Ensaios - São Paulo São

São Paulo São Ensaios


A recente redução dos limites de velocidade das Marginais acendeu discussões acaloradas sobre os motivos, os benefícios e a eficácia da decisão. Desde argumentos sobre a falada indústria das multas, até ao fato de comparar São Paulo com países desenvolvidos; até ao fato de que pedestres não devem andar na Marginal; até ao fato de que se a pista fosse de melhor qualidade, não haveria razão para tal.

Como profissional e acadêmico da área, não posso estar mais feliz com tudo isto. Se antes as medidas governamentais eram feitas num Olimpo e seguidas cegamente, agora temos uma população atenta e disposta a debater com fatos e ciência. Junte-se a isto um prefeito que, inependentemente de ser bom ou ruim, mostra-se a par do que está sendo feito nas cidades ao redor do mundo. Talvez este já seja o primeiro ponto a se abordar aqui.

Todos sabemos que São Paulo não é Amsterdã nem Paris, mas algumas pesquisas mostrariam São Paulo similar à Nova York e Londres. Não uma cópia, obviamente, mas com similaridades demográficas e geográficas e no movimento urbano.  Todas estas cidades, e ainda todas as grandes megalópoles, estão passando por um processo de experimentos neste início de século. Medidas novas não são exclusividade tupiniquim, desde pedágios urbanos até avenidas fechadas até mesmo trens MagLev urbanos. Tal processo se faz invariavelmente da mesma forma. Estudos, simulações, implementação e testes. Cabe a nós agora testar as medidas e ver se funciona, o quanto funciona, e como melhorar se e quando possível.

Em tempo, vi muitos comentários dizendo que a redução é uma forma de penalizar o motorista para forçá-lo a usar a bicicleta e o transporte público. Por mais que esta transição seja consideravelmente benéfica para qualquer área urbana em termos de economia, segurança e sustentabilidade, não é este o motivo que São Paulo, Nova York, Londres, Tóquio, Paris etc. adotaram velocidades mais baixas. Na verdade, medidas como esta BENEFICIAM motoristas por aumentar o fluxo e diminuir a incidência de acidentes.

Vamos à parte técnica. A matemática é simples. Todo mundo aprende que, ao dirigir, deve-se manter distância segura do carro à frente. E, quanto maior a velocidade, maior a distância necessária para se frear o carro. Simplificadamante, advém de uma equação que considera o tempo de reação, o comprimento do veículo, e a distância de frenagem do veículo. Em condições IDEAIS, um carro médio a 90 km/h (25 m/s) precisa de 37 m para frear a zero, e a 70 km/h (19.44 m/s) precisa de 23 m para frear a zero. Incluindo um tempo de reação e tomada de providência de um segundo, os valores sobem para 62 m e 42.44 m respectivamente.

E o que isto tem a ver com o fluxo? Tudo. Se os carros precisam manter uma distância possível de frenagem, então um carro a 90 km/h necessita de quase 50% mais espaço de pista do que um carro a 70 km/h para que se mantenha a segurança. Para calcular o fluxo de carros por hora por faixa por sentido, basta considerar o trecho de uma hora, e dividir pelo espaço entre veículos.

Sendo bastante generoso e considerando o comprimento médio de um carro de 4 metros, a 90 km/h cada carro ocupa 66 mm (ele mesmo mais a distância segura). Ou seja, em uma hora, a 90 km/h, o máximo de carros que a faixa suporta a velocidade constante é de 90.000 m / 66 m, o que resulta em 1.363 veículos por hora por faixa por sentido. Fazendo as divisões para 70 km/h e 50 km/h, temos os valores no gráfico abaixo.


Portanto, o fluxo máximo de carros aumenta 10% ao se diminuir a velocidade da via de 90 km/h para 70 km/h. Como a velocidade média é fator essencial para o tempo de viagem, o ponto ótimo da Marginal expressa, considerando AMBOS o fluxo de carros e a velocidade média, é de 70 km/h. 

