Ensaios - São Paulo São

São Paulo São Ensaios

 
Em plena Semana da Mobilidade, vale celebrar a recente promulgação, pelo Congresso Nacional, da PEC (Proposta de Emenda à Constituição) que inclui o transporte na lista dos direitos sociais previstos no artigo 6º da Constituição Federal. De autoria da deputada Luiza Erundina, a PEC coloca o transporte lado a lado com outros direitos básicos já incluídos na Carta Magna brasileira, como saúde, educação, previdência, trabalho, lazer, alimentação, proteção à infância e à maternidade, assistência aos desamparados, moradia e segurança.
 
Não é de hoje a visão da deputada Erundina do transporte público como direito fundamental. No início dos anos 1990, quando prefeita de São Paulo – e quando o Movimento Passe Livre nem sonhava em existir–, ela já propunha a tarifa zero no transporte público. Em seu mandato, também foram realizadas intervenções inovadoras no âmbito da moradia, que ainda não constava da lista de direitos sociais constitucionais, tendo sido incluída apenas em 2002. A PEC agora aprovada foi proposta em 2011, e sua tramitação só foi priorizada após as jornadas de junho de 2013, cujo pontapé foram os protestos contra o aumento das tarifas.
 
Mas qual a implicação disso? A lógica que tem dominado as políticas de transporte é tratá-lo como um negócio, ou seja, o atendimento às necessidades de deslocamento da população se subordina à rentabilidade para o empresário que tem a concessão do serviço. Assim, os locais distantes do centro, que no modelo urbanístico das cidades brasileiras concentram o maior número de usuários de transporte coletivo, são os que menos dispõem de uma oferta diversificada e frequente de ônibus. Essa lógica também pressupõe uma tarifa, suficientemente alta para cobrir custos – e lucros –, mas que, na prática, exclui quem não pode pagar.
 
A mudança de paradigma pode ter implicações, portanto, na definição das regiões a serem atendidas, nos trajetos do transporte público e, claro... no valor da tarifa. Afinal, se o transporte é um direito, ninguém pode ser excluído de usufruí-lo em função da renda. 

Assim como nos empenhamos, enquanto sociedade, para universalizar o acesso à educação a todas as crianças e adolescentes, independentemente da renda e local de moradia, assim como lutamos com muito esforço para construir o Sistema Único de Saúde em cada recanto do país – e ainda nos enfrentamos com o desafio da qualidade –, também o transporte público precisa ser oferecido para todos, independentemente das condições socioeconômicas de quem dele necessita. 
 
O transporte deve ser entendido como um direito elementar porque dá acesso a outros, do mesmo modo que a moradia. Os dois são uma espécie de "direito-meio" para alcançar outros direitos: sem um lugar adequado para permanecer, e sem possibilidade de se deslocar, não se tem acesso à saúde, à educação, à alimentação, ao lazer...

Obviamente que, como tudo o que está escrito em nossa Constituição, para que o direito ao transporte saia do papel e vire realidade, são necessárias ainda muita pressão, cobrança e mobilização. Mas é importante reconhecer o avanço conceitual que representa sua inclusão como direito constitucional, consagrando uma noção muito diferente da que tradicionalmente vem definindo as políticas de transporte em nosso país.
 
Do Blog da Raquel Rolnik, arquiteta e urbanista, professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP.
 


Às vezes acho que lugares favoritos mudam de lugar enquanto a gente conhece mais as cidades por onde passamos. E, conforme a gente vai crescendo, vivendo, aprendendo e acumulando experiências, esses lugares também mudam de lugar e prioridade na nossa listinha mental.

Outra coisa curiosa que acontece é guardar o lugar favorito não como localização geográfica, mas como um lugar da sua vida. Um sentimento claro na sua timeline real. Uma vez, eu estava em Sorocaba, num hotel fazenda com a família e eu tinha 14 ou 15 anos. O hotel ficava num mirante e dava para ver os pastos  até perder a vista. Era dia e eu estava terminando de ler 100 anos de solidão (eu li esse livro 9 vezes, essa deve ter sido a 3ª ou 4ª leitura) e fui para a varanda curtir a vista. Um vento bem forte e constante começou a soprar e, pela primeira vez na minha vida, eu vi a chuva chegar.

