Ensaios - São Paulo São

São Paulo São Ensaios


No dia 5 de maio de 2011 o New York Times anunciava, sob a manchete “The Tupperware Party Moves to Social Media”, a decisão da tradicional marca de vasilhames de explorar as novas redes sociais como estratégia de marketing e vendas.

O anúncio provavelmente teria passado despercebido, mas o fato de trazer, no mesmo enunciado, dois universos de convivência tão desconectados no tempo e no espaço me pareceu irônico e, por isso mesmo, merecedor de uma reflexão. Uma reflexão em torno das relações de proximidade estabelecidas nessas novas redes sociais juntamente com um produto ou marca que, a seu tempo, se tornou símbolo de um modelo de vizinhança paradigmático que teria uma grande influência na conformação ainda pouco amadurecida das cidades brasileiras: o subúrbio norte-americano.

Em 1947, Earl Silas Tupper, inventor e químico da DuPont, desenvolveu um sistema de vedação à prova de ar e água, derramamento e deterioração, que seria usado para o armazenamento de comida. A sua invenção, batizada de “Tupper Seal”, passou a ser aplicada a uma linha de vasilhames de polietileno produzida pela empresa nos anos anteriores. Os Tupperware, assim batizados, logo viriam a se tornar um símbolo do american way of life dos anos 50.

O lançamento desse produto no mercado coincidiu com um cenário pós-guerra, pré-feminista e de afirmação dos subúrbios como um modelo de vizinhança, aprovado por grande parte da população norte-americana, que abandonou os centros urbanos em troca da promessa de um ambiente adequado ao cotidiano da família, livre da indesejada convivência com grupos ou indivíduos que não se encaixavam no perfil de normalidade estabelecido pela sociedade.

Os pioneiros Tupperware tiveram uma curta temporada de vendas nos grandes magazines norte-americanos antes de serem retirados do mercado para poderem ser adquiridos apenas em encontros organizados entre as donas de casa de uma mesma comunidade: as Tupperware Parties.

Brownie Wise, uma mãe divorciada vinda do interior e com um estilo de vida um pouco distante do ideal feminino da mulher norte-americana dos anos 50, foi a responsável pela criação da estratégia de marketing da marca, que alcançaria cifras de centenas de milhões de dólares por ano. Tudo começou com um telefonema à fábrica, no qual a senhora Wise – que costumava vender eletrodomésticos, panelas e vassouras em casa –, irritada com o atraso na entrega de suas encomendas, insistiu em conversar pessoalmente com o Sr. Tupper, presidente da marca. Ao perceber que a insolente reclamante era uma revendedora autônoma que, sozinha, tinha alcançado vendas maiores do que qualquer um dos grandes magazines, o senhor Tupper decidiu contratá-la para uma transformação no modelo de comercialização dos seus produtos.

Ms. Wise iniciou então o seu projeto de recrutamento de colaboradoras. A oportunidade de se ter renda própria, trabalhando em casa e com um horário flexível que não prejudicasse as funções de mãe e esposa foi suficientemente atrativa para conquistar adeptas de todo país. Em pouco tempo, Ms. Wise liderou um crescente exército de vendedoras sustentado por uma rede de cooperação e vizinhança, distinta do competitivo e agressivo marketing associado ao tradicional modelo masculino de negócios. Logo, as Tupperware Parties tomam conta dos subúrbios. Nas animadas tardes só para mulheres, entre receitas, drinks e dicas de como armazenar melhor o jantar do marido, muitas encontraram uma boa remuneração, fato que configurou, segundo estudiosos, o princípio de uma autonomia feminina no mercado de trabalho.

Alguns anos mais tarde, esse mesmo projeto não ofereceu entusiasmo ao movimento feminista, então latente. Muitas mulheres entenderam que tal modelo de trabalho reforçava estereótipos femininos suburbanos, por representar uma espécie de desvio do propósito que buscava igualar as condições e oportunidades do trabalho feminino às dos homens. Além disso, as feministas argumentaram que a exploração econômica das redes de vizinhança e família era extremamente destrutiva, uma vez que se sustentam pela comercialização das relações afetivas.

Mas o incremento das vendas a níveis que escapavam à compreensão dos executivos formados nas business schools fez com que o sucesso alcançado pela Srta. Wise confrontasse a precária situação feminina no mundo dos negócios na época. Em 1954, ela se tornou a primeira mulher a aparecer na capa da Business Week Magazine. Com seu Cadilac pink e os seus característicos vestidos de renda, Wise era a personificação do sonho de liberdade de grande parte das mulheres norte-americanas.