Aqui cabe discutir a questão da qualidade da via. Estes valores de frenagem se aproximam muito dos valores internacionais, e estamos abordando a frenagem em condições IDEAIS. Em pistas molhadas, a diferença é consideravelmente maior. Mesmo se todo habitante de São Paulo tivesse um Porsche que consegue frear de 90 km/h a zero em 30 m, o fluxo seria apenas marginalmente maior do que carros comuns a 70 km/h, em 1.525 veículos por hora por faixa por sentido. 

Na verdade, as equações se tornam muito mais complexas quando se inclui a densidade da via (número de carros por hora). Esta simples ilustração é para mostrar que “cabem” mais carros a 70 km/h do que a 90 km/h se quisermos evitar acidentes a toda hora. Mas, ao se calcular mais precisamente, a relação de velocidade, densidade e fluxo é algo assim, como mostra o gráfico do Departamento de Transportes dos Estados Unidos:

 

Ou seja, o fluxo aumenta até que a densidade (número de carros) atinja a capacidade máxima da via (que inclui as distâncias entre veículos, tempo de reação, comprimento de veículos etc.). Quando a densidade aumenta, as velocidades possíveis diminuem, e com isto o fluxo varia de livre para congestionado. As parábolas mostram um ponto máximo que é o ideal de velocidade para fluxo em determinada densidade. 

Em vias tão movimentadas como as marginais, dirigir muito próximo do veículo da frente para aumentar o fluxo é de extremo perigo. Com alto fluxo, a capacidade de manobra é limitada, restando portanto apenas a frenagem em caso de emergência. A 70 km/h, a probabilidade e a gravidade dos acidentes diminui, reduzindo também o impacto no fluxo. A cada acidente que leve uma hora para ser resolvido, são mais de 1.500 veículos jogados nas outras faixas, invariavelmente saturando a capacidade e causando congestionamentos.

Por fim, a redução das Marginais locais para 50 km/h se dá exatamente pelo fato de não serem vias completamente segregadas como as expressas. Nelas, há pedestres nas calçadas em certos pontos, e também há carros entrando e saindo. Isto é crucial para o movimento do tráfego, pelo conceito de shckwave jams (ou ondas de congestionamento). 

O conceito é simples. Quando o motorista da frente freia, por conta do tempo de reação, você precisará frear um pouco mais, e consequentemente o de trás um pouco mais, e assim a cadeia se estende até que eventualmente alguém pare caso a via esteja saturada. Em maiores velocidades, as oscilações são muito mais bruscas, causando congestionamentos muito antes do que a 50 km/h onde acelerações são menos bruscas.

Menos acidentes graves

Isto sem contar a gravidade dos acidentes. Uma pesquisa europeia mostrou que a cada 1% de redução de velocidade, há uma redução de 2% nos acidentes com lesões, 3% nos acidentes graves, e 4% nos acidentes fatais. O excelente artigo do WRI Brasil/EMBARQ também mostra os benefícios da redução para 50 km/h nas chances de sobrevivência.

Então devemos ser contundentes. Em ambos os casos há benefícios para o fluxo e velocidade média, enquanto as observações sobre segurança e fatalidades se dão no caso das Marginais locais. Embora o nome seja o mesmo, a Marginal expressa e a Marginal local são vias de tipos bastante distintos.

Por fim, para não dizer que só falei das flores, nada é perfeito neste mundo. A medida, que contribui muito para o período diurno de altíssima demanda, acaba prejudicando aqueles que andam quando o fluxo encontra-se abaixo de 70% da saturação da via. Talvez, com o tempo, seja possível estudar se temos capacidade e tecnologia para limites de velocidade variáveis, de acordo com o horário. Ou então, olhando ainda mais longe, limites de velocidade dinâmicos que se ajustam à demanda em tempo real, calculando a velocidade ideal para o maior fluxo possível.

Concluindo, a medida não é populista, e o fato de ser adotada em outras cidades em países desenvolvidos não tira a lógica da aplicação por aqui. Porque São Paulo, mesmo com sua unicidade e peculiaridades, ainda segue as mesmas leis da física que todas as outras. 

A redução não penaliza e sim beneficia os motoristas, que com a maior capacidade da via, param menos em congestionamentos e portanto viajam com maior velocidade média. Ainda também a redução mostra-se contundente na redução de acidentes e oscilações de tráfego. A história não acaba por aí. Como qualquer estudo, há de se continuar as medições para poder observar a eficácia da medida, e a partir dos resultados buscar a melhoria contínua desta cidade que tanto amamos.