Com clareza, em uma nuvem grande e volumosa. Eu vi a sombra crescer no campo e o vento chegar antes da água. As primeiras gotículas refrescaram o ar e a gotas gordas chegaram com o vento. Foi deslumbrante. E não é sobre Sorocaba. É sobre testemunhar algo grande, mas tão normal que a gente mal presta atenção. Desde então, eu amo chuva. Acho uma viagem ver a água cair do céu. Sério (por favor, não me chama de hippie ou de Pollyana).

Nas minhas caixinhas de arquivos mentais, essa lembrança fica em lugares favoritos e também na pastinha de momentos favoritos. É interessante pensar em como faz isso diferença nas suas lembranças. Como lugar e como tempo.

Meu lugar predileto em São Paulo é uma localização. Não um tempo.

Eu desvio meu caminho para passar por ali, estaciono o carro nas ruas vizinhas para fumar um cigarro na ponte, pulo a grade às vezes para chegar mais perto e dar a volta por dentro do canteiro, sempre vou sozinha e ainda quero morar no prédio do lado. Sei exatamente qual o andar e a janela. Se você anda pela R. São José do Pinhal, paralela à Av. Paulista, em algum momento vai encontrar uma intersecção que passa por cima da Av. 9 de Julho. Antes de chegar ao topo do viaduto, a vista é grande, cheia de prédios e muros grafitados. Você está no nível do viaduto, mas à esquerda está o MASP e a Paulista, acima está a rua e as escadas de acesso e, abaixo, está a Av. 9 de Julho e o túnel. A vista para o sentido bairro é linda também, mas o que eu mais gosto está no chão. Tem um grande jardim abandonado com um chafariz monumental, dos dois lados da avenida, com canteiros e um mosaico paisagista bem na entrada do túnel. Eu chamava ele de jardim secreto da 9 de julho. Secreto porque ninguém falava dele, só eu. E SP (e outras cidades) tem esse hábito de negligenciar os lugares óbvios e belos da cidade.

Recentemente eu descobri o nome desse lugar, ou pelo menos da galeria que fica acima do nível do viaduto. Se chama Belvedere Trianon. Era um espaço cultural para eventos da elite paulistana (!!!!) no século XIX. Fora isso, eu descobri que esse espaço foi revitalizado e inaugurado no último fim de semana como “Mirante Nove de Julho” por um grupo de empresários culturais em parceria com a secretaria da prefeitura. Ainda não decidi se gostei ou não da notícia, mas decidi que esse é um dos melhores lugares da cidade para gostar de São Paulo. Não a galeria hipster, mas o jardim abandonado ali embaixo na avenida. E que eu ainda consiga fazer minhas visitas clandestinas ao Belvedere Trianon e manter o espaço favorito que ele tem na minha memória.

Lu Minami. Publicitária não-formada (porque pegou DP de educação física), uma generalista apaixonada por detalhes, exploradora de cidades e seus cantos secretos, leitora compulsiva e devoradora de séries. Ainda acredita no amor, mas diz que não. No We Love.


Poucas coisas são tão interessantes como as cidades. Cantadas em prosa e verso por mú[email protected] populares, jovens do hip hop e bambas do samba. Analisadas com rigor científico por urbanistas, [email protected], juristas e outros tantos doutos. E experimentadas por milhares de pessoas, cotidianamente.

Só a cidade de São Paulo desperta e se recolhe, todo dia, com mais de 11 milhões de testemunhas. O que significa mais de 11 milhões de biografias e mais muitos milhões de "causos" e histórias. Isso sem contar os tipos que não têm CPF, mas que são entidades urbanas. Morador de rua, ciclistas, trabalhadoras domésticas, rappers, prostitutas.

É personagem que não acaba nunca.

E essa é a minha história sobre a cidade de São Paulo. Mais precisamente, sobre o Centro.

É a história também de um desses tipos: @s skatistas. Umas figuras que circulam por aí, em cima de quatro rodinhas, com boné e roupa colorida. E com muita velocidade. E que quase te atropelam no meio da calçada.

Era assim, pelo menos, que eu via @s skatistas quando [email protected] surgiram na minha cidade e na minha história.

Quando começaram a ganhar as ruas, eram uns moleques magricelos que cruzavam o meu destino, no caminho do ponto de ônibus na Avenida Paulista.

Vinham correndo e saltando, fazendo um flip, um glind e colocando a vida de nós, cidadãs e cidadãos de bem, em risco.

Uma noite, um moleque desses quase decepou meu dedinho do pé. Ou pelo menos foi o que eu achei que poderia ter acontecido. Não tive dúvidas. Gritei. Xinguei.

