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São Paulo São Ensaios

Morar no centro é bom. Já andei traçando listas de vantagens, séries de atividades, rotas, itinerários, opções de cafés, comidas, salões, mercados e passeios.

Já aprendi nos emaranhados labirínticos das ruelas, viadutos, vias expressas e calçadões, onde vai dar aonde e o que vai dar no que.

Já especulei as melhores alternativas e métodos de conciliar o bom e o barato, me achando a maior malaca descolada; aquela que se da bem nas compras e que domina o centro da cidade como se fosse o centro do mundo. Ah, eu e meu umbigo libertino não sabiam o quanto iriam aguentar do lado B do glamour do baixo-paulistano.

Já fiz muitos trabalhos no Centro, como o Café Girondino, Salve Jorge, extinto café republica e mais uns lances. Já dei banda por aqui todos os dias e em diversos horários. Lembro que a noite descia a ladeira Porto Geral, uma enxurrada de ratazanas recém-saídas dos bueiros e porões, e que na minha fantasia dirigiam-se aos empórios, restaurantes árabes e mercadão municipal.

Os estabelecimentos costumavam abrigar gatos, não apenas por conta do amor felino, mas pra dar cabo dos roedores.

Foto: Márcia Fukelmann.Foto: Márcia Fukelmann.Mudando de rato para gente, tenho reparado no aumento da miséria, do desabrigo, da fome, do desolamento, da tristeza. Nas ruas multiplicam a cada dia os leitos improvisados de espumas de colchões, sacos plásticos, panos velhos, caixas de papelão, barracas tipo lobinho (um novo estilo de acampamento urbano), ou usufruto direto das pedras da calçada como leito.

Vejo gente encaixada em frestas entre canteiros e prédios, gente dormindo com a cabeça sob rodas de cadeiras de rodas, casais dormindo abraçados sob um cobertor encardido (sim, os brutos também amam), moço dormindo sob plástico preto de embrulhar presunto, sob garoa e vento, gente especulando os lixos atrás de comida ou objetos recicláveis...

Já vi gente dividindo marmitex com o cachorro, e já vi cachorro devorando ossos dados ao mendigo que cochilou na porta do açougue.

Vejo maluco beleza varrendo a calçada onde dorme, cuidando da limpeza deste lar a céu aberto... vejo todos os dias a miséria crescer num nível além da fome, do desprezo das gestões publicas que com seus jatos de água fria, com suas almas frias, não sentem o que fingem não ver. Ando bem tocada com a minha nova e necessária convivência.

Não me afasto desta verdade. Mudanças devem ser feitas. A miséria é epidêmica, não dá pra fazer vista grossa. Enquanto homens “pardos” sujam e poluem a paisagem da cidade linda, ratos brancos e gatos pretos fazem a festa.

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Márcia Fukelmann é proprietária de Consultoria Gastronômica com seu nome.

No dia 5 de maio de 2011 o New York Times anunciava, sob a manchete “The Tupperware Party Moves to Social Media”, a decisão da tradicional marca de vasilhames de explorar as novas redes sociais como estratégia de marketing e vendas.

O anúncio provavelmente teria passado despercebido, mas o fato de trazer, no mesmo enunciado, dois universos de convivência tão desconectados no tempo e no espaço me pareceu irônico e, por isso mesmo, merecedor de uma reflexão. Uma reflexão em torno das relações de proximidade estabelecidas nessas novas redes sociais juntamente com um produto ou marca que, a seu tempo, se tornou símbolo de um modelo de vizinhança paradigmático que teria uma grande influência na conformação ainda pouco amadurecida das cidades brasileiras: o subúrbio norte-americano.

Em 1947, Earl Silas Tupper, inventor e químico da DuPont, desenvolveu um sistema de vedação à prova de ar e água, derramamento e deterioração, que seria usado para o armazenamento de comida. A sua invenção, batizada de “Tupper Seal”, passou a ser aplicada a uma linha de vasilhames de polietileno produzida pela empresa nos anos anteriores. Os Tupperware, assim batizados, logo viriam a se tornar um símbolo do american way of life dos anos 50.