Marcelo Blumenfeld é mestre em planejamento de transportes pela Universidade de Leeds, e doutorando em engenharia de sistemas no Birmingham Centre for Railway Research da Universidade de Birmingham. É fundador da AHEAD Innovation Strategies, e integra o grupo de pesquisa e desenvolvimento da consultoria de transportes inglesa JMP Consultants. Foi palestrante convidado no TEDx University of Leeds em 2012.

 


Por que “o velho” Plano Diretor, que conhecemos e "praticamos", é uma ferramenta ultrapassada, abstrata?

Na verdade, o Plano Diretor, com suas normas gerais embasadas em grandes sistemas teóricos, aprisiona a dinâmica das cidades, a dinâmica da cidade real. Um exemplo manifesto disso é o zoneamento urbano modernista, ainda do início do século XX, que prega a divisão do solo urbano em zonas, cada qual responsável por uma atividade específica (habitação, comércio, serviços etc.), como numa linha de montagem industrial, desumanizando as relações.

O Plano Diretor é produto de uma época, o século XIX, fascinada por incipientes sistemas lógicos, inspirados e deslumbrados pela industrialização embrionária. A industrialização sempre foi associada a uma única referência para a ideia de progresso. A máquina era boa e funcionava como motor do progresso, logo a cidade tinha que ser pensada como uma máquina. Logo, o ser humano era obrigado a transformar-se em máquina, parte desta poderosa engrenagem (vide filme “Tempos Modernos”, 1936, de Chaplin).

Por isso as discussões que envolvem o Plano Diretor e suas leis complementares são intermináveis, incompreensíveis e improdutivas!

A cidade é um lugar multicultural em constantes movimentos que, se errados, podem inibir a autodeterminação de seus cidadãos.

O que seria uma reforma urbana contemporânea que nos tornasse mais urbanos e humanos?

Comecemos pelo bairro. Como definir o nosso bairro? Como pensar o nosso bairro?

O bairro está definido no Dicionário Aurélio “como cada uma das partes em que se costuma dividir uma cidade ou vila, para mais precisa orientação das pessoas e mais fácil controle administrativo dos serviços públicos”. Entretanto, nossa legislação não o define política e administrativamente, o que faz muita diferença, tanto em seu entendimento histórico, quanto em sua definição na organização da cidade.

Segundo estudos recentes, o bairro é a unidade de base da vida urbana, a essência da realidade urbana, um setor natural da vida social. É com base no bairro que se desenvolve a vida pública, que se organiza a representação popular. O bairro sempre tem um nome que lhe confere uma personalidade dentro da cidade. O morador refere-se ao seu bairro, quando quer situar-se na cidade e, por vezes, tem a impressão de ultrapassar um limite quando vai a outro bairro. É base da vida urbana que só pode ser pensada tendo-se em vista a cidade como totalidade. O bairro não existe como uma unidade isolada e autônoma. Para muitos a base principal da vida urbana é o centro. É a noção de centralidade que torna possível a cidade e seus bairros (por isso, a centralidade é o coração da cidade). O bairro também pode ser entendido como uma mediação importante entre o espaço privado (da casa, da família) e o público, entre a vida familiar e as relações societárias mais amplas, do compartilhamento de referenciais espaciais comuns, como o espaço do encontro, construído no nível da vida cotidiana.

Pode-se definir, com bastante exatidão, que os princípios fundamentais de um novo urbanismo permitem estruturar bairros completos com Índice de Desenvolvimento Urbano e Humano elevados, com uma sociedade reunida, solidária.

A distância de 5 minutos a pé do centro ("downtown") para a maioria das habitações é fundamental, uma vez que a partir deste valor, a distância a ser percorrida se torna mais desconfortável fazendo com que as pessoas se sintam desestimuladas. Reforça-se assim esta dimensão estruturante, tornando os espaços e vias de pedestres mais aprazíveis.