Ele continuou correndo, mas me olhou rapidamente, na dúvida se sentia culpa ou adrenalina.

Uma senhora anônima se solidarizou. Falou que eu tinha razão. Que eram uns marginais. O conforto de me sentir apoiada foi interrompido pelo meu alerta mental de perigo.

A luz vermelha do meu alerta aciona quando estou cruzando algum limite perigoso. Algo que poderia me tirar do time dos 13% que são contra a redução da maioridade penal e me colocar no grupo dos 87%, por exemplo. Mas, naquele momento, não tive dúvidas. Eram pequenos delinquentes.

Dessa cena para os próximos capítulos passaram cerca de três anos. Quando voltei a morar em São Paulo, descobri que não era mais o menino de boné. Eram centenas e milhares.

Ainda havia os jovens magricelos, mas também moças descoladas, senhores, casais e até criancinhas fofas. O magricelo e suas rodinhas tinham ganhado a guerra contra mim e a senhora anônima.

E como se não bastasse ter que admitir a derrota, ainda fui morar no centro de São Paulo. Perto da Praça Roosevelt. Ou seja, me tornei vizinha [email protected]!

Nos relacionamentos, contudo, não há nada como um dia depois do outro. E eis que um domingo de sol aconteceu. Eu, andando de bicicleta, e a minha correia soltou.

Quando já estava coberta de graxa até a ponta da orelha, notei que um exército me cercava. Um exército de skatistas!

Armados de ferramentas coloridas, queriam saber se eu precisava de ajuda. Se estava tudo bem.

Deixei claro que eu era uma mulher moderna e que sabia resolver os meus problemas. Mas começamos a conversar. E descobri que eles conheciam cada calçada, cada irregularidade do pavimento, cada asfalto machucado...

Fiquei encantada. Nos despedimos efusivamente. Eu tinha começado a gostar [email protected] skatistas!

Talvez eu não gostasse de skatistas. Eu só gostasse daqueles. Afinal, são mais de 11 milhões de habitantes.

Mas uma noite também aconteceu. Fui correr no Parque do Minhocão, mas o fechamento para os carros estava atrasado.

Já éramos mais de uma dezena de pessoas e poucos carros, mas nunca ousaríamos invadir o santuário dos automóveis. Até que chegaram quatro skatistas.

Nem olharam para a gente, ou para os carros. Só deram o grito de guerra: "Bora invadir". Fomos [email protected] Um carro passou. Berramos que ele não estava com a luz acesa. Éramos um time.

Quis explicar para eles que ninguém estava invadindo. Que estávamos ocupando. O espaço público. E que os skatistas são a vanguarda dessa ocupação.

Os parklets, as ciclovias e as festinhas nas praças vieram depois. [email protected] tinham chegado antes, com muita velocidade. E não é que [email protected] se achem os [email protected] das ruas. [email protected] são. A senhora anônima também. Eu também. Nós todos.

Porque o espaço público é de todos nós.

Mas a minha tentativa de dizer isso a eles foi inútil, porque eles já haviam entrado, velozes, dentro da noite escura. O que importa, contudo, é que nessa noite descobri que ser skatista é algo como ser um exu da cidade.

Que as pessoas menos iniciadas acham que é o diabo, mas que são os [email protected] guardiões. Pois @s skatistas, munidos apenas de uma tábua com rodas, dão movimento às ruas do centro, das periferias e de São Paulo como um todo.

São uns tipos a quem devemos, portanto, muito respeito.

Claro que isso não significa que não haja abusos. Mas isso não torna menos verdade que foram [email protected], afinal, que começaram a transformação que São Paulo vem passando. E não estavam sós.

Junto com [email protected] estavam [email protected], o pessoal do hip hop, @s ciclistas e tantos outros tipos que a senhora anônima chamaria de marginais, mas que são a vanguarda da "invasão" do espaço público.

Os grafites enfeitam a "Cidade Cinza". O hip hop preenche de rimas o vazio melodioso do cotidiano das cidades. Já @s skatistas, são malabaristas que dançam suas acrobacias pelos ares.

A senhora tinha também sua razão. São mesmo uns marginais. Porque marginal é uma palavra que a classe média paulistana bem alimentada usa para nomear os vilões e as vilãs de suas histórias. Os feios, sujos e malvados. [email protected] E @s skatistas são mesmo [email protected]

O skate é um esporte e, dizem por aí, o segundo mais praticado no Brasil. E que é muito popular nas periferias das grandes cidades, embora tenha muito playboy no shape.