O lançamento desse produto no mercado coincidiu com um cenário pós-guerra, pré-feminista e de afirmação dos subúrbios como um modelo de vizinhança, aprovado por grande parte da população norte-americana, que abandonou os centros urbanos em troca da promessa de um ambiente adequado ao cotidiano da família, livre da indesejada convivência com grupos ou indivíduos que não se encaixavam no perfil de normalidade estabelecido pela sociedade.

Earl S. Tupper e Brownie Wise na fábrica da Tupperware em Farnumsville, EUA, em 1951. Cortesia: Tupperware.Earl S. Tupper e Brownie Wise na fábrica da Tupperware em Farnumsville, EUA, em 1951. Cortesia: Tupperware.Os pioneiros Tupperware tiveram uma curta temporada de vendas nos grandes magazines norte-americanos antes de serem retirados do mercado para poderem ser adquiridos apenas em encontros organizados entre as donas de casa de uma mesma comunidade: as Tupperware Parties.

Brownie Wise, uma mãe divorciada vinda do interior e com um estilo de vida um pouco distante do ideal feminino da mulher norte-americana dos anos 50, foi a responsável pela criação da estratégia de marketing da marca, que alcançaria cifras de centenas de milhões de dólares por ano.

Tudo começou com um telefonema à fábrica, no qual a senhora Wise – que costumava vender eletrodomésticos, panelas e vassouras em casa –, irritada com o atraso na entrega de suas encomendas, insistiu em conversar pessoalmente com o Sr. Tupper, presidente da marca. Ao perceber que a insolente reclamante era uma revendedora autônoma que, sozinha, tinha alcançado vendas maiores do que qualquer um dos grandes magazines, o senhor Tupper decidiu contratá-la para uma transformação no modelo de comercialização dos seus produtos. Ms. Wise iniciou então o seu projeto de recrutamento de colaboradoras. A oportunidade de se ter renda própria, trabalhando em casa e com um horário flexível que não prejudicasse as funções de mãe e esposa foi suficientemente atrativa para conquistar adeptas de todo país. 

Imagem: Reprodução.Imagem: Reprodução.Em pouco tempo, Ms. Wise liderou um crescente exército de vendedoras sustentado por uma rede de cooperação e vizinhança, distinta do competitivo e agressivo marketing associado ao tradicional modelo masculino de negócios.

Logo, as Tupperware Parties tomam conta dos subúrbios. Nas animadas tardes só para mulheres, entre receitas, drinks e dicas de como armazenar melhor o jantar do marido, muitas encontraram uma boa remuneração, fato que configurou, segundo estudiosos, o princípio de uma autonomia feminina no mercado de trabalho. 

Alguns anos mais tarde, esse mesmo projeto não ofereceu entusiasmo ao movimento feminista, então latente. Muitas mulheres entenderam que tal modelo de trabalho reforçava estereótipos femininos suburbanos, por representar uma espécie de desvio do propósito que buscava igualar as condições e oportunidades do trabalho feminino às dos homens. Além disso, as feministas argumentaram que a exploração econômica das redes de vizinhança e família era extremamente destrutiva, uma vez que se sustentam pela comercialização das relações afetivas.

As Tupperware Parties tornaram-se bastante populares no mundo todo, assim como o modelo de expansão dos subúrbios, ambiente que parece ter sido perfeito para a organização dessas festas. Em 1963, a empresa chegou à Europa, Japão e Austrália. No Brasil, as primeiras Tupperware Parties datam dos anos 70, época em que também apareceram por aqui os primeiros condomínios horizontais fechados. O AlphaVille Residencial, ícone pioneiro dessa tipologia, foi lançado em 1975.