Ela foi demitida do cargo em 1958, aparentemente devido à puritana desaprovação do Sr. Tupper ao seu estilo de vida independente. Mas a estrutura operacional criada por ela já tinha autonomia e começava a se espalhar para outros continentes.

As Tupperware Parties tornaram-se bastante populares no mundo todo, assim como o modelo de expansão dos subúrbios, ambiente que parece ter sido perfeito para a organização dessas festas. Em 1963, a empresa chegou à Europa, Japão e Austrália. No Brasil, as primeirasTupperware Parties datam dos anos 70, época em que também apareceram por aqui os primeiros condomínios horizontais fechados. O AlphaVille Residencial, ícone pioneiro dessa tipologia, foi lançado em 1975.

Os subúrbios norte-americanos surgiram nos anos do pós-guerra, alavancados por um movimento de revisão dos valores e da família e por um déficit habitacional que, a princípio, foi associado às novas famílias formadas pelos jovens veteranos da guerra. A partir de então, a população norte-americana testemunhou uma mudança significativa no conceito de moradia e vizinhança. A crescente demanda por moradia, juntamente com as políticas públicas de incentivo ao mercado imobiliário suburbano, aceleraram a indústria da pré-fabricação e impulsionaram a rápida expansão e afirmação dos subúrbios. A produção em série de subúrbios como Levittown e Park Forest redefiniram os antigos modelos de espaço público com a nova estética da pré-fabricação e da propriedade privada inserida num espaço coletivo contínuo. Em Lewittown, as taxas de produção alcançaram 30 casas por dia em julho de 1948.

Como um modelo de moradia e convivência sem precedentes na história das cidades, o empreendimento suburbano encontrou suporte numa ideologia política e estética associada a conceitos de eficiência e assepsia, não somente no planejamento espacial, como também no plano social. Os subúrbios parecem ter sido especialmente desenhados para a típica família branca de classe média norte-americana. Grupos sociais fora desse perfil não encontrariam as mesmas facilidades ou qualquer tipo de identificação. Os modelos das casas propostos pelo Federal Housing Administration apresentavam uma tipologia única e segregadora, de arquitetura exclusivamente voltada para as famílias nucleares, razão pela qual eram excluídos grupos sociais como os solteiros, casais sem filhos e idosos. Já os mecanismos de controle étnico dos subúrbios eram menos discretos.  Em Levittown, uma cláusula contratual restritiva estipulava que as casas somente poderiam ser vendidas ou alugadas para “membros da raça caucasiana”.
Entre os equipamentos que compunham o convidativo conjunto dos subúrbios estavam as novas escolas públicas aclamadas nacionalmente, a facilidade de conexão com a cidade por um eficiente sistema de trens e railways, os modernos centros comerciais, os playgrounds, igrejas e sinagogas, dispostas sobre os intermináveis jardins coletivos.

Somados à sedução dos baixos impostos, esses fatores configuravam um cenário atrativo o suficiente para justificar a adesão de milhões de famílias norte-americanas nos anos 1950. No entanto, por trás dessa aparente liberdade de escolha, os baixos juros cobrados no financiamento das casas suburbanas e as hipotecas garantidas pelo governo atestavam que o sucesso da empreitada era patrocinado por um projeto político que almejava a liberação das cidades para a implementação dos projetos federais de renovação urbana.

No Brasil, o modelo de expansão periférica das cidades que mais se aproxima dos subúrbios norte-americanos são os já citados condomínios horizontais fechados. Mas, nesse contexto de transposição, há que se considerar o frágil equilíbrio das nossas cidades, assoladas por um conflito social muito mais dramático do que o das cidades norte-americanas.

O conflito vivenciado no Brasil faz com que as palavras violência e segurança funcionem como passe de mágica na construção das arquiteturas mais contraditórias de que se tem notícia. Em essência, os nossos condomínios fechados, “enclaves fortificados”, definem relações de vizinhança bastante diversas do seu modelo de inspiração. Os moradores dos subúrbios norte-americanos compartilham um sentimento coletivo de pertencimento a um grupo social coeso e aparentemente bem integrado, sentimento este que justifica críticas: a aparente monotonia dos padrões e comportamentos dos seus integrantes.

No caso brasileiro, a migração das classes média e alta para os condomínios fechados, em porcentagens muito inferiores, foi motivada principalmente pela busca da segurança prometida pelos muros fortificados. Muitos desses condomínios trazem também a proposta de um isolamento campestre, que garante, no seu projeto de urbanização paisagística, o equivalente aos metros quadrados de jardim coletivo suburbano sob a forma de coeficiente em área de preservação da vegetação nativa.