O skate continua, contudo, sendo um esporte maldito. Pior ainda se a personagem da história que poderíamos começar a recontar agora fosse um menino magricelo que saltou do ônibus, que vinha sacolejando desde o terminal Jardim Ângela, até a Avenida Paulista. E se ele ainda fosse negro...

Mas aí é outra história.

Maria Mazzini é advogada, formada pela USP. Texto originalmente publicado no Brasil Post.


A população da Região Metropolitana de São Paulo convive há meses com a perspectiva da falta de água. De fato, muitos bairros já relataram episódios de torneiras secas e a preocupação em relação às chuvas na região ainda é presente no cotidiano dos paulistanos. O que um professor da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP vem tentando esclarecer, no entanto, é que falar em escassez hídrica é um erro, assim como culpar a falta de chuvas pela crise.

A água não é um recurso finito – pelo contrário, trata-se do recurso mais abundante do planeta, lembra Luis Antonio Bittar Venturi, do Departamento de Geografia. Entre 2010 e 2011, o geógrafo esteve na Síria desenvolvendo um pós-doutorado na Universidade de Damasco sobre recursos hídricos, com foco na bacia do rio Eufrates e na produção de água em usinas dessalinizadoras. Retornando ao Brasil, deu continuidade às pesquisas, o que resultou em sua tese de livre-docência defendida na USP. Estes estudos, conta, foram voltados a combater a ideia de que a água vai acabar e de que países poderão guerrear por ela.

Nesta conversa com o professor, ele expõe sua visão contundente sobre a questão da água no Brasil e no mundo e propõe uma revisão de conceitos.

O senhor afirma que não é possível falar em fim da água. Mesmo se considerarmos apenas as reservas de água doce, não estamos em uma situação preocupante?

Luis Venturi: Não podemos considerar apenas a água doce, destacada do ciclo hidrológico, já que ela advém, na quase totalidade, dos oceanos via evaporação e precipitação. Assim, enquanto a terra girar, o sol brilhar e a lei da gravidade estiver “vigorando”, as recargas de água nos continentes estarão asseguradas. Não há como interromper o ciclo hidrológico. E o que existe de água doce disponível na superfície e nos subsolos é muito mais do que a capacidade humana de utilizá-la. Só os cerca de 110 km³ de água que precipitam nos continentes anualmente já seriam suficientes para abastecer a humanidade. No Nordeste, o programa de cisternas usa apenas água da chuva para sustentar, com uma cisterna de 16 mil litros, uma família de cinco pessoas por oito meses. O que é finita é a capacidade do homem de captar, tratar e distribuir a água para assegurar o abastecimento. É absurdo dizer que a crise hídrica de São Paulo é causada pela falta de chuva, sendo que temos enormes reservatórios subutilizados. Como uma metrópole como São Paulo, com a pujança econômica que tem e toda a tecnologia disponível, fica a mercê da chuva, como se fôssemos povos primitivos?

Na sua visão, então, o que provocou a crise?

LV: Ocorreram dois problemas, ambos de caráter gerencial: poluiu-se os recursos hídricos disponíveis e não se desenvolveu capacidade técnica para despoluir numa velocidade suficiente para atender à demanda. Imagine um estrangeiro sobrevoando São Paulo. Ele vai ver diversas represas e diversos rios como Tietê, Pinheiros, Tamanduateí… Ele simplesmente não vai entender como se fala em falta de água em São Paulo. Apenas a represa Biliings teria água suficiente para abastecer mais de 4 milhões de pessoas, mas é subutilizada pois está poluída. A crise hídrica, ou seja, quando se abre a torneira e não sai água, é sempre gerencial, e não natural. Há exemplos de países com muito menos recursos hídricos que o Brasil onde não falta água, como na própria Síria.

As represas do sistema Cantareira estão secando porque se tem usado sua água num ritmo muito maior do que o das recargas naturais. Se os seis sistemas fossem mais equilibrados em termos de oferta e demanda de água, isso não ocorreria. É o que se está tentando fazer agora: aumentar a capacidade de uns sistemas para “desafogar” os outros, sobre os quais há grande pressão de demanda. Aí a mídia mostra represas secando para ilustrar a ideia de que a água vai acabar. Pode até acabar na sua torneira, mas não por falta dela, e sim por incapacidade de se assegurar o abastecimento. Essa ideia de fim da água é muito malthusiana e é obrigação da academia superar o senso comum fatalista e tão fortemente difundido pela mídia.

