Ensaios - São Paulo São

São Paulo São Ensaios

 

Como poderíamos, por meio de determinados ícones de arquitetura e cultura, entender uma metrópole?

Experimente fazer isso com alguns deles.

Comecemos por dois. Com acervos e localização à parte, os prédios da Pinacoteca do Estado de São Paulo e o MASP (Museu de Arte de São Paulo) podem nos trazer pistas interessantes sobre a metrópole e suas faces. Contam-nos boas histórias de um outro tempo e da criatividade e determinação de seus arquitetos e idealizadores.

Um é representante de uma arquitetura tradicional de princípios do século XX, com projeto do escritório de Ramos de Azevedo (1896-1900) e que no decurso do tempo sofreu diversas reformas e intervenções. A última delas ocorrida na década de 1990, durante a gestão de Emanoel Araújo como diretor da instituição. E de um projeto de recuperação do prédio assinado pelo arquiteto Paulo Mendes da Rocha.


O outro é representante de uma arquitetura moderna.

Em 1958, a arquiteta Lina Bo Bardi projeta o edifício da avenida Paulista, atual sede do museu. Foi inaugurado em 1968 com a presença da rainha Elizabeth II da Inglaterra, logo após a morte de seu fundador, Assis Chateaubriand (1892-1968).

Pensar estes dois prédios é de fato pensar de que forma o cosmopolitismo de São Paulo perpassa bairros, épocas e composições. Olhar o vão livre do MASP é espreitar sob um janela de 74 metros estendida sobre o asfalto e de alguma maneira tomada pelos paulistanos e por suas construções em concreto à sua volta. Tem uma linguagem que, para mim que sou leiga, é limpa, linear, moderna, sem excessos ou rebuscados.

A Pinacoteca é fruto de um prédio que pareceu, no decurso do tempo, ser fruto de uma constante reforma, e que por empenho de muitos, com um acervo impecável e uma programação irrepreensível, tornou-se uma referência do coração da cidade. Plantada numa área histórica, se impõe como um edifício que salta aos olhos e que para nós paulistanos, dá uma sensação de nos sentir em casa. Carrega em si todas as nossas contradições urbanóides. A sensação de luminosidade e espaço em seu interior contrastam com uma cidade sufocada por trânsito, congestionamentos de carros e de almas que tem em suas bordas toda a marginalidade e decadência do craque, da prostituição.

De fato, duas pauliceias: prazer estético e contradições para todos os que por elas passam.

O vão livre do MASP a cada dia parece menor em vão e mais ocupado em gentes. Espaço de constantes manifestações e ocupações, é palco de vida pulsante.

Para além disto, o MASP parece ser o signo de toda a nossa contradição: um esforço de ser moderno, viver com suas dificuldades, usos e abusos heterogêneos de espaços, riqueza cultural e patrimonial, em meio a um poder público omisso e ausente. Sua riqueza de acervo contrasta com problemas estruturais de múltiplas gestões e muitas ausências de políticas culturais e financeiras. De fato, temos no MASP a expressão de tudo junto: essa Pauliceia sôfrega por tantos problemas, ritmos e possibilidades.

A Pinacoteca e todo seu conjunto arquitetônico, em torno da Luz, tem uma vitalidade histórica contrastante com tantos problemas sociais e de ocupação à sua volta. Mas é uma ilha de prazer estético e entrar dentro dela parece nos levar para outro tempo... outra sensação. É um ponto de oxigenação para mentes e meio de encontrar diálogos para formas e estéticas.

Icônicos em composição, ocupação, funções e atribuições revelam as muitas contradições que só uma megalópole como São Paulo tem.

Mas as faces e as fases de Sampa não são apenas estas.

Podem estar no caleidoscópio de outros ícones que se espalham pela cidade e que dão conta de outros trechos de longas histórias.

Um terceiro exemplo é o Museu Paulista, mais conhecido como o Museu do Ipiranga.


Foto: Divulgação / Museu Paulista.

O arquiteto e engenheiro italiano Tommaso Gaudenzio Bezzi foi contratado em 1884 para realizar o projeto de um monumento-edifício. O estilo arquitetônico, eclético, foi baseado no de um palácio renascentista, muito rico em ornamentos e decorações.