Mas a lógica do isolamento fortificado não se limitou apenas aos condomínios periféricos. Podemos verificar, com lamentável frequência, o mesmo princípio de segregação aplicado aos edifícios particulares que inevitavelmente colaboram com a conformação do espaço público das nossas cidades. Dessa maneira, estabelecem-se os princípios de convivência contraditórios que caracterizam as cidades brasileiras e que têm como principal consequência a deterioração qualitativa do espaço das cidades como local de convivência e trocas.

E é nessa esfera das convivências e trocas que o deslocamento dasTupperware Parties para as redes sociais inspira uma reflexão sobre o novo ambiente de vizinhança surgido quase meio século depois da exportação endêmica do modelo suburbano. As redes de convivência no facebook se consolidam sob o argumento promissor de uma cartografia que eliminaria as limitações espaciais e reconfiguraria o território virtual segundo critérios democráticos de afinidades que poderiam ser confortavelmente operados pelo usuário, construtor do seu espaço público. Trata-se, obviamente, de uma categoria bastante particular de espaço público, cuja grande conquista parece ter sido a exclusão do corpo físico e de todas as limitações a ele associadas. Essa exclusão permite estabelecer os novos parâmetros de proximidade e vizinhança.

Diante da metáfora do espaço público aplicada ao espaço virtual seria possível dizer, também metaforicamente, que aos usuários das redes sociais cabe o papel de articuladores de seu próprio espaço público. As ferramentas disponibilizadas pelo sistema permitem selecionar o perfil dos frequentadores do seu círculo de amizades, bem como erradicar da sua porção particular de espaço público qualquer manifestação que não esteja de acordo com os padrões estabelecidos pelo administrador. Esse movimento constante de construção e manutenção do espaço de convivência em seu estado ideal reproduz, ainda que remotamente, as ações dos urbanistas ortodoxos dos subúrbios e dos enclaves condominiais em seu esforço de ordenação asséptica do território.

Nem os subúrbios e condomínios, nem as inovadoras redes sociais se aproximam do que há de mais instigante no modelo de vizinhança aparentemente caótico das cidades reais: o privilégio do encontro com o outro. Um outro que é em essência diferente de mim, e que me confronta regularmente com uma demanda de reposicionamento, adaptação e afirmação diante do coletivo. Nos dias de hoje, com todos os avanços das telecomunicações, que permitem modos de vida, trabalho e relacionamento desvinculados da condição de proximidade física, viver na cidade deveria ser uma escolha. E, como em toda escolha, há que se entender o que está em jogo antes de realizá-la. Viver na cidade significa conviver com o outro, com a diversidade – e é sob esse paradigma que seus habitantes deveriam optar ou não pelo modelo de moradia e vizinhança urbana.

Condomínios e facebook em coexistência com a metrópole contemporânea poderiam configurar alternativas de vizinhanças diversas, possíveis escapes para a intensidade da convivência urbana, e não o contrário. Não se pode esperar da metrópole a garantia Tupperware de vedação contra vizinhos incovenientes, e nem o acondicionamento perfeito dos seus habitantes em recipientes separados e rotulados numa logística de reconhecimento e identificação que vai um bocado além da cartela de cores disponibilizada à clientela das Tupperware Parties.

Ana Paula Assis na Piseagrama.

Piseagrama é a única publicação sobre espaços públicos — “existente, urgentes, imaginários” — no Brasil. Nascida em Belo Horizonte em 2010, quando venceu o edital Cultura e Pensamento do Ministério da Cultura, mantém-se hoje com apoio dos leitores. Impressa, é publicada a cada semestre. Na loja virtual de Outras Palavras, é possível assiná-la, comprar edições anteriores e adquirir de bolsas, camisetas, adesivos e cartazes com propostas para outros projetos de cidades. 

 

Sempre que saio às ruas com os meus amigos e amigas do SP Invisível para conversar com pessoas que encontramos no caminho, seja ela prostituta, moradora ou morador de rua, criança, adolescente, catador ou artista de rua, procuro levar algo além dos meus ouvidos. Às vezes levo comida, roupas, porém me recordo até hoje da única vez que levei a maior arma que uma pessoa pode segurar. Lembro muito bem que, em pleno debate sobre redução da maioridade penal, a gente tinha que entrevistar meninos e meninas que moravam nas ruas, então saí por aí distribuindo Drummond, Aloísio de Azevedo, Machado de Assis, Jorge Amado, José de Alencar e munindo essas crianças e adolescentes de informação após cada papo.

No segundo sábado que saímos para entrevistar esses jovens, um menino chamado Pedro (nome fictício) nos marcou muito. Ele tinha mais ou menos uns 10 anos e chorava muito, pois estava com dor de dente. “Ele come muito doce e não escova o dente, senhora”, disse o irmão dele que fazia malabares no farol para Marina, que cuidava do menino sentado na calçada. Depois de muito choro e muito tempo tentando arrancar uma palavra de Pedro, ele disse à ela que queria um remedinho. Ela e o André então foram com ele à farmácia comprar alguma coisa para o menino.

