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No jornal O Estado De São Paulo de 05/12/17, Gabriel Rostey sugere uma boa discussão sobre o imbróglio acerca dos terrenos pertencentes hoje ao Grupo Silvio Santos (SS) no histórico Bairro do Bexiga, propondo o impasse como oportunidade de discussão sobre o desenvolvimento da cidade e não uma simples “briga de comadres”, entre Silvio Santos e o diretor Zé Celso Correia, do Teatro Oficina. (goo.gl/nknHVu)

A gente não ama e nem odeia o carnaval. Eu falo a gente, porque conheço um monte de gente que provavelmente compartilha do sentimento. Começa em janeiro, quando quem é da folia escolhe as fantasias, quem é do retiro planeja as orações e quem é da paz e tranquilidade paga um pacote de viagem. A gente não faz nenhuma dessas coisas. A gente até esquece que tem Carnaval, não fosse o metrô enfeitado e a surra de tiaras de unicórnios à venda em cada esquina. Não esperamos ansiosos pelos blocos de rua; no máximo, contamos os dias para ficarmos descansando no feriado. Mas também não ficamos bravos com quem espera. Para falar bem a verdade, a gente até gosta de bloco, não fosse o metrô lotado, o som alto, a multidão, o sol quente…

Foto: Priscila Musa.Foto: Priscila Musa.

Sempre senti certo descompasso entre o discurso das canções populares, textos de sociologia e antropologia, e a experiência concreta do Carnaval no Brasil. Entre a promessa de uma festividade rica e plural e a realidade de quem veio ao mundo já nos anos 1980, no florescer da cultura de massas, da violência generalizada, da urbanização desumanizadora, que levam ao abandono ou à comercialização dos rituais urbanos.

Se “a gente trabalha o ano inteiro” por esse momento de sonho, “pra tudo se acabar na quarta-feira”, tinha que haver Carnaval para além do trio elétrico, da música repetitiva, da multidão amorfa, das abordagens machistas e grosseiras, do colete cítrico, da relação predatória com o território – a área VIP, o lixo, a sujeira. Às voltas com essa hipótese, desembarquei em 2006 no Rio de Janeiro para conhecer o Carnaval de rua que ressurgia.

Bingo! Esse Carnaval tinha escala humana e bandas com os pés no chão, mas o que mais marcou foi a relação com a cidade. Um bloco pegava a balsa de Niterói (Se melhorar afunda), outro passeava pela bela e curvilínea rua Alice (Volta, Alice), outros perambulavam por vielas e atravessavam túneis habitualmente inóspitos. O Carnaval se mostrou uma experiência possível e desejável, e também uma via de acesso a lugares da cidade, um guia para expedições urbanas inimaginadas.

Em uma manhã de terça-feira gorda, quando ia à padaria, avistei uma mulher e uma criança caprichosamente fantasiadas, caminhando a passos firmes rumo ao metrô. Ainda não eram nove da manhã e havia um senso de urgência na situação. Ali percebi aquilo que os teóricos situacionistas tanto reivindicaram em seus manifestos: a valorização dos lazeres não é brincadeira. Carnaval é coisa séria.

Foto: Gabriel Castro.Foto: Gabriel Castro.

Esse Carnaval brincado a sério, diurno, diverso, espalhado, horizontal, movente, informou a folia que foi tomando as ruas de Belo Horizonte nos últimos anos – que começou com três blocos em 2009 e teve mais de duzentos em 2014. Para uma cidade que, como muitas no Brasil, foi sistematicamente minando a ocupação de seus espaços públicos, essa retomada das ruas talvez diga muito mais do que o discurso oficial de uma tendência festiva baseada na “alegria do povo brasileiro”.

Errar pelas cidades evoca toda uma tradição de enfrentamento propositivo ao urbanismo moderno. O flâneur, caminhante solitário e descompromissado que Baudelaire exaltou no século XIX, está vinculado ao contexto das reformas urbanas operadas por Haussmann em Paris. Contrapondo-se à ênfase na circulação e no controle – e à correria dos que sabem para onde vão –, o flâneur caminha lentamente, sem destino fixo, atento ao entorno e aos encontros.

Essa figura perambulante atravessou os tempos em modo resistência. Frente à modernização padronizadora, à expulsão dos pobres dos centros urbanos e à tomada das ruas pelos automóveis, os caminhantes acabaram se tornando seres marginais, resistentes nostálgicos e ao mesmo tempo propositores de outras formas de vida e de relação com o espaço, o tempo e os corpos.

