquelas leis de economia que sempre a tinham entorpecido numa quase pobreza sem razão.

— Não senhora, corte inteiro! Só eu como tudo isso!

Era mentira. O amor familiar estava por tal forma incandescente em mim, que até era capaz de comer pouco, só-pra que os outros quatro comessem demais. E o diapasão dos outros era o mesmo. Aquele peru comido a sós, redescobria em cada um o que a quotidianidade abafara por completo, amor, paixão de mãe, paixão de filhos. Deus me perdoe mas estou pensando em Jesus... Naquela casa de burgueses bem modestos, estava se realizando um milagre digno do Natal de um Deus. O peito do peru ficou inteiramente reduzido a fatias amplas.

— Eu que sirvo!

"É louco, mesmo" pois por que havia de servir, se sempre mamãe servira naquela casa! Entre risos, os grandes pratos cheios foram passados pra mim e principiei uma distribuição heróica, enquanto mandava meu mano servir a cerveja. Tomei conta logo de um pedaço admirável da "casca", cheio de gordura e pus no prato. E depois vastas fatias brancas. A voz severizada de mamãe cortou o espaço angustiado com que todos aspiravam pela sua parte no peru:

— Se lembre de seus manos, Juca!

Quando que ela havia de imaginar, a pobre! que aquele era o prato dela, da Mãe, da minha amiga maltratada, que sabia da Rose, que sabia meus crimes, a que eu só lembrava de comunicar o que fazia sofrer! O prato ficou sublime.

— Mamãe, este é o da senhora! Não! não passe não!

Foi quando ela não pode mais com tanta comoção e principiou chorando. Minha tia também, logo percebendo que o novo prato sublime seria o dela, entrou no refrão das lágrimas. E minha irmã, que jamais viu lágrima sem abrir a torneirinha também, se esparramou no choro. Então principiei dizendo muitos desaforos pra não chorar também, tinha dezenove anos... Diabo de família besta que via peru e chorava! coisas assim. Todos se esforçavam por sorrir, mas agora é que a alegria se tornara impossível. É que o pranto evocara por associação a imagem indesejável de meu pai morto. Meu pai, com sua figura cinzenta, vinha pra sempre estragar nosso Natal, fiquei danado.

Bom, principiou-se a comer em silêncio, lutuosos, e o peru estava perfeito. A carne mansa, de um tecido muito tênue boiava fagueira entre os sabores das farofas e do presunto, de vez em quando ferida, inquietada e redesejada, pela intervenção mais violenta da ameixa preta e o estorvo petulante dos pedacinhos de noz. Mas papai sentado ali, gigantesco, incompleto, uma censura, uma chaga, uma incapacidade. E o peru, estava tão gostoso, mamãe por fim sabendo que peru era manjar mesmo digno do Jesusinho nascido.

Principiou uma luta baixa entre o peru e o vulto de papai. Imaginei que gabar o peru era fortalecê-lo na luta, e, está claro, eu tomara decididamente o partido do peru. Mas os defuntos têm meios visguentos, muito hipócritas de vencer: nem bem gabei o peru que a imagem de papai cresceu vitoriosa, insuportavelmente obstruidora.

— Só falta seu pai...

Eu nem comia, nem podia mais gostar daquele peru perfeito, tanto que me interessava aquela luta entre os dois mortos. Cheguei a odiar papai. E nem sei que inspiração genial, de repente me tornou hipócrita e político. Naquele instante que hoje me parece decisivo da nossa família, tomei aparentemente o partido de meu pai. Fingi, triste:

— É mesmo... Mas papai, que queria tanto bem a gente, que morreu de tanto trabalhar pra nós, papai lá no céu há de estar contente... (hesitei, mas resolvi não mencionar mais o peru) contente de ver nós todos reunidos em família.

E todos principiaram muito calmos, falando de papai. A imagem dele foi diminuindo, diminuindo e virou uma estrelinha brilhante do céu. Agora todos comiam o peru com sensualidade, porque papai fora muito bom, sempre se sacrificara tanto por nós, fora um santo que "vocês, meus filhos, nunca poderão pagar o que devem a seu pai", um santo. Papai virara santo, uma contemplação agradável, uma inestorvável estrelinha do céu. Não prejudicava mais ninguém, puro objeto de contemplação suave. O único morto ali era o peru, dominador, completamente vitorioso.

Minha mãe, minha tia, nós, todos alagados de felicidade. Ia escrever «felicidade gustativa», mas não era só isso não. Era uma felicidade maiúscula, um amor de todos, um esquecimento de outros parentescos distraidores do grande amor familiar. E foi, sei que foi aquele primeiro peru comido no recesso da família, o início de um amor novo, reacomodado, mais completo, mais rico e inventivo, mais complacente e cuidadoso de si. Nasceu de então uma felicidade familiar pra nós que, não sou exclusivista, alguns a terão assim grande, porém mais intensa que a nossa me é impossível conceber.

Mamãe comeu tanto peru que um momento imaginei, aquilo podia lhe fazer mal. Mas logo pensei: ah, que faça! mesmo que ela morra, mas pelo menos que uma vez na vida coma peru de verdade!

A tamanha falta de egoísmo me transportara o nosso infinito amor... Depois vieram umas uvas leves e uns doces, que lá na minha terra levam o nome de "bem-casados". Mas nem mesmo este nome perigoso se associou à lembrança de meu pai, que o peru já convertera em dignidade, em coisa certa, em culto puro de contemplação.

Levantamos. Eram quase duas horas, todos alegres, bambeados por duas garrafas de cerveja. Todos iam deitar, dormir ou mexer na cama, pouco importa, porque é bom uma insônia feliz. O diabo é que a Rose, católica antes de ser Rose, prometera me esperar com uma champanha. Pra poder sair, menti, falei que ia a uma festa de amigo, beijei mamãe e pisquei pra ela, modo de contar onde é que ia e fazê-la sofrer seu bocado. As outras duas mulheres beijei sem piscar. E agora, Rose!...

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Mário de Andrade (1893-1945), nasceu em São Paulo, mostrando desde cedo inclinação pela música e literatura. Seu interesse pelas artes levou-o a realizar em São Paulo, de parceria com Oswald de Andrade, a Semana de Arte Moderna, que rasgou novas perspectivas para a cultura brasileira. Sua obra, essencialmente brasileira, reflete um nacionalismo humanista, que nada tem de místico e abstrato. "Macunaíma", baseada em temas folclóricos é, geralmente, considerada a sua obra-prima.

“O Peru de Natal“, foi publicado por Mário de Andrade (1893-1945) na revista da Academia Paulista de Letras em 1942 e, posteriormente, na obra póstuma Contos Novos, de 1947. O texto acima foi extraído do livro "Nós e o Natal", Artes Gráficas Gomes de Souza, Rio de Janeiro, 1964, pág. 23.