Quando eles voltaram com o remédio, eu fiquei com ele enquanto eles entrevistavam seu irmão para a série de adolescentes do SP Invisível. Estávamos sentados na calçada e, para tentar calar seu choro, decidi ler um livro de poesias que havia levado. Depois de ler vários poemas, um chamou sua atenção, o famoso “E Agora José ?”. Ele lia atentamente verso por verso enquanto aos poucos parava de soluçar: E agora, José ?/A festa acabou,/a luz apagou,/o povo sumiu,/a noite esfriou,/e agora, José?/e agora, você?/você que é sem nome,/que zomba dos outros,/você que faz versos,/que ama, protesta?/e agora, José?/Está sem mulher,/está sem discurso,/ está sem carinho,/está sem carinho,/já não pode beber,/já não pode fumar,/cuspir já não pode,/a noite esfriou,/o dia não veio,/o bonde não veio,/o riso não veio/não veio a utopia... Essa última palavra chamou sua atenção e interrompe a leitura:

- Tio, o que é isso?

- Isso o que?

- Utopia.

- Ah, é uma coisa muito boa que a gente quer que aconteça, mas nunca vai acontecer. Só que a gente sempre luta para que isso aconteça.

Nessa hora fui surpreendido pela sabedoria e simplicidade da resposta daquele menino de 10 anos que pedia dinheiro no farol com o seu irmão:

- É tipo acabar as crianças da rua, né?!

Não soube o que afirmar naquele momento, rapidinho passou um monte de dúvidas e reflexões sobre o que ele quis dizer e o que aquela pergunta carregava. Não foi só uma simples pergunta. Ela veio também com um grito de “eu quero sair daqui”. Veio também com uma denúncia que coloca no chão qualquer jornal. Além disso, veio com um engajamento de dar inveja aos movimentos sociais, inclusive às maiores revoluções históricas como a Russa ou as da Europa em 1968, “Je suis Pedro”. Chegou com tanto sonho e esperança aquele questionamento que nem Luther King ou Galeano esperavam tal resposta. Aurélio que me perdoe, mas a sua simples definição para a palavra deveria estar em todos os dicionários, pois só alguém com muita propriedade do assunto poderia definir o que é “utopia” tão facilmente. Só alguém muito sonhador como o jovem Pedro. 

Para não ficar muito tempo quieto, respondi com outra pergunta e disse a ele:

- O que você quer ser quando crescer?

- Professor – Ele respondeu – de História. 

“Está tudo explicado”, pensei. Mal sabia ele que o seu primeiro aluno já estava à sua frente. Num dia que saí com uma postura prepotente e preconceituosa de “ensinar algumas coisas distribuindo meus livros nas ruas”, fui eu quem mais aprendi no papo com aquela criança cheia de sonhos. O livro ficou com ele, a lembrança comigo. Meus desejos para o jovem Pedro é que numa cidade tão grande e ele que é tão pequeno, não desanime e nem desista de ser o professor que ele já é. E que assim como eu, ele possa fazer por aí outros alunos dentro e fora da sala de aula ao longo de sua vida inteira. 

O Pedro quer ser um professor, mas para isso ele precisa de um. Acabar com as crianças nas ruas pode sim ser uma utopia, como ele disse. Mas é isso que nos faz caminhar, como disse Galeano. Há muitas crianças e adolescentes invisíveis nas ruas do Brasil carregando bolinhas, limões, rodinhos, sonhos e histórias. Histórias essas que precisam de atenção. Não podemos deixar de olhar para essas pessoas e nem que essa esperança que resta a algumas delas se acabar.? O Museu da Pessoa tem um acervo de histórias de brasileiros e brasileiras anônimos e anônimas como o Pedro. É para tirá-las da invisibilidade e mostrar a riqueza da alma humana que existe o projeto. São elas que motivam iniciativas como esta, “SP Invisível”, “Nós, Mulheres da Periferia”, “Caçadores de Bons Exemplos” e vários outros movimentos e pessoas contadores de histórias por todo mundo. São as histórias de vida que motivam e que transformam o mundo e as pessoas. Muito obrigado pelo espaço e pela confiança cedidos pelo museu. 

Vinícius Lima, 19 anos, estudante, é um dos fundadores do SP Invisível.

Especial para o Museu da Pessoa. 