Vale notar que os tipos errantes que pipocam de tempos em tempos nas artes, abordados por Paola Berenstein Jacques em Elogio aos errantes, privilegiam as deambulações individuais ou em grupos pequenos e suas experiências são muitas vezes narradas pelo viés intimista do sujeito frente à multidão. Já a errância carnavalesca é quase sempre coletiva, e seu expediente é o fluxo vaguejante do cortejo urbano.

Foto: Gabriel Castro.Foto: Gabriel Castro.

O cortejo opera por uma inversão espacial básica: os pés deixam a calçada e vão para o meio da rua. Como se não se contentassem mais em andar pelas laterais, à mercê dos automóveis, e sentissem uma urgência em retomar o protagonismo urbano. Por menor que seja o cortejo, a tomada da rua se faz necessária para a libertação dos corpos e dos movimentos – que no Carnaval costuma transbordar na alegria da dança.

Mas nem todo cortejo é festivo e alegre. Ainda hoje me impressiono com a lembrança dos enterros que vivenciei em minha infância no interior, em lentas, e por vezes longas, caminhadas que iam da casa do morto ao cemitério. Janelas se fechavam, crianças paravam de brincar, comércios desciam as portas, pessoas baixavam as vozes e reduziam o passo, talvez percebendo sua pressa vã frente à finitude do conterrâneo. E o cortejo ali, no meio da rua, emanando luto e contaminando a cidade com um campo irresistível de silêncio e lentidão.

É certo que os cortejos religiosos e os enterros não comportam a dimensão da perambulação e da errância, restritivos que são a direções, ritmos e posturas previamente estabelecidos. Na década de 1930, o artista e arquiteto Flávio de Carvalho experimentou caminhar (de chapéu) na contramão de uma procissão religiosa no centro de São Paulo, criando uma tensão que culminou em explosão de violência contra ele, que fugiu e acabou detido pela polícia.

O artista tentou explicar aos policiais que era um estudioso do comportamento das multidões e que estava fazendo uma experiência para medir se a crença religiosa seria mais forte do que o respeito à pessoa humana. Foi em cana mesmo assim e a manchete do jornal O Estado de São Paulo, no dia seguinte, sentenciou: “Uma experiência sobre a psicologia das multidões resultou em sério distúrbio”.

Há carnavais e carnavais. A folia que se vê nas fotografias destas páginas, feitas por fotógrafos-foliões, tem um modus operandi próprio, construído espontaneamente. Não é original em cada uma de suas partes, mas talvez o  seja na conjunção delas. Os modos de vestir, a relação com o território, as construções narrativas e a estrutura não-hierarquizada, quando juntos, conformam essa expedição urbana que é ao mesmo tempo festiva, ativista e errante.

Foto: Gabriel Castro.Foto: Gabriel Castro.

Os trajes, para alguns ultrajantes, não são nem a alta costura dos bailes da belle époque carnavalesca, nem o prêt-à-porter atual da cultura de massas, com sua máscara temática, seu chapéu panamá e seu colar de plástico estilo havaiano. Estão mais para o que o antropólogo Claude Lévi-Strauss chamou de bricolagem, aquilo que é feito com os meios às mãos. Roupas velhas ou emprestadas, objetos esquecidos, pedaços de tecido, nacos de fantasias, colares, purpurinas e tintas variadas formam o léxico desses trajes de passeio geralmente curtos, abertos e coloridos.

Voltemos então a Flávio de Carvalho. Num outro experimento ele cria um traje de verão para o “novo homem dos trópicos”, um contraponto ao modo de vestir importado da Europa. A indumentária era composta por um saiote e uma camiseta, desenhados para aumentar a ventilação. Entrou para a posteridade a imagem em que o artista caminha por São Paulo de saia (e acaba barrado na porta do cinema), mas poucos sabem que seu projeto inicial era realizar um cortejo, a ser aberto “por dois vagabundos de rua, com suas roupas em trapos”.

Realizando sem saber o cortejo projetado pelo artista, adentramos algumas vezes, em trajes tropicais e ventilados, os territórios desses “vagabundos de rua” em jornadas carnavalescas. Tenho para mim que o caráter algo mambembe das fantasias, algumas no limite do trapismo, junto ao improviso constante e à falta de scripts definidos, contribuíram para abrir os canais de interação entre pessoas de classes diferentes e tornar os blocos mais permeáveis.