Represa de Al-Assad, a maior da Síria, no médio Eufrates. Foto: Arquivo pessoal.


Como foi sua experiência durante o período que esteve na Síria?

LV: Minha pesquisa lá teve dois focos: a bacia do rio Eufrates, compartilhada pela Turquia, Síria e Iraque, e a produção de água por dessalinização da água do mar, cuja tecnologia é compartilhada pelos países da Península Arábica, especialmente. Em ambos casos, não há crise nem conflitos. Por um lado, os tratados de cooperação sempre asseguraram o compartilhamento do Eufrates e os países banhados nunca guerrearam por água. Já no contexto da Península Arábica, as fontes naturais de água são tão escassas que não há o que ser disputado. Pelo contrário: aqueles países (Emirados Árabes, Omã, Arábia Saudita, Qatar, Bahrein e Kuwait) produzem água potável dessalinizando a água do mar, e compartilham essa tecnologia por instituições como o MEDRC (Middle East Dessalination Research Center), sediado em Muscate. Atualmente, já existe no mundo usinas de dessalinização movidas a energia eólica, como em Perth, na Austrália. Oras, se juntarmos um recurso inesgotável com uma energia inesgotável, temos que revisar os conceitos. Em suma, não há base empírica nem conceitual que sustente a hipótese da guerra da água, por mais que a mídia e muitas vozes reforcem essa perspectiva malthusiana.
 

A dessalinização da água é uma alternativa vantajosa para o Brasil?

LV: O Brasil dispõe das maiores reservas superficiais e subsuperficiais de água doce (Bacias Amazônica e do Paraná; aquífero Alter do Chão e Guarani). Mesmo assim, a região Norte, de maior disponibilidade hídrica do mundo, é a região do Brasil onde se tem menos acesso à água potável no Brasil, segundo a Agência Nacional de Águas. Deste modo, questões gerenciais são mais urgentes do que a introdução de novas tecnologias. E, por vezes, tecnologias mais simples, como cisternas e transposições, podem causar um impacto social positivo muito grande. De qualquer modo, o desenvolvimento de membranas filtrantes podem ser muito úteis na despoluição da água (o que já se tem anunciado), muito mais do que em dessalinização. A dessalinização pode ser útil também no Nordeste, onde as reservas naturais apresentam alta salinidade. Já vi estudos que mostram a viabilidade do uso de dessalinizadores domésticos movidos à energia solar, o que é adequado para aquela região.

Sobre a necessidade de revisar conceitos, o que o senhor acredita que deveria ser mudado?

LV: É incorreto classificar a água como um recurso renovável, como muitos livros didáticos de Geografia ainda fazem. Recurso renovável é aquele que, ao ser utilizado, tem a capacidade de se recuperar seus estoques por mecanismos naturais, como no caso das florestas. Este conceito não se adéqua à água, já que as suas quantidades são estáveis no Planeta. A molécula de água não se destrói com o uso e sempre acaba voltando para o sistema, ainda que em outro estado, de modo que sempre apenas “emprestamos” água do ciclo hidrológico. Só que ao mesmo tempo em que os livros didáticos classificam a água como renovável, fala-se que se trata de um recurso finito, o que é um contrassenso. Aqui mesmo na USP há uma campanha de ótimas intenções para o uso racional da água, mas que pecou quando afirmou que água é um “recurso finito”, quando o correto seria dizer: “captar, tratar e distribuir água é caro: economize”, ou então: “a capacidade da sociedade de tratar e distribuir água é finita: economize”.

Finalmente, pouco se fala em desperdício qualitativo, mas apenas no quantitativo. No âmbito doméstico, como não se recebe água de reúso, a mesma água que se bebe se usa para dar a descarga, por exemplo. Cerca de metade dos usos domésticos de água não necessitam de água potável. Vejam que a questão dos recursos hídricos é muito mais complexa dos que os reducionismos difundidos pela mídia.

Falar sobre a inesgotabilidade da água não pode acabar estimulando o uso irracional deste recurso?

LV: Sempre que sou convidado a falar em escolas e faculdades alguém me pergunta isso, se não é perigoso afirmar que a água é infinita. Mas não se pode educar pelo medo, propagando uma visão fatalista. É uma obrigação da academia superar o senso comum. As pessoas têm que conhecer, sim, os riscos de ficarem sem água e, se isso acontecer, ter consciência das reais razões deste fato, do papel de cada um, inclusive delas mesmas pelo uso racional.