Seu acervo riquíssimo dá ao seu conjunto arquitetônico ainda mais interessência e prazer estético. Escadarias internas e externas, colunas e tetos adornados, ladeado por belos jardins planejados e inspiradores. O primeiro projeto paisagístico, por exemplo, é de 1909 do belga Arsênio Puttemans. Nos anos 1920 o jardim foi remodelado, desta vez pelo alemão Reinaldo Dierberger. Leia mais aqui, sobre a importância de tais projetos paisagísticos na construção da identidade nacional e suas relações com os espaços urbanos.

É de fato um museu que se derrama por seu entorno e que acolhe todos os que fazem de seus jardins uma extensão de suas próprias casas. Permite por meio de suas calçadas e jardins uma comunicação interessante entre os espaços de dentro e de fora. Democrático nos seus sentidos de uso, via a diversidade de utilizadores encontrar-se todos os dias com pesquisadores em busca de seu acervo documental e rica biblioteca.

Sem dúvida, está entre o mais querido e lembrado por todos os que visitam ou moram na cidade.

Mas também é outro museu que vive de contradições tal como os citados acima. Infelizmente para todos nós, foi o que teve o mais trágico destino dos últimos tempos.

Teve suas portas fechadas às pressas e só tem previsão de reabertura em 2022, para salvaguardar conjunto arquitetônico, bem como suas obras e acervo.

Mas, e quando a arte deixa as edificações e as paredes que as circunscrevem e toma a rua num nítido transbordamento de muros?

Grafite no Beco do Batman na Vila Madalena. Foto: The New Yorker

São Paulo também conhece muito bem esse fenômeno. A Vila Madalena corporifica esse transbordamento por becos e ruelas. O grafitti ganha os muros e revela um museu a céu aberto. As fronteiras tão marcadas por projetos desenhados, que guardam obras e expressões artísticas intramuros se dissipa: o muro e a rua passam a ser molduras para seus artistas e sua comunicação com e pela cidade.

A cultura neste sentido, deixa suas marcas na malha urbana e dialoga com os espaços desta. O grafitti se espalha pelos muros do bairro usando a cidade como seu suporte principal. Técnicas, temas e artistas se revezam nos olhares de transeuntes-consumidores. Uma via de comunicação entre os que vão e os que vêm.

No bairro, uma viela se tornou um ponto turístico na região, é a rua Gonçalo Afonso, chamada de Beco do Batman que é totalmente grafitada, onde não se encontra praticamente um espaço para mais desenhos, por isso, periodicamente os trabalhos são substituídos.

De tudo o que vimos tem-se que a cidade e seus museus são espaços de apropriação multicultural. Por meio destas apropriações, tais sujeitos fornecem uma nova cartografia que se impõe aos diferentes espaços aqui analisados. Representam também formas que se alteram pelo tempo e espaço, não apenas edificado, mas social e cultural.

É só prestarmos atenção como a arquitetura eclética e de paisagismo construído com vistas à criação de uma identidade nacional presente no edifício do Museu Paulista, ganha um novo contorno na proposta do prédio da Pinacoteca do Estado, que é tradicional, como o são toda a concepção de cidade que cresce ao seu entorno. Uma cidade que ainda busca em matrizes europeias, formas, gostos e ornatos.

Num nítido processo de busca de despojar-se de todo esse passado, o projeto arquitetônico do MASP traz uma nova dimensão de linhas e traços. Abandona os rebuscados. Busca nas linhas retas e de material moderno sua edificação. Plantado em meio a casarões de barões de café, para começar a comunicar-se com seu entorno: acolhe e é acolhido por outros elementos de construção à sua volta.  Ergue-se e constitui-se um marco de uma metrópole contemporânea, assumindo formas que dão-lhe mais usos e funções.

É concreto e cor sobre asfalto e gentes.

E só a partir daí que a maturidade urbana permite o encontro da arte com os muros de ruas, becos, ruelas. A Pauliceia encontra formas de expressão não apenas circunscrita por paredes e projetos, mas pelas ruas desenhadas por habitantes e ocupações: sem projetos ou linhas. A arte libertou-se de todas as amarras e encontra expressão por tintas, pinceis e spray, molduradas por blocos simples de cerâmica ou concreto.