Leia baixinho os versos a seguir e vá aumentado a voz gradativamente: Redução não é solução. Redução não é solução. Redução não é solução. Redução não é solução. Redução não é solução. Redução não é solução. Redução não é solução. Redução não é solução.

Eram cinco mil vozes em comum. Eram cinco mil timbres afinados, não emtom, mas em ideologia. Brasília não tem esquinas, por isso, os gritos ficaram presos dentro dos corredores dos prédios públicos do Distrito Federal. Dizem que ontem, os Deputados Federais, ao saírem dos gabinetes levaram um susto. Sabe por quê? O gramado do planalto estava vazio, mas eles ouviam gente gritando. Dizem ainda que o tal do Cunha mandou fechar as portas para que nenhuma daqueles vozes invadisse a sessão. Até a polícia do Congresso se armou esperando por algo que não vinha.

Não havia mais ninguém em Brasília, o que sobrou foi os gritos dos manifestantes, o choro das mães que perderam seus filhos e o lamentos dos mortos. O grito que sobrou na Capital se assemelha com aquele que a gente ouve no dia da Consciência Negra, no Dia do Índio, nas aulas de histórias quando se fala de tortura na ditadura. “Soa apenas como um soluçar de dor. E ecoa noite e dia. É ensurdecedor”.

Caro leitor, optei abrir essa matéria de forma mais lírica, como pode perceber. Em linha gerais, daqui por diante devo apenas retratar o Guerrilha viu no dia em que estivemos em Brasília acompanhando os movimentos socais, que combatem a aprovação da Proposta de Emenda Constitucional (PEC) 171, aquela que reduz a maioridade penal de 18 para 16 anos.

Diário de Viagem

Partimos de São Paulo no dia 30, às 19 horas, do Pátio do Colégio. Haviacerca de 160 pessoas ligadas aos mais diversos movimentos sociais. Antes de partir ao destino federal, para nossa surpresa, o ex-senador e atual secretário de Direitos Humanos da Prefeitura de São Paulo, Eduardo Suplicy (PT) veio até nós e declarou total apoio a causa, o que talvez tenha dado um ânimo ao pessoal, que já estava cansado de esperar a partida. Percorremos em 15 horas, mais de 11 mil quilômetros.

Chegamos a Capital por volta das 12 horas. Era preciso antes de tudo, acharum local para poder retirar as credenciais de imprensa para que pudéssemos cobrir a sessão de dentro do Congresso. Era evidente a tensão que pairava sobre os seguranças dos prédios federais. Tensão essa que levou um deles a discutir com o Deputado Federal Jean Willys (Psol) por conta da entrada de uma assessora sem crachá. O parlamentar entrou na frente do rapaz que tentava impedir a passagem e segurou na mão da moça e exigiu que ela fosse liberada. Após uns cinco minutos de discussão tudo foi resolvido. Quer dizer, entre eles, pois nós que buscávamos pelo setor de imprensa fomos proibidos de acessar o prédio e “orientados” a seguir por outro caminho.

Fomos então para o anexo II do Congresso e, mais uma vez confusão naentrada de visitantes. A reportagem já estava irritada com a situação e quase bateu boca com um segurança, O desgaste não adiantou em nada, pois as credenciais não foram liberadas.

Por volta das 15h30 a reportagem estava no Anexo II de novo acompanhando os movimentos sociais que se aglutinavam no local. Com os mais diversos gritos de ordem, cerca de 100 pessoas faziam uma pequena barreira entre a entrada no prédio. Às 16 horas, por conta de um grupo de ativistas a favor a redução um tumulto começou. Aproximadamente 20 policias faziam uma fileira e bastou um empurra-empurra para que as primeiras doses de gás de pimenta fossem dispersadas sobre os ativistas.

“Covardes”, gritavam os manifestantes. A polícia agia como se nada tivesse acontecendo. Talvez, nessa hora, leitor, você pense: onde estavam os outros mil e tantos ativistas? Bem, segundo informações, eles estavam fazendo uma ciranda e fazendo algum tipo de sarau, ao invés de somar luta com os de mais companheiros que sofriam com a retaliação.

Ao todo foram três ataques, sendo que o mais agressivo foi às 18 horas, quando um grupo maior chegou e mais spray de pimenta foi liberado. Uma menina de 17 anos teve contato direito dos olhos com o liquido. Nessa hora parecia cena de confronto real, como em junho de 2013. Pessoas gritavam com as mãos nos olhos pedindo por socorro. As mais diversas pessoas choravam e não conseguiam abrir os olhos por conta do cheiro forte.

Enquanto isso, os restantes dos cinco mil ativistas estavam no gramado fazendo qualquer coisa. Segundo uma ativista que conseguiu descer, os movimentos que estavam organizando todas as ações impedirem que os manifestantes descessem para ajudar.