Fonte: USP Online por Aline Naoe. 
  


A semana passada foi cheia de acontecimentos que mexeram com a nossa urbanidade.

Em São Paulo, duas tragédias, um homem morreu após ser atropelado por uma bicicleta na faixa de ônibus sob o Minhocão e um menino morreu abalroado enquanto pedalava por uma ciclovia. No Rio de Janeiro, um homem morreu na calçada, atropelado por um carro dirigido por um motorista embriagado.

No fim de semana, o fechamento da Av. Paulista para carros trouxe uma multidão, estimulou as conversas e foi complementado pela informação da Prefeitura de que pretende fechar uma rua regularmente em cada uma das subprefeituras.

Nenhum desses fatos é intranscendente.  De um lado, um desejo claro de ocupação das ruas. De outro, uma carência de infraestrutura, de educação e de comunicação.

Será que não dá para a gente tirar alguns princípios e lições disso tudo? Pensando nisso, listei algumas idéias que me ocorreram após essa semana tão intensa e que talvez nos ajudem a pensar em ações que melhorem a vida de quem anda a pé na cidade:

1. Nosso debate anda muito dogmático.

As pessoas parecem ser incapazes de se colocar no lugar de outro. O corporativismo dita as opiniões. Se eu ando de bicicleta, vou defender os ciclistas. Se tenho um carro, farei o possível para não ceder um milímetro. Se eu tenho um taxi, uma moto, etc. Mas há dados, experiências internacionais e conhecimento acumulado por organizações que ficam de fora do debate. E, principalmente, parece não haver fóruns adequados onde se discutam princípios comuns entre as pessoas, as entidades, o comércio, a mídia, o poder público.

E um dos princípios deveria ser o de que não é admissível ter uma cidade em que as pessoas morrem às centenas em acidentes estúpidos e que poderiam ser evitados.

2. Aprendemos que não há acidente que não tenha conseqüências.

Dependendo da velocidade, uma bicicleta pode derrubar uma pessoa. Isso pode, como aconteceu, terminar em morte e é preciso combater esse risco urgentemente.

Mas não nos esqueçamos também que no ano passado foram duas pessoas que morreram atropelados por bicicleta. E mais de quinhentas atropeladas por carros, motos e ônibus. Nas ruas, nas faixas de pedestre, nas faixas de ônibus e até, insanamente, em cima da calçada.

A meta não pode ser a mera redução do número de acidentes e sim a sua supressão.

3. É melhor encarar o conflito do que fugir dele.

Ficou explícito que a convivência entre os chamados “modais” diferentes não é fácil. Às vezes parece que há excesso de discussões na cidade. Sobre esse tema, acho que é o oposto.

Basta ver: motos andam buzinando pelas faixas no meio dos carros, ônibus encaram carros em mudanças bruscas de faixa, ciclistas vêem com estranheza pedestres na ciclovia, carros não dão passagem nas faixas de pedestres.

A constatação do conflito é sinal de maturidade. Não adianta imaginar que o simples bom senso vai dar conta de resolvê­lo. Na Praça Roosevelt, por exemplo, foi preciso ter intervenção da prefeitura para poder resolver o conflito entre skatistas e demais freqüentadores da praça.

Se a educação não dá conta de resolver conflitos, o poder público tem que mediá­los.

4. As pessoas estão loucas para andar pela rua.

Basta fechar uma rua que aparece um monte de gente. De bicicleta, a pé, patinete, skate. Onde eles estavam antes? Fechados em casa, num condomínio? O fato é que as pessoas gostam de um lugar sem carros. Sem medo, sem barulho e sem fumaça.

Na Virada Cultural, vi gente que parecia mais interessada em andar pelo meio da Avenida Ipiranga vazia à noite do que em assistir aos shows. 

A abertura da Rua dos Pinheiros, no sábado passado, um evento com muito menos comunicação que o da Paulista, fez brotar uma massa de gente interessada só nisso: caminhar, contemplar, ver gente. 
 
Se esses eventos forem bem discutidos e comunicados, moradores e comerciantes estarão mais abertos a apoiá­-los.