O equilíbrio espacial (distâncias percorridas a pé) entre residência, emprego e comércio é essencial no novo urbanismo que podemos implantar. O novo bairro deverá oferecer, dentro dos seus limites, habitação diversificada (isolada, geminada, apartamentos) tanto na tipologia como no seu custo, onde todos possam habitar indiferentemente do seu estado ou estatuto social (permitindo residir jovens, idosos, famílias tradicionais, classe média, os mais pobres e os mais ricos). Devemos debater com muito diálogo e profundidade estas questões. Deve-se, pois, ao projetarmos e planejarmos um novo bairro, garantir essa diversidade que preencherá as necessidades mais comuns de cada um.

As tipologias construídas deverão ser variadas, tanto nos usos a que se destinam, como na volumetria, imagem etc. Esta diversidade da paisagem urbana não descaracteriza o bairro, pelo contrário, fornece-lhe caráter e uma imagem própria, que permite uma melhor leitura do espaço com pontos de referência facilmente identificáveis. É essencial para o bairro que o seu centro se destaque claramente, associado a uma praça, jardim ou até mesmo um cruzamento importante. O Centro não só deve conter os locais de emprego e de comércio, mas também os de habitação, de preferência em sobrados, além de locais para realização de atividades lúdicas, feiras, concertos ou, simplesmente, deve ser um espaço que contribua para o encontro fortuito dos moradores, facilitando o acesso ao transporte coletivo.

A cidade, em determinadas épocas, lamentavelmente, seguiu modelos de gestão ultrapassados, anacrônicos, deixando uma impressão de descrédito do cidadão na administração pública e seus agentes, de descrédito no ato de planejar com sucesso. Isso ocasionou na cidade graves patologias, baixando consideravelmente sua autoestima. Para fazermos uma verdadeira reforma urbana, os parâmetros vêm do Novo Urbanismo, que rejeita o zoneamento modernista, o qual prega a divisão do solo urbano em zonas, cada qual responsável por uma atividade específica (habitação, comércio, serviços etc.), como numa linha de montagem industrial, desumanizando as relações humanas. Por isso devemos começar a reforma urbana pelos bairros. Bairros, projetados seguindo os princípios do Novo Urbanismo, mais apropriados para uma superior qualidade de vida, necessitam conter uma multiplicidade de usos, ou seja, devem existir edifícios públicos (escolas, bibliotecas, posto de saúde etc.), parques, residências unifamiliares, apartamentos, escritórios, oficinas, comércio variado, todos eles articulados a partir do espaço público, agrupados em novas centralidades. Seguindo padrões internacionais vamos dividir a cidade em 5 regiões (norte, sul, leste, oeste e centro). Entretanto, a implantação deve ser feita conforme consta no Plano Diretor, capítulo IV, Da Produção e Da Organização Do Espaço Físico Municipal, seção IV, Da Estrutura Urbana.

Serão as novas centralidades onde seus moradores terão autodeterminação através de um Plano Diretor Bairro a Bairro.

O trânsito está caótico, perigoso e em colapso. As vias públicas não oferecem mais espaços para pedestres uma vez que os carros, cada vez mais numerosos, abarrotaram as ruas enquanto os passeios se transformaram em estacionamentos, caracterizando uma verdadeira terra de ninguém que cresce sem eira e nem beira, onde cada um se vira como pode, numa absurda e clara situação de violência e desumanidade.

Quanto ao transporte coletivo, não foi planejado para atender nem suas demandas atuais e muito menos para um futuro imediato. A cidade tem que atualizar-se, requalificar seus espaços e oferecer acessibilidade, melhorias constantes da qualidade de vida, qualidade ambiental, restabelecendo suas prioridades para os investimentos públicos, instalação de novas empresas privadas, geração de emprego e acesso a uma renda digna, valorizando as pequenas e médias empresas, aumentando desta maneira a arrecadação do Município e as possibilidades de investir no urbano onde vivem as pessoas, para que tenham melhores condições de locomoção e de habitação. Precisamos enfrentar com sabedoria e humanidade o progressivo empobrecimento de significativos segmentos da população e reduzir então as desigualdades. Isso se faz com esmero e determinação, elaborando e atualizando constantemente prioridades governamentais. Incentive novas ideias! Incentive a inovação! Não existe futuro, nem presente, sem ideias, acreditem!

Willian Fagiolo é arquiteto e urbanista. Sócio-proprietário da Willian Fagiolo Arquitetura & Urbanismo.