Os subúrbios norte-americanos surgiram nos anos do pós-guerra, alavancados por um movimento de revisão dos valores e da família e por um déficit habitacional que, a princípio, foi associado às novas famílias formadas pelos jovens veteranos da guerra. A partir de então, a população norte-americana testemunhou uma mudança significativa no conceito de moradia e vizinhança. A crescente demanda por moradia, juntamente com as políticas públicas de incentivo ao mercado imobiliário suburbano, aceleraram a indústria da pré-fabricação e impulsionaram a rápida expansão e afirmação dos subúrbios. A produção em série de subúrbios como Levittown e Park Forest redefiniram os antigos modelos de espaço público com a nova estética da pré-fabricação e da propriedade privada inserida num espaço coletivo contínuo. Em Lewittown, as taxas de produção alcançaram 30 casas por dia em julho de 1948.

Ms. Wise liderou um crescente exército de vendedoras sustentado por uma rede de cooperação e vizinhança. Foto: Hulton Archive / Getty Images.Ms. Wise liderou um crescente exército de vendedoras sustentado por uma rede de cooperação e vizinhança. Foto: Hulton Archive / Getty Images.

Como um modelo de moradia e convivência sem precedentes na história das cidades, o empreendimento suburbano encontrou suporte numa ideologia política e estéticaBrownie Wise em folder de campanha. Imagem: Reprodução.Brownie Wise em folder de campanha. Imagem: Reprodução. associada a conceitos de eficiência e assepsia, não somente no planejamento espacial, como também no plano social.

Os subúrbios parecem ter sido especialmente desenhados para a típica família branca de classe média norte-americana. Grupos sociais fora desse perfil não encontrariam as mesmas facilidades ou qualquer tipo de identificação. Os modelos das casas propostos pelo Federal Housing Administration apresentavam uma tipologia única e segregadora, de arquitetura exclusivamente voltada para as famílias nucleares, razão pela qual eram excluídos grupos sociais como os solteiros, casais sem filhos e idosos. Já os mecanismos de controle étnico dos subúrbios eram menos discretos.  Em Levittown, uma cláusula contratual restritiva estipulava que as casas somente poderiam ser vendidas ou alugadas para “membros da raça caucasiana”.

Entre os equipamentos que compunham o convidativo conjunto dos subúrbios estavam as novas escolas públicas aclamadas nacionalmente, a facilidade de conexão com a cidade por um eficiente sistema de trens e railways, os modernos centros comerciais, os playgrounds, igrejas e sinagogas, dispostas sobre os intermináveis jardins coletivos.

Somados à sedução dos baixos impostos, esses fatores configuravam um cenário atrativo o suficiente para justificar a adesão de milhões de famílias norte-americanas nos anos 1950. No entanto, por trás dessa aparente liberdade de escolha, os baixos juros cobrados no financiamento das casas suburbanas e as hipotecas garantidas pelo governo atestavam que o sucesso da empreitada era patrocinado por um projeto político que almejava a liberação das cidades para a implementação dos projetos federais de renovação urbana.

No Brasil, o modelo de expansão periférica das cidades que mais se aproxima dos subúrbios norte-americanos são os já citados condomínios horizontais fechados. Mas, nesse contexto de transposição, há que se considerar o frágil equilíbrio das nossas cidades, assoladas por um conflito social muito mais dramático do que o das cidades norte-americanas.

O conflito vivenciado no Brasil faz com que as palavras violência e segurança funcionem como passe de mágica na construção das arquiteturas mais contraditórias de que se tem notícia. Em essência, os nossos condomínios fechados, “enclaves fortificados”, definem relações de vizinhança bastante diversas do seu modelo de inspiração. Os moradores dos subúrbios norte-americanos compartilham um sentimento coletivo de pertencimento a um grupo social coeso e aparentemente bem integrado, sentimento este que justifica críticas: a aparente monotonia dos padrões e comportamentos dos seus integrantes.

No caso brasileiro, a migração das classes média e alta para os condomínios fechados, em porcentagens muito inferiores, foi motivada principalmente pela busca da segurança prometida pelos muros fortificados. Muitos desses condomínios trazem também a proposta de um isolamento campestre, que garante, no seu projeto de urbanização paisagística, o equivalente aos metros quadrados de jardim coletivo suburbano sob a forma de coeficiente em área de preservação da vegetação nativa.