A Vila Madalena materializa esse escape cultural.

Daí tantas faces e fases. Escolha a sua!

***
Eliana Rezende é PhD em História Social. Mantém e escreve em seu blog 'Pensados a Tinta'

 


São Paulo, 2015. Um dia após a data na qual é celebrado o dia da mulher negra latina e caribenha, o vão do MASP foi ponto de concentração para a primeira Marcha do Orgulho Crespo.

O concreto de Lina Bo Bardi foi tomado pelas cores, turbantes, grandes brincos e os mais variados cabelos crespos. Das longas tranças às cabeças raspadas, dos black powers aos cachos mais tímidos, dos cabelos coloridos aos turbantes ainda mais coloridas: todas e todos estavam reunidos para celebrar o orgulho que é ser [email protected] O cabelo crespo não é cabelo ruim, o cabelo crespo é coroa, que todas as negras e negros carregam consigo, junto de sua ancestralidade africana.

Histórias de vidas foram compartilhadas pelo megafone em uma roda formada pelos participantes antes da saída da Marcha. Cada fala era saudada pelos companheiros e companheiras com palmas e gritos de força. A dor e o preconceito sofrido por um é sentido por todos. O ato festivo e político contou com a presença de Karol Conká  - artista negra e ícone do hip-hop  - , que foi recebida com a euforia por todos no ato.

Porque celebrar o orgulho do cabelo crespo em uma sociedade racista é sim um ato revolucionário e subversivo.

O ensaio: https://goo.gl/JBu17d

Por Jornalistas Livres e fotos Mídia Ninja.

 


Francisco, por mais que tu saibas do cronicamente inviável do mundo, repare nos detalhes, no latim dos rapazes, há um requinte na rima e no que Mano Brown diz: oxicus est rabidus, processum est tardus. Traduzo, no meu latim chinfrim de quem fugiu das aulas no Seminário da Diocese do Crato (Ceará), um mantra dos Racionais MC´s: o bagulho é louco, o processo é lento.

O delírio deste cronista é imaginar o papa Francisco --presenteado pelo prefeito Fernando Haddad com um disco dos rappers brasileiros na sua visita ao Vaticano --, mandando os versos do grupo da periferia paulistana em um sermão dominical no Vaticano.

Toxicus est rabidus, processum est tardus. Para quem foi ateu e agora faz morada na tenda dos milagres como eu, não duvido nada do xará católico apostólico romano.

Mano Brown e o papa têm mais em comum, cada qual com seu testamento, do que imaginam as fiéis criaturas de qualquer seita ou credo deste, tomara Deus para todo o sempre, Estado laico.

A turma dos Racionais, com seus salmos ao rés do chão dos subúrbios, semeou uma mensagem tão importante –e aqui redundo o franciscanismo do santo de Assis - quanto o atual discurso de Jorge Bergoglio na cúpula de Roma.

“Diário de um detento”, para ficar apenas numa faixa dos caras, é tão importante quanto algumas páginas do gênio-mor Machado de Assis, nego do Morro da Providência e do Cosme Velho... Tão bonito quanto os subterrâneos de Lima Barreto... Tão comovente como as escritas de Luiz Mendes, ex-presidiário e o maior colunista do Brasil (revista Trip) ao lado do Jânio de Freitas, da Folha.

Nada mais lindo, em um certo sentido devoto da linguagem, do que o conforto das letras dos Racionais para as almas apenadas que padecem no inferno das dostoievskianas “casas dos mortos”. As gentes das masmorras com suas culpas cristãs e capivaras de processos roendo o cérebro “sob o olhar sanguinário do vigia”... Somente mais um dia riscado na parede no ajuntamento de desventuras e inglórias, somente mais uma recusa até do sol por testemunha –se nem ele nasceu para todos, como expiar os erros na desordem?

Este cronista visitou tantos irmãos e parentes na cadeia que talvez saiba do que está falando:

“Minha palavra alivia sua dor

Ilumina minha alma

Louvado seja o meu senhor

Que não deixa o mano aqui desandar ah

E nem sentar o dedo em nenhum pilantra

Mas que nenhum filha da puta ignore a minha lei

Racionais capítulo 4 versículo 3”.