 


Como afirma o antropólogo David Graeber, o comunismo já está entre nós. O problema que se coloca na contemporaneidade é como alargamos e democratizamos suas células.

Quando se fala em economia de compartilhamento, podemos identificar vários tipos ideais. Há o grupo dos ursinhos carinhosos, que sonham mudar o mundo e alcançar a era pós-capitalista sem mudar o capitalismo. Há também os querem lucrar com a palavra bonita e vender gato por lebre. Há o grupo da esquerda carrancuda, que faz cara feia quando se fala no assunto e alega que economia de compartilhamento é capitalismo enfeitado e ponto final, já não seria capaz de destruir nem o grande capital nem os sedutores e perversos mecanismos ideológicos de sua reprodução.

Penso que a crítica não pode ser dirigida ao conceito de compartilhamento em si, mas ao abuso semântico que ele tem sofrido, ao tornar-se um guarda-chuva que engloba um leque de coisas muito diferentes (peer-economy, mesh, economia ou consumo colaborativo, etc.). Compartilhamento que ocorre entre usuários, mas que gera lucro privado para proprietários não é economia  de compartilhamento – ao menos no sentido estrito do termo.

No universo de startups de economias colaborativas, já conheci muitos projetos brilhantes e inspiradores, mas também muita gente tentando enriquecer à custa do compartilhamento dos outros - o que para mim é uma contradição tão óbvia quanto a soma de dois mais dois.Airbnb, eBay, Zipcar... Eles podem ser um modelo de negócios mais humano, sustentável ou vantajoso, mas tudo isso tem nome: economia de mercado.

Eu gostaria de pegar este mote deixado pelo debate sobre o Uber e chamar atenção para outra economia das trocas, que anda meio fora de moda: a comunitária. Partindo do Ensaio sobre o Dom (1922), de Marcel Mauss, economia de compartilhamento é um sistema de trocas de dádivas, não um modelo de negócios consumido esporadicamente.

É um modo de vista holista, uma prestação total que cola as pessoas umas às outras e engloba diversas esferas da vida: social, emocional, jurídica, religiosa, política e econômica. As coisas não se acumulam: elas circulam - o faz toda a diferença.

Eu procuro me situar entre os otimistas de esquerda que acreditam que o compartilhamento é um ato revolucionário. Concordo com o antropólogo David Graeber que o comunismo já está entre nós. O problema que se coloca na contemporaneidade é como alargamos e democratizamos suas células.

Imaginar novas e velhas práticas

Economia de mercado corrói a comunidade.

Na Inglaterra, a identidade do pequeno vilarejo de Eynsham celebra o fato de nunca ter tido uma família rica na área.  Apoiam-se os pequenos produtores que vendem orgânicos a preço justo. Os produtos são cultivados em hortas comunitárias.

Em especial, os moradores nunca aceitaram a entrada de uma cadeia de supermercados – o que é uma façanha. A troca de bens materiais e imateriais é parte de um sistema cotidiano complexo que une as pessoas. A comunidade se autodeclara feliz.

Pequenas cidades ou bairros sempre cultivaram a comunidade: laços fortes e ajuda-mútua; solidariedade e reciprocidade. Nas favelas, isso sempre foi o segredo da resiliência. Crianças sendo cuidadas por muitas pessoas, troca de alimentos e de favores. - Me empresta cinco reais para eu pegar o ônibus e ir ao hospital? Compra-se fiado, retorna o pagamento com o conserto do fogão. As etnografias de Lúcia Scalco (Morro da Cruz, Beco das Pedras, Porto Alegre) e Hilaine Yaccoub (Barreira do Vasco, Rio de Janeiro) mostram com rigor e poesia como funciona a velha e boa economia de compartilhamento.

Elas não mostram um mundo romântico da pobreza. Elas narram vidas duríssimas com problemas de todas as ordens, a começar pela juventude que, celebrando o consumo de marcas, não está nem um pouco interessada nessa história de trocar orgânicos na feira.

Empoderamento é o que pode mudar e melhorar tudo isso. Por defender a soberania local, penso que isso só pode ser alcançado pelos próprios caminhos da comunidade, seus desejos e anseio – jamais via partido político que distribui ficha de filiação na associação de moradores, tentando discutir Gramsci enquanto as senhoras querem fazer crochê e debater a novela.