5. As calçadas continuam ruins e as travessias, piores. As calçadas continuam ruins. 
Se nos grandes eventos, é lindo ver gente pelo meio da rua, é nas calçadas que a gente anda no dia a dia. Inevitavelmente, veremos buracos, degraus que desafiam a lei e o bom senso, ou ainda aqueles parafusos que a prefeitura deixa à mostra, esperando eternamente pela instalação de um poste que nunca vem. 

Mas é na conexão entre as calçadas que tudo fica pior: as travessias em ruas larguíssimas, os tempos insuficientes no sinal de pedestres, a falta de faixas nos acessos às pontes e pontos de ônibus.

6. O planejamento de obras anda negligenciando a escala humana. 

Uma linha num mapa não é suficiente para visualizar uma calçada ou uma ciclovia. 

São os detalhes que fazem a diferença na experiência diária. Um mísero buraco de 10 cm ou uma saliência na calçada são suficientes para gerar um braço ou uma bacia quebrados, um pé torcido, um dia arruinado ou muitos dias de recuperação. 

Para enxergar os problemas, é fácil. É só os arquitetos, os projetistas, os engenheiros, os prefeitos, governadores, secretários, usarem regularmente as calçadas, os acessos das estações, as faixas de pedestre. 

A propósito, será que o secretário estadual de transportes já se espremeu alguma vez na infame ligação de pedestres entre as linhas verde e amarela do metrô, num final de tarde? E será que o secretário municipal de transportes já ficou disputando espaço no minúsculo ponto de ônibus ao lado das gigantescas placas de publicidade?

Torço para que sim, mas imagino que não. Qualquer obra que não seja testada, usada, por pessoas, ao vivo, dificilmente será adequada no que mais interessa: os detalhes. 

7. Os eventos trágicos deveriam catalisar as ações futuras. O que aprendemos com essas tragédias? 

O planejamento ­ aprende­se na escola ­ nutre­se de feedback contínuo. Coisas que dão errado servem para melhorar o que será feito no futuro.

Será que isso está sendo feito agora, enquanto alguém se prepara para atravessar uma rua? 
O que está sendo incorporado agora nos planos de novas calçadas, novas estações, novas ciclovias? Será que é tão difícil o poder público admitir falhas em algum projeto e melhorar rapidamente? Será que não cabem mais conversas sobre a qualidade das obras que estão sendo entregues com seus usuários? 

Se o espírito do tempo parece ser o da ocupação dos espaços públicos, é apenas com ações mais inteligentes e uma participação mais plurarista das pessoas que isso vai virar realidade. 

Enquanto isso, não custa lembrar da regra mais simples:os mais fortes tem que proteger os mais fracos. Ônibus protege carro que protege moto que protege ciclista. E todos cuidam de quem anda a pé.
 
Mauro Calliari é administrador de empresas, mestre em urbanismo e consultor organizacional.

Fonte: O Estado de S. Paulo.
 

 
As responsabilidades passam pelo uso correto dos materiais, bem como na ocupação civilizada do espaço público. Tudo isso para que, um dia, possamos ter viver em cidades mais humanas.
 

Aparentemente menores diante das crises, econômica e política atuais, as acirradas discussões em torno da cobrança de sacolas plásticas e a instalação de ciclovias, ocupam um espaço importante no debate sobre o nosso futuro.

Isso passa, basicamente, pelo acirramento da barbárie ou pela busca de uma cidadania mais efetiva que busque harmonizar o convívio e a qualidade de vida nos centros urbanos brasileiros.

Não é de hoje que o tema cobrança ou não desacolas plásticas tem ocupado um lugar de destaque nos noticiários e nas conversas de botequim e elevador. Em São Paulo, a lei agora em vigor, determina que o comércio é obrigado a ceder aos clientes apenas sacolas reutilizáveis nas cores verde e cinza, produzidas com matéria-prima renovável. A exigência fez com que muitos supermercados passassem a cobrar entre R$ 0,08 e R$ 0,10 pelas novas sacolas.

Após a implantação das novas regras, o Opinion, uma plataforma para pesquisas, realizou um levantamento com 500 pessoas da cidade de São Paulo. Uma grande maioria, 88% discordam, principalmente no que se refere a cobrança pelas novas sacolas, mais resistentes, diga-se de passagem.

Diante da indignada revolta, os discordantes buscaram se calar na tentativa de evitar reações mais agressivas. Mesmo assim, a pesquisa também constatou que para 39% as novas sacolinhas podem incentivar a prática de reciclagem de lixo e 53% pretendem utiliza-las para fazer a correta separação.