Imagem: Reprodução.Imagem: Reprodução.Mas a lógica do isolamento fortificado não se limitou apenas aos condomínios periféricos. Podemos verificar, com lamentável frequência, o mesmo princípio de segregação aplicado aos edifícios particulares que inevitavelmente colaboram com a conformação do espaço público das nossas cidades. Dessa maneira, estabelecem-se os princípios de convivência contraditórios que caracterizam as cidades brasileiras e que têm como principal consequência a deterioração qualitativa do espaço das cidades como local de convivência e trocas.

E é nessa esfera das convivências e trocas que o deslocamento das Tupperware Parties para as redes sociais inspira uma reflexão sobre o novo ambiente de vizinhança surgido quase meio século depois da exportação endêmica do modelo suburbano. As redes de convivência no facebook se consolidam sob o argumento promissor de uma cartografia que eliminaria as limitações espaciais e reconfiguraria o território virtual segundo critérios democráticos de afinidades que poderiam ser confortavelmente operados pelo usuário, construtor do seu espaço público. Trata-se, obviamente, de uma categoria bastante particular de espaço público, cuja grande conquista parece ter sido a exclusão do corpo físico e de todas as limitações a ele associadas. Essa exclusão permite estabelecer os novos parâmetros de proximidade e vizinhança.

Diante da metáfora do espaço público aplicada ao espaço virtual seria possível dizer, também metaforicamente, que aos usuários das redes sociais cabe o papel de articuladores de seu próprio espaço público. As ferramentas disponibilizadas pelo sistema permitem selecionar o perfil dos frequentadores do seu círculo de amizades, bem como erradicar da sua porção particular de espaço público qualquer manifestação que não esteja de acordo com os padrões estabelecidos pelo administrador. Esse movimento constante de construção e manutenção do espaço de convivência em seu estado ideal reproduz, ainda que remotamente, as ações dos urbanistas ortodoxos dos subúrbios e dos enclaves condominiais em seu esforço de ordenação asséptica do território.

Os subúrbios parecem ter sido especialmente desenhados para a típica família branca de classe média norte-americana. Foto: Getty Images. Os subúrbios parecem ter sido especialmente desenhados para a típica família branca de classe média norte-americana. Foto: Getty Images.

Nem os subúrbios e condomínios, nem as inovadoras redes sociais se aproximam do que há de mais instigante no modelo de vizinhança aparentemente caótico das cidades reais: o privilégio do encontro com o outro. Um outro que é em essência diferente de mim, e que me confronta regularmente com uma demanda de reposicionamento, adaptação e afirmação diante do coletivo. Nos dias de hoje, com todos os avanços das telecomunicações, que permitem modos de vida, trabalho e relacionamento desvinculados da condição de proximidade física, viver na cidade deveria ser uma escolha. E, como em toda escolha, há que se entender o que está em jogo antes de realizá-la. Viver na cidade significa conviver com o outro, com a diversidade – e é sob esse paradigma que seus habitantes deveriam optar ou não pelo modelo de moradia e vizinhança urbana.

Os subúrbios norte-americanos surgiram nos anos do pós-guerra, alavancados por um movimento de revisão dos valores e da família. Foto: ZLB Houses / 1950.Os subúrbios norte-americanos surgiram nos anos do pós-guerra, alavancados por um movimento de revisão dos valores e da família. Foto: ZLB Houses / 1950.

Condomínios e facebook em coexistência com a metrópole contemporânea poderiam configurar alternativas de vizinhanças diversas, possíveis escapes para a intensidade da convivência urbana, e não o contrário. Não se pode esperar da metrópole a garantia Tupperware de vedação contra vizinhos incovenientes, e nem o acondicionamento perfeito dos seus habitantes em recipientes separados e rotulados numa logística de reconhecimento e identificação que vai um bocado além da cartela de cores disponibilizada à clientela das Tupperware Parties.