Foi incrível o ato de pelegagem protagonizado principalmente pela UNE e pela UJS. Após toda essa agressão sofrida pelos ativistas, esses “movimentos” que se dizem parte de uma revolução, chegaram como se fosse ajudar de alguma forma, quando na verdade, preferiram acender velas e ficar cantado musiquinha rimada.

Ficaram então, parados por mais 1 hora em frente ao anexo sem fazer nada. Enquanto isso, a tropa de choque se alinha. Esses movimentos não tiveram a capacidade de ao menos dar uma palavra de ordem contra aqueles que violentaram manifestantes horas antes da chegas deles. Deixo registrado aqui, que para aquele movimento que se diz “a juventude do Araguaia” sugiro estudar um pouco mais o que foi essa juventude, antes de reproduzir tamanho impropério.

Após tudo isso, chegou a hora de acompanhar a votação. Dois telões foram instalados para que os grupos pudessem acompanhar. Os ativistas vaiavam e aplaudiam os parlamentares, como se esses pudessem ouvir alguma coisa.

Depois longas horas de espera, enfim, a decisão saiu, Naquela noite de terça, éramos vitoriosos. E o que nos restava senão gritar bem alto:

Redução não é solução. 
Redução não é solução.
Redução não é solução. 
Redução não é solução.
Redução não é solução. 
Redução não é solução.
Redução não é solução. 
Redução não é solução.

Por Vinícius Amaral, colaborador do Guerrilha GRR e repórter pelo jornal Diário de Suzano.

 

Aqui no Brasil, a literatura tem dois exemplos clássicos, Rubem Fonseca e Dalton Trevisan: eles não dão entrevistas, tratam de viver numa espécie de clandestinidade palpável e visível. Ou quase. Tratam de caminhar secretamente em suas cidades, o Rio e Curitiba, mantêm contato permanente com amigos mais que discretos, querem mesmo é sumir na poeira das ruas e no breu das noites.

A canção popular tem Geraldo Vandré. Há, porém, diferenças importantes. Vandré não se acanha de aparecer em público, confiando que pouca gente saberá quem ele é ou foi. E Vandré não mostra o que produz. Para liquidar o assunto e destroçar comparações, ele mesmo diz que não existe: quem existe é o advogado aposentado Geraldo Pedrosa de Araújo Dias. Afirma que Geraldo Vandré morreu em 1968: "Era só um pseudônimo que eu usava".

Pois esse pseudônimo traçou não apenas uma carreira especialmente sólida na canção popular brasileira como construiu uma figura que há uns 50 anos alcançou píncaros de luz para depois mergulhar numa névoa densa, carregada de perguntas sem resposta e mistérios sem solução.

Ao seu redor se construiu um halo de lendas e mistérios, que vão de sua esdrúxula volta ao Brasil em 1973, depois de quatro anos de exílio, à sua súbita reverência à Força Aérea - logo ele, que foi perseguido pela ditadura, proibido, exilado, humilhado.

Semelhante figura, com um passado estelar e uma trajetória pontilhada de enigmas e contradições, aos poucos foi sendo esquecida. Mas, já que de contradições se trata, ao mesmo tempo continua despertando a curiosidade não só de seus contemporâneos, mas de quem não viveu aqueles tempos de opressão e asfixia.

O jornalista Vitor Nuzzi, por exemplo. Quando ele nasceu em São Paulo, no ano de 1964, Vandré já tinha uma trajetória consolidada. Nuzzi tinha 4 anos quando tudo foi varrido pelo vendaval de um dezembro medonho, o de 1968. Quer dizer: nem de longe viveu o auge da carreira de Vandré e teve a sorte de não ter respirado tanto aqueles ares de chumbo: aos 4 anos de idade, o coração da infância costuma ser manso.

A certa altura da vida, por volta de 1985, e fazendo jus ao ofício de repórter, Nuzzi começou a descobrir Geraldo Vandré. Esse interesse resultou numa pesquisa de anos e anos, na feitura de mais de uma centena de entrevistas, e tudo isso desaguou nas 300 e tantas páginas do livro "Geraldo Vandré - Uma Canção Interrompida".

Ao reconstruir meticulosamente a trajetória de Vandré, Nuzzi recria, em detalhes, o panorama e a atmosfera que o país viveu ao longo de décadas, ou seja, de meados da década de 50 até hoje, passando pelo ponto culminante, dezembro de 1968, quando o regime militar decretou o Ato Institucional nº 5. Com esse AI-5 decretou-se também o fim de uma etapa, o início de outra e, de alguma forma, pelo menos segundo a opinião de Geraldo Pedrosa de Araújo Dias, a morte de Geraldo Vandré.