Vida loka

Nada mais alentador para os jovens dos arrabaldes das metrópoles, anjos ou demônios, do que os versículos dos músicos do Capão Redondo dirigidos aos feios, sujos e rejeitados.

Imagino a cena. O papa Francisco vai à janela e manda para a juventude do mundo inteiro: Toxicus est rabidus, processum est tardus. Óbvio que vai mandar num latim mais rochedo, correto, mas saberá do que se trata o bagulho.

Vida loka, como na expressão consagrada pelos Racionais no Brasil todo. Vida loka é saber que um papa, quase sempre um vanguardista do atraso por causa da solenidade sacana do cargo, agora está a muitas léguas submarinas na frente de muitos estadistas, leio o Juan Arias, colunista deste mesmo EL PAÍS, e sei disso. Que maravilhoso argentino. Só tem um pecado, amigo Mano Brown, torce pelo San Lorenzo, El corvo, e não pelo maior time do universo de todos os planetas, o Santos Futebol Clube. Remittuntur tibi, será assim que se escreve “está perdoado” , sumo pontífice?

Vida loka: quando uma autoridade do Vaticano consegue emplacar umas ideias adiante, quem diria, de toda uma sociedade –sacanagem atribuir o atraso somente aos governos. Vida loka, agora o papa é vanguarda, tem algo estranho no mundo quando o papa consegue ser mais avançado que a imprensa, a política e até mais que os poetas. Que falta nos faz o Roberto Piva, o trovador de uma São Paulo menos tacanha, uma São Paulo iluminista da avenida São Luiz até a tocha da Petrobras no final da Sapopemba.

Viva o papa. Com um ideário em sintonia com o Mano Brown e Emicida, com o GOG, com o Zé Brown, com os grandes rappers brasileiros, nossos maiores cronistas.

Agora, silêncio, escutem esses versos dos Racionais MC´s, please:

"Cadáveres no poço, no pátio interno.

Adolf Hitler sorri no inferno!

O Robocop do governo é frio, não sente pena.

Só ódio e ri como a hiena."

A narrativa era sobre o massacre do Carandiru, mas vale para qualquer hora ou chacina. Vale o escrito. Hannah Arendt assinaria embaixo.

 



Sobrevivendo no inferno

Salmo 23: "Refrigere minha alma e guia-me pelo caminho da Justiça". Eis a epígrafe, logo na capa, da obra entregue a Francisco. Digo do CD “Sobrevivendo no Inferno”... Que lindeza... O motivo dessa crônica. O disco que o melhor prefeito de hoje do Brasil, obviamente o que mais leva porrada, levou ao papa de presente. Haddad, mas não se esqueça, porrada mesmo, no sentido Fernando Pessoa do termo, quem levou foi a Erundina, talvez a melhor prefeita de SP de todos os tempos, se liga, a tia paraibana estava na mira, qualquer foca editorializava acima de qualquer suspeita ou rasgava as regrinhas do manual de redação que só valem quando você é contra.

Silêncio.

Agora estou reouvindo de fato o maior disco de rap de todos os tempos: “Sobrevivendo no inferno”, se liga, todo mundo sabe que Jorge sentou praça na cavalaria/ E eu estou feliz porque eu também/ sou da sua companhia...

Francisco, por mais que tu saibas do cronicamente inviável do mundo, repare nos detalhes, no latim dos rapazes, há um requinte na rima e no que Mano Brown, Ice Blue, KLjay e Edy Rock dizem. Eles são tão importantes quanto o T.S. Eliot de uma certa terra desolada.

Há um dito bendito além da conta. Se liga, Francisco.

Xico Sá no El País.

Sempre que saio às ruas com os meus amigos e amigas do SP Invisível para conversar com pessoas que encontramos no caminho, seja ela prostituta, moradora ou morador de rua, criança, adolescente, catador ou artista de rua, procuro levar algo além dos meus ouvidos. Às vezes levo comida, roupas, porém me recordo até hoje da única vez que levei a maior arma que uma pessoa pode segurar. Lembro muito bem que, em pleno debate sobre redução da maioridade penal, a gente tinha que entrevistar meninos e meninas que moravam nas ruas, então saí por aí distribuindo Drummond, Aloísio de Azevedo, Machado de Assis, Jorge Amado, José de Alencar e munindo essas crianças e adolescentes de informação após cada papo.