Mas como se alcança, na prática, empoderamento quando o mercado é uma sereia que só promete encantamento e o Estado é uma patrola burocrática que só faz sofrer?

Líderes comunitários, ativistas e intelectuais – “de raiz” – cada vez mais se articulam para pensar diferentes formas de conectar as comunidades. A Iniciativa da Transição, por exemplo, procura formar uma rede internacional de localidades. Em comum, da favela brasileira ao pequeno vilarejo inglês, é a ideia que a resiliência crítica se dá resistindo ao mercado, estimulando as trocas, fortalecendo a identidade local e lutando por formas de vida menos predadoras e mais sustentáveis.

A troca de experiência comunitária é fundamental. Ela forma um cordão de resistência, encoraja as comunidades a se reinventarem e, principalmente, mostra que os problemas são parecidos, mas as soluções podem ser diferentes. Trocam-se sementes, roupas, conhecimentos e honrarias. Menos Uber e mais Kula. Ao que tudo indica, estamos hoje observando o retorno da era das trocas inter-comunitárias.

Communis

A palavra comunismo vem do latim communis (comum, universal, público) ou ainda decomoenus (compartilhamento, geral). Trata-se de um sistema político e econômico cujas riquezas e recursos são comuns e compartilhados, de acordo com habilidades e necessidades, entre os membros de uma mesma comunidade.

Poucos constatariam de que se trata de um modelo justo, já que a natureza é uma dádiva comum e não propriedade privada. O que causa arrepio, portanto, é a associação que foi feita do conceito com os regimes totalitários do século 20. Se aceitarmos essa definição básica, o desafio contemporâneo é pensar novas formas de implementar algo que deveria ser tão fundamentalmente óbvio: o compartilhamento das riquezas entre membros de uma mesma comunidade.

Intelectuais são produtos de sua época. Marx era grande admirador de Charles Darwin.  O Capital foi escrito em pleno século 19, auge do evolucionista, que, quando aplicado às sociedades e não às espécies, é sempre etnocêntrico. O comunismo, então, foi pensando dentro de uma grand narrativa universalizante que prevê estágios de civilização, uns superando os outros. Trata-se de uma visão linear e progressiva da história, pressupondo que todas as sociedades caminharão na mesma direção. Mas as sociedades são diferentes e, feliz ou infelizmentemente, um pouco mais complexas.

O pensamento do século 19 influenciou as revoluções do século 20 e tanto os stalinistas quanto os maoístas impuseram a revolução às massas. Ainda que grande da esquerda atual repudie esses regimes, a forma de pensar a revolução mantém-se moldada epistemologicamente dentro da ideia de etapas societárias e de amplos sistemas institucionais tradicionais, especialmente aqueles que giram ao redor do Estado-nação. Mas é preciso pensar fora da casinha e lutar contra a máquina capitalista da desesperança.

Cada comunidade tem uma forma de se organizar e, portanto, reagirá diferentemente a tudo que for imposto homogeineizante de cima para baixo, mesmo que sob o rótulo popular de “baixo para cima”.  Com isso, eu chego ao meu argumento: não existe revolução se não for comunitária.  Ela precisa ser de raiz, singular, autônoma.

Ela precisa escolher seus próprios rumos (suas formas de produção, de troca e compartilhamento) e resolver seus próprios problemas por meio da soberania local. Há de se argumentar que o capital é global, mas ele próprio se localiza para conquistar mercados. De raiz, globalizemos a localidade e a diversidade da resistência.

Assim, de deixando de lado o evolucionismo, é preciso parar de esperar o amanhã utópico – ainda que sonhá-lo seja importante para seguirmos lutando – e reconhecer e fortalecer os clusters comunistas, comunitários ou compartilhados que já boicotam o grande capital. Deixemos de lado por ora as grand etapas, lineares e verticais. Olhemos horizontalmente para as comunidades que praticam economias do compartilhamento de formas singulares. Como fortalecer e interconectar estes que são microcosmos de resistência? Ao que me parece, este é uma das grandes questões do século 21. Estamos longe de precisar recriar a roda, ainda que a criatividade para imaginar novos sistemas de trocas comunitários seja fundamental. 