Como seria previsível, Vandré se negou a prestar depoimentos para Nuzzi. Muitos contemporâneos dele também. Há, porém, depoimentos preciosos e esclarecedores, que vão de Chico Buarque, Caetano Veloso e Gilberto Gil, a parceiros importantes de seu trabalho, como Luiz Roberto Oliveira, autor da emblemática melodia de "Tristeza de Amar".

Garimpando antigas declarações de Vandré, Nuzzi encontrou pepitas raras. Especialmente esclarecedora, principalmente para quem não viveu aqueles tempos ou, se viveu, se esqueceu, a reconstrução do cenário brasileiro é séria e meticulosa. Mais que fazer uma análise daquele panorama, a intenção do autor foi situar Vandré no ambiente que o país habitava. E isso foi feito de maneira eficaz.

Existem apenas cem exemplares impressos de "Geraldo Vandré - Uma Canção Interrompida". Nenhum deles foi vendido. Cada um foi pago pelo próprio autor. Afinal, havia uma legislação que espantava editores.

Bem, essa lei caiu. E o livro, que certamente chegará às livrarias, é um retrato respeitoso e pungente de uma das figuras centrais da Música Popular Brasileira da segunda metade do século XX. É uma forma de resgatar a figura de Vandré, a memória coletiva e, principalmente, de deixar claro que a própria obra dessa figura controvertida e misteriosa desmente uma de suas frases contundentes, dita ao repórter Geneton Moraes numa memorável entrevista: "A arte é inútil. Mas eu consegui ser mais inútil que qualquer artista". 

Conhecer sua vida e sua trajetória, conhecer sua obra, é constatar o contrário. Não só a arte é útil como, acima de tudo, necessária. Da mesma forma que é útil e necessário esse artista, que ao negar que está vivo nega o óbvio. 

Por Eric Nepomuceno, para o Valor.

"Geraldo Vandré - Uma Canção Interrompida" - Vitor Nuzzi. Scortecci Editora 372 págs., preço não definido / AA+

João Bittar nasceu no dia 14 de março de 1951, em São Paulo. Iniciou sua carreira aos 17 anos e trabalhou como fotojornalista e editor de várias publicações: Veja, IstoÉ, Contigo, Época, Quem, Diário de S. Paulo, Gazeta Mercantil, Diário do ABC e Folha de S. Paulo. Na Folha de S. Paulo foi editor de fotografia, sendo responsável pelo processo de digitalização fotográfica no jornal.

Em 1982, em paralelo ao trabalho na grande imprensa, fundou a Agência Angular, pioneira no fotojornalismo independente.

Algumas fotos de sua carreira são bastante conhecidas, entre as várias imagens que registrou está uma do ex-presidente da República, Luiz Inácio “Lula” da Silva, mostrando o umbigo em uma convenção dos metalúrgicos no ano de 1979. Também fez fotografias do sambista Cartola se preparando para um show, além de Rita Lee, Tom Jobim, Paulo Maluf, Fernando Henrique Cardoso e outras personalidades marcantes na história do país. 

João Bittar, que cunhou a frase “é impossível fazer fotojornalismo sem caráter”, faleceu no dia 18 de dezembro de 2011. 

Passagens

As fotos abaixo, foram expostas há dois anos na Ímã Foto Galeria, na Vila Madalena, com curadoria da filha Thays Bittar na exposição "Passagens". As 40 imagens exibidas na ocasião, foram publicadas originalmente no Facebook. O 'mestre' como era conhecido, as postava sem cortes ou tratamento. Clicava as imagens, flagrantes da cidade e seus personagens, e no mesmo dia as colocava na rede.

Algumas delas, foram enviadas, agora, pela filha, especialmente para exibição no Portal São Paulo São (estão no topo) e, em certo sentido, são uma ode à cidade no olhar de um fotógrafo genial. 

 

joaobittar 1joaobittar 1 joaobittar 2joaobittar 2
 
joaobittar 3joaobittar 3 joaobittar 4joaobittar 4
 
joaobittar 6joaobittar 6 joaobittar 7joaobittar 7
 
joaobittar 10joaobittar 10 joaobittar 11joaobittar 11
 
joaobittar 13joaobittar 13 joaobittar 16joaobittar 16
 
 
 
 

Nunca havia parado pra pensar na influência que Mário de Andrade teve sobre mim, até que uma equipe de TV me pediu um depoimento por ocasião da homenagem prestada pela FLIP ao autor de Macunaíma. Mário de Andrade me veio pelo cinema, não pela literatura. Primeiro, como uma espécie de mito, quando na minha infância os adultos não paravam de falar de um filme (Macunaíma) que eles não entendiam e que eu, por causa da idade, não podia ver. E depois, quando cheguei finalmente à idade de ver o que bem entendesse, por um filme diametralmente oposto a Macunaíma (na concepção e na forma), sobre a descoberta do sexo, e que coincidiu com a minha própria descoberta do sexo.