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Por Ana Paula Assis. *Artigo publicado originalmente na Piseagrama, a única publicação sobre espaços públicos — “existente, urgentes, imaginários” — no Brasil.  

Nasci no bairro da Mooca. Isto foi no ano de 1951 quando a cidade de São Paulo tinha linhas de bonde que percorriam bairros e mais bairros com mais de 400 km de trilhos. Ainda nem se sonhava com um Parque como o Ibirapuera. Um dia chegou notícia! Vamos andar de papa-fila. Que sucesso!

No Parque Dom Pedro II um lugar para as diversões, estava instalado o Parque Shangai com a roda gigante a girar. Tivemos uma infância nos quintais com terra, sem nada de centros de compra ou lanchonetes rápidas. Ouvíamos canções de muitos países no rádio, do Japão, do Paraguai, da Alemanha, da Itália e também de Pernambuco, Ceará ou Rio Grande do Sul. A pastelaria era uma grande novidade assim como novos objetos incríveis. Lembro daquele copinho de beber água feito de plástico com várias camadas que abriam e fechavam. E ainda se apresentava em várias cores!

O Parque Shangai em 1958. Acervo: São Paulo Antiga.O Parque Shangai em 1958. Acervo: São Paulo Antiga.

Tomei banho entre as pedras naquela água geladinha que foi toda canalizada e hoje se conhece por um lugar chamado Vila Nova Cachoeirinha. Aguardei tantas vezes o trânsito feroz da Avenida Celso Garcia para visitar parentes que moravam na zona leste. Lembro do famoso ônibus Penha-Lapa. O ônibus para o Jardim Pedreira onde morava minha mãe, saia do Vale do Anhangabaú. Lá já estava ficando difícil de atravessar, com trânsito intenso. Na Rua Augusta fui estudar, usava o ônibus elétrico com seu andar silencioso. Era o Ginásio de Aplicação da PUC que foi demolido no atual terreno do pretendente “Parque Augusta”.

Consegui dois empregos e morando na zona sul, mais tarde veio matrícula no curso de magistério na Lapa e a lentidão do trânsito nos anos 1970 porque uma obra viária crescia em nossas cabeças escurecendo a alegre Avenida São João, nosso Champs Elysee. Era em formato de minhoca.

Para as férias uma gostosa viagem com malas se arrastando pela Rodoviária colorida em frente à Estação de trens Sorocabana.

Antiga Rodoviária da Luz, posteriormente convertida em shopping popular, hoje demolida, centro de São Paulo. Foto: Tuca Vieira.Antiga Rodoviária da Luz, posteriormente convertida em shopping popular, hoje demolida, centro de São Paulo. Foto: Tuca Vieira.

Assim muito jovem descobri que a melhor fórmula de ganhar tempo seria trabalhar, estudar e morar no Centro, tudo perto. Ir caminhando com pequenos atrasos apenas se o elevador demorava.

Para a boemia de violões nas madrugadas tínhamos transportes pela noite toda! Em 1979 vem o bebê e morando na Alameda Barão de Limeira quantas vezes o carrinho aguardava manobras para tirar os carros da calçada. Esperava até o proprietário do veículo aparecer e muitas pessoas comentando “tira o carro, a mulher quer passar com o carrinho de bebê!”. Isto acontecia sempre e nas décadas seguintes pouco mudou, ou melhor, acentuou.

O menino cresceu e disse “mãe porque você não volta a estudar”. E voltei, fui para a faculdade e nossos colegas se misturavam nos trabalhos, os dele quando entrou no cursinho e os meus. Era o final dos anos 90 e o turismo me impregnou com suas vertentes. Estudei mais e me tornei guia da cidade. E o caminhar se fez freqüente. Agora com análises e embasamentos históricos. A geografia permeando o olhar para conduzir outros sonhos e descobrir mais e mais. Pesquisei sempre e tentei desvendar as palavras que dizem muito sobre o lugar, são as origens indígenas do chão paulistano “terra dura” Butantã, “caminho de tatus” Tatuapé, riacho vermelho” Ipiranga, “gafanhoto verde” Tucuruvi, “fazer casas” Mooca, “esconderijo de fujões” Jabaquara , “madeira em extinção” Ibirapuera.