No segundo sábado que saímos para entrevistar esses jovens, um menino chamado Pedro (nome fictício) nos marcou muito. Ele tinha mais ou menos uns 10 anos e chorava muito, pois estava com dor de dente. “Ele come muito doce e não escova o dente, senhora”, disse o irmão dele que fazia malabares no farol para Marina, que cuidava do menino sentado na calçada. Depois de muito choro e muito tempo tentando arrancar uma palavra de Pedro, ele disse à ela que queria um remedinho. Ela e o André então foram com ele à farmácia comprar alguma coisa para o menino.

Quando eles voltaram com o remédio, eu fiquei com ele enquanto eles entrevistavam seu irmão para a série de adolescentes do SP Invisível. Estávamos sentados na calçada e, para tentar calar seu choro, decidi ler um livro de poesias que havia levado. Depois de ler vários poemas, um chamou sua atenção, o famoso “E Agora José ?”. Ele lia atentamente verso por verso enquanto aos poucos parava de soluçar: E agora, José ?/A festa acabou,/a luz apagou,/o povo sumiu,/a noite esfriou,/e agora, José?/e agora, você?/você que é sem nome,/que zomba dos outros,/você que faz versos,/que ama, protesta?/e agora, José?/Está sem mulher,/está sem discurso,/ está sem carinho,/está sem carinho,/já não pode beber,/já não pode fumar,/cuspir já não pode,/a noite esfriou,/o dia não veio,/o bonde não veio,/o riso não veio/não veio a utopia... Essa última palavra chamou sua atenção e interrompe a leitura:

- Tio, o que é isso?

- Isso o que?

- Utopia.

- Ah, é uma coisa muito boa que a gente quer que aconteça, mas nunca vai acontecer. Só que a gente sempre luta para que isso aconteça.

Nessa hora fui surpreendido pela sabedoria e simplicidade da resposta daquele menino de 10 anos que pedia dinheiro no farol com o seu irmão:

- É tipo acabar as crianças da rua, né?!

Não soube o que afirmar naquele momento, rapidinho passou um monte de dúvidas e reflexões sobre o que ele quis dizer e o que aquela pergunta carregava. Não foi só uma simples pergunta. Ela veio também com um grito de “eu quero sair daqui”. Veio também com uma denúncia que coloca no chão qualquer jornal. Além disso, veio com um engajamento de dar inveja aos movimentos sociais, inclusive às maiores revoluções históricas como a Russa ou as da Europa em 1968, “Je suis Pedro”. Chegou com tanto sonho e esperança aquele questionamento que nem Luther King ou Galeano esperavam tal resposta. Aurélio que me perdoe, mas a sua simples definição para a palavra deveria estar em todos os dicionários, pois só alguém com muita propriedade do assunto poderia definir o que é “utopia” tão facilmente. Só alguém muito sonhador como o jovem Pedro. 

Para não ficar muito tempo quieto, respondi com outra pergunta e disse a ele:

- O que você quer ser quando crescer?

- Professor – Ele respondeu – de História. 

“Está tudo explicado”, pensei. Mal sabia ele que o seu primeiro aluno já estava à sua frente. Num dia que saí com uma postura prepotente e preconceituosa de “ensinar algumas coisas distribuindo meus livros nas ruas”, fui eu quem mais aprendi no papo com aquela criança cheia de sonhos. O livro ficou com ele, a lembrança comigo. Meus desejos para o jovem Pedro é que numa cidade tão grande e ele que é tão pequeno, não desanime e nem desista de ser o professor que ele já é. E que assim como eu, ele possa fazer por aí outros alunos dentro e fora da sala de aula ao longo de sua vida inteira. 