Foi comum e ainda é ouvir que o pagamento pelo uso das sacolinhas plásticas representa apenas mais um roubo a que os cidadãos brasileiros são submetidos. Nesse caso um sórdido conluio a unir o setor privado, supermercados à frente e o setor público, nesse caso a Prefeitura de São Paulo para tungar os ingênuos e sérios consumidores. Afinal, dizem, as sacolas já estão embutidas nos preços dos produtos e, além do mais, todos as utilizam e reutilizam da melhor maneira possível, sem desperdício.

Tanto isso não é verdade que basta caminhar poucos metros pelas ruas da metrópole paulistana para se deparar com sacolinhas descartadas na via pública, muitas, inclusive, limpas e adequadas para prosseguir no seu uso, mas cujo novo e real destino será o de poluir, sujar e entupir as vias públicas, praças e rios da cidade.

O ideal seria bastar uma campanha educativa sobre os malefícios desse descarte irregular, o desperdício de um material nobre resultante do petróleo que é um recurso não renovável (isso no caso da sacolinha tradicional). Há mais ou menos cinco anos uma campanha do Ministério do Meio Ambiente denominada “Saco é um saco”, recebeu até uma boa divulgação, cujos  resultados foram insuficientes para mudar a realidade.

Apesar de este escriba ter sido sempre criticado por adotar tal posição, acredito sim, que as sacolinhas devam ser cobradas, pois de outra maneira, a maioria iria continuar entendendo que essas embalagens não possuem absolutamente nenhum valor. Também concordo que os supermercados e o comércio em geral deveriam se esforçar para beneficiar quem recusa o produto e desse modo tentar provar que as razões para a cobrança não tem o objetivo de visar lucro.

Ciclovias e a ocupação do espaço público

Assim como o plástico entrou em nossas vidas sem qualquer reflexão mais aprofundada sobre seus pontos favoráveis e contrários, o automóvel desde o início do século passado foi visto como uma maravilha da modernidade. Ao longo dos anos representou um grande sonho de consumo e a sua popularização obrigou os gestores públicos a adaptar as cidades para o deus carro ocupar espaços cada vez maiores.  Hoje a realidade nas cidades brasileiras é de caos: carros demais para ruas de menos; congestionamentos infernais; poluição atmosférica em níveis alarmantes e enormes gastos do poder público com obras viárias para dar vazão a uma realidade sem futuro.

E por falar em realidade, ela se impõe ao deixar bastante claro que é impossível continuar baseando a gestão do transporte em carros particulares. Transporte público eficiente, calçadas efetivamente transitáveis e ciclovias são caminhos para transformar esse panorama. Até aqui essa gestão foi simplesmente “da cidade para os carros” e agora começa a se entender que temos que migrar para uma visão mais civilizada como, “a cidade para as pessoas”.   

A recente inauguração da ciclovia na icônica e simbólica Avenida Paulista, centro financeiro do país, foi cercada de polêmicas, ainda mais que agora se estuda fechar a via aos domingos para lazer dos paulistanos. As ciclovias da capital paulista têm recebido inúmeras críticas, pois dizem estar sendo feitas sem planejamento.

Não vou entrar no mérito de que algumas parecem mesmo ter sido feitas às pressas e, claro, caso não estejam de acordo devem ser revistas. O que chamo a atenção é para a revolta de alguns quanto a pura existência desses novos espaços, tão comuns nas elogiadas cidades europeias. Muitas dessas críticas soam como pura indignação, pois subtraem (e isso nem sempre é verdade) espaços antes ocupados por veículos ou que agora precisam ser também compartilhados por bicicletas. “Se já não bastassem os corredores de ônibus, agora mais essa de ciclovias”, pensamentos corriqueiros nem sempre externados de maneira clara.

A questão de fundo vai muito além de sacolas e bicicletas, mas da construção de uma cidadania mais efetiva. No entendimento de como devemos conviver em sociedades cada dia mais complexas e adensadas. As responsabilidades passam pelo uso correto dos materiais e seus respectivos descartes, bem como na ocupação civilizada do espaço público. Tudo isso para que, um dia, possamos ter orgulho de viver em cidades brasileiras mais humanas.  

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Reinaldo Canto, jornalista especializado em sustentabilidade e consumo consciente, é professor de Gestão Ambiental. Texto originalmete publicado na coluna Sustentabilidade em Carta Capital.