Se todo relato é um relato de viagem, as expedições carnavalescas se desdobram em muitas narrativas que, como seria de se esperar, não vem do olhar externo da imprensa. A profusão de cronistas-foliões remete aos primórdios da crônica carnavalesca no Rio de Janeiro, em que os cronistas mais importantes eram participantes dos blocos e habitués da rua. Por outro lado, o fato desses textos serem depositados quase sempre no Facebook e caírem no fluxo desmemoriado e arbitrário dessa máquina de moer ideias diz muito sobre nossas dificuldades de transmitir experiências e histórias hoje.

Foto: Priscila Musa.Foto: Priscila Musa.Convém ouvir uma dessas crônicas, talvez a que melhor soube perceber o quanto há de política nessa arte de afetar os corpos. O músico-folião Guto Borges, em texto de 2012, se empenhava em diferenciar o modelo capitalista e vertical dominante nas cidades do modo de operar do Carnaval: “Inclusivo, democrático, horizontal, com os pés no chão, nenhuma voz é mais alta; é um jogo arenístico, como um rito, um circo ou uma ágora. Qualquer um (também o “um qualquer”) pode tocar, cantar, pode dizer a todo um bloco um caminho, pode ser que seja ouvido e todos cantem com ele, pode ser que não.”

A esta altura, deve estar claro que não se trata aqui de desfiles, de produzir algo belo para ser visto da arquibancada, mas de experimentar as ruas em um movimento aberto que vai crescendo – ou diminuindo – conforme avança. A ausência de itinerário definido (ou a abertura do itinerário para os imprevistos), o caráter francamente anárquico, a estrutura aberta em que todos podem ou não ser músicos, a alternância espontânea de papéis formam um jogo coletivo sem espectadores nem atores.

No limite, chega-se à diferença entre bloco de rua e escola de samba. Enquanto esta opera na base do planejamento e do treino, com uma hierarquia bem definida, tendo o desfile como apogeu de algo construído por um grupo restrito, aquele não diferencia ensaio de performance, ver e ser visto se misturam, as muitas facetas do improviso aparecem e o acontecimento se torna não um espetáculo, mas um dispositivo caminhante de encontros.

Muito se fala de errância, mas aqui é preciso chegar ao erro. À falha mesmo, ao planejamento que derrapou por incompetência ou preguiça. Nesses anos de folia, posso dizer que o erro foi responsável por boa parte do que de melhor aconteceu em algumas expedições. Ainda em 2009, quando Belo Horizonte parecia um cemitério nos dias de Carnaval, um bloco minúsculo saiu com um itinerário modesto: da casa de alguns foliões a um bar poucos quarteirões adiante, com paradas em frente a casas de conhecidos que ofereceriam banhos de mangueira.

Foto: Gabriel Castro.Foto: Gabriel Castro.

Só que ninguém se lembrou de verificar se o bar-destino estaria aberto. E não estava, bem como qualquer outro bar num raio de quilômetros. O jeito foi seguir adiante, em busca de algum fornecedor etílico naquela cidade-fantasma. Aquele grupo carnavalesco amador e mirrado deambulou por ruas e becos, atravessou lotes vagos, adentrou agências bancárias, sorveterias e postos de gasolina, sob chuva torrencial, em um trajeto que se revelou muito mais interessante depois do ponto de inflexão que é o erro.

Se as escolas de samba são pontuadas por seus acertos, os blocos de rua poderiam dar mais valor ao erro. Em uma sociedade tão pautada pelo êxito, a errância traz algo que, no mínimo, oferece um contraponto a nossos automatismos mentais e abre outras vias de acesso para o que está ao redor. Foi esbarrando no erro e no planejamento incompleto que, nos anos seguintes, saracoteamos por túneis e viadutos anacrônicos, terrenos baldios, clubes de bairro, vilas modernistas, becos, córregos, barrancos cheios de mato e outras tantas espacialidades esquecidas em nossos mapas.

Claro que o erro pode levar também à frustração, como no fatídico dia em que um bloco se dividiu no alto de uma passarela. O desfecho foi um tanto melancólico: a maior parte do bloco dissolveu-se na multidão de um Carnaval já massificado enquanto um pequeno grupo tentava conduzir-lo para o lado oposto. Uma pessoa reclamou, sugerindo que teria sido melhor repetir o trajeto do ano anterior, que fora muito bom. Alguém mandou reclamar no Procon.

Não custa comentar que essa ânsia de repetição da experiência, oposta à abertura da errância, é o primeiro passo para a conversão da cultura em mercadoria, como colocou Tales Ab’Sáber em seu livro sobre o lulismo e a cultura pop. Essa lógica quase automatizada em nossos dias serve muitas vezes para amortizar experiências, apaziguar tensões e transformar tudo o que não se sabe ao certo em catalogável e repetível. Claro que não há um jeito certo de errar, como bem disse um amigo ao ler este texto, e não é de se desprezar o papel da tradição enquanto articuladora da memória e dos afetos, mas, naquele caso, saí convencido de que negar a repetição é uma forma de desativar, ao menos nos dias de festa, esse verdadeiro piloto automático do fenômeno pop.