O Pedro quer ser um professor, mas para isso ele precisa de um. Acabar com as crianças nas ruas pode sim ser uma utopia, como ele disse. Mas é isso que nos faz caminhar, como disse Galeano. Há muitas crianças e adolescentes invisíveis nas ruas do Brasil carregando bolinhas, limões, rodinhos, sonhos e histórias. Histórias essas que precisam de atenção. Não podemos deixar de olhar para essas pessoas e nem que essa esperança que resta a algumas delas se acabar.? O Museu da Pessoa tem um acervo de histórias de brasileiros e brasileiras anônimos e anônimas como o Pedro. É para tirá-las da invisibilidade e mostrar a riqueza da alma humana que existe o projeto. São elas que motivam iniciativas como esta, “SP Invisível”, “Nós, Mulheres da Periferia”, “Caçadores de Bons Exemplos” e vários outros movimentos e pessoas contadores de histórias por todo mundo. São as histórias de vida que motivam e que transformam o mundo e as pessoas. Muito obrigado pelo espaço e pela confiança cedidos pelo museu. 

Vinícius Lima, 19 anos, estudante, é um dos fundadores do SP Invisível.

Especial para o Museu da Pessoa. 

Leia baixinho os versos a seguir e vá aumentado a voz gradativamente: Redução não é solução. Redução não é solução. Redução não é solução. Redução não é solução. Redução não é solução. Redução não é solução. Redução não é solução. Redução não é solução.

Eram cinco mil vozes em comum. Eram cinco mil timbres afinados, não emtom, mas em ideologia. Brasília não tem esquinas, por isso, os gritos ficaram presos dentro dos corredores dos prédios públicos do Distrito Federal. Dizem que ontem, os Deputados Federais, ao saírem dos gabinetes levaram um susto. Sabe por quê? O gramado do planalto estava vazio, mas eles ouviam gente gritando. Dizem ainda que o tal do Cunha mandou fechar as portas para que nenhuma daqueles vozes invadisse a sessão. Até a polícia do Congresso se armou esperando por algo que não vinha.

Não havia mais ninguém em Brasília, o que sobrou foi os gritos dos manifestantes, o choro das mães que perderam seus filhos e o lamentos dos mortos. O grito que sobrou na Capital se assemelha com aquele que a gente ouve no dia da Consciência Negra, no Dia do Índio, nas aulas de histórias quando se fala de tortura na ditadura. “Soa apenas como um soluçar de dor. E ecoa noite e dia. É ensurdecedor”.

Caro leitor, optei abrir essa matéria de forma mais lírica, como pode perceber. Em linha gerais, daqui por diante devo apenas retratar o Guerrilha viu no dia em que estivemos em Brasília acompanhando os movimentos socais, que combatem a aprovação da Proposta de Emenda Constitucional (PEC) 171, aquela que reduz a maioridade penal de 18 para 16 anos.

Diário de Viagem

Partimos de São Paulo no dia 30, às 19 horas, do Pátio do Colégio. Haviacerca de 160 pessoas ligadas aos mais diversos movimentos sociais. Antes de partir ao destino federal, para nossa surpresa, o ex-senador e atual secretário de Direitos Humanos da Prefeitura de São Paulo, Eduardo Suplicy (PT) veio até nós e declarou total apoio a causa, o que talvez tenha dado um ânimo ao pessoal, que já estava cansado de esperar a partida. Percorremos em 15 horas, mais de 11 mil quilômetros.

Chegamos a Capital por volta das 12 horas. Era preciso antes de tudo, acharum local para poder retirar as credenciais de imprensa para que pudéssemos cobrir a sessão de dentro do Congresso. Era evidente a tensão que pairava sobre os seguranças dos prédios federais. Tensão essa que levou um deles a discutir com o Deputado Federal Jean Willys (Psol) por conta da entrada de uma assessora sem crachá. O parlamentar entrou na frente do rapaz que tentava impedir a passagem e segurou na mão da moça e exigiu que ela fosse liberada. Após uns cinco minutos de discussão tudo foi resolvido. Quer dizer, entre eles, pois nós que buscávamos pelo setor de imprensa fomos proibidos de acessar o prédio e “orientados” a seguir por outro caminho.

Fomos então para o anexo II do Congresso e, mais uma vez confusão naentrada de visitantes. A reportagem já estava irritada com a situação e quase bateu boca com um segurança, O desgaste não adiantou em nada, pois as credenciais não foram liberadas.