Rosana Pinheiro-Machado em Carta Capital.

 


Existem na cidade de São Paulo 290 mil imóveis não habitados e 130 mil famílias sem casa. Pela matemática, sobraria casa mesmo que todos os sem-teto fossem abrigados em moradias dignas. O problema é a especulação imobiliária, que condena tantos a uma vida de privações e medo.

Confira o ensaio realizado em dois dos principais símbolos de resistência da Frente de Luta por Moradia (FLM) do centro de São Paulo: a Ocupação Mauá e a Ocupação Prestes Maia. 

A íntegra: https://goo.gl/Cz9NYN

Amanda Coutinho e Fellipe Mello, especial para os ‪#‎JornalistasLivres‬

 


São Paulo, 2015. Um dia após a data na qual é celebrado o dia da mulher negra latina e caribenha, o vão do MASP foi ponto de concentração para a primeira Marcha do Orgulho Crespo.

O concreto de Lina Bo Bardi foi tomado pelas cores, turbantes, grandes brincos e os mais variados cabelos crespos. Das longas tranças às cabeças raspadas, dos black powers aos cachos mais tímidos, dos cabelos coloridos aos turbantes ainda mais coloridas: todas e todos estavam reunidos para celebrar o orgulho que é ser [email protected] O cabelo crespo não é cabelo ruim, o cabelo crespo é coroa, que todas as negras e negros carregam consigo, junto de sua ancestralidade africana.

Histórias de vidas foram compartilhadas pelo megafone em uma roda formada pelos participantes antes da saída da Marcha. Cada fala era saudada pelos companheiros e companheiras com palmas e gritos de força. A dor e o preconceito sofrido por um é sentido por todos. O ato festivo e político contou com a presença de Karol Conká  - artista negra e ícone do hip-hop  - , que foi recebida com a euforia por todos no ato.

Porque celebrar o orgulho do cabelo crespo em uma sociedade racista é sim um ato revolucionário e subversivo.

O ensaio: https://goo.gl/JBu17d

Por Jornalistas Livres e fotos Mídia Ninja.

 


Francisco, por mais que tu saibas do cronicamente inviável do mundo, repare nos detalhes, no latim dos rapazes, há um requinte na rima e no que Mano Brown diz: oxicus est rabidus, processum est tardus. Traduzo, no meu latim chinfrim de quem fugiu das aulas no Seminário da Diocese do Crato (Ceará), um mantra dos Racionais MC´s: o bagulho é louco, o processo é lento.

O delírio deste cronista é imaginar o papa Francisco --presenteado pelo prefeito Fernando Haddad com um disco dos rappers brasileiros na sua visita ao Vaticano --, mandando os versos do grupo da periferia paulistana em um sermão dominical no Vaticano.

Toxicus est rabidus, processum est tardus. Para quem foi ateu e agora faz morada na tenda dos milagres como eu, não duvido nada do xará católico apostólico romano.

Mano Brown e o papa têm mais em comum, cada qual com seu testamento, do que imaginam as fiéis criaturas de qualquer seita ou credo deste, tomara Deus para todo o sempre, Estado laico.

A turma dos Racionais, com seus salmos ao rés do chão dos subúrbios, semeou uma mensagem tão importante –e aqui redundo o franciscanismo do santo de Assis - quanto o atual discurso de Jorge Bergoglio na cúpula de Roma.

“Diário de um detento”, para ficar apenas numa faixa dos caras, é tão importante quanto algumas páginas do gênio-mor Machado de Assis, nego do Morro da Providência e do Cosme Velho... Tão bonito quanto os subterrâneos de Lima Barreto... Tão comovente como as escritas de Luiz Mendes, ex-presidiário e o maior colunista do Brasil (revista Trip) ao lado do Jânio de Freitas, da Folha.

Nada mais lindo, em um certo sentido devoto da linguagem, do que o conforto das letras dos Racionais para as almas apenadas que padecem no inferno das dostoievskianas “casas dos mortos”. As gentes das masmorras com suas culpas cristãs e capivaras de processos roendo o cérebro “sob o olhar sanguinário do vigia”... Somente mais um dia riscado na parede no ajuntamento de desventuras e inglórias, somente mais uma recusa até do sol por testemunha –se nem ele nasceu para todos, como expiar os erros na desordem?