Há um sentido pedagógico nessas folias, que vai além da expedição e do conhecimento do território. Em tempos de violência midiatizada e lazer privatizado, muita gente conta que foi no Carnaval que pisou pela primeira vez em certas regiões da cidade e que aprendeu a andar na rua sem medo. E também a conviver com o diferente, com a alteridade, com a diversa fauna humana que está nas ruas.

Esse aprendizado leva à superação da idealização e do ódio. Tira o outro de qualquer pedestal imaginário, seja ele de herói ou bandido, e nos derruba dos nossos. Se olhar no olho do outro é uma operação tão urgente e difícil, cantar a mesma marchinha e conviver por horas a fio pode parecer revolucionário. Como disse uma foliona, numa das tantas crônicas efêmeras que atravessam os carnavais, o que estava em jogo nesse encontro com o outro era “uma espécie de conquista e partilha do mínimo e do máximo que temos a oferecer: o nosso afeto, a nossa alegria”.

Foto: Priscila Musa.Foto: Priscila Musa.

Mas o Carnaval acaba na quarta-feira. Para muitos, esse recorte no tempo presta um desserviço ao oferecer um engajamento fora da rotina, que não tem continuidade no resto do ano. Sem querer reivindicar para uma festa mais do que ela pretende oferecer, prefiro concordar com quem vê os grandes rituais como situações de radicalização dos rituais rotineiros. A vivência da cidade e o contato com a alteridade pelo Carnaval transformam também nossas relações cotidianas, nossas práticas no espaço, nosso medo e nosso afeto pelos outros.

O que dizer então sobre o fato desse Carnaval que nasce também como um contraponto festivo ao urbanismo desumano se tornar, assim que cresce, produto da cobiça de gestões conservadoras, que passam a se interessar pelo evento em seu potencial eleitoral e a moldá-lo de maneira torpe e massificante? Sem deixar de ver aí um nó difícil de ser desatado, convém olhar para a rua como o lugar da disputa política, e é um tanto melhor que ela aconteça. “Festejar é lutar pelo poder de se definir o que é e o que não é festa”, colocou Felipe Ferreira em seu livro sobre a invenção do Carnaval carioca.

Em suma, trata-se menos de elogiar e exaltar a festa em si do que de enxergar, em algumas de suas características, brechas e lampejos para outros modos de vida nas cidades. Se o Carnaval é desejável, não é tanto pelas “facilidades que oferece como mercado de corpos”, como escreveu Alan Pauls sobre a praia, mas pelo experimento político que ele enseja: cortejo sem dono, coletivismo sem estado, protagonismo pedestre, abertura para o outro, passeio urbano em trajes de gala tropical.

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Texto de Roberto Andrés. Fotografias de Gabriel Castro e Priscila Musa. 

ANDRÉS, Roberto. O cortejo errante. PISEAGRAMA, Belo Horizonte, número 07, página 78 - 85, 2015. *Conteúdo publicado originalmente na revista PISEAGRAMA. Artigo original aqui

Durante mais de quinhentos anos, a legislação urbanística no Brasil baseou-se nos Códigos de Posturas de origem colonial. Somente a partir de 1920, surgiram códigos de obras leis de zoneamento urbano, explica o arquiteto e urbanista Luiz de Pinedo Quinto Júnior. A lógica da reforma urbanística e sua relação com a legislação do início do século XX foram decorrentes da criação, pelo Estado, de leis específicas para cada projeto de reforma e saneamento das cidades portuárias. O mesmo valeu para a concessão para os serviços públicos de transporte, energia e saneamento. No século XIX, autorizações específicas para obras foram dadas à empresas privadas: Guinle e Gaffré, por exemplo obtiveram, por 90 anos, a concessão da Companhia Docas de Santos para administrar operações nos portos e cuidar de melhorias urbanísticas no seu entorno. Porém, as iniciativas reformadoras esbarraram na colcha de retalhos que até então, era a cidade: um emaranhado de ruas onde se misturavam casas de comércio e habitações luxuosas, cortiços ou casas de cômodos.

Porto de Santos, cerca de 1880. Foto: Marc Ferrez / Acervo IMS.Porto de Santos, cerca de 1880. Foto: Marc Ferrez / Acervo IMS.