Por volta das 15h30 a reportagem estava no Anexo II de novo acompanhando os movimentos sociais que se aglutinavam no local. Com os mais diversos gritos de ordem, cerca de 100 pessoas faziam uma pequena barreira entre a entrada no prédio. Às 16 horas, por conta de um grupo de ativistas a favor a redução um tumulto começou. Aproximadamente 20 policias faziam uma fileira e bastou um empurra-empurra para que as primeiras doses de gás de pimenta fossem dispersadas sobre os ativistas.

“Covardes”, gritavam os manifestantes. A polícia agia como se nada tivesse acontecendo. Talvez, nessa hora, leitor, você pense: onde estavam os outros mil e tantos ativistas? Bem, segundo informações, eles estavam fazendo uma ciranda e fazendo algum tipo de sarau, ao invés de somar luta com os de mais companheiros que sofriam com a retaliação.

Ao todo foram três ataques, sendo que o mais agressivo foi às 18 horas, quando um grupo maior chegou e mais spray de pimenta foi liberado. Uma menina de 17 anos teve contato direito dos olhos com o liquido. Nessa hora parecia cena de confronto real, como em junho de 2013. Pessoas gritavam com as mãos nos olhos pedindo por socorro. As mais diversas pessoas choravam e não conseguiam abrir os olhos por conta do cheiro forte.

Enquanto isso, os restantes dos cinco mil ativistas estavam no gramado fazendo qualquer coisa. Segundo uma ativista que conseguiu descer, os movimentos que estavam organizando todas as ações impedirem que os manifestantes descessem para ajudar.

Foi incrível o ato de pelegagem protagonizado principalmente pela UNE e pela UJS. Após toda essa agressão sofrida pelos ativistas, esses “movimentos” que se dizem parte de uma revolução, chegaram como se fosse ajudar de alguma forma, quando na verdade, preferiram acender velas e ficar cantado musiquinha rimada.

Ficaram então, parados por mais 1 hora em frente ao anexo sem fazer nada. Enquanto isso, a tropa de choque se alinha. Esses movimentos não tiveram a capacidade de ao menos dar uma palavra de ordem contra aqueles que violentaram manifestantes horas antes da chegas deles. Deixo registrado aqui, que para aquele movimento que se diz “a juventude do Araguaia” sugiro estudar um pouco mais o que foi essa juventude, antes de reproduzir tamanho impropério.

Após tudo isso, chegou a hora de acompanhar a votação. Dois telões foram instalados para que os grupos pudessem acompanhar. Os ativistas vaiavam e aplaudiam os parlamentares, como se esses pudessem ouvir alguma coisa.

Depois longas horas de espera, enfim, a decisão saiu, Naquela noite de terça, éramos vitoriosos. E o que nos restava senão gritar bem alto:

Redução não é solução. 
Redução não é solução.
Redução não é solução. 
Redução não é solução.
Redução não é solução. 
Redução não é solução.
Redução não é solução. 
Redução não é solução.

Por Vinícius Amaral, colaborador do Guerrilha GRR e repórter pelo jornal Diário de Suzano.

 

Aqui no Brasil, a literatura tem dois exemplos clássicos, Rubem Fonseca e Dalton Trevisan: eles não dão entrevistas, tratam de viver numa espécie de clandestinidade palpável e visível. Ou quase. Tratam de caminhar secretamente em suas cidades, o Rio e Curitiba, mantêm contato permanente com amigos mais que discretos, querem mesmo é sumir na poeira das ruas e no breu das noites.

A canção popular tem Geraldo Vandré. Há, porém, diferenças importantes. Vandré não se acanha de aparecer em público, confiando que pouca gente saberá quem ele é ou foi. E Vandré não mostra o que produz. Para liquidar o assunto e destroçar comparações, ele mesmo diz que não existe: quem existe é o advogado aposentado Geraldo Pedrosa de Araújo Dias. Afirma que Geraldo Vandré morreu em 1968: "Era só um pseudônimo que eu usava".