Este cronista visitou tantos irmãos e parentes na cadeia que talvez saiba do que está falando:

“Minha palavra alivia sua dor

Ilumina minha alma

Louvado seja o meu senhor

Que não deixa o mano aqui desandar ah

E nem sentar o dedo em nenhum pilantra

Mas que nenhum filha da puta ignore a minha lei

Racionais capítulo 4 versículo 3”.

Vida loka

Nada mais alentador para os jovens dos arrabaldes das metrópoles, anjos ou demônios, do que os versículos dos músicos do Capão Redondo dirigidos aos feios, sujos e rejeitados.

Imagino a cena. O papa Francisco vai à janela e manda para a juventude do mundo inteiro: Toxicus est rabidus, processum est tardus. Óbvio que vai mandar num latim mais rochedo, correto, mas saberá do que se trata o bagulho.

Vida loka, como na expressão consagrada pelos Racionais no Brasil todo. Vida loka é saber que um papa, quase sempre um vanguardista do atraso por causa da solenidade sacana do cargo, agora está a muitas léguas submarinas na frente de muitos estadistas, leio o Juan Arias, colunista deste mesmo EL PAÍS, e sei disso. Que maravilhoso argentino. Só tem um pecado, amigo Mano Brown, torce pelo San Lorenzo, El corvo, e não pelo maior time do universo de todos os planetas, o Santos Futebol Clube. Remittuntur tibi, será assim que se escreve “está perdoado” , sumo pontífice?

Vida loka: quando uma autoridade do Vaticano consegue emplacar umas ideias adiante, quem diria, de toda uma sociedade –sacanagem atribuir o atraso somente aos governos. Vida loka, agora o papa é vanguarda, tem algo estranho no mundo quando o papa consegue ser mais avançado que a imprensa, a política e até mais que os poetas. Que falta nos faz o Roberto Piva, o trovador de uma São Paulo menos tacanha, uma São Paulo iluminista da avenida São Luiz até a tocha da Petrobras no final da Sapopemba.

Viva o papa. Com um ideário em sintonia com o Mano Brown e Emicida, com o GOG, com o Zé Brown, com os grandes rappers brasileiros, nossos maiores cronistas.

Agora, silêncio, escutem esses versos dos Racionais MC´s, please:

"Cadáveres no poço, no pátio interno.

Adolf Hitler sorri no inferno!

O Robocop do governo é frio, não sente pena.

Só ódio e ri como a hiena."

A narrativa era sobre o massacre do Carandiru, mas vale para qualquer hora ou chacina. Vale o escrito. Hannah Arendt assinaria embaixo.

 



Sobrevivendo no inferno

Salmo 23: "Refrigere minha alma e guia-me pelo caminho da Justiça". Eis a epígrafe, logo na capa, da obra entregue a Francisco. Digo do CD “Sobrevivendo no Inferno”... Que lindeza... O motivo dessa crônica. O disco que o melhor prefeito de hoje do Brasil, obviamente o que mais leva porrada, levou ao papa de presente. Haddad, mas não se esqueça, porrada mesmo, no sentido Fernando Pessoa do termo, quem levou foi a Erundina, talvez a melhor prefeita de SP de todos os tempos, se liga, a tia paraibana estava na mira, qualquer foca editorializava acima de qualquer suspeita ou rasgava as regrinhas do manual de redação que só valem quando você é contra.

Silêncio.

Agora estou reouvindo de fato o maior disco de rap de todos os tempos: “Sobrevivendo no inferno”, se liga, todo mundo sabe que Jorge sentou praça na cavalaria/ E eu estou feliz porque eu também/ sou da sua companhia...

Francisco, por mais que tu saibas do cronicamente inviável do mundo, repare nos detalhes, no latim dos rapazes, há um requinte na rima e no que Mano Brown, Ice Blue, KLjay e Edy Rock dizem. Eles são tão importantes quanto o T.S. Eliot de uma certa terra desolada.

Há um dito bendito além da conta. Se liga, Francisco.

Xico Sá no El País.