Ônibus elétrico na Rua Augusta. Acervo: São Paulo Antiga.Ônibus elétrico na Rua Augusta. Acervo: São Paulo Antiga.

Recordo então as origens, e as mudanças com inúmeros carros por todos os lados, a construção do Metrô, trens e ônibus mais confortáveis e quase sempre lotados.

Os quintais foram sendo cimentados, os copos de papelão viraram de plástico. Quanto plástico! O bonde se foi e nenhum ficou para lembrança como tem Lisboa ou em Santos. Quem sabe salvamos o ônibus elétrico e todos me perguntam “onde está aquele lindo veículo que circula somente no aniversário da cidade?” Não sei responder.

O Anhangabaú virou jardim. O ônibus elétrico da Rua Augusta acabou. A cidade pulou em meio século de 2 para 11 milhões de habitantes. E carros, quantos desde que em 1902 foi chegando o primeiro.

A Rodoviária mudou de lugar e ficou bem grande. E ficou difícil atravessar as ruas e avenidas repletas de veículos. “Teu olhar mata mais que atropelamento de automóvel”...” Iracema cuidado ao atravessar essa rua, eu falava mas você não escutava não, Iracema você atravessou contramão” .”Olá como vai, eu vou indo e você tudo bem, o sinal vai abrir, vai abrir”, são versos que cantaram Adoniram e Paulinho da Viola. Cada vez mais fica complexo andar pelo nosso lugar que é a calçada. Quando chegamos à maturidade ficamos com receio de atravessar ruas, com medo de motociclistas, andamos mais lentos e com cuidado. Será que vamos ter que ocupar as ruas e deixar que o automóvel durma nas calçadas em berço esplêndido? Temos ainda muito que fazer.

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Vera Lúcia Dias é turismóloga com pós graduação em Globalização e Cultura. Texto originalmente publicado no Jornal GGN.

Na Aclimação era conhecida como vendinha do seu Elias.

Era na Rua Pires da Motta, bem esquina da Conselheiro Furtado, quase em frente ao saudoso Oswaldo Barberis, cirurgião-dentista e palmeirense.

Logo na entrada, sacas de arroz, feijão e batata. Em cada nicho você descobria o óleo, azeite, pimentas, résteas de cebolas, alho. Mas também prateleiras com bebidas baratas, uisquis paraguaios, vinhos em garrafão, conhaque Palhinha, o vinho Precioso, seco e suave. O Fogo Paulista, cigarros, todos...

Agora o que marcou na memória foi o balcão de madeira com vitrine que exibia doces enfileirados por categoria, em harmonia geométrica e de cores.

Eu não sei mas também nunca perguntei onde seu Elias ia buscar aquelas cocadas pretas e brancas no formato de losango, crespas rendadas, carregadas de açúcar, de derreter na boca, adoçadas tanto mas sem perder o sabor do coco que poderia ser encontrado em pedacinhos.

Um olhar cobiçoso também para a maria-mole branca ou com tom de canela uma mistura do coco ralado, do leite condensado e a indispensável gelatina branca que dá o toque de malemolência, de estremelicação, esponjosa e flexível...

Imagem: Doces Bela Vista.Imagem: Doces Bela Vista.O pirulito de açúcar queimado redondo na base afinando na ponta como uma pirâmide era um mistério na sua simplicidade e pobreza, apesar de vestido e enrolado num papel grudento que pedia uma lambida final que era travo de mel..

Do pirulito de chocolate em forma de guarda-chuva nem é bom falar. O coco também era a matéria prima para obras de arte como quindins reluzentes de tão dourados. E não há como menosprezar o doce de abóbora, jeito de cobre, aparência de falsa humildade, porque na boca expandia seu caráter verdadeiro de crosta firme e puro purê de abóbora no recheio.