Assisti a Lição de Amor, de Eduardo Escorel, baseado no romance Amor, Verbo Intransitivo, quando eu tinha 15 anos. Ao contrário da carnavalização genial que Joaquim Pedro de Andrade fizera de Macunaíma (que eu só fui ver anos mais tarde), Lição de Amor era um filme contido, circunspecto e engessado, que tratava da educação sexual de um filho da arcaica burguesia paulista nas mãos de uma preceptora alemã. Era o oposto da imagem do cinema brasileiro promovida pelo Cinema Novo. Escorel tinha tomado a decisão temerária de reproduzir os diálogos do livro ao pé da letra, o que não só quebrava o realismo da interpretação, mas a levava aos limites do canhestro. Eu adorei aquilo. Parecia cinema novo alemão (do qual eu era fã) feito no Brasil.

Nesse meio-tempo (e antes de ver o filme de Joaquim Pedro), li Macunaíma. E foi a partir daí que Mário de Andrade se tornou uma espécie de parceiro involuntário contra a obsessão por uma identidade nacional que informava tudo o que se queria fazer respeitar na cultura brasileira da minha juventude. Todo mundo evocava e ecoava Oswald de Andrade como o gênio da raça. E eu batia palmas, encantado com a genialidade publicitária de frases de efeito como “só a antropofagia nos une”. Até começar a desconfiar daquilo tudo, daquela alegria, e de que talvez a antropofagia não me unisse a ninguém.

Ainda que se leia o “Manifesto Antropófago” como chiste ou ironia, ele continua dando as bases para um mito positivo de nacionalidade. E, de fato, a ambiguidade e a abrangência do conceito de antropofagia (onde cabe tudo, uma vez que o princípio é devorar e deglutir o outro, as culturas estrangeiras) permitiram que se passasse a repetir que somos todos antropófagos como um refrão da natureza. E que se erguesse a partir daí uma identidade nacional mais sofisticada, mais moderna, mais humorada e mais radical do que a frágil idealização romântica do índio como mito de origem, mas que nem por isso era menos questionável. Embora reciclada pela inteligência modernista, a antropofagia reproduz o mito da identidade nacional. Parece de brincadeira, mas é a sério. Escarnece da identidade romântica, apenas para encontrar outra menos vulnerável ao confronto com a realidade.

Em contrapartida, há um aspecto bem mais problemático e trágico na ideia de “herói sem nenhum caráter”, que define Macunaíma. Não é possível construir a identidade de um país sobre um mito negativo. A antropofagia é positiva, ela nos transforma a todos em devoradores do que nos é imposto de fora, pelo estrangeiro. No final das contas, é um mito de resistência. E é muito diferente da falta representada por um herói sem nenhum caráter. Não duvido de que a homossexualidade de Mário de Andrade o tenha predisposto a desconfiar das identidades fáceis. Por mais que estivesse à procura de uma identidade nacional (e que, ao contrário de Oswald, precisasse fazer viagens, ir a campo, recorrer à etnografia na sua busca desesperada), era como se a busca já denunciasse a sua impossibilidade.

Quando lê Macunaíma, Manuel Bandeira reprova as incoerências do personagem: “Macunaíma é um herói do folclore indígena do Amazonas. (...) Macunaíma, com a vaidade de escrever com sabor clássico, é um disparate, uma quebra violenta da unidade da personagem”. Mário de Andrade retruca: “É justo nisso que está a lógica de Macunaíma: em não ter lógica. Não imagine que estou sofismando, não. É fácil de provar que estabeleci bem dentro de todo o livro que Macunaíma é uma contradição de si mesmo. O caráter que demonstra num capítulo, ele desfaz noutro. (...) Não corrijo, se arranje”.

Ao contrário do amálgama idealista da antropofagia, Mário de Andrade vai buscar o mito amazônico para torná-lo disparate. Em vez de recriar o mito da identidade nacional, Macunaíma o torna incoerente. Em Amor, Verbo Intransitivo, quem come o brasileirinho é a alemã. Ela o come e o deixa chorando de amor, para que um dia ele se case com uma mocinha de sua própria classe, herde as terras e a indústria do pai e continue fazendo do Brasil o que o Brasil de fato é. 

Bernardo Carvalho é escritor e jornalista, autor dos livros Nove noitesO filho da mãe e Reprodução, entre outros.

Fonte: Blog do IMS.