Pois esse pseudônimo traçou não apenas uma carreira especialmente sólida na canção popular brasileira como construiu uma figura que há uns 50 anos alcançou píncaros de luz para depois mergulhar numa névoa densa, carregada de perguntas sem resposta e mistérios sem solução.

Ao seu redor se construiu um halo de lendas e mistérios, que vão de sua esdrúxula volta ao Brasil em 1973, depois de quatro anos de exílio, à sua súbita reverência à Força Aérea - logo ele, que foi perseguido pela ditadura, proibido, exilado, humilhado.

Semelhante figura, com um passado estelar e uma trajetória pontilhada de enigmas e contradições, aos poucos foi sendo esquecida. Mas, já que de contradições se trata, ao mesmo tempo continua despertando a curiosidade não só de seus contemporâneos, mas de quem não viveu aqueles tempos de opressão e asfixia.

O jornalista Vitor Nuzzi, por exemplo. Quando ele nasceu em São Paulo, no ano de 1964, Vandré já tinha uma trajetória consolidada. Nuzzi tinha 4 anos quando tudo foi varrido pelo vendaval de um dezembro medonho, o de 1968. Quer dizer: nem de longe viveu o auge da carreira de Vandré e teve a sorte de não ter respirado tanto aqueles ares de chumbo: aos 4 anos de idade, o coração da infância costuma ser manso.

A certa altura da vida, por volta de 1985, e fazendo jus ao ofício de repórter, Nuzzi começou a descobrir Geraldo Vandré. Esse interesse resultou numa pesquisa de anos e anos, na feitura de mais de uma centena de entrevistas, e tudo isso desaguou nas 300 e tantas páginas do livro "Geraldo Vandré - Uma Canção Interrompida".

Ao reconstruir meticulosamente a trajetória de Vandré, Nuzzi recria, em detalhes, o panorama e a atmosfera que o país viveu ao longo de décadas, ou seja, de meados da década de 50 até hoje, passando pelo ponto culminante, dezembro de 1968, quando o regime militar decretou o Ato Institucional nº 5. Com esse AI-5 decretou-se também o fim de uma etapa, o início de outra e, de alguma forma, pelo menos segundo a opinião de Geraldo Pedrosa de Araújo Dias, a morte de Geraldo Vandré.

Como seria previsível, Vandré se negou a prestar depoimentos para Nuzzi. Muitos contemporâneos dele também. Há, porém, depoimentos preciosos e esclarecedores, que vão de Chico Buarque, Caetano Veloso e Gilberto Gil, a parceiros importantes de seu trabalho, como Luiz Roberto Oliveira, autor da emblemática melodia de "Tristeza de Amar".

Garimpando antigas declarações de Vandré, Nuzzi encontrou pepitas raras. Especialmente esclarecedora, principalmente para quem não viveu aqueles tempos ou, se viveu, se esqueceu, a reconstrução do cenário brasileiro é séria e meticulosa. Mais que fazer uma análise daquele panorama, a intenção do autor foi situar Vandré no ambiente que o país habitava. E isso foi feito de maneira eficaz.

Existem apenas cem exemplares impressos de "Geraldo Vandré - Uma Canção Interrompida". Nenhum deles foi vendido. Cada um foi pago pelo próprio autor. Afinal, havia uma legislação que espantava editores.

Bem, essa lei caiu. E o livro, que certamente chegará às livrarias, é um retrato respeitoso e pungente de uma das figuras centrais da Música Popular Brasileira da segunda metade do século XX. É uma forma de resgatar a figura de Vandré, a memória coletiva e, principalmente, de deixar claro que a própria obra dessa figura controvertida e misteriosa desmente uma de suas frases contundentes, dita ao repórter Geneton Moraes numa memorável entrevista: "A arte é inútil. Mas eu consegui ser mais inútil que qualquer artista". 

Conhecer sua vida e sua trajetória, conhecer sua obra, é constatar o contrário. Não só a arte é útil como, acima de tudo, necessária. Da mesma forma que é útil e necessário esse artista, que ao negar que está vivo nega o óbvio. 

Por Eric Nepomuceno, para o Valor.

"Geraldo Vandré - Uma Canção Interrompida" - Vitor Nuzzi. Scortecci Editora 372 págs., preço não definido / AA+