Não esqueço o pão de mel, mais mel do que pão, lustroso na superfície achocolatada, crocante de esfarelar na boca e meu prêmio quando corria até o seu Elias para comprar Lincoln, os cigarros preferidos de minha tia Maria José.

Imagem: Doceira Dulca.Imagem: Doceira Dulca.
Finalmente a bomba de chocolate que, à certa distância parecia um tanto murcha, vazia e tristonha mas que à primeira mordida explodia como bomba que era, o cacau escorrendo pelos cantos da boca, pelo céu da boca, pelo queixo, pela criança.

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Nelson Porto é redator publicitário com passagens pelas principais agências de propaganda do país.

A Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) da Universidade de São Paulo (USP) está completando 70 anos. Entre as diversas contribuições à produção de conhecimento no campo da arquitetura, urbanismo e design feitas ao longo de sua história, uma se destaca particularmente ao associar uma escola, no sentido prático de um estabelecimento de ensino, a uma “escola”, uma corrente de pensamento dentro da arquitetura. Trata-se da chamada Escola Paulista de Arquitetura Moderna, grupo de arquitetos e pensadores sobre arquitetura brasileira que constituiu, desde os anos 1950,  um movimento no interior do modernismo.

O próprio prédio da FAU, projetado por Villanova Artigas, no Campus Butantã da USP, é uma das principais expressões e inspirações dessa escola. Mas, talvez uma de suas características mais relevantes seja sua enorme capacidade de renovação e reinvenção no presente. Não se trata, portanto, de um movimento “do passado”, do extinto século XX com suas promessas de modernidade, mas um léxico – e também, eu diria, uma ética, que se reatualiza diante dos desafios do presente.

Dois projetos que acabam de ser inaugurados em São Paulo falam muito sobre o conjunto de valores que caracterizam essa escola. O SESC 24 de Maio, no Centro,  de autoria do arquiteto Paulo Mendes da Rocha, uma das maiores referências da Escola Paulista, em parceria com o escritório MMBB; e o Instituto Moreira Salles (IMS), na Avenida Paulista, de autoria do escritório Andrade Morettin. Separados por uma década, tanto o MMBB quanto o Andrade Morettin foram formados nos anos 90 por ex-alunos da FAU.

Os dois projetos revelam explicitamente seus processos construtivos: os insumos usados nas obras aparecem o tempo todo; sem forros ou revestimentos a estética que se revela é aquela dos materiais em sua forma bruta, na beleza de suas funções construtivas. Há quem diga que esta característica tem muito a ver com a própria origem da FAU, que surgiu em contraposição a escola de arquitetura do Rio de Janeiro, constituída a partir das Belas Artes. Em São Paulo foi a engenharia, e mais especificamente a Politécnica da USP, que originou a nova faculdade.

Para além de outros elementos construtivos e de linguagem, que certamente colegas arquitetos e críticos de arquitetura muito mais especializados no tema do que eu já apontaram, quero chamar a atenção aqui para outro elemento central da Escola Paulista: a relação da arquitetura com o urbanismo ou do edifício com o lote e a cidade.

Nos dois edifícios as opções de projeto fazem com que a cidade continue para dentro dos prédios, recepcionada em grande estilo e convidada a percorrer os andares superiores. No SESC, o térreo é  para se constituir numa espécie de praça, que pode ser acessada a partir de mais de uma rua. Nos dois casos deste térreo-que-continua-a-cidade, o visitante é conduzido, por rampas no SESC e por escadas rolantes no IMS, até o último dos andares dos edifícios.

Em tempos de privatizações e cercamentos e de edifícios que se pretendem âncoras para operações imobiliárias, a reafirmação dos valores da Escola Paulistana nesses novos centros culturais da cidade é um respiro e um alento.

Resta para as gerações que são hoje os estudantes e arquitetos inspirados pelos valores da escola a disseminação desta posição para além de centros culturais e museus, para os usos corriqueiros da vida cotidiana.

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Raquel Rolnik, urbanista e professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo. Artigo publicado originalmente no Blog da Raquel Rolnik em 17 de outubro de 2017.